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Tudo muda, tudo passa – Cap 9 – Parte 12

Ao contrário do que pensei vó Dorte não passou mal e nem acordou de ressaca. Dormiu bem, acordou um pouco mais tarde que o habitual, mas estava inteira. Parecia que nada tinha acontecido. E ela ainda comentou que iria procurar óuzo nos mercadinhos da cidade porque aquela bebida era danada de boa!
Fomos para Hampton Court conhecer o palácio de mesmo nome e nos impressionamos. No interior os salões clássicos são inspiradores, assim como os vitrais. Um deles mostra o rei Henrique VIII e os brasões das seis esposas que teve.

Vó Dorte ficou parada olhando e pensando em algo até que disse:

– Mas mulher sempre foi boba com homem! Como pode um sujeito desses ter tido seis esposas? E ele ainda ia trocando e matando… Que coisa! – vó Dorte pôs as mãos na cintura indignada.
– Mulher naquele tempo não tinha muitas opções além de fazer um bom casamento; mesmo as nobres. Mas em todas as épocas houve pioneiras que marcaram a história. – Alex comentou – Graças a Deus!
– Os homens sempre abusaram muito. Com exceções, é claro, mas não nos respeitam e pensam ser superiores. Sempre ouvi tanta coisa errada sobre mulheres! Nossa capacidade, nossos direitos… Meu Gary era diferente, e por pensar como pensava era muito criticado. Sabe? O mundo é dominado pelo homem branco e ocidental, por isso é desigual e injusto. Queria saber quando vai mudar! Sou uma velha e acho que a cabeça das mulheres mudou pouco de minha infância para cá. Principalmente quando o assunto é comportamento sexual. Por muito pouco mulher ainda é prostituta e homem o Don Juan. O mundo é tão machista que aceita mais o gay que a lésbica! – olhou para nós meio constrangida – Bem! Vocês devem saber melhor que eu…
– Acho que as mulheres historicamente sempre deram mais valor aos homens do que eles realmente têm; por isso abusam. No fundo, a maioria se sente inferior a eles e se deixa dominar. No fundo, a maioria ainda acha que precisa deles para desempenhar certas tarefas, como se o fato de ser homem garantisse alguns talentos compulsórios, o que não é verdade! A solução está em nossas mãos porque nós os criamos. Somos nós quem mantemos isso a cada vez que somos machistas e agimos e falamos contra uma outra mulher. No dia que nós dermos aos homens o exato valor que têm, vamos colocá-los em seus devidos lugares. Não há mistério, é só uma questão de raciocínio lógico e psicologia. Eles não precisam ser nossos algozes, podem ser nossos companheiros sem problema algum. Eu penso assim.
– Concordo Sammy. Acho que a maioria das mulheres cede muito e diz sim a qualquer coisa com medo de perder o homem, como se sem ele sua vida valesse nada. Fala-se que a mulher se desvaloriza quando tem a vida sexual livre; pois eu acho que ela se desvaloriza é quando faz exatamente o que o homem quer, com medo do que ele pensará ou com medo de que ele vá deixá-la. Ninguém diz que o homem promiscuo se desvaloriza porque as mulheres aceitam tudo. Não se cobra do homem o que se cobra de nós. A moral deles depende da nossa: se somos “boas meninas” eles são sérios e se somos “soltas” eles são safados. E para eles tudo está sempre bem. Não existe isso! Não existe liberdade sem responsabilidade!
– É por esses pensamentos que eles abusam meninas! Não é qualquer pessoa que sendo supervalorizada sabe ser amada. Amar e ser amado é coisa que poucos sabem fazer! Coisas que aprendi com os anos!

Fizemos uma boa caminhada pelo exterior do palácio, e Alex e eu contemplamos atentamente sua arquitetura harmoniosa. Também chamou nossa atenção o relógio astronômico, os jardins barrocos com alamedas margeadas por tílias e canteiros, e o Fountain Garden com seu labirinto verde. Alex se perdeu no meio dele e foi muito divertido resgatá-la.
– Que vergonha menina! Nem eu, uma velha que ontem estava bêbada como um galês, fiquei perdida nesse meio de mato! – vó Dorte puxou a cabeça da neta para um beijinho na testa.
– Pare vovó… – sorriu e ficou corada.
– Bêbada como um galês? Eu diria como um grego! Só faltou quebrar os pratos! – ri.
– Ah Samantha, nem bebendo um tonel daquela bebida grega eu quebraria meus pratos! Com certas coisas não se brinca!
– Como vocês saíram do labirinto tão rápido? – Alex perguntou intrigada.
– Eu prestei atenção em onde andava e marquei referenciais. Daí foi fácil. – respondi fingindo tirar onda – Eu sou esperta, não sou Alex? Carioca, ligada, atenta… – passei a mão nos cabelos fazendo tipo.
– Oh meu Deus! – revirou os olhos – Mas também, é melhor ouvir isso que ser surda…
– Alex, minha neta, você precisa ser mais atenta; – vó Dorte entrou na brincadeira fingindo aconselhar a neta – como nós, que somos… como fala em português? Malandras!

Rimos com isso e me surpreendi por ela ter aprendido essa palavra.

