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Tudo muda, tudo passa – Cap 9 – Parte 14

A reunião com o grupo envolvido na obra contou com fiscais e pessoal da prefeitura local. Resumidamente foi marcada por tumulto, histeria, palavrões, dedo na cara e socos na mesa. Tive que dar umas patadas em uns e outros e no final tudo se resolveu. Alex e eu iríamos trabalhar na supervisão das atividades e contratação de pessoal, além de resolver as trapalhadas que já haviam sido feitas. Precisaríamos ainda de mais dois colegas da firma, e eu já tinha em mente quem seriam. Uma das construtoras ia dançar e daí eles lá que se virassem com os contratos; nós não tínhamos nada com isso.

Ainda tive que voltar no canteiro e fiquei lá até umas três da tarde. Depois dei uma passada na praia para uma corrida e uns bons mergulhos.

No começo da noite passei no aeroporto para antecipar meu retorno para o dia seguinte e no guichê da Vasp soube que só haveria horário para às 15:00h. Liguei para Alex e Júlio contando as novidades. Ele aceitou minha sugestão e por telefone mesmo o grupo de trabalho foi escalado.
Ao dormir tive um sonho estranho, onde vovó me dizia que minha mãe vivia em um bairro humilde chamado Afogados, perto da estação de trem. Uma sucessão de imagens e rostos me confundiu e acordei tensa e suada.

Eram 8:00h e eu já estava no trem rumo ao Afogados. Vestia minha calça jeans surrada de obra, um par de sandálias baixas e uma blusa branca de alças. Não usava bolsa nem nada. Documento e dinheiro escondidos na calcinha, e para disfarçar, dez reais no bolso. Eu estava nervosa e embora houvesse lugar não conseguia me sentar.

Chegando na estação caminhei para a saída. Placas apontavam para uma tal Avenida Sul, e nem sei porque segui nessa direção. O ambiente era de muita pobreza. Crianças pequenas circulavam descabeladas e com o nariz escorrendo, esgoto e lixo por todo lado, cachorros magros reviravam sujeiras no chão. Continuei andando e de repente me dei conta de que não sabia para onde ir.

Pessoas me olhavam desconfiadas, eu suava frio. Vi casebres que disputavam pequenos pedaços de terra com um rio poluído. Mais adiante vi outras casas ainda mais pobres, onde muitas vezes folhas de papelão atuavam como parede.

“Folhas de papelão?”

A lembrança do sonho veio a minha mente:

“Eu andava em um lugar cheio de vielas estreitas, sentia um cheiro de azedo, como vômito, e ouvia crianças chorando. Olhei ao redor e vi casas erguidas com paredes de tábuas de madeira ou folhas de papelão. O chão em que pisava era de terra umedecida por valas de esgoto que corriam a céu aberto.”

Rapidamente me dirigi àquele lugar na esperança de reconhecer a casa do sonho, mas para meu desespero todas pareciam iguais. Comecei a pedir informações, mas sem sucesso. As horas foram passando e quando olhei no relógio já eram 12:15h.

“Que droga! Dei viagem perdida!”

Desanimadamente decidi ir embora, e voltei de cabeça baixa e mãos nos bolsos. Passei por umas vielas onde uns homens mal encarados assobiavam e me diziam gracinhas. Eu andava sem prestar atenção em nada quando de repente uma visão me despertou.

– Aquela casa…

“Parei de frente a uma casa horrível, quase se desmoronando, e de repente a tábua que servia de porta começou a se mexer. Vi uma mulher sair de lá de dentro, de cabeça baixa, e, uma vez do lado de fora, ela levantou a cabeça e me olhou. Ela era como eu, só que mais velha, e tinha os olhos pretos.”

– Ô meu Pai, obrigado!

Andei rapidamente até a casa e em frente à porta congelei. Era exatamente como no sonho. Idêntica!

“Cristo Santo, que eu faço agora?”

Passei a mão nos cabelos e cruzei os braços abraçando a mim mesma. Dei voltas sem sair do lugar, o coração acelerou, as mãos ficaram geladas.

“Ai meu Deus o que eu faço? Bato palmas e chamo o nome dela? E se ela tiver em casa eu digo o que? Oi, lembra de mim? Eu sou Samantha aquela filha que você não quis…”

A ansiedade me consumia e eu não conseguia sair do lugar até que uma voz me chamou à realidade.

– Ô mulé! Tu procura quem?

Procurei ver quem me falava, e era uma mulher de uns trinta e poucos anos, gorda, baixinha, com traços de índia.

– Ah… oi! A senhora sabe se aqui nessa casa mora… – comecei a esfregar as mãos – uma mulher… assim! O nome dela é…

– Aí quem mora é Beth! – apontou para a casa.

Abri a boca e não conseguia falar direito.

– É… é… Beth? Quer dizer… Elizabeth? Uma carioca que…

– Que parece até contigo mulé! É tua parenta, é? – pôs as mãos nas cadeiras e me olhou de cima a baixo.

– Parenta? – cocei a cabeça – É… conhecida… – engoli em seco – Sabe se ela tá aí? – apontei para casa rapidamente.

– Tá não! Ela foi botá mais o menino dela no hospital. Ele tá internado faz uns dia… Beth dá sorte com filho não…

“Eu tenho irmão!”

– Por que não dá sorte? – perguntei intrigada.

– Porque eles morre tudo! Primeiro foi Tatinha com onze ano, depois Rodrigo com sete e agora Diego tá… acho que não vinga também não! Pena que o bichinho num tem nem cinco aninho! – balançou a cabeça se lamentando.

“Os filhos dela morrem cedo! Eu devo ter sido a mais saudável. E justamente a única que ela não quis!”

– Ela é casada? – coloquei as mãos nos bolsos.

– É não… Ela era juntada com o pai do Diego, mas deu um arranca rabo dia desses e ela botou ele pra correr debaixo de caxotada na cabeça! – riu rapidamente – Ô mulé doida!

– E hoje ela não volta mais… né?

– Ai, volta não…

– Sabe em que hospital eles estão? – perguntei arriscando.

– Sei não… Ela ia pro posto todo dia, mas aí arrumou internação. Sei não…

– Tá… Então… – esfreguei o pé no chão – Então eu já vou. Outro dia eu volto aí. – comecei a andar – Tchau! – acenei.

Meu coração parecia que ia saltar do peito. Estava nervosa. Então era verdade e era ali mesmo que ela vivia. Minha mãe… Nossa, parecia mentira! E eu tinha até irmão.

– Ei! – a mulher me chamou.

Olhei para trás.

– Qual teu nome?

Pensei e respondi:

– Eleonora!