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THE BEST OF ME – Swish, swish, bitch!

Hey, gente!!

Bom, quero me desculpar primeiramente por não ter postado na semana passada, mas tive uns probleminhas e acabei não conseguindo. Outra coisa, esse capítulo de hoje é um capítulo ponte, ele tem informações importantes e dá abertura para as coisas que estão por vir. Enfim, espero que gostem! Boa leitura!

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Veronica Iglesias.

“Existem dois tipos de pessoas: As inteligentes e as que entram no meu caminho”, era a frase que martelava em minha cabeça desde o momento em que fiquei sabendo sobre a tal traição. Desde então, achando-me na razão de fazer o que estava prestes a fazer, eu alimentava o pensamento de vingança, que se fazia maior a cada minuto que se passava e o fato se reafirmava.

Eu até poderia estar errada, mas não me importava. Se ela teve coragem de fazer aquilo com minha amiga, eu trataria de agir como um karma em sua vida. Tudo que vai, volta ainda pior.

Acontece que, eu não estava fazendo nada demais. Apenas dando um impulso.

Quando acontece um vazamento de gás e você risca um fósforo, seu ato somente serviu de impulso para algo que já era previsível acontecer. Logo, penso que, se dois corpos de energias opostas de longe estavam se atraindo, não me custaria nada empurrá-los em direção ao encontro.

O dia já estava clareando quando Camila entrou pelas portas do meu apartamento, acompanhada por Lauren. Foi impossível deixar de perceber a energia que as embalava em conversas, mantendo-as alheias a toda e qualquer outra situação ao redor – principalmente a mim. Sentada no sofá há mais de meia hora, eu aguardava o momento em que elas se desprenderiam daquela bolha, para que assim, eu pudesse dormir. Entretanto, esse momento não veio a acontecer.

Lauren só foi embora porque eu praticamente tive de expulsá-la. Em contrapartida, não adiantou nada despachá-la a força, porque a inovação da tecnologia ao criar os celulares promoveu o silencio das vozes das pessoas, ampliando o som das teclas digitadas. Depois de ter sido ignorada por mais de meia hora, tive que aguardar também a bateria do celular de Camila acabar.

– O que ela disse sobre você vir para cá? – Apressei-me em perguntar, pois precisava pensar logo num argumento plausível para dar a Lauren, quando suas indagações vissem a mim.

– Não dei chances de perguntas, mas ela disse que iria perguntar a você. – Camila explicou calmamente, daquele jeito suave e amigável tão seu. Estávamos a mesa da cozinha, tomando café.

– Certo… – Encarei meu copo de achocolatado, tentando não demonstrar meu júbilo. Era cruel ter os pensamentos que eu estava tendo, eu sabia, mas eu simplesmente não podia controlar.

– Veronica, posso te fazer uma pergunta? – Camila lançou-me um olhar temeroso.

– Claro!

– Porque está fazendo isso?

– Isso o que? – Franzi o cenho, fingindo estar confusa com sua interrogação.

– Isso! – Afirmou apontando para si mesma; dessa vez não entendi de verdade, e por isso, ela tratou de explicar. – Você inventou uma história mirabolante só para minha mãe me deixar sair com a Lauren; você acordou no meio da madrugada só para me esperar chegar aqui…Por que está fazendo isso? O que você viu de tão interessante em dar apoio a essa nossa “quase amizade”?

Engoli seco, pensando no que responderia.

– Por nada demais, ué… – Falei com tanta naturalidade, que cheguei até a me assustar. – Na vida, nem tudo existe um porquê implícito, Camila. Só achei legal a amizade de vocês e ponto.

– Na vida por até não haver motivo implícito, mas nos seus atos eu sei que tem. – Ela rebateu sendo muito perspicaz, pontuando seu xeque-mate que pôs meus argumentos em derrota.

– É sério, miga! Não tem nada. – Tratei de desconversar, sorrindo quase com desespero. – Inclusive, essa noite eu tenho uma festa para ir e como não tenho companhia, serve você mesmo.

