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Tudo muda, tudo passa – Cap 9 – Parte 1

“Dar-te-á a vida o que nela puseres,
Se o que semeares souberes,
De quanto é de ti e do teu suor.”

E o tempo foi passando e nossa vida foi seguindo muito bem. Voltei ao trabalho e logo em seguida entregamos a obra na Serrinha pronta. A melhor experiência foi no Vidigal, porque as pessoas lá gostam daquele morro e isso faz toda a diferença. Trabalhamos sem problemas e levamos quatro meses; e olha que era muito a ser feito! Ainda concluímos antes da época. No Dona Marta foi problemático e havia tiroteio quase todo dia. Passamos apenas dois meses lá porque decidimos jogar a toalha: sem condições.

O casamento de Soninha foi lindo, e os noivos estavam muito bonitos.

– Joga o buquê Soninha! – Aline gritava.

– Você tá tão doida assim pra casar?? – Taís brincou.

– Ai gente, eu achei esse buquê tão lindo! Quero jogar não… – Soninha olhou para as flores penalizada.

– Mas minha filha, onda já se viu não jogar o buquê!? – sua tia falava envergonhada.

– Eu quero um dublê de buquê! – disse chateada.

– Mas só tem esse! Menina, suas primas estão malucas esperando, joga logo isso! – a mãe pediu preocupada.

– Joga mulher, ou você corre risco de vida! – brinquei.

– Humpf! Se eu soubesse o que sei hoje, nunca tinha corrido atrás de um buquê! – resmungou uma senhora. E o buquê foi arremessado e devidamente destroçado por uma mulherada louca. Só Taís e nós ficamos de fora. Os noivos passaram a lua-de-mel em Porto Seguro e Soninha voltou satisfeita, e inclusive agradecendo às palavras de Alex.

Taís foi para São Paulo em março; fizemos uma festa de despedida. Ela começou o tal curso de relações diplomáticas, mas a julgar por seus e-mails, eu não notava muita diferença no comportamento.

“Gente, esse lugar tem muito homem bão dando sopa!! E quando sabem que sou carioca eu não preciso nem estalar os dedos. Tenho um verdadeiro harém! E os trouxas ainda acham que eles é que tão por cima!”

Aline estava bem com o namorado e já entendia mais de fórmula 1 que Galvão Bueno. Ela disse que se formaria no final do ano e dona Zuzu andava a mil com isso. Sandra e Nara romperam o polígono amoroso e estavam tentando recomeçar. Paulinha e Ruth estavam morando juntas no bairro Peixoto.

– Eu conheci esse Peixoto que deu o nome ao bairro. Era um amigo de papai lá de Araras!

– Ruth, menos! – Paulinha pediu envergonhada.

Alex estava ansiosa porque se formaria naquele ano, e arrumou de cuidar da formatura. Ela foi a presidente da comissão de festa, e andava feito louca preparando o projeto final de curso, estudando e correndo atrás de salão, decoração… Eu ajudava no que podia, mas não tinha muito tempo para isso. Basicamente apenas pagava as contas.

– Ai Sammy, você acha melhor o que? Gérberas ou rosas? – olhava umas fotos.

– Bem eu… – comecei a responder.

– E para as mesas? Eu escolho o cobre manchas claro com toalha escura ou contrário? – olhou para mim.

– Olha eu nem sei as tonalidades…

– E as cadeiras, têm que ter os fantasminhas… Que eu faço com eles? Com os fantasminhas? – levantou-se olhando para mim.

– Reza que de repente eles vão embora! – respondi rindo.

– Palhaça! – riu também.

Com o final dos trabalhos nas favelas, pegamos uma etapa de obras intensas na Barra e no Recreio, e eu estava usando ao máximo as estruturas metálicas nos projetos. Isso estava me dando muita abertura na carreira. Eu deixava de ser uma engenheira “peão” para ser uma engenheira mais “nobre”.

– Alex, fica tranqüila que hoje eu não corro mais de tiro. Se der mole sou eu quem atira!

