A História de Rafaela – Capítulo 1

Ai, destino… o que eu fiz pra você me odiar tanto?

Em frente à Escola Municipal Mariane de Castro, Rafaela olhava para aquela fachada que fez parte de toda sua vida. Era seu primeiro dia de trabalho e a mulher se sentia como há 20 anos atrás. 

Respira fundo, Rafaela. Bora acabar com isso logo.

E em meio aos alunos que seguiam o mesmo caminho, a mulher foi caminhando em direção ao portal principal. Ao mesmo tempo que ela parecia prestes a se afogar em uma enxurrada de memórias, as coisas eram muito diferentes. 

O Seu Carlos, porteiro da escola, tinha se aposentado já. Agora, quem ficava no portão, era uma mulher. 

— Bom dia! Você é a professora Rafaela, certo? A diretora me disse que você ia começar hoje

— Sou eu mesma! E você? Qual seu nome?

— Meu nome é Jussara, mas pode me chamar de Juca

— Obrigada, Juca

— Quer que eu te mostre onde é a sala dos professores?

— Não precisa, Juca! Eu conheço essa escola muito bem…

E com um sorriso direcionado a Juca e um nervosismo crescente, Rafaela seguiu pelo corredor principal. Ela desviava dos alunos que passavam correndo enquanto subia os degraus para o primeiro andar. Era ali que ficavam algumas salas de aula, mas também a sala dos professores e a sala da administração da escola. E foi justamente pra essa que ela seguiu.

— O bom filho à casa torna, não é mesmo?

Porra destino, você me odeia mesmo hein.

— Oi, Seu Joaquim. Você ainda trabalha aqui?

— Nunca vou desistir da minha missão de levar esses jovens para o caminho da luz, menina.

— Com você indicando o trajeto, tá mais pra caminho das trevas

— O que disse, Rafaela? Não ouvi…

— Nada, Seu Joaquim! Só disse que sua missão é muito bonita

Antes mesmo que o velho professor pudesse responder, os saltos chamaram atenção dos dois. Era a Carmelita. A diretora era reconhecidamente rígida. Rafaela não a conhecia profundamente, mas sua irmã mais nova sim.

— Professora Rafaela. Bem-vinda ao seu primeiro dia. Podemos conversar rapidamente na minha sala?

Ok, ela foi melhor que eu esperava…

— Bom dia, dona Carmelita. Como vai a senhora?

— Não precisa me chamar de senhora, professora. Só Carmelita tá bom

— Obrigada… admito que me senti em um túnel do tempo entrando aqui

— Espero que você não seja igual sua irmã. Metade da minha cabeça branca tem o nome dela

A fala poderia ser apenas uma brincadeira, mas a falta de uma expressão facial suave ou até mesmo de um sorriso, deixaram claro que Carmelita não sabia separar muito bem as coisas.

– Não se preocupe… não pretendo adicionar cabelos brancos aí… 

– Você está com três turmas. As três são do Ensino Médio. Duas do primeiro ano e uma do segundo.

– Ok…

Rafaela tremeu na base. Pensou logo que Ensino Médio eram aqueles adolescentes que não tinham a menor paciência com os professores. Lembrou dela mesma naqueles anos e como eles enchiam o saco do Joaquim. Bom, ele até merecia, mas os alunos poderiam ser bem cruéis quando queriam.

– Algum problema, professora Rafaela? 

– De forma alguma, Carmelita. Estava apenas… pensando

– Bom, aqui estão as informações sobre a turma. Sua aula começa daqui a 5 minutos.

Rafaela pegou os três cadernos que recebeu, apoiou no braço e cambaleou pra fora de sala. Ela tinha duas opções: ir para a sala dos professores apenas para ver quem tava por ali ou ir direto para a sala da sua primeira turma e já estar lá quando os alunos chegarem.

Optou pela segunda opção. Encontrar antigos professores e, talvez, abrir algumas feridas não era uma boa ideia para seu primeiro dia de trabalho por ali. Foi até o fim do corredor do primeiro andar. Sua primeira aula do dia era a turma segundo ano.

Pegou a caneta preta, respirou fundo e escreveu no quadro branco “Rafaela Costa Castro – Prof de História”. Apagou e trocou o “Prof” por “Professora”. Não, melhor não. Apagou de novo e colocou apenas “História”. Apagou de novo. Optou por deixar apenas “Rafaela – História”.

O sinal tocou logo em seguida e o burburinho dos alunos subindo as escadas começou. O volume foi aumentando, o que significava que eles estavam bem próximos. Se aproximavam das salas, as vozes ficavam mais altas e os passos mais pesados. Rafa segurou a respiração e ficou mirando a porta da sala, que estava aberta.

O primeiro dia da sua nova jornada na Escola Municipal Mariane de Castro acabava de começar.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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