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Tudo muda, tudo passa – Cap 9 – Parte 13

Chegamos no sábado de manhã e fomos para casa. Alex lavou as roupas e arrumou as coisas que comprou. Eu fiz uma faxina e comprei comida no mercadinho próximo que estava aberto. Fui olhar a caixa de correio e havia um bilhete de dona Márcia avisando que queria a quitinete até o dia 30 de maio.

“Que beleza, temos 22 dias para achar outro lugar!”

– Alex, – abri a porta entrando em casa – dona Márcia escreveu em um bilhetinho que quer a quitinete até o final do mês! – fechei a porta.
– Ai amor, e agora? É pouco tempo para encontrar algo! – ela veio até a sala preocupada.
– Faremos aquele esquema de alugar outro lugar e no futuro comprar nosso apartamento. Amanhã eu compro o jornal e a gente lê nos Classificados. – coloquei as bolsas sobre a mesa e me aproximei beijando seus lábios – Fica tranqüila que vai dar tudo certo.
– E se Júlio ou Arthur arrumarem viagens para fazermos?
– A gente negocia de alternar. Vai uma e a outra fica.
– Se você não se incomodasse eu preferia ficar e procurar apartamento. – segurou minha mão.
– Não me incomodo não. Me sinto até mais segura com você aqui do que viajando sozinha. – abracei-a pela cintura.
– Você sempre age como se eu fosse uma menininha indefesa… – envolveu meu pescoço e beijou-me o queixo.
– Mas pra mim você é a minha menininha… – beijei sua boca – linda… – beijo – gostosa… – beijo – e indefesa… – mais beijo.

Nós nos abraçamos carinhosamente e então o telefone tocou.

– Deus do céu, quem será? – fiz cara feia – Não me diga que já é trabalho? – olhei para Alex
– Peraí amor, vou atender.

Caminhei até o telefone e atendi desconfiada. Alex foi até a mesa e começou a retirar as compras de dentro das bolsas.

– Alô?
– Alô Sam. Sou eu, Júlio! – riu – Como foi de viagem? Chegaram bem?
– Ah! Oi Júlio! – olhei para Alex contrariada. Ela resmungou algo. – Graças a Deus. Mas o que você manda? Não acredito que me ligou só pra fazer essa pergunta.
– Ai Sam, objetiva como sempre… Tudo bem, eu te liguei porque aconteceu muita coisa durante a ausência de vocês.
– Como o que? A despedida de Simone? – mordi a língua e sorri para Alex que sorriu balançando a cabeça.
– Bem, isso foi a menor das coisas… – pigarreou – Arthur teve um derrame e está em casa agora se recuperando. Perdeu os movimentos no lado direito do corpo, mas está recuperando. Tem uns quinze dias isso.
– E como ele está? Pode ser visitado?
– A mulher dele não faz questão. Fui lá e fiquei completamente sem graça. Só faltou me pedir pra ir embora. Mas ele passa bem.
– Nossa! – tampei a boca do telefone – Linda, Arthur teve um derrame, paralisou o lado direito e tá em casa se recuperando!
– Oh my God!- pôs a mão na boca.
– Com isso algumas outras coisas aconteceram. Sou mais ousado e quero expandir nossos tentáculos pelo país. Estou tentando ganhar um trabalho em Recife. Pretendem fazer um shopping lá, mas deu uns problemas na obra. Acho que a gente pode resolver esse pepino aí!
– E…? – perguntei desconfiada.
– E eu quero você ou Alex lá na segunda. Ficar lá uns três dias pra sentir o clima e depois retornar a cidade pra arregaçar as mangas mesmo. Quero esse shopping pronto e na categoria!

Respirei fundo e respondi:

– Eu vou.

Comprei o jornal no domingo e ficamos lendo os Classificados. Chegamos a visitar três apartamentos e eram todos ruins. Arrumei a mala à noite e dormimos bem cedo.

No dia seguinte fomos para o escritório e Júlio me deus as passagens. O retorno era previsto para quinta pela manhã.

A nova secretária era uma bela ruiva de corpo escultural. Vestia roupas super provocantes, mas não era como Simone. Parecia ser mais na dela.

“Gente, que mulher! Mas ainda prefiro a minha!”

Li uns e-mails, conversei com Júlio sobre a nova empreitada, falei rapidamente com as pessoas, me despedi de Alex e fui para o Galeão. O vôo sairia às 11:00h.

Fiquei impressionada com Recife. A cidade era bonita, viva e desenvolvida. Fazia calor e o céu estava bem azul.

“Dia ideal pra uma boa praia!”