– Festa? – Os olhos da morena se arregalaram. – Mas hoje é quarta-feira, Veronica!

– Ai, Camila, não começa. – Revirei os olhos, exercitando minha paciência. – Eu não quero ir sozinha e você vai comigo. Te busco no seu trabalho. E não se preocupe com sua mãe.

– Por que você nunca aceita não como resposta? – Ela resmungou me fazendo rir.

– Por que aceitar o não, quando posso decretar o sim? – Pontuei em triunfo.

[…]

– Você é perversa, Veronica! – Allysson exclamou, arregalando seus olhos castanhos. Se eu não a conhecesse tão bem para perceber seu sarcasmo, pensaria que ela estaria realmente chocada com o que eu havia acabado de relatar. No entanto, eu a conhecia e conhecia seu veneno.

– Confesse, Allysson Brooke: Eu estou realizando um sonho seu. – Pontuei, desafiadora.

Allysson ponderou por alguns instantes, balançando sua taça de vinho.

– É verdade! – Admitiu e gargalhou, mas tratou de corrigir: – Entretanto, é muito cruel.

Arqueei uma sobrancelha, lançando-a um olhar cheio de deboche e, para não começar a gargalhar, comecei a circular a borda de minha taça com a ponta do indicador afim de me distrair. O silêncio entre nós era cheio de perversão e escárnio. Parecíamos dois demônios fazendo planos.

– Cruel é o que ela fez. – Comecei meu argumento, sentindo a ojeriza se alastrar novamente por minhas células. – Isso que estou fazendo não chega nem aos pés do que ela merece.

Largando os talheres, desistindo de terminar de comer, Allysson suspirou.

– Você andou conversando com ela, né? – Ela perguntou, levemente impaciente.

– Depende…Ela quem? – Perguntei, genuinamente confusa.

– Aquela que o nome não se pronuncia. – Pontuou, me fazendo rir.

– Quem me dera! – Minha voz saiu em um quase grito. – É meu sonho de princesa.

– Seu “sonho de princesa” é falar com ela? – Perguntando isso de forma cômica, mantendo o sorriso discreto nos lábios, Allysson fez chifrinhos com os dedos um de cada lado de sua cabeça.

– Sim! – Afirmei convicta e animada. – Ela é sensacional, pelo que andei sabendo.

Allysson sorriu discretamente, tomando a taça em sua mão.

– Lauren odeia ela. – Disse, antes de dar um gole em seu vinho. E concluiu: – Odeia muito.

– Tanto faz… – Revirei os olhos. – A Lauren odeia todo mundo.

– Faz sentido. – Concordou ela.

– E então, você me apoia? – Voltei ao assunto anterior, quase emudecendo a voz.

Novamente Allysson se pôs a pensar, mas logo falou:

– Apoio. Porém, seja sorrateira. Não a deixe perceber que está fazendo isso. – Advertiu.

– É claro, né! – Meneei negativamente com a cabeça, achando absurdo aquela advertência idiota. – Você vai ver, Ally, isso vai dar tão certo, que no fim das contas, seremos as veneradas.

– Não pela Keana.

Gargalhei imediatamente com aquele comentário sórdido.

– A intenção é essa. – Ironizei entre risos. – Inclusive, preciso de uma identidade falsa.

Fingindo estar chocada, Ally entreabriu seus lábios e arregalou seus olhos, mas logo riu.

– Você fala essas coisas numa naturalidade tão grande, que me assusta.

Acabei rindo com aquilo.

– Quando pode me entregar? – Perguntei.

– Para quando precisa? – Ally falou sem me olhar, verificando algo em seu celular.

– Hoje à noite… – Proferi com hesitação, temendo sua reação.

Imediatamente ela me encarou com reprovação e meneou negativamente a cabeça.

– O pacote chegará pontualmente às sete na sua casa.

