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Tudo muda, tudo passa – Cap 9 – Parte 6

Estávamos sentadas em uma mesa e bebendo suco. Havia muita gente no bar, a maioria bebendo muito e comendo o famoso petisco de cupim, especialidade do lugar. Alex e eu continuamos o nosso joguinho.

– Quer dizer que você veio de Timóteo hoje? – bebeu um gole de suco.
– É. Teve muita ralação lá hoje, foi brabo. Mas pelo menos consegui tomar um banho antes de vir embora e cheguei aqui até cedo.
– Não está com frio? – olhou para meus braços
– Nem um pouco. – respondi sorrindo – Eu naturalmente sou muito quente.
Eu usava calça jeans, botas e uma blusa azul de algodão justa no corpo e de alças.
– Ah, é? – sorriu – Sorte da sua esposa.
– Eu tô sozinha…
– E essa aliança no dedo? – apontou para minha mão esquerda.
– Tudo bem! – sorri e passei a mão nos cabelos – Mas aqui, eu tô solteira, sem dona, mas muito bem acompanhada.
– Aposto que você é do tipo bem cafajeste… – falava fazendo charme.
– Não… Apesar de tudo eu sou uma mulher bem na minha.
– Sei…
– Mas e então, o que você faz lindinha? – olhava fixamente para ela.
– Eu trabalho com obras também, assim como você. – mexia o suco com o canudo enquanto me encarava sorrindo.
– E vai sempre gata assim pro trabalho?

Ela sorriu e abaixou a cabeça. Olhou para mim em seguida.

– Hoje eu saí de lá umas seis horas. Tomei um banho e saí para comprar pão. Daí fui abordada por você.
– E vai comprar pão assim, toda gata? Nossa, o mercadinho deve parar.
– Eu gosto de me vestir bem. – respondeu sensualmente.
– Bom… Mas uma mulher como você, naturalmente elegante, é linda de qualquer maneira. Bem arrumada ou simples. – meu olhar se alternava entre seus lábios e olhos. – Me chamou a atenção sem fazer o menor esforço pra isso. – continuava flertando com ela.
– Aposto que sempre diz essas coisas para uma mulher.
– Não! Eu só falo o que realmente penso.
– E no que pensa agora? – reclinou-se sobre a mesa.
– Em ficar a sós com você o mais rápido possível.
– Oh, oh, Sammy, don’t… somebody can see us here… – tentava se esquivar de mim sorrindo.
– Ah, linda relaxa, esse carro tem todos o vidros filmados e ninguém vai ver nada. Vem aqui minha gostosa…

Alex e eu estávamos no banco de trás do carro e eu tentava tirar sua roupa. Já estava sem blusa e calças arriadas. Ela estava sem casaco e com alguns dos botões do vestido abertos.
Meti a mão dentro de sua calcinha e puxava a peça para baixo. A outra mão lutava para abrir mais botões. Minha boca se alternava entre pescoço, lábios e orelha.

– I told you I was married… – apalpava meus seios e sorria.
– Eu não sou ciumenta…

Tirei sua calcinha e meti a cabeça entre suas pernas e debaixo do vestido, enquanto que as mãos vagavam por toda parte de corpo nu que encontrassem. Ela abriu bem as pernas e espalmou as mãos nos vidros das laterais do carro, gemendo alto.
Levei-a à beira do orgasmo, mas interrompi várias vezes para que ficasse bem louca.

-Oh, plase Sammy, don’t, please… let me come…

Sorri e comecei a beijar, lamber e morder um seio enquanto introduzi dois dedos em sua vagina. Não demorou muito e ela gozou, gemendo bastante e me arranhando o braço.
Continuei beijando seu corpo e fazendo cócegas. Ela sorria. Respirou fundo algumas vezes e então passou a mão em meus cabelos.

– Now, I wan’t you.
– Fique à vontade, minha gostosa.

Sentei a seu lado e ela então sentou no meu colo. Começou a me beijar avidamente, enquanto suas mãos me percorriam inteira, até que uma delas encontrou destino entre minhas pernas.

– Isso gostosa, vai…- mordi sua orelha.

Alex percorreu meu corpo com beijos até chegar com sua boca em minha abertura. Deixou-me completamente louca com sua língua e dedos me excitando de todas as maneiras.

Chegamos no hotel e Alex ainda estava toda vermelha. Entramos no quarto e ela correu para o banheiro para lavar o rosto.

