A História de Rafaela – Capítulo 2

As vozes que antes ocupavam os corredores da escola, aos poucos foram se transferindo para dentro da sala de Rafaela. No quadro, tinha apenas o nome dela, a matéria que era responsável e um “Bom dia!”, hábito que ficaria conhecido pelos alunos com o tempo.

A professora sabia que em uma turma daquela idade, a disputa por poder dentro daquelas paredes era um grande mote de discussões, por isso, ao invés de tentar superar eles, apenas pedia, calmamente, por espaço. E ela fez isso deixando que eles permanecessem naquela balbúrdia mesmo com a porta fechada. Não levantou a voz, não bateu palmas, não fez nada.

Apenas deu a volta em sua própria mesa, com um pequeno impulso e um sorriso de canto, sentou na ponta, virada para os alunos. Poucos se deram conta do que ela tinha feito, a maioria ainda estava conversando, rindo e em pé, circulando pelo espaço. 

Não demorou mais do que uns 2 minutos para que alguns alunos começassem a perceber “a ausência” de um professor. Rafa seguia sentada no mesmo lugar, em cima da mesa, balançando as pernas e sorrindo, enquanto alguns deles começavam a se dar conta dela ali. Era o primeiro dia de aula do segundo semestre, logo após as férias do meio do ano e muitos deles estavam há, mais ou menos, 1 mês sem se ver. Era compreensível aquela algazarra toda.

Gradualmente, o barulho foi diminuindo. Até o momento que todos já estavam sentados, de frente para Rafa e o barulho era quase mínimo. A professora estava com taquicardia, suando por dentro, mas não deixava nada disso vir à mostra. Quando percebeu que tinha a atenção deles, começou a falar:

– Bom dia, gente. Meu nome é Rafaela, mas podem me chamar de Rafa. Sou professora de História e vou estar com vocês pelos próximos meses. Antes de mais nada, queria dizer que, quando chegarem de manhã, não vou pedir silêncio. Vou estar aqui, pronta para começar a aula, mas vocês vão fazer silêncio quando quiserem… eu não acredito em dinâmica de poder aqui dentro. Prefiro um caminho mais diplomático, democrático. Se não gostarem de algo que eu fiz, falem comigo. Podemos debater e ouvir diferentes opiniões. Se eu não gostar de algo que vocês fizeram, não vou descontar pontos, mandar pra coordenação, vamos resolver aqui dentro.

Nesse ponto, Rafa já estava de pé e assumia o seu lugar na sala, toda a extensão da frente, perto do quadro branco.

– Minha sala de aula não é autoritária ou ditatorial. Meu único objetivo aqui é ensinar a vocês. A matéria e um pouco da vida lá fora, também. E eu tenho certeza que “sobre a vida lá fora”, vocês também tem muito a me ensinar e eu estou sempre pronta para aprender. Alguma dúvida? 

Rafaela não esperava que tivesse dúvida naquela altura do campeonato, mas uma aluna, lá no fundão levou o braço e a professora apenas apontou, dando liberdade de falar.

– Acho que eu te conheço… 

Rafaela estava pronta para aquele momento. Era óbvio que havia muitas pessoas ali que já deviam conhecê-la, seja por familiares que estudaram com ela ou até por causa da vizinhança.

– Qual seu nome? – Rafaela perguntou pra aluna

– Antônia Silva Pereira, mas todo mundo me chama de Nia

– Silva Pereira… você é a irmã mais nova do André? – Rafaela rapidamente fez a conexão. Nia era irmã de um dos amigos dela

– Como você sabe? Já stalkeou todo mundo aqui?

– Eu nem tinha visto a pauta dos meus alunos até hoje de manhã e minhas habilidades nas redes sociais não me permitem stalkear vocês tanto assim… Eu e seu irmão fomos da mesma sala…

– Peraí! Você estudou aqui nessa escola? – a mesma Nia perguntou chocada

– Sim! Saí daqui faz uns 6 anos, fui pra faculdade direto e no meu último ano prestei concurso para dar aula em escolas públicas e, bom, acho que cruzaram meu histórico com a necessidade de professores aqui e… cá estou eu

– Que maneiro! Então você já conhece todo mundo aqui, né? Você deve ter sido aluna de alguns dos nossos professores. Agora, eles são seus colegas de profissão – quem fez o comentário com o raciocínio completo foi o Milo, sentado na primeira fileira, mas apenas porque tinha problemas de visão.

