50 Tons da Vida – Cap 29

Olha como voltamos rápido dessa vez. Gostaram? Cá estamos nós, então.

Contando a história da Jenny para vocês da última vez, lembrei de muitas outras coisas, principalmente o que eu senti quando ela me disse que estava se mudando para ir viver o que ela realmente era. E foi mais ou menos isso que eu fiz né gente? A única diferença é que eu cruzei o mundo, mudei de hemisfério e não pude contar com o apoio dos meus pais, que nem ela. Mas eu já superei isso e para quem não sabe moro com eles aqui no Brasil. Viu? Vivemos em paz. Quase sempre.

Bom, mas quero falar de uma semana que eu ainda estava morando no campus da faculdade. Não tinha Donna nem Jenny nem ninguém. Estávamos em semana de provas e por toda a faculdade o assunto era esse junto com coisas como gabaritos, energeticos, café e o que mais tivesse relação com provas e notas. Alías, quero fazer um pequeno comentário aqui. Como esse povo bebe café hein. E eu que achava que meu pai já bebia exageros hoje sei que ele é uma criança em matéria de café.

A semana estava enlouquecedora, ninguém mais saía de seus quartos a não ser para ir fazer as provas. Era notável no ar o nível de tensão e stress. Isso incluía a minha pessoa, logicamente. Mas eu tinha uma maneira diferente de lidar com excesso de tensão. Todas as noites eu colocava minha roupa de malhar e passava 30 minutos correndo pelo campus com o fone de música bem alta no meu ouvido. Era ótimo para limpar a mente e me dava forças para continuar a estudar quando chegasse no quarto.

Teve um dia que uma das minhas vizinhas, minha amiga perguntou se podia ir junto. Avisei que eu corria de fone, então não conversava com ninguém, ela disse que não tinha problema e que também ia de fone. Foi ótimo, corremos juntas, sem trocar uma palavra que fosse, mas no dia seguinte as duas estavam muito bem. Volta e meia aparecia alguém para correr junto. Na sexta, para comemorar o fim das provas fomos correr em bando mas com uma condição: sem fones.

Gente, foi libertador. Corremos e fizemos piadas, conversamos quando dava até que paramos perto do campo de futebol americano. Sentamos no gramado falando sobre a vida e sobre o que esperávamos dos próximos dias, inclusive dos resultados das provas. Foi a primeira vez que eu falei abertamente que era gay. Do tipo, me perguntaram se eu tinha namorado e eu disse que não, nem nunca teria porque gostava de meninas. E sabe qual foi a reação delas? NENHUMA!!! Isso me deixou impressionada. Para elas, o fato deu ser gay era irrelevante e isso era completamente sensacional para mim.

Elas nunca foram muito minhas amigas, mas sempre que corro tem uma ou duas ou todas que me acompanham, principalmente em semana de provas. E desde esse dia que eu percebi que ali eu poderia ser quem eu realmente era. Poderia ser gay sem incomodar a ninguém ou ter que me explicar porque sou gay (como se isso fosse possível). Eu tinha encontrado meu cantinho no mundo onde meus sentimentos eram aceitos e não eram questionados. Eu tinha encontrado meu lugar no mundo e por lá eu era a Delle mais autêntica do mundo. E ser você mesmo é tão mais fácil, tão mais simples e tão mais certo que as vezes até você para pra pensar porque não pode ser assim sempre. Porque?

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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