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Tudo muda, tudo passa – Cap 6 – Parte 7

Após nossa efetiva chegada na casa, descemos arrumadas para o primeiro andar. Alex estava lindíssima usando botas negras de salto alto, calça preta justa no corpo e casaco de pele com motivos de oncinha. Maquiou-se com descrição e usou jóias douradas. Era incrível como sempre sabia ser deslumbrante!

Eu também usava botas, as que ela me deu, vesti uma calça jeans mesclada e coloquei o casaco marrom sobre uma blusa preta de gola rolê. Meus adereços eram prateados, e deixei Alex me maquiar. Ela adorava fazer isso.

A primeira pessoa que vimos foi vó Dorte, que iniciou a peregrinação nos apresentando a família. Fomos direto para o salão e choquei ao chegar. Era um cômodo imenso, com uma grande mesa central na qual a ceia já estava posta. Havia inúmeras cadeiras, junto a mesa e espalhadas, um relógio estilo cuco, uma grande estante cheia de fotografias, vários quadros na parede e um piano de cauda perto da janela. O lustre de cristal parecia com aqueles que se vêem no Museu Imperial de Petrópolis. O salão era todo acarpetado, e me senti pisando em uma daquelas preciosidades que vêm do Oriente Médio. Havia também uma mesa menor, onde “meu sogro” e um homem jogavam gamão. Próxima a ela, um móvel cheio de tabuleiros e peças de jogos. Além de tudo isso, claro, havia também as pessoas. Dona Shelley e o marido tinham três filhos: Thompson, Malcon e Henry, havendo pouca diferença de idade entre eles, que regulavam quarenta e poucos anos. Thompson era o mais velho e mais simpático, e casado com Carmem, uma espanhola totalmente louca. Eles eram os pais de Leslie e Meg, que regulavam minha idade, e pareciam duas hippies. Malcon era do tipo calado, mas muito gentil e sorridente. Era casado com Mildres, de iguais maneiras, e eram os pais de Terry, um rapaz de uns 30 anos, sendo o mais velho dos netos de Shelley e Herbert. Segundo vó Dorte: – Malcon foi pai e casou-se muito cedo. Os calmos são os piores…

Terry vestia-se como um evangélico típico e era bastante conservador. Muito sério e sisudo, parecia gostar muito do pai de Alex. Henry era solteiro e estava acompanhado por uma bela namorada de origem indiana, de nome Bandhari. Ele era brincalhão e animado, e aparecia a cada ano com uma namorada diferente no natal. Talvez por isso tivesse quatro filhos, cada um com um tipo físico: Bryan, de 22 anos, inglês típico, Kevin, de 19 anos, ruivo, Augustus, de 16 anos, negro, e Mirayn, de 15 anos, a única menina e com traços orientais. Na caravana deles também veio um rapaz de nome Martyn, amigo de Kevin.

Havia também o senhor Angus, irmão mais velho de Herbert, viúvo e sem filhos e dona Doroty, irmã caçula do falecido avô de Alex, com sua neta Corina, de 18 anos. Vó Dorte e o marido tiveram um único filho, “meu sogro”. Então ao todo contei que éramos 25 pessoas, incluindo os donos da casa.

Durante as apresentações, as pessoas foram muito gentis comigo, mas não gostei muito de Terry, que me olhou com frieza, Bryan, machinho típico, Corina e dona Doroty, ambas muito metidas. Robert e Jack me espreitavam disfarçadamente, e me parecia que desejavam que eu cometesse uma gafe a qualquer momento. Alex era simpática com todos e agia com muita naturalidade; eu me esforçada para fazer o mesmo, pois ainda tinha receios sobre o que viria pela frente.

Feitas as apresentações, Shelley me levou em um tour pela casa; Alex veio atrás. Apesar de viver numa fazenda, eles contavam com recursos modernos e a casa era extremamente confortável. Seus três andares eram decorados com bom gosto e obras de arte não faltavam.O terceiro tinha cinco quartos grandes e um banheiro. O segundo era idêntico, e o primeiro tinha uma sala de visitas, o tal salão, uma grande cozinha, um banheiro e um quarto de estudos.

Herbert era advogado e adora estudar direito e história. Havia também um porão, cheio de ferramentas e pequenas coisas da casa. A fazenda possuía treze empregados, que moravam em pequenas casas que margeavam a estrada principal, de onde viemos. Na verdade, destes havia dois que moravam na fazenda: o homem que vimos ao chegar e a esposa. Ele e a mulher eram indianos, Shrid e Angia, e estavam na cozinha trabalhando. Os demais funcionários foram dispensados após a arrumação dos preparativos de natal. Por fim, com eles, éramos 27 pessoas.

Eram nove da noite e o grupo estava assim reunido: os filhos dos donos da casa e suas esposas conversavam animadamente entre si. Herbert, Shelley, seu Angus e dona Doroty estavam próximos ao piano cantando, enquanto vó Dorte tocava músicas antigas. Robert conversava com Terry e Jack. Leslie, Meg, Kevin, Martyn e Augustus conversavam e mostravam fotografias mutuamente. Bryan fazia gracinhas para Mirayn e Corina. Shrid e Angia pediram licença e foram para sua casa, atrás do celeiro, receber os dois filhos que estavam para chegar. Alex e eu circulávamos por todo esse povo, nos detendo mais tempo onde vó Dorte estivesse. Respondi a um milhão de perguntas sobre o Brasil, algumas, inclusive, bem idiotas.

Terminada uma música, vo Dorte ofereceu:

– Filha, por que não toca um pouco? Acredito que deva ter saudades deste piano.

– Será um prazer!