– Exato! Ainda não tive tempo de ver quem ainda tá por aqui, o único que encontrei foi o Seu Joaquim… 

O tom de voz e a expressão de Rafaela não deixaram negar que não foi o melhor encontro daquela manhã. Assim que ela ouviu a turma explodir em risos, por causa da reação, ela fez um gesto de silêncio, mas rindo por trás. Era óbvio que ela continuava sendo um dos professores mais detestados daquela escola, mas agora, ela não podia se unir ao coro dos alunos. Estava do outro lado da sala.

Assim que a etapa de rápidas apresentações passou, ela pediu para que eles tentassem resumir tudo que viram no primeiro semestre, assim, ela saberia por onde começar e como lidar com a matéria dali pra frente.

O resto da aula foi sem mais surpresas ou incidentes, mas também não dá pra dizer que foi uma super aula. A verdade é que Rafa percebia o desinteresse dos alunos na matéria. Parecia que eles não viam motivo para estarem ali, aprendendo aquilo tudo. E tá tudo bem. De certa forma, ela conseguia entender os motivos que eles tinham.

Assim que o sinal tocou, o barulho voltou instantaneamente. Era hora dos professores mudarem de sala. Os alunos permaneciam em seus lugares e esperavam o mestre da próxima matéria. Rafa então se despediu deles, pediu para que lessem algumas páginas para a próxima aula, recolheu suas coisas e saiu da sala.

Olhou em seu calendário das aulas e percebeu que tinha o próximo tempo livre. Ela só voltaria a dar aula no terceiro tempo, para uma das suas turmas do primeiro ano. Eles eram um pouco mais novos, e poderiam ser mais bagunceiros, mas, talvez, ainda tivessem alguma esperança de que o estudo os levaria a algum lugar.

Pegou o corredor principal e foi em direção à sala dos professores. Ela deveria estar quase vazia agora, já que a maior parte estaria dando aula. Assim que entrou, viu que nada tinha mudado ali. Uma grande mesa no centro, cadeiras velhas, algumas até inutilizadas e um grande armário na parede, com vários nichos, sem porta. Cada um com uma etiqueta embaixo, como nome do dono do espaço.

Ela procurou por um dos buracos que não estavam sendo utilizados e, para sua sorte, era justamente o que ficava ao lado do espaço do Seu Joaquim. Ela não gostava daquilo. Tinha que ficar atenta para nunca deixar nada ali que chamasse a atenção dele, não queria seu antigo professor avaliando seus métodos ou se metendo onde não havia sido chamado. Pegou um pequeno papel, escreveu seu nome com caneta preta e repetiu várias vezes, para ficar bem nítido. Com uma fita durex, prendeu o papel ali e pronto.

Deixou sua pasta mais pesada no espaço vazio, pegou o cronograma pretendido do curso e foi pra mesa, queria pensar em como levaria o curso de História na turma do segundo ano, que tinha acabado de sair. Para adiantar, já pegou o cronograma do primeiro ano também, para chegar mais bem preparada na turma.

Ela estava de lado para a porta da sala e tão concentrada que quando ouviu a cadeira ao seu lado se mexer, praticamente saltou no próprio lugar. Seu coração disparado a obrigou a respirar fundo algumas vezes, antes de se dar conta da mulher sentada ao seu lado, rindo da sua cara de susto. Sua expressão era tão simpática, quase infantil, que Rafa não teve outra alternativa a não ser sorrir.

– Desculpa te assustar, mas eu tava muito empolgada para te conhecer… – a mulher que surgiu ao lado de Rafa falou em um fôlego só

– Ahn… prazer, eu sou a Rafaela, mas pode me chamar de Rafa

– E eu sou a Camila, mas pode me chamar de Cami. Você foi o assunto hoje de manhã nessa sala, sabia? 

– Uhm… devo me preocupar com isso? 

– Jojozim não parava de falar da ex-aluna que estava voltando como professora… 

– Jojozim? Ainda chamam ele assim por aqui? 

– Você sabe desse apelido? 

– Bom, fui eu que dei… a irmã dele era minha vizinha quando eu fui aluna, no dia que ela descobriu que ele era meu professor, passou horas falando de como o Jojozinho era o favorito da família. Bom, eu não podia guardar essa informação pra mim né?

– Então, você é a responsável pelo Jojozim ser conhecido como Jojozim… acho que você já é a minha pessoa favorita dessa escola

As duas seguiram conversando sobre os professoras que Rafa ainda não conhecia e sobre alguns que as duas conheceram. A professora de inglês, que já estava ali há uns 2 anos, falou um pouco sobre as turmas, alguns alunos que mereciam atenção e outros que se destacavam. Como aquele horário sempre estava vazio para as duas, ficou meio subentendido que se encontrariam sempre por ali. 

Rafaela estava ansiosa por aquele tempo livre todas as segundas.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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