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Tudo muda, tudo passa – Cap 4 PARTE 5

Conversei com Alex sobre estas coisas e ela se entristeceu bastante. Disse que sua mãe estaria em casa sozinha na sexta e pensei que seria só mais aporrinhação. Mas sabia como Alex me perturbaria se eu quisesse adiar a conversa. Ela me deixou no pé do morro e partiu com o carro.

Subi as escadas pensando que as coisas que aconteceram hoje seriam apenas o começo. Só mesmo um amor como o que sentia por ela me faria pagar um preço tão alto. “Oh meu Deus, que nosso amor seja forte pra resistir ao que mais virá por aí!”

Acabou a semana útil e Alex novamente foi me buscar no laboratório. Seu curso de maquetes havia se encerrado também e ela estava cheia de idéias. Meus pensamentos giravam em torno da situação na qual iria me envolver dentro de algumas horas: a conversa com Jack Flatcher. Não me empolguei em conversar sobre arquitetura e Alex então puxou outro papo.

– Sam, e como vão os preparativos da formatura? Você já pagou tudo?
– Tudo indo. Em relação ao pagamento, a colação de grau eu já quitei, mas a festa é mais cara e eu só mato isso em dezembro mesmo.
– Posso fazer isso para você. Presente de formatura. – disse sorrindo.
– Não Alex, obrigada. Já disse que eu vou arcar!
– Ah, Sammy. Você não me deixa ajudar e nem me diz o que quer de presente de formatura! – fez uma cara de chateação.
– Quero você! – beijei sua bochecha
– A mim você já tem, boba! – olhou para mim – Peça o que quer! Outra coisa!
– Quero que você preste atenção no trânsito! – brinquei.
– Sem graça! Eu dirijo muito bem!
– Brincadeira querida! – olhei para a rua – O trânsito não anda! Olha que engarrafamento! Esse túnel é uma coisa!
– Está estranha Sammy. O que foi?Teve mais problemas hoje?
– Não, mas tô pensando nessa conversa com sua mãe.
– Não sofra com antecedência Samantha, você faz muito isso. Viva cada coisa de cada vez, cada momento em sua hora. Jesus mesmo ensinou isso: “o dia de amanhã cuidará de si mesmo”.
– Tem razão. Com vovó nem foi mal e eu esperava outra coisa.
– Deixe que eu começo o assunto com ela. E vamos ver como será.
– Vamos ver…

Chegamos no apartamento e Jack Flatcher ouvia um CD de ópera enquanto tomava chá sentada na mesa da sala. Parecia até mesa de refeição de novela: cheia de quitutes!Vestia um roupão com a estampa da bandeira da Inglaterra e analisava uns cortes de tecido fino, usando um minúsculo óculos apoiado na ponta do nariz.

– Boa noite mãe. Samantha veio comigo.
– Boa noite Jack.

Ela observou-nos visivelmente contrariada e apenas balançou a cabeça.

– Não sabia que traria visitas…
– Samantha não é mais visita há muito tempo. – aproximou-se e beijou-lhe o rosto – Não jantará?
– Não! Este chá vespertino me apetece. – voltou a atenção para os tecidos. “Chá vespertino me apetece? Êta mulherzinha besta!”
– Podemos nos unir a você? – perguntou.

Ela tirou o óculos e nos olhou surpresa. Notei que me reparava inteiramente com desaprovação. Eu vestia uma calça jeans escura, justa no corpo, uma blusa branca do tipo baby look e um casaco de jeans preto por cima. Alex vestia-se de modo análogo só que usando saltos altos, roupas de marca e muito mais classe que eu.

– E por que não?
– Vamos nos lavar primeiro. Venha Sammy.

Segui-a sem pestanejar e lavamos as mãos no banheiro comum. Voltamos para sala e ela já havia mandado Dolores preparar nossos lugares. A mulher nos esperava imóvel numa pose ensaiada e nos serviu assim que nos sentamos. Jack a dispensou por hora e ela se foi.