 

Camila Cabello.

– O que está fazendo aqui? – Perguntei descontraidamente, vendo-a me encarar e sorrir.

– Você não respondia minhas mensagens, quis me certificar que estava tudo bem. – Explicou formalmente, mesmo que sorrindo. Aqueles olhos verdes me observavam atentamente.

– Eu fiquei sem bateria…desculpa. – Me apressei em explicar, sentindo-me terrivelmente cruel em tê-la deixado no vácuo, mesmo que não estivéssemos falando sobre nada tão importante.

Lauren permanecia sorridente e me olhava profundamente nos olhos. Isso eu havia percebido na noite anterior, essa sua “mania” – assim digamos – de sempre conversar olhando nos olhos, de falar com firmeza e convicção. Confesso que tinha gostado disso nela, mesmo que parecesse um pouco intimidador em certos momentos, tendo ela olhos muito intensos e cheios de austeridade. Porém, essa atenção depositada ao que o outro está dizendo, mostrando-se verdadeiramente interessada em apreciar o que era dito, de tão atípica, tornava-se qualidade nela.

Desprendendo-me dos raciocínios lineares que a envolviam, coloquei a bandeja sobre a mesa e, cuidadosamente, retirei a xícara repleta de café, logo posicionando-a perto de suas mãos. Lauren não tardou em enroscar seu indicador na alça da xícara e a ergueu até os lábios, dando um gole curto, sem ao menos assoprar – o que resultou numa reação engraçada de susto, que a fez afastar rapidamente a xícara do rosto e por de volta ao pires. Sua risada contagiante se espalhou.

– Está quente! – Protestou ela, abanando seus lábios. – Misericórdia.

– Olha…estranho seria se o café estivesse frio. – Falei, achando graça.

Lauren me encarou por frações de segundos e logo depois voltou a rir.

– É, faz sentido. – Disse ela. E acrescentou. – Sente-se e me faça companhia.

Arqueei uma sobrancelha e coloquei as mãos na cintura.

– Lauren, caso você não tenha reparado, eu estou trabalhando.

– E daí? – Indagou, ignorando totalmente minhas palavras.

– “E daí” que eu não posso ficar sentada em horário de serviço. – Retruquei, impaciente.

– Senta logo, Camila! – Pontuou ela, praticamente ordenando.

– Se eu for demitida por sua causa, você vai ter que me arrumar outro trabalho. – Eu resmungava quase inaudível, enquanto me acomodava na cadeira a sua frente. Mentalmente, temendo pela minha vida, eu recitava orações pedindo a deus que mantivesse o gerente longe dali.

– É uma ótima ideia te arrumar outro trabalho… – Lauren começou a falar, parecendo estar discutindo com si mesma, ao mesmo tempo em que falava comigo. Seus olhos se moviam rapidamente, seguindo o fluxo intenso de seus pensamentos. – Acho que tem vagas lá no fórum…

– Lauren! – Falei alto, somente para chamar sua atenção. – Eu estava só brincando.

Como eu já deveria prever que aconteceria, fui plenamente ignorada, e ela continuou:

– Camila, pense comigo: Esse trabalho te cansa muito, você não aprende nada, não tem tempo sequer para estudar. Lá, eu posso conseguir algo com horário flexível, que te dê tempo para viver e que te ajude até mesmo a pensar na sua carreira. Se você botar sua cabecinha para funcionar, vai ver que tenho total razão. – Finalizou numa calmaria assustadora, quase entediada.

Engoli seco, amargando a dura realidade: Lauren estava certa.

– A quanto tempo está pensando nisso? – Fiz a pergunta que me rondava, porque não era nem um pouco normal ela magicamente ter chegado a todas aquelas conclusões assim, de repente.

– Desde agora. – Afirmou inocentemente. – Por que?

Abri bem os olhos em surpresa.

– Você realmente pensou nisso agora? – Quis ter certeza.