– Mas amor, tá com vergonha até agora? – encostei no portal do banheiro.
– Claro! – ensaboou-se – Foi tudo tão gostoso, desde o nosso jogo até as loucuras que fizemos no carro. Tinha que aparecer aquele policial e bater no vidro… – molhou o rosto.
– Mas e daí? Deu galho nenhum e a gente já tava até vestida… – cruzei os braços
– Vestidas de qualquer maneira! – pegou a toalha – Ele percebeu que nós… Só a cara de tarado que fez… – tampou o rosto – Ai que vergonha!! E eu que nunca fui mulher de fazer essas coisas dentro de carro!

Ri e caminhei até ela. Abracei-a por trás e beijei seu ouvido.

– Esquece isso. – cheirei seu pescoço – Escuta… Por que a gente não toma um banho quentinho e continua na cama o que começou dentro do carro?
– Meu Deus Sammy, você é tarada sabia? – olhou para mim pelo espelho e sorriu.

Virei-a de frente para mim e respondi:

– Sou completamente tarada. Por você. – e nos beijamos carinhosamente.

No final de agosto fomos para Vitória e finalmente me senti aliviada. Nosso hotel era perto da praia e só o fato de ver o mar já era uma grande coisa.

Voltamos para o Rio somente no final de setembro, e foi aí que constatamos o óbvio: nossas coisas estavam uma bagunça.

Arthur inventou um trabalho em São Paulo e Alex foi sozinha ficando lá por um mês. Eu fiquei no Rio resolvendo as trapalhadas que Anderson fez no Recreio. Trapalhadas que custaram seu emprego. Nessa época, Alex e eu nos víamos somente nos finais de semana.
Em novembro Júlio arrumou um trabalho em Guaratinguetá, que se emendou com outro em Pindamonhangaba. Quando voltamos para casa, era 12 de dezembro.

Nossos contatos com as amizades e vó Dorte se limitava basicamente a e-mails e telefonemas. Marcamos de passar o natal com Paulinha, Ruth, Nara e Sandra em Cabo Frio, na casa de veraneio de Nara.

Soninha estava muito bem nos negócios e feliz com o casamento, mas Murilinho a afastou bastante de nós. Seus correios, quando existiam, se limitavam a duas frases e nada mais. Aline estava firme e forte na emissora, e havia passado um bom período na Bahia, por conta de uma novela. Taís até que estava tendo aproveitamento no seu curso, mas continuava na farra.

Um belo dia de sábado, estávamos dormindo abraçadas quando o telefone nos desperta. Alex dormia com a cabeça no meu ombro e as pernas enroscadas nas minhas.

“Que diabo de telefone!”

Abri os olhos e vi que eram 6:30h. Alex se agarrou mais em mim.

– Amor, deixa eu atender esse telefone. – beijei sua cabeça e estiquei o braço pegando o aparelho – Alô? – minha voz era sonolenta.
– Sam! Acordei você? – Júlio perguntou.
– Ah Júlio, imagina… – disse debochadamente.

“Acordada a uma hora dessas depois de ter passado a madrugada fazendo amor? Sem chance!”

– Desculpa Sam, mas temos um problema e você vai ter que voltar pra Pinda hoje mesmo.
– O que foi? – perguntei surpresa – Na verdade nem sei em que cidade eu tô agora! – coloquei a mão na cabeça.

Ele riu e respondeu:

– Você está no Rio menina, mas terá de voltar pra Pindamonhangaba hoje. É… Aquele empreendimento… Deu um probleminha.
– O que foi afinal?
– Parece que morreu alguém lá na obra de ontem pra hoje. Um bêbado!
– UÉ??? – perguntei chocada – Meu Deus! Lamento mas um bêbado morre no canteiro e EU tenho que ir pra lá? Fazer o que??
– Samantha você é a responsável técnica pela obra. Tem que ir lá querendo ou não. É a lei!
– Quem morreu? – Alex acordou assustada e ficou me olhando.
– Não é nada de mais Sam. A polícia vai pegar seu depoimento e acabou-se.
– Depoimento de que? Quê que eu sei desse caso?
– Depoimento? Morte? Sammy, quem está falando com você?
– Espera um pouco. – falei com Júlio e tampei a boca do telefone – Júlio disse que um bêbado morreu na obra lá em Pinda e eu vou ter que ir pra lá depor, minha linda.
– Ah não! Passa isso! – pegou o telefone da minha mão – Júlio, bom dia, ela não irá assim perdida. Precisa de advogado e vocês têm que providenciar isso para ela. – pausou – Claro que sim, senão EU não vou deixar ela ir! – fazia cara de zangada.
Achei engraçadinho e beijei seu rosto. Júlio disse mais algumas coisas e ela respondeu:
– Estamos perto do natal e nossas coisas estão uma bagunça, e você ainda vem com essa? Olha, ela só vai com advogado! Eu conheço uma pessoa, mas vocês pagarão pelo trabalho dela. – pausou – Espero. Tchau.- pôs o telefone no gancho.
– E aí minha defensora, o que deu isso tudo? – beijei sua testa.
– Ele aceitou pagar o advogado e vai nos dar folga entre natal e ano novo. – pegou o telefone de novo.
– Uau! Que mulher de raça essa minha! – ri – Que vai fazer?
– Ligar para Sandra. Vou pedir para ela ir com você.
– Ai meu Deus, e mais essa! – me espreguicei e sentei na cama – Vou tomar um banho e me preparar pra voltar pra Pinda. – fui para o banheiro.