– Como foi o curso de desenho que fez, querida?
– Não era de desenho mãe, era de maquetes. Foi muito bem, aprendi várias coisas e estou cheia de idéias.
– Você tem muito talento e criatividade. Não deveria ter escolhido engenharia civil, é coisa de homem. Arquitetura combina mais com você, tem glamour!
– Não existe isso de engenharia ser profissão de homem. E Alex é excelente aluna no departamento. Pode usar seu talento para projetar construções fantásticas, e ainda saberá como concretizá-las e cuidar da obra.
– Minha filha em canteiro de obras?! – disse indignada com a mão no peito – No way! Ela vai é trabalhar em um belo e decorado escritório aqui na zona sul. Se bem que pelo meu gosto você entraria para o mundo da moda como eu estou. – olhou para filha.
– Mamãe não espere isso de mim. Mundo da moda? – balançou negativamente a cabeça –E quanto ao canteiro de obras é bom se acostumar com a idéia pois ainda vou freqüentar bastante esse ambiente.
– Não fale isso para seu pai. Ele nunca aceitou muito bem sua escolha profissional e ouvindo isso, oh my! – revirou os olhos – It would be terrible! – dirigiu-se a mim – E você? Quando vai trabalhar de verdade?
– Sempre trabalhei de verdade. – respondi lutando para manter a calma.
– Não meu amor, você não está entendendo! Eu digo emprego de verdade, do tipo que paga bem! – sorriu com ironia.

O sangue me ferveu.

– Não fale assim mamãe! Samantha trabalha em um dos mais conceituados laboratórios da Escola de Engenharia e eles não aceitam qualquer aluno lá. Ela é a única da equipe que o professor sempre convoca para os serviços de consultoria em obras e ganha-se bem com isso. Além do mais está com trabalho concorrendo em um concurso nacional para profissionais da área. Tenho certeza de que será uma das premiadas! E quando se formar, no final deste ano, tenho certeza de que logo receberá uma boa proposta de emprego.

Fiquei feliz com as palavras de Alex pois senti o imenso orgulho que havia nelas, e a sinceridade da opinião que passava à mãe. Ela realmente acreditava no que dizia. Jack, ao contrário, parecia nem se abalar com seus argumentos.

– Ah, então você anda em canteiros de obras? Por isso sempre se veste tão… informalmente?
– Mamãe!
– É! Eu trabalho e não tenho tempo pra ficar à toa escolhendo melhor os tecidos de minhas roupas – ela mostrou-se ofendida com a resposta. Olhei para Alex – Vamos direto ao assunto? Acho que não dá pra manter uma boa conversa aqui!
– Que assunto? – Jack perguntou desconfiada.
– Mamãe, eu queria que o clima estivesse melhor para iniciar esta conversa, mas realmente não foi possível. Samantha e eu nos amamos e estamos juntas.

Para nossa surpresa Jack arremessou os tecidos para o alto e deu um berro ensurdecedor:

– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh!!! Oh my God, it’s a tragedy! Oh no, no!

Dolores veio correndo e Jack levantou-se da mesa.

– Dolores, please, please, help me, oh no! – correu e segurou a empregada pelos braços chorando.
– Senhorita Alexandra o que é isso, o que houve? – Dolores estava aflita.

Alex e eu não conseguimos articular palavra. Estávamos chocadas com aquele show gratuito de frescuras. Jack soltou Dolores e rodopiou pela sala gritando frases em inglês que pareciam ter saído do filme E o vento levou. Esfregou-se pelas paredes gritando:

– I wanna dye! I wanna dye!

Arrancou o roupão e o arremessou em cima de Dolores, permanecendo apenas de camisola, aliás, cafonérrima.

Dolores corria desnorteada pela casa sem saber o que fazer até que se decidiu em trazer água com açúcar. Alex e eu continuávamos imóveis.

Ao final de uns 5 minutos de ataques, Jack ordenou que Dolores lhe trouxesse um outro roupão e dois comprimidos de Neosaldina. Assim feito, mandou recolher o tal chá vespertino e dispensou a empregada dizendo que só queria vê-la novamente na segunda-feira e a pobre mulher saiu sem entender patavina. Jack caminhou até o sofá da sala onde se jogou gemendo com as mãos sobre a cabeça.

