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Tudo muda, tudo passa – Cap 8 – Parte 13

Vó Dorte nos convidou para passar o final de ano na Inglaterra, mas não pudemos ir. Eu tinha o trabalho e Alex o período letivo que só acabaria em janeiro por conta de um greve que houve no segundo semestre. Ainda assim com esse problema, a turma de Soninha manteve a comemoração da formatura para dezembro, até porque estava tudo pago, e foram três dias de festa: colação de grau simbólica, baile e culto ecumênico. Foram belos e animados eventos e nós nos divertimos muito.

Na segunda-feira imediata às festas de Soninha houve um tiroteio terrível no morro da Serrinha, e eu na fuga arranhei os cotovelos, machuquei as mãos e torci o pé. Isso foi considerado acidente de trabalho e Arthur me deu quinze dias em casa. Estávamos nas proximidades do natal e tive de ficar de repouso. Alex ficou louca de preocupação. Por conta desse acidente não aceitamos o convite de Sandra e Nara para ir para Cabo Frio. As duas foram acompanhadas pelas outras duas integrantes do “polígono amoroso”. Coisa de doida!

Sugeri que Alex convidasse Ruth e Paulinha para passar o natal conosco e ela assim o fez. As duas aceitaram animadas e foram levando um monte de comida. Depois Alex e Paulinha ainda cismaram que faltava coisa, e em plena véspera de natal as duas estavam na rua comprando. Eu fiquei em casa, sentada na cama com o pé para cima, e Ruth comigo batendo papo.

– Mas me conta, Sam. Quê que houve aí com esse teu pé? – pegou a cadeira da cozinha e sentou perto da cama

– Eu tava vendo com o pessoal o problema de uma encosta que tá difícil de conter, porque a galera do morro joga lixo direto em todo lugar, quando então o tiro começou. Todo mundo correu sem destino certo e eu achei melhor sair das partes mais expostas do morro, que era onde estávamos. Ali todo mundo era um alvo e tanto! Aí eu pulei numa laje, e mirei de passar pra outra pra depois pular pro chão. – ri – Só que nessa eu me dei mal! Escorreguei e caí num barranco. Me sujei toda, ralei, machuquei e torci o pé. Rastejei até um muro e fiquei quietinha encostada lá. Quando a poeira baixou fui tentar me levantar, mas não conseguia encostar o pé no chão que doía demais. Um próprio morador me levou de carro pro hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, e lá disseram que eu tinha torcido o pé.

– Meu Deus, que coisa horrível! E a Alex? Quando ela soube o que fez?

– Eu não avisei a ela na hora. Era bobagem e não queria assustar a garota. Pedi pra assistente social ligar pro chefe porque aquilo foi um acidente de trabalho, e ele veio correndo. Quis que eu fosse pro São Lucas, aqui em Copacabana, mas eu só torci o pé e me arranhei! Sem necessidade disso. Mas ele me trouxe de carro até aqui. Então, uma vez em casa, eu liguei pra faculdade e deixei recado pra Alex.

– E o pessoal da faculdade avisou a ela?

– Avisou! Ela veio correndo e entrou aqui igual uma bala. Me disse um monte de coisa e tá de mal comigo. – abaixei a cabeça e fiquei mexendo no lençol.

– Mas também pudera! Eu ficaria possessa!

– Eu só não queria preocupar! Só isso. – olhei para Ruth.

– Ah, Sam, mas isso é coisa séria. Quando eu ainda morava em Araras fui pular uma fogueira na festa junina e torci o pé! Foi uma coisa complicadíssima! Arranhei cotovelo, joelho, mãos, a cara, tudo!

Ri e passei a mão nos cabelos. “Lá vem ela com suas estórias!”

– E que diabo de fogueira é essa que você foi pular e se danou toda? – perguntei rindo.

– É que a fogueira tinha cada labareda tão alta, mas tão alta que eu tive que subir no alto da laje pra pular. Ela tava entre duas casas e eu pensei de pular de uma laje pra outra mas escorreguei e caí e aí já viu: me lasquei toda.