“Sandra vai adorar ser acordada em pleno sábado a uma hora dessas…”

Resolvidos os problemas, conseguimos três semanas de sossego no Rio. Passamos o natal em Cabo Frio com Sandra, Nara, Paulinha e Ruth e foi muito caloroso e divertido. No dia 25 fizemos um almoço vespertino com o que sobrou da ceia e ficamos sentadas na mesa batendo papo por um longo tempo.

– Ai gente vocês não sabem. Há dois dias nasceu meu irmãozinho mais novo. E olha que a minha mãe tem 51 anos! Foi um parto super tranqüilo, segundo eu soube, e o menino é um amor! – Paulinha disse.
– Nossa, sua mãe é uma mulher saudável! Ter filho aos 51 anos não é pra qualquer uma!– comentei.
– Ah, isso porque você não conheceu minha avó. Quando o filho caçula nasceu ela estava com 85anos! – disse Ruth.
– Ai meu Deus Ruth.. – Sandra riu – Você e suas estórias..
– Mas em relação a seu irmão, você foi vê-lo quando? – Alex perguntou.

Paulinha abaixou a cabeça entristecida e respondeu:

– Eu não fui. Meus pais não falam comigo desde que souberam que sou lésbica. Por isso morava no alojamento. – respirou fundo – Foi uma de minhas de irmãs que me disse.
– Você tem muitos irmãos? – Sandra perguntou.
– Agora dez.
– Gente! Que disposição, hein? – Nara comentou rindo – Mas não fique triste meu amor, ou pelo menos não pense nisso. Eu sou rompida com a família quase toda. Só mamãe fala comigo. – sorriu – E mesmo assim sem que meu pai saiba.
– Minha família sempre foi toda porra louca. Meu pai é um pintor maluco que vive em Veneza, mamãe mora em Recife com um garotão 20 anos mais novo e meus irmãos estão por aí. Ninguém me condena ou se mete na minha vida, e quando a gente se encontra é só alegria. – disse Sandra.
– Minha família não sabe de mim. Só meu ex marido, que esconde isso a sete chaves, e minhas filhas. Elas… Bem, não temos um relacionamento tranqüilo não. Mas não sei se o fato de eu ser lésbica afeta isso em alguma coisa; acho que são as coisas da adolescência. Sei lá! Em Araras com certeza ninguém sabe.
– Meus pais me renegaram também, mas não o resto da família. Pelo menos as pessoas mais interessantes não. – Alex disse – O mal que nos façam não deve merecer o nosso sacrifício, mesmo que seja difícil.
– Bem, meus pais foram mais práticos e não esperaram eu me descobrir lésbica pra me renegar; fizeram isso logo no berço! Mas quando vovó era viva e soube de meu amor por uma loura aceitou e respeitou. Bem ou mal sempre esteve do meu lado.

Todas ficaram em silêncio. Eu comentei isso sem problemas, porém percebi que elas ficaram com “pena” de mim.

– Vamos mudar de assunto que esse papo de família é complicação pura! – Nara olhou para Alex e eu – Conta aí gente, vocês passaram o ano todo fazendo jus ao ditado de que pedra que rola não cria limo. Deve ter acontecido muita coisa interessante. Fala aí pra gente!

Alex e eu nos entreolhamos e rimos.