– Ah é! – abraçou-me pela cintura – Agora você está chique demais! – beijou-me os lábios – Já dá até palestra…

– Dou outras coisas também! Mas depende pra quem! – abracei-a sorrindo.

– Acho bom, porque eu posso ser pior que traficante para defender o que é meu! – sorriu e me beijou de novo.

E finalmente dezembro chegou e com ele a data: a formatura de Alexandra Flatcher! Ela estava tão ansiosa que mal cabia em si. Seriam três dias de festa: o primeiro para a colação de grau, no auditório nobre da Escola de Engenharia da Universidade, o segundo para o baile, no Jockey Clube e o terceiro para o culto ecumênico, na Catedral. Nas vésperas de cada evento ela passou a manhã em salões de beleza e chegou a quase desistir dos vestidos que escolheu para usar. Eu estava bem mais calma, mas sentia um orgulho imenso em vê-la pronta para iniciar sua carreira.

– Que eu faço Sammy? O que eu visto? – colocou as mãos nos cabelos.

– Se for pra mim, nada! – peguei o vestido passado sobre a cama – Mas como vai ter platéia, recomendo esse!

Ela defendeu o projeto final duas semanas antes e eu fui assistir. Foi um trabalho conjugando engenharia e arquitetura e os professores ficaram admirados. Convidei Arthur e Júlio para prestigiarem e os dois cochichavam a respeito com empolgação. Paulinha foi ver também, ela estudava arquitetura, e gostou bastante.

– Vocês tão pensando o quê?! Eu sei onde amarro minha égua! – disse para os chefes que se entreolharam sem graça.

– Samantha!! – Alex me beliscou a perna discretamente.

O trabalho ganhou nota máxima e meus chefes a cumprimentaram abobalhados. Arthur chegou a me dizer que tinha uma conversa séria comigo para depois do ano novo, e agora Alex estava nos planos. “Será que vão contratá-la??”

Vó Dorte veio para a formatura e chegou uma semana antes. Estava totalmente recuperada e disse que veio para infernizar nosso verão. Os eventos festivos de Alex foram todos perfeitos, sem uma falha sequer e foram festas elogiadas por muito tempo. Ela foi uma das oradoras da turma, e, apesar de um palhaço ter gritado “sapatão”, ela falou muito bem e soube ser superior.

– Eu entendo essas manifestações tardias e sei como funciona a coisa no interior humano. Na falta de competências para conquistar, denigre-se. Típico de certas pessoas! – pausou – Lamento dizer isso! – sorriu debochada.

Estava linda, linda, linda. No auge de sua beleza! Foram dez pessoas participando além de nós: Vó Dorte, Paulinha, Ruth, Dolores, Nara, Sandra, Aline, dona Zuzu, Soninha e Taís. Murilinho inventou uma desculpa, mas nós sabíamos porque ele não foi. Desde que

 descobriu sobre nós, no dia em que se casou, notamos que estava diferente, e nunca comparecia onde nós estávamos.

– Deixa ele pra lá Alex! Bom que avisou antes e sobrou um convite que usamos bem! – respondi.

A formatura de Aline só teve festa e colação, e foi no final de semana seguinte. Ela

 convidou as Feiticeiras, Alex, vó Dorte e alguns parentes, além do namorado. Nunca vi uma formatura com tantos convidados. A festa foi no Clube Ginástico Português. No domingo, foi o “bota-fora”, segundo ela, e aí meia emissora de TV, dentre atores jovens e profissionais anônimos, apareceram em massa em seu apartamento. Soninha quase morreu de tanta tietagem e Taís fez a festa com a rapaziada. Essa aí, aliás, continuava uma louca.

Vó Dorte voltou correndo para a Inglaterra no dia 23 de dezembro! Disse que não poderia deixar de passar o natal com Shelley, pois afinal de contas, em toda a vida nunca deixara a irmã nesta data.

– Vocês sabem, é coisa de velha! – brincou.