– Muito parecido com meu caso! – ri – E por que você escorregou? – dei corda.

– Porque soltaram fogos na hora eu pensei que fosse tiro me desequilibrei e caí.

– É! Realmente muito parecido com meu caso. – ri de novo.

Nesse momento Alex e Paulinha chegam carregadas de coisas.

– Mas gente, alguém avisou a vocês que somos só quatro pessoas? – Ruth brincou.

– Fica quieta Ruth, isso aqui são os ingredientes das guloseimas que a gente quer fazer. – Paulinha respondeu.

– Vamos lá menina, mãos a obra! – Alex falou para a amiga.

Passaram o resto do tempo preparando quitutes e na hora da ceia, a mesa estava farta: peru a Califórnia, arroz com lentilhas, bolinhos variados, doces e salada de frutas com sorvete.

Ruth abriu uma garrafa de vinho gaúcho e nos serviu. Alex fez uma prece muito bonita, lembrando inclusive de vovó, e nós ceamos com prazer. A conversa foi boa e divertida e assistimos a uma bela queima de fogos pela janela. Quando nos preparávamos para dormir Paulinha perguntou:

– Vocês vão passar reveillon aonde?

– Aqui. Samantha está de repouso. – Alex arrumava o sofá cama para elas.

– Ruth e eu vamos ficar nas areias da praia esperando o ano bom. Se Sam estivesse cem porcento poderíamos ir juntas. Seria bem legal.

– A gente podia ir sim, amor!

– Ah não, Samantha! Você está de repouso e não vai ficar na praia no meio de multidão. Pode abaixar o fogo! – me olhou com seriedade.

Elas se deitaram e eu me ajeitei na cama. Alex saiu do banheiro e deitou-se a meu lado. Virei de lado e abracei ela:

– Ainda zangada comigo, lindinha? – beijei sua orelha – Hum?

– Que você acha? – perguntou emburrada.

– Ah, minha linda, não fica! Eu só evitei desesperar você à toa. Sabe lá como o pessoal da faculdade ia te dar o recado? Você podia pensar que eu tava morrendo e era uma coisa super simples. – beijei perto da boca – Me perdoa, vai?

– Eu não gostei! Seu chefe soube primeiro do que eu! – continuou com bico.

– Mas porque foi acidente de trabalho e eu achei que ele tinha obrigações. Quando eu cheguei em casa a primeira coisa que fiz foi procurar te avisar. – beijei sua testa – Não faz biquinho não. Vem cá que eu sei desmanchar esse biquinho. – tentei beijá-la na boca mas ela se afastou.

– Não me convence! Eu não gostei da sua atitude. Eu sou sua mulher, eu tenho que ser a primeira a saber! – virou-se de costas – Estou de mal com você!

– Ah não lindinha! Hoje é natal e você de mal comigo? – abracei-a pela cintura – Fica não!

– Solta Samantha! – tirou meu braço – Você está de castigo comigo.

– E o que isso quer dizer? – perguntei preocupada.

Ela virou-se para mim e respondeu:

– Quer dizer que vou ficar sem fazer amor com você! – deu-me as costas de novo.

– O que?! – perguntei chocada – E por quanto tempo?

– Por quanto tempo? Hum… Até o dia de Reis!

– O que?! Mas Alex… é muito tempo! Por que tudo isso se eu não fiz…?

– E fique quieta senão eu aumento o prazo para um mês!

– Mas… Humpf! – deitei-me de barriga para cima – Você fala em ficar sem fazer amor comigo e nem liga. Parece que não gosta! – disse chateada.

– Mas eu gosto! – olhou para mim de novo. Eu virei o rosto para encará-la – Você sabe que eu gosto, e muito! Mas como você é muito ligada em sexo eu sei que vai ser um castigo que vai fazê-la pensar duas vezes antes de repetir uma gracinha dessas. – me deu as costas de novo – E não discuta!

“Fazer o que??”