– É, teve muita história sim. – respondi e pensei em alguma coisa para contar – A primeira doideira aconteceu em Volta Redonda. Alex e eu ficamos amigas de uma das camareiras do hotel, que já era uma senhora e se chama Cleide. Ela é muito pobre, e até lavava nossa roupa por fora pra defender um troco.
– Apesar da idade ela tinha uma filha de 14 anos que estava para fazer aniversário. Então nós decidimos ajudar e providenciamos missa e festa para a menina, que se chama Carmem Lucia. Ela quis que tudo fosse no próprio dia do aniversário, que caiu em uma sexta.
– Alex cuidou de tudo por telefone, e dona Cleide acertou pessoalmente com as pessoas envolvidas. A madrinha da Carmem se chama Morena, e ficou acertado que no dia do aniversário essa mulher levaria ela de carro pra missa e pra festa. – ri – Aconteceu que no dia, Alex e eu ficamos pegadas no trabalho e chegamos na missa super atrasadas.
– Nós descemos do carro correndo e na porta da igreja havia uma senhora que quando nos viu ficou fazendo um monte de gestos lá para dentro.
– Aí nós subimos as escadas e essa coroa reapareceu e disse me olhando de cara feia: “Morena, isso é hora de trazer a menina?”. E aí pegou Alex pelo braço e disse: “Vem minha filha!”. A igreja tava cheia de gente, já tocavam até uma música de entrada da debutante e Alex estava tão abestalhada que mexia a boca e não saía som.
– Ela me empurrava para a frente e ficava dizendo baixinho: “Vai, vai, menina!”. E eu recuava e ela me empurrava de novo, até que fiquei paralisada, morta de vergonha e vermelha como nem sei dizer. Sem contar que nessas horas não consigo falar português! O padre me olhava e fazia sinal discretamente me chamando para o altar.
– As pessoas olhavam intrigadas e ouvi alguém comentando: “Carmem tá tão diferente! Não é possível! Até branca ficou!”
– Mas e aí?? – Nara ria – Você não fez nada pra ajudar ela, mulher? – me bateu no braço.
– Eu fui falar com a coroa e ela me deu uns tapas no braço reclamando que eu tava atrapalhando a cerimônia e deixando a menina sem graça. Então puxei Alex pela mão e falei que aquela não era a aniversariante. E aí nesse exato momento chegaram Carmem, dona Cleide e Morena. A coroa então mandou parar a música e botou as três pra fora da igreja. Depois mandou que entrassem de novo e aí a coisa correu normal.
– Mas por que ela pensou que Alex era a aniversariante? Elas deveriam ser bem diferentes, não? – Paulinha perguntou rindo.
– Completamente! Carmem é gordinha, alta e mulata. E põe mulata nisso! – respondi.
– E a tal Morena? – perguntou Sandra.
– Branca como eu e da minha altura. – Alex respondeu rindo.
– É que a coroa achou que Morena não fosse o nome da mulher, mas o apelido. E achou que a minha linda tava com carinha de debutante. Mas também vocês tinham que ver! – olhei para Alex – Tava lindinha de vestido longuete amarelinho…

Ela sorriu e me beijou na boca.