– Já acabou mamãe? – Alex aproximou-se do sofá.
– Oh, filha ingrata, não vê que sofro?
– Pensei que conversaríamos como mulheres civilizadas. – afirmou com rigidez.
– O que Lady Dy faria se ouvisse isso de uma filha meu Deus? Que faria a rainha Elizabeth?
– Elas não têm filhas e se tivessem não fariam este escândalo. Mãe a vizinhança deve ter ouvido tudo! Será que dá para se sentar direito e conversar conosco com a classe que pensei que tivesse?

Estas últimas palavras pareceram mexer com seus brios e Jack levantou-se lentamente sentando-se na poltrona como deveria.

– Eu tenho muita classe, sou apenas uma pobre mãe desgraçada pelo desgosto! – olhou para mim com raiva – Isso é culpa sua não é? Cegou minha filha! Vou processá-la por isso!

Levantei-me e caminhei até o sofá.

– Sua filha é maior, se já não se esqueceu do detalhe! E se quiser me processar vá em frente. O que suas amigas vão pensar quando souberem desse processo? Fofoca garantida no mundo da moda! Naquelas mesmas revistas que adoram te bajular!

Jack pareceu pensar no fato e estremeceu.

– Por favor vamos conversar direito? – Alex implorou.

Jack pôs as mãos sobre a boca e só aí percebi que usava um brinco na unha de um dos dedos mindinhos. “E pensar que essa aí é minha sogra!”

– Eu nunca gostei dessa amizade, desde o começo, mas pensei que com o fim das aulas que ela te dava esse contato se desfizesse. Quando vi que continuou senti um mal pressentimento, mas deixei. Oh God como fui tola! Deveria ter cortado o mal pela raiz! – olhou para a filha – Como começou isso Alex?
– Depois do tiro que ela levou, em abril. – mentiu – Nós já nos amávamos desde muito tempo, mas lutamos contra isso, por medo, por receio, e só deixamos acontecer bem mais tarde.

Entendi que mentia por medo do tal processo que a mãe chegou a cogitar.

– E o que vocês deixaram acontecer? – perguntou apavorada.
– Tudo! – respondi

Levantou-se do sofá e caminhou nervosa pela sala.

– Como pode ser isso? Alex, você ainda é virgem! Não é?

“Ah meu Deus, lá vem mais frescura!”

Alex respirou fundo e disse:

– Não mamãe, não sou.
– Mas como? – Jack correu até ela e a segurou pelos braços chacoalhando – Como? Vocês são duas mulheres! Como pode isso? – soltou a filha e andou até a mesa como se estivesse pensando – Meu bem, não são beijos e, de repente, um toque mais ousado que tiram a virgindade de uma garota. –olhou para Alex
– Mãe, por favor eu sei disso! E repito, não sou mais virgem! De forma alguma!

Jack fuzilou-me com um olhar de ódio e perguntou aos berros:

– O que você fez com o meu bebê? Hein? Sua pervertida! – correu e me segurou pelos braços – O que andou fazendo com a minha filha? O que fez com o corpo dela sua tarada, ordinária, cafajeste, sem vergonha! – tentou me esbofetear

Livrei-me de suas mãos e andei para atrás da poltrona.

– Não venha querendo me bater! E agradeça o respeito que ainda tenho por você à sua filha. – endireitei meu casaco – Querendo ou não ela já é mulher, minha mulher e isso não vai mudar. E eu sou mulher dela, e isso também não vai mudar.
– Ah, você já devia ser mulher de muita gente antes de perverter minha filha! Desgraçada! Odeio você por isso! Oh, my I wanna dye! – gritou histérica.

Alex correu até a mãe e a sentou na cadeira dizendo coisas em inglês que não consegui entender. As duas choraram e se insultaram de várias formas. Acho que discutiram velhos problemas nunca mencionados e choraram bastante; sempre falando em inglês.

