Search for content, post, videos

Tudo muda, tudo passa – Cap 6 – Parte 5

Chegamos em Heathrow sem qualquer atraso. Eram 13:10h da tarde. Pegamos as malas e saímos, e não demorou muito para que um rosto conhecido despontasse no meio dos outros. Logo reconheci das fotografias: vó Dorte. Ela era da altura da neta, tinha cabelos grisalhos, curtos, um rosto redondo, pele bem branquinha e lindos olhos verdes. Tinha um corpo roliço, compacto, mas não era gorda. Suas mãos eram pequenas e delicadas. Usava óculos de lentes redondas, como aqueles que os hippies gostam, e se vestia como estas vovós de filme, faltando apenas o xale. Parecia ter uns 75 anos.

Alex correu de encontro a ela e as duas se perderam em um abraço apertado. Parei perto de ambas e fiquei calada olhando. Alex sorriu para ela, beijando-lhe o rosto, e disse alegremente, em inglês:

– Vovó, esta é Samantha, da qual falo desde muito!

– Sabia desde o início; ela é exatamente como você descreveu.- e abrindo-me os braços – Venha aqui!

Nós nos abraçamos e simpatizei com aquela senhora logo de estalo. Não imaginava que os ingleses fossem tão simpáticos, ou então era uma característica particular dela, assim como de Alex.

– É um prazer conhecê-la senhora. Não repare no meu inglês, pois não é fluente como gostaria.

– Seu inglês é muito bom, não se envergonhe. E pode me chamar de vó Dorte também. – e dirigindo-se a nós – Faremos uma boa viagem para a fazenda. Querem ir ao banheiro antes,comer alguma coisa…

– Eu preferiria ir direto, e você amor?- olhou para mim.

Balancei a cabeça concordando.

“Calma Alex, vai devagar, não fique me chamando assim de estalo na frente da sua avó!”

– Vamos direto, então.

Fomos até o estacionamento e fazia um frio de cão. Logo achamos o carro e pela primeira vez vi as famosas máquinas de mão invertida. Engraçado! O carro, aliás, era um senhor Ford, que eu nunca tinha visto rodando no Brasil.

Saímos do aeroporto e pegamos uma bela estrada. Alex foi sentada no banco da frente e conversava com a avó o tempo todo. Eu viajava olhando a paisagem e pensando em como poderia estar ali, tão longe do Brasil. Em Londres e arredores imediatos neve não é comum, mas a cidade é fria havendo um nevoeiro intenso no inverno. Não estava chovendo, mas o céu estava absolutamente cinza.

– Sammy, onde você está?

Olhei para Alex e ela sorria para mim.

– Perdoem-me, eu estava apreciando a paisagem.

– Primeira vez na Inglaterra, filha?

– Primeira vez fora do Brasil. – sorri.

– Contei a vovó sobre suas últimas conquistas e ela está maravilhada. Eu já havia comentado algo ao telefone, mas deixei os detalhes para contar pessoalmente.

– Admirável! Fico feliz que seja uma boa jovem e esforçada naquilo que quer. Acho que esta perseverança está em falta aos jovens nos dias de hoje. Querem tudo nas mãos e poucos são os que correm atrás de seu próprio futuro.

– Obrigada, mas tenha certeza de que Alex não fica atrás e é uma excelente aluna. Aliás, ela é excelente em tudo!

Alex corou diante de minhas palavras. Alguns segundos de silêncio e vó Dorte pergunta:

– E esta aliança? – segura a mão da neta.

– Noivado. – ela sorriu

“Ai, meu Deus, é agora!”

– No Brasil o casamento entre mulheres ou entre homens já é aceito?- perguntou surpresa.

– Não. Mas assim que voltarmos vou entrar em contato com uma senhora, e se Alex gostar do apartamento dela vamos morar nele, mesmo sendo pequeno. Como se fossemos casadas, pela lei.

– É isto que quer? – olhou para a neta.

– Isto é o que mais quero.- disse resoluta.

– Têm minha bênção!

– Eu nem sei o que dizer. – respondi – Não sabe o quanto tive medo de sua opinião ser contrária…

– Eu nunca fui contrária, desde que soube por intermédio de meu filho. E até não me espantei, dado o modo como Alex sempre me falou de você, da amizade entre as duas. O modo como falava era… havia um romantismo no ar que eu podia sentir.

– Sua reação sempre me surpreendeu vovó. Mesmo não sendo intolerante ou grosseira, do contrário, sempre foi um doce, sua aceitação tão imediata me surpreendeu.

– Não queria que a velha história se repetisse. Chega de tragédias na família!

Um silêncio de suspense tomou conta do ambiente.

– Que tragédia aconteceu vovó?

Vó Dorte respirou fundo e começou a falar:

– Eu tive mais um irmão além de Shelley: Henry, o mais velho de todos nós. Papai era muito rígido e nos tratava como que em um quartel; mamãe não era muito diferente. O sonho deles era ver Henry oficial da Royal Navy, servindo em um dos encouraçados da rainha, e era nítido para nós a preferência de ambos por ele. Mas nós não tínhamos ciúmes ou raiva dele, pois Henry era um irmão maravilhoso e nos dava sempre algum presentinho para alegrar a nossa infância. Ele trabalhava na gráfica do senhor Hommer, um amigo da família, e ganhava um pouco de dinheiro por isso. Henry era seis anos mais velho que eu.