– E quem era essa coroa afinal?? – Nara perguntou intrigada.
– Até hoje a gente não sabe… – respondi sorrindo.
– Ai meu Deus que coisa. – Ruth ria – Aconteceu igual comigo em Araras. No dia do meu casamento o padre…
– Ai não Ruth pára. – Paulinha ralhou – Conta mais gente, que mais aconteceu?
– Teve o fuzuê dos besouros em Timóteo. – falei rindo
– Ai não Sammy, essa não! – Alex tampou o rosto com as mãos e riu.
– Ai, mas é agora que eu quero saber mesmo! – Sandra disse rindo – Conta! Conta! Conta! – batia palmas.
– Pode, linda? – olhei para ela.
– Ah, conta!!! – Paulinha fez cara de choro.
– Está bem! – Alex passou as mãos nos cabelos.
– Um dia em Timóteo a gente ficou até tarde no canteiro porque o caminhão Munk que eu pedi chegou atrasadão. Já eram umas sete e pouco da noite e a gente lá. Então o motorista, que era péssimo, quebrou o galho de uma árvore com o braço do Munk. Um pedaço de um metro e meio, por aí. – tentei mostrar o tamanho com os braços
– Aí a árvore estava podre, eu acho, porque a madeira era oca, e saiu de lá de dentro uma nuvem com uns 200 besouros do tamanho dos pés dela. – apontou para mim.
– Sério??? – Nara arregalou os olhos.
– Onde se ouviu 200 leia-se uns 30, e do tamanho do meu dedo indicador. – mostrei o dedo.
– Nossa que diferença! – Paulinha riu e olhou para Alex – Você tem andado conversando muito com
– Ei!! – Ruth protestou.
– Que seja! Eram besouros medonhos e eu fiquei sem chão. Uns soldadores estavam trabalhando e os bichos voavam como loucos por conta da luz que se forma durante a soldagem. Tinha que ouvir o zumbido deles! Era de arrepiar!
– Alex pulava e gritava como se estivesse louca. Quando ouvi os primeiros gritos me pareceu até que alguém matava um porco! – levei um tapa no braço – Ai!
– Eu fiquei desesperada!
– Os soldadores não conseguiam mais trabalhar porque os bichos vinham em cima mesmo! Davam cada rasante! E Alex muito menos conseguia trabalhar.
– E você não teve medo Sam?
– Ah, qual é Sandra? Se liga! Favelada, acostumada com traficante, PM e tiro comendo solto no morro por todo lado vou ter medo de besouro? É ruim, hein? – respondi revoltada – O que eu fiz foi pegar um tubo de 5m que tava de bobeira lá e amarrar uma lâmpada de 100W na ponta. Chamei dois caras e a gente fincou o tubo no chão, na vertical, e aí quando acendeu a luz a besourada ficou girando na órbita da lâmpada. Alex podia ficar em paz, os caras podiam voltar a soldar e o problema tava resolvido.
– Mas creio que depois dessa, a sua moral ficou abalada nessa obra… – Ruth comentou olhando para Alex.
– Na verdade, ninguém nunca nem deu bola para o meu escândalo!
– Isso porque houve um outro pior! – acrescentei rindo – O maior machão da obra vinha com três sacos de cimento nas costas e quando viu a besourada jogou tudo longe e deu tanto grito!! E cada grito mais fino que os dela! Pra azar do homem um besouro ainda pousou e se enganchou não sei como na camisa dele e aí acabou o mundo! O cara se espanava todo e fazia uns movimentos estranhos… igual a Carla Perez dançando o tchan. – tentei imitar.
– E então só se falava NESSE mico e não no meu. O pobre ganhou até o apelido de Globeleza.
– E essa maluquinha foi parar no alto da estrutura da ponte rolante e depois não conseguia mais descer! E olha, eram quase 10m de altura! – beijei sua cabeça – Me deu trabalho pra resgatar minha gata!
– Nem sei como subi lá, mas quando vi já estava no alto! – Alex ria.
– Quando eu era criança lá em Araras papai fez um balanço pra gente no galho da árvore e eu fui com as primas brincar nele. O diacho não agüentou o nosso peso e quebrou. Saíram só dois besouros, mas com cada couraça que parecia de aço. Um deles até derrubou o cavalo no chão e o outro virou o carro de papai. Aí o velho me pôs de castigo achando que fosse eu a culpada.
– Meu Deus criatura!! – Sandra ria com a mão na boca – Que besouro é esse que derruba cavalo e vira carro???