– Sim. – Alegou, depois de dar um gole em seu café. – Por que? – Insistiu.

– Porque é estranho… – Respondi em voz aguda, mesmo não sabendo o porquê de tanta surpresa. Eu já deveria saber que ela era esse tipo de pessoa que resolve tudo num estalo de dedos.

Lauren meneou negativamente com a cabeça, soltando um riso nasalado, certamente me achando uma tola por estar tão admirada com sua capacidade de pensar rápido em estratégias para ultrapassar as barreiras que apareciam em seu caminho. Em seguida, lançou-me um olhar promissor, cheio de desconfiança, receios e um pouco de ansiedade, e começou a falar lentamente:

– Bom, eu preciso te contar uma coisa… – Sua voz rouca se perdeu no emaranhado de nervosismo que repentinamente a invadiu. Então, depois de limpar a garganta, ela pode continuar o que havia começado. – Lucy ficou muito triste em saber que você teria que sair da escola por falta de dinheiro para pagar as mensalidades, suas amigas até se reuniram para tentar juntar dinheiro e pagar para você, porém, como era muito dinheiro, eu decidi que seria melhor eu pagar. Então, hoje de manhã eu fui até sua escola e paguei os próximos seis meses que faltavam de aulas.

Ventos fortes sopraram para longe meus neurônios, pois nenhum estava ali, funcionando. Tentei por vezes seguidas ter reações, dizer alguma coisa, expressar qualquer sentimento, mas não consegui, porque simplesmente aquela havia sido a melhor notícia já recebida por mim. Então, na falta de palavras e pensamentos, somente me levantei, contornei a mesa e a abracei inesperadamente. Ela demorou a assimilar o ato, certamente porque esperava que minha reação fosse negativa, mas quando caiu em si, apertou-me em seus braços, intensificando aquele abraço.

– Obrigada… – Agradeci verdadeiramente emocionada e levemente inebriada com seu perfume, que estava me deixando um pouco amolecida. Lauren nada respondeu, mas seu silêncio disse muitas coisas, dentre elas, a confirmação de que ela era realmente um anjo na minha vida.

 

Lauren Jauregui.

Chegar em casa e não ter ninguém presente foi a melhor coisa que havia me acontecido naquele dia, depois de ter encontrado Camila. Lucy estava na casa dos avós e Keana no trabalho, ou seja, eu teria tudo que estava precisando após um dia difícil: A casa inteiramente só para mim.

Subi a escada apressadamente, ansiando pelo banho fervente que tomaria, mas, ao chegar no quarto, para minha infelicidade, meu celular começou a tocar. Suspirei profundamente, ponderando a ideia de simplesmente não atender a chamada e desligar o aparelho, mas como vi que era Veronica e sabia que, se eu não atendesse, ela ficaria me ligando até que a bateria descarregasse, preferi atender logo, antes que ela aparecesse aqui em casa furiosa para me agredir.

– Late. – Atendi dizendo isso e ela riu ao fundo.

– Oi, delícia! – Sua voz altamente animada quase me ensurdeceu. – Está melhor?

– É, estou… – Hesitei por estar cansada demais para pensar. – E você? Está bem?

– Estou linda como sempre! – Gargalhou. – Então, o que pretende fazer hoje à noite?

Sentando à beira da cama para retirar meus sapatos sem cair, comecei a pensar num jeito delicado de dizer que pretendia ser esquecida pela humanidade, tomar um banho quente, vestir um moletom confortável, comer macarrão instantâneo, assistir a algum filme, e depois, ir dormir. E, não encontrando nenhum jeito de lhe contar meus planos para a noite, optei em ser direta, pois sabia que se ela tinha feito aquela pergunta, certamente estava planejando me convidar para algo.

– Pretendo tomar banho, comer algo e ir dormir.

Ao fundo, ouvi som de sacolas e uma outra voz falando algo que não entendi.

– Boa tentativa, Mortícia, mas você vai sair comigo hoje. – Avisou em tom firme.