Alex e eu passamos o natal sozinhas no apartamento, fazendo amor e mil promessas de felicidades. No reveillon nós ficamos nas areias de Copacabana, no chamado “Bonde das Entendidas”, com Ruth, Paulinha, Sandra e Nara, e foi divertidíssimo! Esse apelido foi invenção de Ruth, que terminou o ano dizendo que quando foi mordida por um lobo quase morreu de tanta febre, e isso porque um cachorro mordeu Nara no trabalho.

– E onde você foi arrumar um lobo nessa fundura do campeonato criatura?? – Paulinha perguntou contrariada

– É coisa de quando eu morava em Araras! Por que você acha que não se vê araras por lá? O lobos comeram tudo… – afirmou categoricamente.

E assim acabou 1997, definido por Alex como “O ano que eu não vivi.”

Mas ela estava errada, porque viveu, e vivemos muito! Valeu à pena cada gota de suor. E a vida devolve conforme recebe; e devolveu bastante!

“(…) e assim 
chegar e partir
, são só dois lados da mesma viagem(…)”

Passada a euforia de final de ano, Alex esperava por seu diploma. Arthur e Júlio viajaram pouco depois da defesa de fim de curso dela e só retornaram em janeiro.
Tão logo Arthur chegou deixei que se acomodasse em sua sala e fui abordá-lo.

– Bom dia Arthur. Podia conversar contigo? – parei na porta.

– Claro, claro. Entre. – apontou a cadeira.

Sentei-me, perguntei sobre a viagem de trabalho e seu final de ano e daí fui direto ao assunto.

– No dia da defesa do fim de curso da Alex você disse que queria conversar comigo. Falou até que ela estava nos planos. Sobre o que seria?

Ele riu e comentou:

– Ai, ai, as mulheres são tão curiosas… Mas está certo. Bem! – pigarreou – Júlio e eu conversamos muito sobre isso e decidimos que pode valer a pena sim.

– E o que seria? – estava muito curiosa.

– Você teria alguma restrição em trabalhar com sua… companheira?

– Nenhuma! – respondi francamente.

– E quanto a passar tempos fora do Rio? Longe do mar… – olhou-me tentativamente.

– Ah! – cocei a cabeça – Acho que tudo tem um preço, não é?

Ele balançou a cabeça e levantou-se. Começou a circular pela sala.

– Sabe Samantha, eu na minha vida, e já são aí uns 15 anos de estrada, conheci muitos profissionais. – pôs as mãos nos bolsos – Um deles me ensinou muito. Seu nome era Baltazar. Um homem de meia idade, cheio de sonhos e muitas idéias. Ele é um nome desconhecido, mas eu vou te dizer: muito nesta cidade se deve a ele. Foi um empreendedor! E ele me ensinou que na vida vale a pena correr riscos! – pegou uma xícara para se servir de café e olhou para mim – Aceita?

– Não obrigado. – respondi cordialmente

– Depois dele, vieram muitos outros. Uns mais competentes, outros menos, mas todos medíocres, e medíocre querendo dizer, dentro da média. – sorveu um gole – Mas você, – sorriu – você de longe não é nada medíocre. Quando professor Ramirez me falou de você eu achei que era apenas um professor lambendo a cria. Mas quando eu te conheci cheguei aqui e disse pra Júlio: “Meu caro, ali temos um potencial.” – bebeu mais um gole – Você tem base, tem cultura, é muito versátil. Engraçado que sabe ser desde aquela engenheira elegante das reuniões formais e finos coquetéis até aquela que desce do salto vai pro campo e reclama que a peãozada não virou o concreto direito, e ainda pega no fio de prumo pra ver se uma parede tá no nível ou não. – riu – Quando Júlio te conheceu, no dia da tua entrevista ele disse pra mim: “Cara, uma mulher dessa não tinha que tá em canteiro de obra. Não vai dar certo!” E eu disse: “Vamos ver!” E eu acertei. – apontou para si – Eu sempre acerto.

Deu mais umas rodopiadas pela sala e aquilo já estava me dando nos nervos. Mudei de posição na cadeira para disfarçar.