– E uma criança fazendo isso também, Deus do céu! – comentei
– Eu era bem alimentada, tá pensando o que? – Ruth mostrou o bíceps magricela.
– Você e os besouros… – Paulinha disse balançando a cabeça negativamente – Mas aí, que mais? – olhou para Alex.
– Ah! A nossa chegada em Ipatinga. Foi hilária! – olhou para mim – Lembra, amor?
– Se lembro!
– É Minas também, não é?
– É Nara. – ri – A gente saiu da Rodoviária Novo Rio direto pra lá. Mas o ônibus era Rio – Timóteo e eu nunca tinha ido naquela cidade antes.
– Eu já, mas estava de noite e era difícil reconhecer.
– E o motorista parava nos lugares, mas não dizia nada e a gente tinha que adivinhar. Então quando já estávamos em Minas há horas eu comecei a perguntar: “É aqui? É aqui?”
– E o homem se limitava a balançar a cabeça negando. – imitou o motorista.
– Então lá pelas tantas eu parei de perguntar. Daí por volta de umas cinco da manhã a gente pára em uma rodoviária sem nome e o cara diz que vai ficar parado lá por 20 minutos.
– Queríamos fazer xixi e então eu avisei a ele que nós iríamos descer. Fomos no banheiro e havia uma roleta na porta. O detalhe é que a roleta era trancada com cadeado e a servente tornou a trancá-la depois que a gente entrou.
– Aí eu perguntei: “Pra que isso se a gente já vai sair?” E ela disse que num instante abria e fechava aquele maldito cadeado.
– Então entramos nas cabines e de repente ouvi um ronco de motor e gritei apavorada: “Sammy, o ônibus está indo embora!!!!”
– E eu respondi: “Não é possível!! Não faz nem cinco minutos que estamos aqui!!”
– Mas eu saí de lá de dentro assim mesmo e cheguei perto da roleta. Vi o ônibus partindo e me desesperei. A servente se apavorou e não conseguia abrir o cadeado e nem eu conseguia pular a roleta.
– E isso porque ela viajou toda arrumadinha e de salto alto! – comentei rindo.
– Samantha perdeu a paciência e tomou a chave das mãos da mulher e disse: “Deixa que eu abro esse diabo!”
– Samantha perdendo a paciência?? Que coisa diferente!! – Sandra disse debochada.
Fiz careta para ela.
– Eu sei que uma vez aberta a roleta saímos correndo rua afora e eu nem tinha fechado as calças direito. Corria segurando a roupa pela cintura e pensando que aquilo não podia estar acontecendo.
– E ainda começou a chover! Lembra? – olhou para mim.
– Ô!!- revirei os olhos.
– Nós corríamos e o ônibus se distanciava cada vez mais. Eu gritava, mas o motorista não ouvia.
– Aí eu disse: “Alex, vamos gritar o nome da empresa que pode dar certo!” E ela então parou na rua encheu o peito de ar e deu um berro ensurdecedor!
– Mil e um!!!!!!!!!!!!!!!!!!! – repetiu os gestos
– E o motorista parou na mesma hora!
– Não brinca?? – Paulinha perguntou.
– Foi sim, menina! Aí nós corremos até o ônibus e o motorista abriu a porta. Samantha estava possessa e subiu os degraus furiosa pegando o homem pela camisa. Ele arregalou os olhos e ela disse: “Eu não falei que a gente ia descer em Ipatinga?? E ela não te disse que a gente ia no banheiro?? Por que se mandou e deixou a gente lá?? Nossas malas estão aqui, você não sabe??”
– Ele então se desvencilhou de mim todo humildezinho e disse: “Mas, aqui é Ipatinga!”
– Ah, meu Deus e o canalha nem pra falar! Ele queria roubar as malas de vocês, é isso? – Nara perguntou intrigada.
– Sei lá! Só sei que ele abriu o maleiro do ônibus e nós pegamos o que era nosso. Voltamos pra rodoviária debaixo de chuva e empurrando aquelas malas pesadas. Sorte que Alex sugeriu da gente comprar mala com rodinha.
– Pegamos um táxi então e fomos para o hotel. Quando chegamos lá o recepcionista pareceu ter visto dois monstros. Senti que ele se apavorou conosco.
– Nem fez aquela pergunta clássica: “Fizeram boa viagem?”
– Mas por que? – Sandra perguntou.
– Porque nós estávamos ensopadas, sujas, descabeladas e um dos meus sapatos estava sem salto. Este se perdeu pelas ruas de Ipatinga durante minha corrida.
– E eu, naquela confusão toda, esqueci de fechar as calças e cheguei lá com as coisas abertas!