– Ai vovó, você está muito mudada…. – Alex abraçou a avô sorrindo – Quer dizer que você é malandra?
– Eu mudada? Você foi quem mudou! – segurou-a pelos ombros e olhou bem para ela – E para melhor!
– Ela mudou mesmo! – prendi o riso – Foi até em praia de nudismo…
– Sammy!! – olhou-me indignada.
– O que? – vó Dorte chocou – Você foi na praia nua? Toda nua? Completamente nua? – arregalou os olhos.
– Nua até a alma! – respondi enfaticamente – Eu fiquei chocada! – fiz cara de espanto.
– É mesmo? – vó Dorte ainda não acreditava.
– Você não vale nada Samantha! – levei um tapa no braço e corri. Dirigiu-se a avó – Fomos sim vovó, mas é que não sabíamos disso. Só na hora ficamos sabendo que a praia era de nudismo.
– Aí vocês souberam e foram logo tirando a roupa? – continuava surpresa.
– Eu não iria nem entrar lá vó Dorte, mas Alex foi correndo e aí eu tive de acompanhá-la. Antes disso ainda tive de catar suas roupas no chão porque ela ficou tão louca que jogou tudo para o ar. – fingi seriedade.
– É, você realmente mudou… – vó Dorte entrou na brincadeira – Nunca pensei que fosse ficar assim tão… ousada!
– É mentira vovó! Ela foi quem ficou querendo ir e me pediu tanto que eu acabei aceitando! – Alex caiu na nossa pilha.
– Confesse Alex, vó Dorte é liberal. Você sempre teve esse sonho de sair nua por aí sem rumo!
– Pensando bem, quando ela era uma pequena criança gostava de correr nua pela fazenda. Eu deveria saber… – fingiu ficar pensativa.
– Mas…
– Lá na praia ela fez a festa! Eu tive um trabalho… – revirei os olhos caricata.
– Imagino! Sei como ela fica!
– Mas vocês… Humpf!!! – fez cara feia e saiu revoltada.

Vó Dorte e eu estouramos em uma gargalhada.

Voltamos para Londres horas depois do almoço e visitamos uma exposição que estava acontecendo no National Gallery. Assim encerramos o dia.

Voltamos para casa caminhando lentamente pelas ruas, que estavam bem movimentadas.

– Que pena que vocês partirão amanhã! A companhia das duas me faz tão bem!
– Eu digo o mesmo. Conhecê-la foi um presente e tanto e sua companhia é ótima! – olhei para ela – Vó Dorte, não se chateia de morar sozinha?
– É mesmo vovó! Eu me preocupo com sua solidão nessa cidade. Também amo sua companhia, mas não podemos ficar juntas sempre. Não a incomoda viver só? – Alex e ela caminhavam de braços dados.
– Desde que seu avô morreu eu sinto uma diferença. Mas vocês moravam aqui e sempre eu a tive por perto.- beijou o rosto da neta – Quando partiram para o Brasil estranhei muito e senti de fato o peso da solidão. Shelley me chama para morar na fazenda, mas não… – fez careta – Eu não me acostumo a viver no meio do mato. Gosto do movimento da cidade, dos espetáculos de Londres, dos jardins, dos museus, do barulho… Freqüento a igreja e lá tenho amigos. Não é a mesma coisa que alguém morando junto, mas ajuda a espantar a tristeza.
– Mas pense no que falamos de passar uns dias conosco no Rio. Lá também tem movimento, barulho, espetáculos, museus… – falei mais perto dela – homens bonitos… – ela riu – praias, samba, sol, calor… E o mais importante: sua neta! Ou seja, lá tem tudo que você gosta!
– Eu sei! – olhou para mim sorrindo – Esqueceu de falar que lá também tem você, que é outra coisa que eu gosto. – beijou minha testa.
– Dessa coisa eu também gosto muito. – Alex disse sorrindo.

Fiquei feliz, mas sem graça.

– Eu vou ver isso, e quando menos esperarem estarei no Brasil.

Na sexta fizemos uma caminhada leve pela cidade, arrumamos as malas e vó Dorte pediu comida indiana em casa. Na Inglaterra eles amam comida indiana e tailandesa, talvez mais que os próprios orientais; Alex até gosta já eu… Muito curry e molho picante para o meu estilo natureba! 
Nosso vôo era para às 16:00h e vó Dorte nos levou de carro para o aeroporto saindo de casa à uma da tarde mais ou menos. A despedida foi emocionada como sempre era.

O vôo foi tranqüilo no começo, mas depois pegamos muitas horas de turbulência. Eu morri de medo e apertei tanto as mãos que feri as palmas com as unhas. Alex nem ligou para aquele movimento do avião e eu fiquei impressionada.

– Você não se incomoda com isso não? – olhei para ela intrigada – O bicho tá mexendo mais que chiclete em boca de piranha.

Ela riu e respondeu:

– Ai Sammy, não seja boba! O avião não vai cair. Isso é por causa do vento contra o movimento dele, nada mais. – segurou meu braço de leve.
– Ah, mas acontece que isso não é um carro numa estrada ruim! Se um troço desses cai e no meio do mar é pra matar essa galera toda! Inclusive a gente! – nesse momento aconteceu um movimento mais forte – Ave Maria! – olhei apavorada para os lados.

Eu estava na poltrona do meio e Alex na janela. Ela apertou minha mão.

– Calma querida. – disse suavemente.
– Será que tem uísque aqui? – olhei para ela com os olhos arregalados.
– Uísque?? – franziu a testa sem entender.
– Quero beber até me danar! – outro solavanco – Virgem Santa! – me agarrei no assento.
– Você dizendo isso? A coisa está mesmo séria. – riu – Vamos fazer assim: encoste no assento, – tocou meu ombro e me empurrou de leve contra o assento – feche os olhos, – obedeci – e apenas me ouça. – aproximou os lábios do meu ouvido – Pense em Deus, dará tudo certo.

Senti que me acariciava a cabeça e rezava baixinho. Aos poucos fui me acalmando e dormi. Só fui acordar quando as comissárias serviam o café da manhã.