Tudo muda, tudo passa – Cap 8 – Parte 4

No domingo a tarde, estávamos na sala papeando e namorando um pouco quando o interfone tocou.

– Quem será? – Alex olhou o relógio – São três horas. – estava deitada em cima de mim no sofá

– Vou ver. – beijei seus lábios, levantei e atendi – Alô?

– Oi dona Samantha. É um moço chamado Neneco. – disse o porteiro estranhando o nome.

– Ah, pode deixá-lo subir. – respondi e coloquei o aparelho no gancho. Olhei para Alex – Linda, coloca uma roupinha mais bem comportada que seu Neneco tá aí.

– Só eu? – olhou-me de cima a baixo sorrindo.

– Tá, eu mudo também. – olhei para mim mesma.

Nós nos arrumamos correndo e abri a porta para ele.

– Oi seu Neneco, – cumprimentei com beijinhos – que surpresa! Entre.

– Eu não vou me demorar filha. Só vim pra falar uma coisa breve. – entrou sem graça.

– Oi seu Neneco – Alex o cumprimentou – Sente-se. – apontou a poltrona.

– Quer alguma coisa? Um sorvete, suco, água? Café? – ofereci.

– Eu aceito um cafezinho sim. – sentou-se timidamente.

– Pode deixar que eu passo. – Alex foi preparar o café – Fique dando atenção a ele, querida.

O detalhe do querida o deixou meio sem graça.

– E então seu Neneco, como vão as coisas no Cantagalo? E o filho e a nora, como vão?

– Tudo bom com eles. Mazinho agora arrumou um bico de segurança do estacionamento do shopping e melhorou a renda dele. E no morro o de sempre. Às vezes paz, às vezes guerra. Mas parece que vai piorar.

– Por que?

– Nem lhe digo…

– E o pessoal da comunidade? A garota que ficou no meu lugar dando aula de matemática ta indo bem?

Fiz essa pergunta porque depois do meu casamento, em uma das vezes em que passei no Cantagalo, o pessoal da Associação disse que eu não precisava mais em incomodar com as crianças porque havia outra no meu lugar. Não sei se Caio tinha dado com a língua nos dentes falando de Alex e eu, mas de repente não me queriam mais lá trabalhando. Senti inclusive uma certa agressividade no ar, e percebi olhares de reprovação.

– Não tem mais isso não. Ela largou logo no comecinho! Depois deu um monte de rolo e disse me disse na Associação e o Morcegão chegou fervendo. Agora não tem mais aula de nada no morro, nem de capoeira. E até Tião pediu pra te avisar que a roda vai jogar agora na praia mesmo, no posto 6 e no mesmo horário que sempre foi.

– É, eu não vou jogar lá desde antes do carnaval. Mas o que aconteceu? Morcegão cortou?? Como assim? Ele tá com moral pra isso?

– Ele agora é o dono do morro. E disse que a associação virou bagunça desde que tu saiu, então não ia ter mais aula de nada. Só deixou a capoeira porque é o que de mais antigo se faz e mestre Tião foi pessoalmente falar com ele. E mesmo assim as aulas não são mais no morro!

– Morcegão é o dono do morro?? Desde quando??

– Desde o carnaval. Mataram o Olho de Boi e ele assumiu no lugar.

– Que coisa! Ouviu isso linda?

– Sim. – virou-se de frente para nós – A Associação tirou você de lá e agora não há coisa alguma. – deteve-se no café de novo – E esse Morcegão aproveitou o conflito entre eles e acabou com tudo. Traficante não quer gente do morro estudando e tendo noção das coisas.

 Fica mais fácil para eles com todo mundo burro.

– Bem Samantha, mas eu vim aqui mesmo por conta de outra coisa. – pausou – Tenho até medo. – benzeu-se.

– Mas o que foi? – perguntei estranhando.

Nesse momento Alex aparece com uma bandeja com três xícaras de café e um prato com biscoitinhos.

– Está pronto. – olhou para seu Neneco – Espero que goste. – sentou-se.

– Ah, mas só o cheiro… – serviu-se de uma xícara sorrindo.

Ela e eu fizemos o mesmo.

– Ontem de noite eu tava preparando pra fechar a minha birosquinha quando me apareceu uma dona, de uns sessenta e poucos anos, gordinha, cabelo curto, óculos e toda vestida de preto. Ela entrou e deu boa noite com uma voz rouca. Aí pegou um lenço, limpou o rosto e me perguntou pela falecida sua avó. Eu então falei do passamento dela, que Deus a tenha – benzeu-se – e a dona ficou chocada. Aí disse que era comadre da falecida.

– Comadre??? – perguntei chocada – Minha vó nunca falou de nenhuma comadre!

– Pois ela disse que era. Disse que era madrinha da Betinha.

– Betinha? – Alex perguntou.

– Minha mãe. – respondi olhando para ela – Alguns a chamavam assim, até onde eu sei. – dirigi-me a ele – Mas e então? O que mais ela falou?

– Disse que sua mãe entrou em contato e queria falar com a falecida. Mas disse também que ela não mora no Rio e queria saber se podia ficar no barraco. Eu disse então que depois do acontecido você tinha se mudado e que o barraco era agora do meu filho. Ela levou um susto e disse que não sabia que a filha da Betinha morava lá também.

– Minha mãe não deve ter perdido tempo falando de mim. – senti uma certa dor – Mas, e qual o nome da tal comadre?

– Ela não disse, e eu confesso que fiquei tão surpreso que não perguntei. A falecida nunca falou de comadre comigo também não.

– Mas por que o senhor ficou com medo disso? Não entendi.

– Eu tive medo porque a mulher veio do nada que eu não ouvi nem os passo! Tava toda de preto, e depois sentou e me pediu um copo de água por conta do calor. Fui buscar e quando voltei ela tinha sumido como por encanto. Nesse momento Mazinho apareceu e quando perguntei ele disse que não tinha visto mulher nenhuma. Pra completar, ainda deixou um lenço preto na minha cadeira, que foi a única prova da presença dela ali. Ninguém viu a mulher e cheguei a pensar que tinha ficado maluco. Agora eu acho é que é alma do outro mundo. Até encomendei a alma dela a Deus pra que não em procure mais.

– E o lenço? – Alex perguntou curiosa.

– Queimei! Valha-me Deus. – benzeu-se de novo.

Achamos graça e respondi:

– Isso não é alma do outro mundo não, seu Neneco. Era uma mulher que veio mandada por minha mãe e, não sei porque, fez essa gracinha no final de sumir sem dizer nada. Vai ver com medo do senhor fazer perguntas que ela não quisesse responder. Minha mãe está bem mal de vida e deve estar querendo pedir arrego pra alguém. Sair de Recife e voltar pro Rio.

– Como você sabe que ela tá mal de vida no Recife?

Lembrei do sonho que tive quando estava internada no hospital por conta de ter sido baleada.

– Digamos que eu sinto isso…

Comente! ;)