50 Tons da Vida – Cap 32

Olha só quem resolveu aparecer. Como diz minha vó, quem é vivo sempre aparece. E cá estou eu: vivinha para vocês.

Lembrei de uma noite muito boa para contar para vocês. Foi no meu primeiro mês lá nos EUA e tudo ainda era muito novo. Eu ainda estava nervosa porque não sabia o que fazer e nem sabia como agir. Todas as vezes que eu ia sair eu ficava horas escolhendo a roupa porque tinha uma enorme indecisão dentro de mim: eu era gay e queria parecer gay, mas como eu faria isso com as minhas roupas? Pequenas dúvidas da inocência, não é mesmo?

Bom, nessa noite as meninas que moravam lá na faculdade também me chamaram para uma festa na praia que ia rolar. Era uma reunião de veteranos e calouros da faculdade. Eu não era nenhum dos dois, mas como a festa era aberta, fomos. Eu não sabia beber e nem fumar, coisa que todo mundo lá já fazia. Eu nunca tinha experimentado nada diferente de vinho e o primeiro gole de cerveja desceu amargando tudo a sorte é que estava gelada. Quando parti pra tequila então, quase vomitei a vida inteira naquele momento.

Bom, música vai, bebida vem eu comecei a conversar com uma menina que era veterana lá na faculdade. Ela tinha uns cinco anos a mais do que eu e era gay, ela fez questão de falar isso ao mesmo tempo que me chamava de linda e me chamava para ir ver a temperatura da água. Eu já estava bem tenta, sozinha e não pensava claramente. Fui com ela.

Não lembro do nome dela, por algum capricho do destino eu não encontrei com ela nos quatro anos seguidos que estive por lá e para ser sincera, até agradeço. Estávamos na beira da água e ela falava muito rápido sobre o curso que fazia e o quanto era a melhor na equipe de algum esporte que eu não conseguia entender. Por mais que eu soubesse inglês, ainda não era fluente na língua e estava muito bêbada. Lembro que nos afastamos da festa, sentamos na areia gelada de forma que a água não alcançasse nossos pés. Eu estava nervosa, não sabia o que fazer, como agir nem como responder a ela. Será que eu queria beijá-la? Será que eu queria ter algo com ela? Era tão difícil pensar em tanta coisa com aquela enorme quantidade de álcool na mente.

Ela puxou um cigarro do bolso e me ofereceu, recusei. Mas lembro que tinha gosto de menta por causa do cheiro que eu senti. Em um certo momento tudo passa a ser um leve borrão na minha cabeça. Eu lembro dela rindo de algo, dela virando o corpo para ficar mais perto e de frente pra mim. Lembro dela, gentilmente, puxando as minhas pernas para perto dela para que meu corpo ficasse de frente para o dela. Lembro dela dizer que eu era linda mesmo com meus olhos meio fechados. Lembro dela tocar no meu rosto e no meu cabelo. E depois disso só lembro da língua dela com gosto de cigarro de menta dentro da minha boca brincando com a minha língua.

A beijei de volta e estava tudo indo muito bem quando me dei conta de que a mão dela estava desabotoando meu short. Aliás, o botão já estava aberto, o zíper estava pela metade. Maldito álcool que tira todo o nosso reflexo. Meu coração disparou de uma forma estranha e alerta, como um passe de mágica minha enorme tonteira reduziu pela metade e eu tive força e rapidez para tirar a mão dela do meu short e por incrível que pareça ainda fiz com delicadeza para não parecer chata nem nada do tipo. Não adiantou.

Ela levantou gritando comigo, dizendo que eu era uma criança e que devia voltar para a minha mãe e que eu estava bêbada e era chata também. A sorte é que estávamos longe da festa e ninguém ouviu o que ela disse. Comecei a chorar muito ali mesma, sentada. Só fechei o short, abracei minhas pernas e por um momento desejei o colo da minha mãe e a minha cama que estavam no Brasil. Não tinha nem amiga nenhuma para ligar ou pedir colo. Foi nesse dia que me dei conta de que estava sozinha. Era eu que tinha que tomar conta de mim e me cuidar.

Chorei bastante tempo ainda, levantei da areia e fui sozinha para casa. Ainda bem que eu tinha decorado o caminho. Encontrei a Donna no corredor que me perguntou se estava tudo bem e me deu um boa noite rápido. Chorei outras tantas lágrimas no meu travesseiro novo e apaguei de cansaço. A ressaca do dia seguinte não me deixou esquecer do acontecido. Na verdade, relembrei a sensação de estar sendo invadida alguns dias ainda. Até que me olhei no espelho e decidi crescer. É. A partir de agora, ninguém ia me machucar mais. Só se fosse de amor.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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