Deixei a mala no hotel, em Boa Viagem, vesti minha roupa de obra e peguei um táxi para o futuro shopping. O contato de Júlio me esperava e dei um toque no celular dele. O cara me recebeu no local onde seria o estacionamento e me explicou a situação. Ele era filho de um empreiteiro, que havia morrido de pouco e estava sofrendo para levar o negócio adiante. O homem falava tanto que me deixou confusa. Circulamos por todo canteiro e fiquei horrorizada com o que vi; muito amadorismo! Realmente estavam enrolando o rapaz. 
Fomos depois para seu escritório e conversamos sobre o projeto, que foi entregue por outra firma. Era muito bom, o problema era mesmo o pessoal de campo e a supervisão da obra. Marcamos uma reunião com todos os envolvidos para o dia seguinte, e então voltei para o hotel. Tão logo cheguei liguei para Alex. Já era noite.

Acordei de madrugada com insônia. Duas da manhã! Peguei uma garrafa de água no frigobar. A janela do meu quarto dava de frente para a famosa praia de Boa Viagem. Fiquei olhando para o mar e pensando. Lembrei das Feiticeiras; recebi e-mail de todas elas.

Soninha estava grávida de quatro meses do primeiro filho e tinha acabado de descobrir isso. “Bem que eu notei que a menstruação tava demorando muito! Mas sabem como sou distraída…” Ah, isso era bem a cara dela. Nós não nos víamos desde a formatura de Aline.

“Cara, e isso foi no final de 97…”

Tais estava a três períodos de concluir o tal curso de relações diplomáticas, mas sua vida continuava a mesma zoeira. Planejava ir para Macchu Picchu nas férias de meio de ano com uma patota que formou em Sampa.

Aline estava em São Paulo também por conta do trabalho e marcou de se encontrar com Tais. Ela disse que estava em seu melhor espírito guerreiro e ninguém melhor que Tais para acompanhá-la. Dona Zuzu arrumou namorado sério na emissora, um rapaz 15 anos mais jovem, e Aline estava em crise com isso.

“Que bobagem! Deixa a mulher namorar…”

Respirei fundo. Eu sentia uma tristeza teimosa que mesmo a lembrança divertida das amigas não conseguia atenuar. Meu peito doía e vez por outra os olhos se enchiam de lágrimas.

O nordeste me lembrava vovó, e Recife me trazia o sonho que tive com minha mãe. Seria verdade? Será que ela realmente morava lá? E vovó morreu sem rever a filha… Que pena!
Vovó…Dona Eleonora… Imediatamente vislumbrei sua imagem: o rosto marcado por rugas de sofrimento, os cabelos de poucos fios brancos, o par de olhos muito escuros que sustentavam um olhar sem emoções, mas que parecia eternamente esperar por algo que eu nunca soube o que era. Lembrei de seu silêncio, de sua figura absorta nas novelas, de quando consertávamos o barraco após fortes chuvas de verão ou invasões de traficantes, moleques ou policiais. Lembrei de quando subíamos o morro carregando pesados baldes de água.

Lembrei dos tiros, de quando ficávamos deitadas no chão com medo. Lembrei de tantas vezes vê-la ajoelhada rezando para a virgem, e só depois entendi que ela pedia para que eu pudesse viver o que vivo hoje. Mas não pôde ver…
Lágrimas rolavam livres molhando meu rosto e a brisa tratava de secá-las a seu jeito. Fechei os olhos e rememorei várias cenas. Cheguei a sentir o abraço que trocamos no dia em que ela me contou sobre seu passado. Lembrei de quando falei sobre Alex e eu, e o modo simples e natural como nos aceitou. Lembrei dos passeios que fizemos, de sua alegria no dia em que defendi o projeto de formatura, do modo como se lançou de joelhos quando soube que ganhei o concurso e uma proposta de emprego. Lembrei de nossos últimos momentos felizes e da fatalidade. Eu fiz tantas promessas, mas não tive tempo de cumpri-las…

Aquele dia… O pior de todos! Maldito projétil que pôs fim a uma passagem na Terra marcada por dor e sofrimento. E dor infernal que sinto e ainda maltrata tanto!

“Ah Deus, ah Deus…Por quê?”

Não tinha coragem de olhar para o céu. Nunca tinha quando me dirigia a Ele.

“Deus, eu queria tanto que ela tivesse vivido essa fase, em que não se precisa buscar água em balde, sofrer por conta de chuva ou viver em pânico por conta de tiros… Eu queria que ela tivesse vivido essa fase, em que não precisaria fazer limpeza na casa dos outros ou esperar ganhar coisas usadas para ter um pouco mais de conforto. Eu queria tê-la feito sorrir mais. Eu queria ter dito tanta coisa…”

As emoções explodiram no meu peito e chorei dolorosamente por um bom tempo.