Search for content, post, videos

Tudo muda, tudo passa – Cap 9 – Parte 3

Alex viajou e eu fiquei me corroendo de saudades e preocupação. Ela me ligava duas ou três vezes por dia para dar notícias e isso só aumentava minha ansiedade para que voltasse; mas isso só no sábado.

Na terça voltei para casa um pouco mais cedo e de repente me veio uma idéia maluca:

“Vou falar com Jack que Alex se formou brilhantemente e já está com emprego garantido!”

Tomei um banho, mudei de roupa e fui direto para a cobertura da família Flatcher. O porteiro pingüim me recebeu com a empáfia de sempre.

– Diga que é Samantha, mas afaste o interfone do ouvido pra não ficar surdo. Ela tem um agudo ensurdecedor.

Ele não entendeu, mas me anunciou assim mesmo. Para minha surpresa, Jack me recebeu e autorizou a subir sem dar chiliques.

Chegando na cobertura Dolores abriu a porta desconfiada:

– Boa noite senhorita, quer dizer, Samantha.

– Boa noite Dolores. Cadê a patroa? – entrei .

– Ela já vem. – aproximou-se de mim – Tenho que vazar de novo? Vai ter briga? – arregalou os olhos.

– Não que eu imagine. Mas fique atenta, pois nessa cobertura os diálogos costumam ser sempre… acalorados.

Ouvi os passos de Jack e ela veio impecavelmente trajando um vestido preto com detalhes em roxo.

“Humpf! Agora o tema dela é Halloween.”

– Recebi você mais por curiosidade que por qualquer outra coisa. Que veio fazer aqui? – olhou-me de cima a baixo com reprovação.

– Boa noite pra você também Jack, e sim, eu vou bem, e você? – perguntei debochadamente – Vejo que já passou a moda dos turbantes. – sorri.

Ela amarrou o cenho e respondeu contrariada:

– Se veio aqui apenas me provocar…

– Não, eu vim em paz! É que nós temos esse problema de não saber como iniciar uma conversa. Bem, vim falar sobre sua filha.

Ela virou-se de costas e perguntou:

– O que há?

– Ela se formou brilhantemente em dezembro. Teve ótimo desempenho e só não foi premiada por conta de dois décimos. Defendeu um notável projeto final e está agora viajando a trabalho. Já está com emprego nas mãos, praticamente. Chama a atenção por sua criatividade e competência em unir arquitetura e engenharia harmoniosamente bem.

Ela respirou fundo, balançou a cabeça e virou-se de frente para mim de novo. Chamou Dolores e pediu um drinque. Eu aceitei apenas água.

– Vamos sentar. – convidou.

Sentamos e ela permaneceu calada até que Dolores preparasse sua bebida. Quando a empregada se retirou, comentou:

– Alex aprende muito rápido. Ela aprendeu a falar cedo, alfabetizou-se cedo, encerrou o ensino secundário muito jovem e passou neste vestibular de primeira. Domina o português, fala francês fluentemente, aprendeu piano com muita facilidade. É muito inteligente. Teria destaque em qualquer ramo que atuasse. – senti uma certa tristeza em sua voz.

– Você sente saudades. Por que não supera o que passou e a procura pra conversar? Ela é sua filha e não tem sentido isso. Você já viu que nosso relacionamento não era apenas fogo de palha ou uma ilusão passageira. Não precisa concordar com as escolhas que ela fez e muito menos precisa gostar de mim; basta ser mãe dela!

Jack riu e me olhou nos olhos:

– Que está querendo? Dinheiro?

Balancei a cabeça contrariada.

– Será que é só nisso que você e seu marido pensam?? Dinheiro?? Eu não preciso do seu dinheiro. Nós não precisamos. Podemos não ter a renda do casal Flatcher, mas temos uma vida tranqüila e vamos comprar nosso apartamento próprio, não demora muito. – olhei bem para ela – O fato é: ela é sua filha e você a abandonou. Eu sei o que é ser abandonada e dói muito. Não queria que ela sentisse isso também.

– Ah, não? Mas você foi a causa de tudo.

– Ah, fui? Será? Eu, ou melhor, a intolerância de vocês só fez aumentar um abismo que sempre existiu. Você nunca foi mãe dela de verdade. Sempre esteve muito mais preocupada com as frivolidades do mundo da moda que com sua filha. E eu vou lhe dizer, conheço muitas mulheres que dariam tudo pra ter uma filha como Alexandra. Ela é maravilhosa e o mínimo que merecia era uma mãe e um pai que se orgulhassem dela, independentemente do fato de ser casada com uma mulher ou não.

– Casada? – riu escandalosamente – Essa é boa! Vejam só, casada! Chama o que vivem de casamento? Mulher com mulher? Vocês nem sabem o que é isso!

– Então o que é Jack? É ter um marido ausente, que viaja meio mundo, ou dormir com o motorista garotão? – encarei-a diretamente.

Jack corou completamente e me olhou com ódio.

– Ponha-se daqui pra fora agora mesmo ou chamo a polícia sua faveladazinha metida a alguma coisa! Quem você pensa que é? Saia daqui agora. – levantou-se irritada

.

Levantei-me e respirei fundo e coloquei um papel sobre a mesa de centro. Dolores saiu de não sei onde e veio correndo abrir a porta. Antes de sair ainda disse:

– Pense no que lhe disse. Deixei naquele papel o número do nosso telefone se quiser falar com Alex. Reconcilie com ela enquanto ainda pode. Ela ama você, apesar de tudo.

Jack nada respondeu e eu voltei para casa esperançosa de que ela procurasse a filha algum dia. Porém, o tempo passou e ela nunca veio. Se soubesse como a vida dá voltas e as coisas mudam sempre, sem que queiramos ou não, tenho certeza de que teria vindo. Mas a oportunidade aconteceu, e ela deixou passar. Que pena! Pior para ela.