– Eu sei quem ele é! Lembro de uma de suas fotografias antigas onde se vê um rapaz ao lado do meu bisavô.

– Ele mesmo. Pois bem, quando Henry tinha dezessete anos, perto de se alistar na Marinha, o senhor Hommer decide contratar outro rapaz que já iria aprendendo o serviço e substituindo meu irmão na gráfica sem maiores transtornos. Este rapaz tinha dezoito anos e se chamava Tyler.

“Acho que já até sei o que aconteceu…”

– Eu nunca soube detalhes, mas Henry se apaixonou por Tyler, e desistiu da Marinha por não querer ficar longe do rapaz. Lembro-me que em uma noite ele assumiu a verdade em casa, o verdadeiro motivo por não ter se alistado, mamãe nos trancou no quarto, e houve uma discussão horrorosa entre pai e filho. Ouvi Henry falar em voz bem exaltada que amava Tyler e eles já haviam concretizado aquele amor. Logo em seguida um barulho incompreensível e choro de minha mãe. Na minha cabeça mil perguntas surgiam sem que pudesse entender aquelas palavras.

– Oh, meu Deus, e então vovó? O que aconteceu depois??

Ela passou a mão nos olhos por debaixo dos óculos.

– Eu nunca entendi direito. Este assunto era proibido dentro de casa. Henry saiu de casa e dormiu fora naquela noite, não sei se por vontade própria ou por ter sido expulso. No dia seguinte, logo cedo, meu pai pegou as roupas e coisas dele e jogou dentro de um saco. Ao tempo em que fazia isso, mamãe retirava as fotografias penduradas na parede onde ele estava, e curiosamente era a maior parte delas. Nós, as irmãs, chorávamos sem nem entender porque, mas uma dor nos castigava naquele momento, como na noite anterior. Durante aquela confusão, consegui esconder uma das fotografias, a da família reunida, a que você viu. – olhou para Alex – e guardei-a comigo até hoje.

Lágrimas escorriam de seus olhos. Parou por uns instantes e continuou.

– Fui eu a primeira a perguntar por Henry, e meu pai não respondeu. Mamãe disse que aquele nome nunca mais seria dito dentro de casa. Não sei nem o que fizeram com as fotografias e coisas de meu irmão. Poucos dias depois, Henry subiu pelo encanamento até a janela do quarto onde dormíamos e nos chamou com pequenas batidas no vidro. Deixei que entrasse e ele nos abraçou muito emocionado. Disse que iria embora para a Irlanda e não sabia se um dia nos veríamos de novo. Eu fiz um monte de perguntas, mas ele nada respondeu. Beijou-nos a testa e partiu. Ficamos olhando sua descida até o momento em que sumiu nas ruas. Estava chovendo e fazia frio. Ele estava maltrapilho e sujo, parecia ter fome e seu olhar guardava profunda tristeza. Não pude dormir por vários dias pensando nele, e confesso que ainda hoje choro de quando em vez.

– Mas o que aconteceu depois disto? – Alex perguntou.

– Não sei. Aquela foi a última vez que o vi. Meus pais inventaram a todos que Henry se alistou e logo foi viajar pelos mares do mundo. Tyler foi demitido e o senhor Hommer, ao que parece guardou o assunto com muita discrição. Depois de casada pedi que seu avô procurasse por ele, mas nunca teve sucesso. Nem sei se ainda vive, talvez tenha morrido mesmo jovem.

– Sinto muito vovó! – Alex estava emocionada – Por que meus bisavós eram tão duros? Por que tanta dor e sofrimento?

– Eles eram os protestantes mais fervorosos da comunidade e nossa família era conhecida pela fé que demonstrava. Tudo faziam por causa da opinião dos outros, viviam para os outros. Hipocrisia, só assim posso definir.

– E eles nunca mais falaram do filho? Não se arrependeram? – Alex perguntou.
– Anos depois disso papai se queixava de uns sonhos, acho que envolvendo Henry, ele não nos dizia; não para nós as filhas. Foi ficando doente e em menos de um ano era um verdadeiro louco. Poucos anos depois eu me casei, e então Shelley, meses depois. Papai passou o resto da vida assim, e mamãe cuidando dele. Após quinze anos de falta de lucidez ele se foi, e mamãe foi murchando como flor seca, para falecer seis anos mais tarde. Eu nunca os odiei, mas sempre achei que as dores que causaram ao filho foram os seus próprios carrascos. O sofrimento de ambos foi muito grande, e por mais que buscássemos ajudar não sabíamos o que fazer.

“A colheita é livre, mas a semeadura obrigatória, assim disse o Mestre.”

Aquela estória mexeu comigo. Pobre Henry, deveria ser um rapaz maravilhoso, e de repente, por causa de um amor fora dos padrões, se viu jogado no mundo. Lembrei de vovó e de seus dramas pessoais. O quanto sofreu por amar um homem que a família não julgava adequado para ela.

sig_Raydon