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Uma história de Natal

Sim! Temos conto de natal, sim! Aqui é um teaser do nosso conto de natal e lá no final tem o link para o produto completo! Espero que vocês gostem, compartilhem e recomendem! <3

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Eu odeio o Natal. Pode me chamar de maluca, sem coração, fria ou qualquer outra coisa, mas isso não vai mudar o fato de que eu odeio o Natal. E não é por falta de tentativa não. Até pouco tempo atrás eu tinha guardado no quartinho de entulho aqui do apartamento, um kit completo de decoração natalina. Enfeites, bolas coloridas, uma árvore e até mesmo luzes coloridas para a varanda do apartamento. Eu tentei, eu juro que tentei, mas desisti. Fazem dois anos que os dias 24 e 25 de dezembro são apenas mais dois dias entre os outros 365. O mais difícil é conseguir pensar assim quando o resto do mundo parece viver os outros 364 dias em função desses dois. As pessoas ficam mais felizes e até os atendentes antipáticos e cansados parecem ganhar um novo ânimo nesta época. Dois dias mágicos. Dois dias malditos.

Sempre que começo em uma nova empresa, adiciono uma clausula especial que obriga o meu departamento a me colocar nos plantões especiais de feriado. Isso mesmo, eu obrigo as empresas a me colocarem para trabalhar no Natal. O que na verdade nem é tão ruim, depois de anos trabalhando em empresas de RH pelo país, eu sei que essas datas são as mais complicadas para preencher o quadro de funcionários. Ninguém quer trabalhar e quem é obrigado acaba fazendo o trabalho mal feito. Então acabo resolvendo os dois problemas: o da empresa e o meu. Só assim tenho bastante coisa para ocupar minha cabeça enquanto desvio dos sinos tocando e dos velhinhos gordos vestidos de vermelho por aí.

E cá estou eu. Presa em um sinal que parece eterno enquanto as ruas escuras estão abarrotadas de carros e ambulantes vendendo chapéus vermelhos pontudos. Estou com a cabeça no relatório que me espera em casa e irritada por ter deixada o vinho acabar. Eu já fui melhor nisso. Poderia faltar comida, material de limpeza e até papel higiênico, mas vinho nunca faltava. Tive uma amiga – daquelas coloridas que a gente transa de vez em quando – que me chamava de jesus pelos quatro cantos. Dizia que eu conseguia transformar água em vinho porque sempre tinha uma garrafa pronta para ser aberta a qualquer momento e em qualquer dia. Mas esse ano me descuidei e junto com a quantidade de trabalho que um cargo de coordenação propõe, fiquei sem vinho. Precisei vestir uma roupa qualquer, desenterrar as chaves do carro do fundo da bolsa e ir atrás de uma loja de conveniência que esteja aberta às 22h30 do dia 24 de dezembro.

Meu celular estava conectado ao rádio do carro e emitia sons pesados pelo carro. Eu adorava música eletrônica para trabalhar, me ajudava a concentrar e me fazia ir longe, limpava meus pensamentos e não me deixava ir aos momentos que eu fazia de tudo para apagar da minha mente para sempre. Quando finalmente encontrei uma loja aberta, parei o carro de qualquer jeito e saí correndo. O barulho dos motores e buzinas de famílias atrasadas me fez ficar tonta por rápidos segundos e tive vontade de voltar para o meu carro e fechar os olhos. Era como se eu tivesse aberto uma porta invisível que dava diretamente no mundo real. Logo esse mundo que eu tanto tentava evitar.

– Boa noite, tem vinho? – perguntei rapidamente ao senhor atrás do balcão
– Boa noite, minha filha. Compras de ultima hora para a ceia? Temos algumas garrafas restantes na última estante – o sorriso dele me fez lembrar os papais Noéis pela rua e eu não consegui responder nada ao velhinho simpático

Uau, eles realmente economizavam em vinho. Também…o que eu poderia esperar de uma loja de conveniência? Algum cabernet francês reserva especial? Eu teria que me contentar com um argentino merlot que me encarava implorando para ser apreciado por uma mulher sozinha e não por uma família barulhenta. Peguei as duas garrafas que restavam dele e voltei direto para o caixa, ah sim, um chocolate para ajudar a me manter acordada mais tarde. Duas garrafas de vinho e um chocolate, acho que agora o senhor do caixa vai perceber que não é bem uma ceia de natal que me espera em casa.

Finalmente as batidas eletrônicas invadem meus ouvidos e trancam a porta que me conectava ao mundo real. Mais alguns sinais vermelhos e curvas abertas e estou em casa novamente. Há muito o que se fazer durante a noite e o que me faltava, não falta mais. Caminho até o elevador e aguardo os números do pequeno visor irem mudando até que o andar da garagem aparece e a porta interna abre. Acostumada a não ter ninguém dentro, quase deixo cair minhas garrafas ao trombar com a minha vizinha. Nunca a vejo e nas poucas vezes que nos cruzamos, não somos muito simpáticas uma com a outra. Tenho a impressão que ela não vai com a minha cara e não faço questão alguma de mudar isso, por isso me assusto com o enorme sorriso que ela me cede ao perceber a minha surpresa

– Desculpe o susto, vizinha. Espero que tenha uma boa noite! – ela me olhou da cabeça aos pés sem disfarçar e não me deu tempo para responder, seguiu para seu carro

Entrei no elevador e sorri para o espelho que me encarava. Meu ego era suficientemente grande para perceber que se eu estivesse sem roupa teríamos transado naquele exato momento que ela me olhou. Você ainda faz estragos, senhorita Júlia. Meu ego falou fazendo meu sorriso sacana se abrir ainda mais para o espelho. Como se estivesse apaixonada pela imagem que refletia para mim, saí de costas do elevador e só então me virei para encarar o corredor vazio do meu apartamento. O 503 era a última porta. Ao passar pela entrada do 501 olhei de canto de olho e sorri pensando que em breve eu conheceria como ele era por dentro. Meu poder de sedução ainda era minha melhor e única arma.