Alex sentou-se no piano e tocou todas as músicas que lhe pediam. Em pouco tempo, o grupo inteiro estava ao redor dela, cantando e sugerindo a próxima canção. Ela tocava com

intensidade, e parecia invadida pela música. Eu me vi desligada de tudo, e absorvendo cada

gesto dela, admirando profundamente a mulher que amava com todas as minhas forças. Ela era luz, minha luz, e fazia tudo em sua vida com o coração, inclusive tocar piano.

– Peça alguma canção! – vó Dorte me sugeriu – Alguma bela música brasileira para nós conhecermos.

– Alex, qualquer uma do Djavan. Não sei se alguma vez já tentou. – disse em português.

– Não, nunca. Mas sei a que vou escolher. – respondeu também em português.

E ela tocou e cantou Oceano, e o fez de tal forma que me contaminou e cantamos juntas. Eu sabia o porquê da escolha e isso me emocionou. Foi a música que ouvimos na primeira vez que fizemos amor, na banheira de sua casa, em janeiro desse ano de 95 que estava por se encerrar. Creio que nos entregamos de tal forma a música que muitos se emocionaram, havendo mesmo quem derramasse lágrimas furtivas dos olhos

– Eu não entendi palavra alguma desta canção, mas estou emocionada. – disse vó Dorte.

– É linda música! Fala de amor, de entrega. Bela! – disse Carmem.

– Queridos eu não queria interromper, mas que tal iniciarmos o jantar? – Shelley limpava as lágrimas dos olhos.

Fomos nos posicionando a mesa, e Alex e eu sentamos uma ao lado da outra. Bryan sentou-se do lado dela e vó Dorte do meu. Houve uma oração inicial e então o jantar começou. Eu estava satisfeita, até então, por conseguir me comunicar com eles adequadamente.

Quando a meia noite chegou, estávamos todos ainda na mesa, e o senhor Angus puxou uma canção que todos conheciam, menos eu. Depois disso nos cumprimentamos e fomos deixando a mesa. Alex e eu nos abraçamos demoradamente e nos dissemos belas palavras. Seus pais nos olharam com cara feia.

Henry acendeu as luzes da árvore, e, apesar do frio, todos fomos para fora para admirá-la. Estava lindíssima! Eles cantaram umas músicas natalinas que eu desconhecia por completo. Ainda levamos um tempo conversando com os mais jovens e nos retiramos para dormir. Todos entenderam em função da longa viagem que fizemos.

– E então amor? Que achou? – Alex me perguntou já dentro do quarto.

– Maravilhoso! – abracei-a – Achei que você estava tão feliz! Principalmente tocando piano. – beijei sua testa – Se Deus quiser, passaremos todos os demais natais de nossas vidas juntas. Agora espere. – corri até minha mala – Aqui vai seu presente de natal.

– Samantha! Pensei que meu presente fosse o nosso noivado. A aliança! – ela sorriu.

– Não. Nosso noivado foi uma promessa que fiz a você, simbolizada na aliança. Este é seu presente. – estendi uma caixa – Espero que goste.

Ela pegou-a e abriu-a devagar. Dentro havia um relógio.

– Sammy, que lindo! Tão delicado!

– O seu escangalhou há pouco tempo, e sei que podia comprar um muito melhor. Mas vi esse na loja e achei que se parecia com você.

– É muito bonito! – olhou-me preocupada – Deve ter custado caro!

– Eu ganhei um prêmio em dinheiro e quero usufruí-lo com você. E quando começar a trabalhar não vou poupar contigo.

Ela me olhou estupefata e sorridente.

– Louca! Não deveria fazer isso com seu dinheiro. – seus olhos se encheram de lágrimas.

– Eu darei tudo que eu puder pra você, minha linda.

– E esta carta?

– É sua. Leia quando quiser.

– Então será agora. – desdobrou o papel – Hum, hum. – pigarreou – Querida Alexandra! Nossa é tão raro me chamar assim! – continuou lendo em voz alta.

Querida Alexandra,

Escrever para você é uma tarefa muito árdua, pois a emoção me toma rapidamente, e as lágrimas caem de meus olhos sem que eu possa contê-las. Penso em meu amor por você, mas não sei explicá-lo, não sei defini-lo. Mas também, como se define um sentimento? Como tentar descrever algo que nem eu mesma compreendo, dada a sua grandeza, dada a sua intensidade? Meu amor por você é tão forte, tão vivo, tão real, que eu o sinto como o sangue que me corre nas veias, como uma substância vital que me constitua o corpo, como os músculos do meu coração, que o fazem funcionar espontaneamente, sem que eu me dê conta disso. E sem esse amor, porque ele me dá vida e me mantém viva, eu não poderia continuar.

Meu amor por você me faz pensar, me faz sentir, me faz viver como nunca havia experimentado antes. Você é um facho de luz em meu caminho, é o presente mais belo que Deus me ofereceu, é a personificação de tudo o que eu precisava, de tudo que eu sonhava. Você é como esse sol bonzinho das manhãs, que irradia vida e calor por todos os lugares. Perdoe minha escrita assim tão piegas, mas eu queria que soubesse como me sinto e que não tivesse a menor dúvida quanto a meus sentimentos.

Por fim, não há mais o que dizer: eu te amo, e pronto!

SAM.

Ela leu a carta em meio a lágrimas e soluços, e ao final jogou-se nos meus braços emocionada.

– Obrigada amor! Eu nunca recebi nada tão lindo! Não é piegas é lindo! Eu também a amo muito, muito, muito.

Enquanto estávamos abraçadas agradeci mentalmente a Deus por tê-la me apresentado, pelo que estávamos vivendo, e pelo que íamos viver. Pedi também que cuidasse de minha avó, e desejei a ela um feliz natal, com muitas saudades.

sig_Raydon

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