Elas ficaram rindo de nós e Ruth começou a falar:

– Ai, meninas vocês estão me fazendo passar por um verdadeiro túnel do tempo! Quando eu era adolescente e fui passar as férias em Santos, o motorista deu uma paradinha em Itanhaém e eu fui no banheiro. Tinha comido um virado a paulista que não caiu bem e aí sabe como é. Só sei que o cara me esqueceu e eu tive de sair correndo atrás do ônibus. Mas o motorista ouvia mal e não percebeu meus gritos. Quando fui alcançar o ônibus ele estava parando numa rodoviária e eu olhei pra cima e li “Bem vindos a Santos”!
– Que é isso Ruth?? Entre Itanhaém e Santos são quase 60km!!! – Nara disse dando um tapa na perna da outra.
– Ah, naquela época eu tava sarada!
– Minha nossa… – Paulinha tampou o rosto.
– Em Belo Horizonte Alex foi a sensação da obra. Era praticamente todo mundo apaixonado por ela. Era um tal caixa de bombom, bicho de pelúcia, flores… Tudo isso chegando no hotel quase que diariamente.
– Ah, mas na obra eles levavam o trabalho a sério! – segurou minha mão.
– É, mas fora dela me tiravam do sério! – olhei para as meninas – Sabia que um mestre de obras teve a audácia de ir fazer serenata na nossa janela? O desgraçado foi no hotel, descobriu o número do quarto e se posicionou pra cantar pra ela.
– E você, Sam? – Sandra já perguntou rindo.
– Encheu a lata de lixo de xixi e derramou no meu apaixonado! Nem sabia que ela era capaz de produzir tanto patrimônio líquido assim! – ela riu e me deu um tapinha no braço.
– E aí??????? – Paulinha perguntou rindo.
– E aí que eu dei queixa na recepção do hotel, ameacei chamar a polícia e só não fui me socar com o cara lá fora porque ela não deixou. – apontei para Alex.
– Depois disso acho que diminuiu bastante o assédio. Eles perceberam que eu tinha dona. – beijou-me na boca e sorriu – E passaram a fazer uns comentariozinhos desagradáveis, que Sammy resolveu ameaçando alguns de demissão.
– Nossa que mulher braba, sô!!! – Sandra disse me provocando.
– Vem mexer com o que é meu?
– Em Vitória apareceu um profeta na obra. Era um homem barbado que vestia uma camisola branca. Seus cabelos eram longos e ele ainda portava um cajado. Vivia por lá e cá pregando o fim do mundo e falando de um evangelho que só ele conhecia.
– Mas Alex, como esse maluco conseguia entrar lá?
– Eu não sei Ruth. A gente fazia de tudo, mas ele parecia lagartixa. Escalava qualquer obstáculo e entrava mesmo. O pessoal da obra ficava louco com ele.
– E você, Sam? Não perdeu a paciência, não? – Nara ficou me provocando.
– Olha ela me provocando, amor! – olhei para Alex.
– Pare de implicar com ela, menina boba! – Alex fingiu estar zangada – Samantha tinha pena do pobre. E eu tentava conversar com ele, mas o profeta parecia viver em outro mundo!
– Aí eu me enchi e um dia peguei um carrinho de mão cheio de tijolo e disse: “Toma aqui profeta, carrega!” E ele carregou.
– Ela ainda o colocou para ajudar a mexer massa com o cajado! – ria divertida.
– E aí? Aconteceu o que? – Paulinha perguntou rindo
– Nunca mais apareceu! – ri – Ele era doido, mas não era maluco. Não queria saber de trabalho não!
– Ai meu Deus! Como você foi se casar com uma maluca dessas? – Sandra perguntou a Alex.

Ela olhou para mim e puxou para um beijo.