O primeiro gole de vinho desceu pela minha garganta reavivando todas as sinapses do meu cérebro. Como uma droga faz um viciado acordar do mundo dos sonâmbulos, o vinho me fazia sentir até a ponta do meu dedo mindinho, como uma corrente elétrica que passa sem ser interrompida por todos os poros, eriça todos os meus pêlos e abre meus pulmões. Assim que o liquido se acomodou no meu estômago, respirei fundo ainda saboreando o aroma frutado na minha língua, sorri, aumentei a batida eletrônica e sentei no computador novamente. Agora sim, meu mundo estava em equilíbrio novamente.

Não demorou para que a fome chegasse. Como eu sabia que teria uma noite de muito trabalho pela frente, pedi para que a dona Clarice deixasse algumas comidas congeladas para um caso de emergência. Ela sabia que eu não comemorava o natal – descobriu de uma forma nada agradável – e desde então deixava lasanha, strogonoff ou carne assada, nada que lembrasse uma ceia tradicional. Destampei o strogonoff, que na verdade ainda precisava do creme de leite, e ascendi uma boca do pequeno fogão que tenho na cozinha. Bebi o final da última taça da primeira garrafa no exato momento que o molho do frango começou a ferver e adicionei o ingrediente que faltava. No microondas, o prato com um pouco de arroz branco apitava depois de esquentar e então adicionei a o frango cremoso por cima e fui até a sala da cozinha. Do lado oposto ao computador, uma outra cadeira estava posta e uma pequena toalha de um jogo americano que minha mãe me dera quando comprei este apartamento. Me sentei e cruzei as pernas. Pensei na minha mãe e em quando ela me deu aquele presente.

Há três anos atrás

– Julia, você precisa de um jogo americano para quando receber seus amigos – minha mãe insistia naquilo que eu achava completamente inútil
– Mãe, eu não tenho amigos e eu posso recebe-los sem nada! – eu não queria que ela gastasse dinheiro comigo
– Fica feio a mesa vazia, fica sem vida e sem cor – ela não iria desistir
– Mãe, eu vou escolher outra cor então. Este é colorido e não combina com a decoração cinza da sala – consegui faze-la desistir de um jogo americano colorido que ela insistia em carregar por toda a loja
– Eu vou achar um que será perfeito, prometo! – eu sabia que teria um daqueles na minha casa, ela sempre cumpria com o prometido

Depois de uma semana morando comigo e me ajudando a montar o meu primeiro apartamento, minha mãe voltou para a casa dela, no interior do estado, onde nasci, fui criada e onde toda minha família mora até hoje. Eu fui a ovelha negra que foi tentar a vida nesse mundão enorme que eles só conheciam por fotos e por viagens de fim de semana que faziam. Achei até que minha mãe havia ficado muito tempo, ela não conseguia lidar com a rapidez da cidade grande por muito tempo.

– Mãe, tem certeza que não quer esperar eu voltar do escritório para te levar na rodoviária?
– Não quero atrapalhar seu dia, filha. Eu pego um táxi, não se preocupe
– Então eu deixo o dinheiro para a senhora pegar o táxi
– Júlia, não se preocupe comigo agora. Eu estou bem, sempre estive – Acho que ela nunca vai me perdoar pelos dois anos que ficamos sem nos falar
– Mãe, você nunca perde a chance de falar sobre isso, não é?
– Se eu não tivesse vindo atrás de você, estaríamos até hoje sem nos falar – Uma semana sem falarmos sobre isso estava bom demais
– Mãe, você não pode me culpar, não é mesmo? A senhora me expulsou de casa! Queria o que? – Eu já estava com vontade de chorar e tentei me lembrar de todas as aulas de respiração e controle da mente
– Deixe de ser exagerada, Júlia! Eu só pedi para que se comportasse

Eu estava pronta para despejar o meu já conhecido discurso mas o celular tocou na hora. Era meu chefe pedindo para que eu não me atrasasse porque teríamos uma reunião logo cedo.

– Eu preciso ir, mãe – falei respirando fundo seguidas vezes
– Pode ir. Não estarei mais aqui quando voltar – o tom irônico na voz dela me tirava do sério
– Você sabe que não é assim que penso, mas não vou insistir em mais nada. Fique bem, mãe – beijei sua testa e sem olhar para trás saí do apartamento

Em pensar que ela conseguiu convencer a mulher da loja a fazer um jogo americano igual ao colorido, mas nos tons de cinza só para combinar com a minha sala. Dona Judite era uma caixinha de surpresa. Em um momento poderia estar lhe tratando como uma rainha e no momento seguinte iria te lembrar que você não passa de uma garotinha mimada que acha que pode fazer o que lhe vem a cabeça. É melhor eu comer meu strogonoff antes que pense demais e a comida esfrie.

Assim que pus a primeira garfada na boca, minha campainha tocou.

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E aí? Quem será que chegou de surpresa para a Júlia? É só clicar aqui embaixo e conferir o final mais surpreendente que você pode imaginar!

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