Aproximei-me de Alex e abracei-a forte. Ela pôs a cabeça no meu colo e ficou como uma criança desprotegida. Tentei passar tudo de mim naquele abraço, para que se sentisse aceita, segura e muito amada. Acalmados os ânimos, ainda abraçadas, olhei para Jack e disse em tom controlado:

– Entenda por favor, por mais que não concorde, certas coisas não vão mudar. Nós nos amamos e temos um relacionamento íntimo e sério, e não iremos desistir uma da outra. Eu acredito que você tenha sonhado com alguém pra ela bastante diferente de mim, começando pelo fato de ser um homem, mas não aconteceu assim. Não foi o que ela quis.
– Ela é muito jovem…
– Jovem, mas não louca e nem idiota, mamãe! Sei o que sinto por ela, e é amor!
– Discorde disso, Jack! Você tem esse direito. Mas respeite ela e o que decidiu de sua vida. Fique do lado dela, é sua filha! Não tente escolher por ela! E chega desse escândalo, dessa situação tão desagradável. Nada se resolveu até agora na base do grito, não percebeu? Vamos resolver isso numa boa!
– E o que é resolver isso numa boa, ó, grande sábia, que entende tanto da vida a ponto de me dar lições de moral?

Engoli o desaforo.

– É aceitar a escolha dela e respeitá-la como filha, mesmo discordando.
– Como conto isso para seu pai, minha filha? – seus olhos ainda tinham lágrimas – Como? Ele vai enlouquecer e mandar você para Europa sem pensar duas vezes.
– Eu não vou! Sou maior de idade e não irei obrigada.
– Ah é? E vai viver como? Sustentada pela sua engenheirazinha de obras?
– Sim. Vivo no morro com ela, mas não irei para onde não quero! – estava resoluta – Além do mais tenho minha pensão.
– Pensão que sua avó cortará assim que souber da história! E eu vou dizer a ela! E se eu não disser seu pai o fará. Afinal, é a mãe dele.

Alex me soltou e aproximou-se da mãe com tristeza nos olhos.

– Não pode fazer isso. É a minha vida, e dela cuido eu.
– Quer medir forças com seus pais? – levantou-se – Seu pai pode acabar com a carreira dessa aí antes mesmo de começar. – limpou o rosto com as mãos – E chega desta conversa desagradável! Seu pai estará em casa amanhã pela manhã e direi tudo a ele. Vamos ver se você vai entrar nos eixos ou não.

Preparou-se para se recolher e quando ia saindo argumentei:

– Lá no morro vira e mexe aparece uma ONG e sei de várias que lutam pelos direitos das mulheres. Sabia que a livre escolha da orientação sexual também é uma forte bandeira de luta? Sabia que muitos artistas, políticos e gente famosa apóia isso? Não seria difícil levar essa nossa história a público e pedir ajuda. Seria um prato feito pra imprensa: a filha de um casal rico e bem sucedido e uma moradora de favela. Eu poderia alegar ainda o preconceito contra minhas origens e aí a coisa teria ainda mais vulto! E não pense que teríamos medo porque já assumimos na faculdade e nada teríamos a perder.

Ela virou-se rápido e me disse desafiadora:

– Está blefando!
– Nem um pouco! – aproximei-me – E se quer saber tenho uma amiga que tem família trabalhando na maior emissora de TV desse país. Alex a conhece inclusive. Não me seria difícil pôr a boca no trombone. E como já disse, no morro existe uma verdadeira coleção de ONGs trabalhando e também não seria difícil contar com pelo menos uma delas.

Alex parou em frente a sua mãe e a fitou seriamente nos olhos.

– Será possível que minha própria mãe precisa ser praticamente ameaçada para ficar do meu lado? Melhor dizendo, para não me prejudicar? A opinião pública é muito mais importante que meus sentimentos, não é? Vocês nunca cuidaram de mim, sempre me deixaram com empregados e babás, e se não fossem meus avós eu não teria a menor referência de família, pois isso vocês nunca foram para mim: uma família. E agora você vem com esse escândalo de mãe sofredora como se um dia tivesse sido realmente minha mãe. Vocês sempre foram investidores e não pais. Desculpe mamãe se o seu investimento não lhe deu o retorno esperado! – e dirigindo-se para mim – Vamos embora Samantha, hoje eu vou dormir com você no morro.

– Como quiser, minha linda! – estendi-lhe a mão

Saímos de mãos dadas deixando Jaqueline Flatcher estupefata na sala.

sig_Raydon

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