– E aí eu pensei – cruzou os braços – Samantha é a pessoa pro que eu tô querendo. Ela tem o que eu quero: ousadia! Mas falta uma pessoa com ela. Acácio? Seria perfeito, mas ele não tem ambição. Além do mais ele não arreda o pé daqui por causa da mulher e dos filhos. Mas aí – abriu os braços e sorriu – eu vejo o trabalho da Alexandra e vi que ela tem o que eu precisava. – bateu palma – Não é arquiteta, mas entende bem. É jovem, não tem filhos e tá com todo o gás. – riu.

– Mas e daí…? – perguntei mexendo com a mão – Agradeço as palavras, mas ainda não captei.

– E daí – caminhou para trás da mesa e apoiou-se nela olhando pra mim – que o Rio tá um mercado cada vez mais agressivo e saturado. Você já viu quanta empresa tem por aí? E quantas com material barato, mão-de-obra porca e jogando os preços lá embaixo nas concorrências? Obras de fachada, bela viola e pão bolorento! A gente tem cavucar aí fora. Porra, o Brasil não é só o Rio. – socou a mesa – A gente podia coordenar serviços em outras cidades, em outros estados! Pegando projeto pronto pra fazer, oferecendo projeto, seja lá como for! Pensei no sudeste primeiro e depois! Quem sabe? – socou a mesa – Garota a gente pode pegar os projetos e subcontratar! Todo mundo faz isso aqui, por que a gente não pode fazer isso fora daqui?

– A idéia é boa mas efetivamente como seria isso? – olhei bem para ele – Que você espera de nós? Lembre-se que Alex tá como eu tava naquela época: esperando documentação.

– Bom – sentou-se – Eu esperei por você, eu espero por ela! Além do mais você ainda não acabou lá na Barra. – ajeitou a gravata – Leon agora foi escalado pra ser nosso hunter. Ele vai caçar as oportunidades fora daqui. E daí vocês entram tocando o trabalho e “morando” – fez aspas com os dedos – no local da obra enquanto for preciso. O escritório bancaria hotel, deslocamento, diárias e seguro. Você já tem seu celular de trabalho, – pausou – Alex teria o dela e vocês poderão alugar um carro sempre que necessário.

– É muito interessante, um desafio e tanto, mas você sabe que vai sacrificar a gente. – apoiei as mãos na mesa e olhei bem para ele – Quanto vai me dar de aumento por isso? E ela, quanto vai ganhar?

Arthur riu e apoiou-se no encosto da cadeira cruzando os braços e balançando a cabeça.

– Ai, Sam, eu esqueci de acrescentar. Você fala mesmo o que tem de ser dito. – riu de novo – Quer aumento? Então me diz. Quanto? – cruzou os braços e esperou.

“Ai meu Deus, por essa pergunta eu não esperava!”

Pensei um pouco, respirei fundo e respondi:

– O dobro do que eu ganho! – encarei com ele.

– O dobro? – riu – Você não acha que está muito ousada não menina? – sorriu.

– E não foi exatamente por isso que você me escolheu? Por que eu sou ousada? – revidei.

Ele riu de novo e balançou a cabeça.

– Tá certo! Nessa você me derrubou. – olhou pra mim – Eu aceito!

Nesse momento meu coração bateu nos dentes e voltou. Se eu estivesse de boca aberta veríamos um coração batendo no chão. Engoli em seco e disfarcei.

– E Alex? Pra dizer a verdade ela deveria estar aqui, não acha?

– Acho! E você tem que reconhecer que ela é uma profissional recém formada e sem experiência de campo. Você trabalha desde estudante, ela não. É bem mais acadêmica, até porque teve uma formação mais multidisciplinar. Você teve um foco bem direcionado. – balançou a cabeça – Mas eu não vou mendigar com ela. Vou oferecer uma boa proposta.

– E quando ela deve vir conversar com vocês?

– Amanhã é um bom dia.

– Eu digo a ela.

– Bem, era isso o que eu tinha de falar.

– Ótimo. – levantei-me – Vou indo então.

Saí da sala e fui para o banheiro. Quando entrei pulei e comemorei de forma como não poderia fazer na frente do chefe.