– Eu não gosto de nada bem comportado… – respondeu sensualmente.
– Ui! – Nara se abanou.
– Eu lembro que teve uma época que você foi sozinha pra São Paulo. Até me ligou pedindo umas dicas da cidade. – Paulinha disse.
– Foi. E aí aconteceu o lance do Ronaldinho… – olhou para mim de rabo de olho
– Humpf! – fiz cara feia.
– Quem era esse? – Ruth perguntou.
– Uma criatura que vivia atrás de mim, fazia a maior festa quando eu chegava e estava sempre a meus pés.
– E você aceitou isso numa boa? – Sandra me perguntou desconfiada.
– Ah, aceitei! Peguei a uma Ponte Aérea em plena quarta-feira à noite e fui lá ver quem era esse tal Ronaldinho que ela tanto falava.
– Ela chegou linda, usando uma saia azul marinho de linho, uma blusa branca de alças e coladinha no corpo, óculos escuros nos cabelos e sapatos de salto. Trazia o blazer no braço e uma bolsa do outro lado.
– E quem era essa cara afinal? – Ruth continuava intrigada.
– Um cachorro que não saía da obra! Acredita que ela me fez morrer de ciúmes de um vira lata??
– Ah, mas valeu a pena! Aquela noite foi o máximo… – beijou meu rosto.
– E você por acaso não tem ciúmes dela? – Nara perguntou a Alex – Eu sei que marca em cima bonitinho…
– O que?? Essa lourinha marcou em cima em Volta Redonda, Ipatinga, Timóteo, BH, Vitória… em todo lugar. – olhei para ela sorrindo – A danada fica de olho mesmo.
– Ah, mas eu me aborreci mesmo em Guaratinguetá! Trabalhávamos perto da Escola de Cadetes e aqueles homens são como cachorros no cio! Qualquer oportunidade que tinham de sair estavam lá enchendo. E eles ficaram loucos por ela!
– Alex, você tinha um punhado de admiradores no meio deles…
– E você tinha quase a Escola inteira… Acredita que eles tiveram a ousadia de pendurar uma faixa para ela em frente ao canteiro? Escreveram assim: “Samantha, rainha da construção civil e musa de Guará. Nós, os fiéis súditos, a saudamos de pé!”
Vejam só! – pôs as mãos na cintura – Ainda com frases de duplo sentido!
– A faixa não teve nem 2 horas de vida depois de ter sido vista por ela. Senti um cheiro de queimado e quando vi Alex havia incendiado a pobre completamente. – ri – Criou um princípio de incêndio, mas ela soube debelá-lo. – ri novamente
– Eu, hein? Gente sem noção…
– É… Mas a barra pesada foi mesmo agora há poucos dias lá em Pinda. Um bêbado morreu na obra, lá pelas tantas da madrugada, e como eu era a responsável técnica tive que ir depor na delegacia. Sandra foi comigo!
– Eu queria ter ido também mas ela não deixou…
– Não era preciso Alex. Além do mais você não tá habituada com esse ambiente de delegacia. É chato!
– Eu sei que nós chegamos lá poderosérrrrrrrrimas – Sandra fez um gestual – e os caras não sabiam nem o que fazer com a gente. A delegacia parou!!!
– Ah, exibida… – Nara reclamou enciumada.
– Pior que foi. A gente chegou e tudo parou mesmo. Prestei meu depoimento e depois de um pouco tempo tudo se resolveu e a gente saiu.
– Ah, mas não por menos! Ivete Sangalo e Xena chegando assim de sopetão numa delegacia? É pra chocar mesmo… – Sandra dizia orgulhosa – Sem contar a minha competência técnica…
– Sei! – Nara cruzou os braços de cara feia.
– Mas e o homem? Ele tinha documentos? E não tinha família? – Paulinha perguntou penalizada.
– Só um documento. Mas não se soube de família. – respondi.
– Porém Sammy e Sandra providenciaram um enterro digno ao pobre coitado. – beijou-me na boca – E eu fiquei orgulhosa… – olhava para mim sorrindo.
– Mas vocês são caridosas. Apesar de tudo ainda encontram tempo pra ir em orfanatos e coisas do gênero. Eu me espanto é de dona Sandra ter aberto a mão! – Nara olhou para outra de cara feia.
– Desde quando eu sou pão dura????
– Um dia desses Samantha, eu fui naquele hospital de crianças aidéticas que você falou. Nós duas fomos, aliás – Ruth apontou para si e Paulinha – e olha, foi de cortar o coração! Mas eu me rendi àqueles olhinhos sem alegria. De agora em diante iremos sempre.
– Ruth organizou uma bela festa de natal no dia 20 pras crianças de rua. – Paulinha beijou a companheira na boca e sorriu para ela – Eu também fiquei orgulhosa!
– Eu gostaria de poder ajudar, mas não sei nem por onde começar…
– Pode ir conosco quando a gente for visitar alguma instituição, Nara. E pode ir com Ruth e Paulinha também. Não acredito que elas se oponham – as duas balançaram a cabeça negativamente – É difícil começar mesmo, e as próprias pessoas ajudadas muitas vezes são intolerantes e complicadas. Mas há que se relevar pelo que elas vivem. E o que se sente depois é uma belíssima sensação de dever cumprido!
– Eu também penso em ajudar. A história daquele bêbado de Pindamonhangaba mexeu comigo, sabia? Mesmo sendo advogada experiente, tive muita pena de alguém morrer assim, sem noção de realidade e em completa solidão.
– É como Alex disse. Precisa de um pontapé inicial e depois as coisas vão fluindo. Não me considero caridosa, mas fazendo algo de minha obrigação. No começo da carreira trabalhei muito em favela e não me arrependo, apesar de viver correndo de tiro e me estrepando por isso. – pausei um pouco – Eu sei o que é ser bem pobre, e isso é muito duro. Sei o que é lutar por algo que desde o começo as pessoas dizem que você não terá. Sei o que é ser o cavalo azarão. Não foi mole entrar pra uma faculdade como a UFRJ. Não foi mole estudar na Escola de Engenharia, onde ser pobre e favelada, por si só, já era uma ousadia. Eu tive que ralar muiiiito! Mas nunca duvidei de que o estudo e o trabalho são os melhores meios pra alguém progredir. E… bem! EU PRECISO ir em orfanatos. Não é nem caridade com as crianças é caridade comigo. – meus olhos se encheram de lágrimas – Eu sei o que é esperar por uma visita quem nunca vem.
– Você… não se supera isso facilmente. Não é? – Ruth perguntou com muita delicadeza.

Olhei para ela e respondi:

– Certas coisas você não supera! Apenas aprende a viver com elas. – senti que Alex segurava minha mão.