– Nem nos seus sonhos, Veronica Iglesias. Eu estou exausta. – Eu disse, deitando na cama.

– Há, há, há! – Riu teatralmente em deboche. – Já pode começar a se arrumar.

– Veronica, eu estou exausta! Não vou sair! – Praticamente rosnei.

Ouvia-a suspirar ao fundo e murmurar: Dai-me paciência, Deus!

– Então está bom, Lauren. – Ela tornou a falar, sendo grossa. – Vou com a Camila então.

Minha garganta secou imediatamente, tive que me segurar para não tossir.

– Você não vai levar essa menina para festa, Veronica! Ela tem aula amanhã. – Vociferei.

– Beleza! Já que ela não pode ir, te encontro no Lounge às dez. Beijos!

Quando abri a boca para repreendê-la, a chamada foi desligada.

Fiquei feito uma besta, encarando o teto, assimilando os fatos. Eu poderia simplesmente não ir e deixar ela lá, sozinha, mas era Veronica, e fazer isso me resultaria em semanas de reclamações. Então, optando em não a ouvir resmungar, mesmo estando exausta, eu tinha que ir. Inclusive, isso era o mínimo que eu podia fazer para agradecê-la por não ter me esmurrado até a morte pela situação em que a coloquei de manhã, quando contei o que eu havia feito com Keana.

Respirando fatigada, peguei o celular outra vez para lhe mandar uma mensagem.

[Lauren] – Preciso estar bem arrumada ou apenas aceitável?

[Vero] – Mana, seu bem arrumada e aceitável são quase a mesma coisa. Você com essa cara maravilhosa, pode vestir um saco de lixo que fica maravilhosa.

[Lauren] – Está tentando levantar meu astral?

[Vero] – Não, mas consegui alguma coisa?

[Lauren] – Mais ou menos… vou te mandar foto dos looks e você escolhe, ok?

[Vero] – Ok. Inclusive, já falou com aquela cobra de vestido que você vai sair?

[Lauren] – Ela não está em casa, mas deixarei um bilhete dizendo que estou com você.

[Vero] – Ok!

***

Depois de um longo banho – que creio ter sido o maior da minha vida –, vesti as roupas escolhidas por Veronica vagarosamente, pensando na merda que estava fazendo em sair de casa assim, tão cansada, sem ao menos dar satisfações a Keana. Porém, a cada peça vestida, eu ia deixando de me preocupar e aceitava um pouco mais os fatos de que passaria outra noite em claro.

Vestindo preto dos pés à cabeça, passei maquiagem somente para disfarçar minhas olheiras tão profundas quanto poços petrolíferos, peguei minha carteira, chaves do carro e saí sem pensar muito, para não me arrepender. Na porta do hall deixei um bilhetinho avisando que havia saído e que não levaria o celular – o que era uma grande mentira, mas era só para ela não me ligar.

Pontualmente às dez, eu estava passando pelas portas de entrada daquela boate, que por sinal, estava lotada. Avancei por entre os corpos dançantes, tentando chegar ao bar sem esbarrar em ninguém, mas não deu muito certo. A boate estava mesmo muito cheia para uma quarta-feira.

– Whisky sem gelo, por favor. – Resmunguei em tom exausto ao barman, no mesmo instante em que deixei meus cotovelos desmoronarem sobre o balcão, e torci para que, apesar de toda aquela barulheira ensurdecedora, ele tivesse me entendido, pois não teria forças para repetir.

Incrível como eu sempre me ferrava ao dar ouvidos as ideias mirabolantes de Veronica.

Conferi as horas em meu relógio de pulso, somente para constatar o óbvio: Ela estava atrasada. E, mergulhando nas águas da impaciência, fechei os olhos por segundos e suspirei profundamente, tentando encher-me de calma e serenidade para sobreviver à noite. Entretanto, meus pulmões pareciam magicamente ter encolhido, pois não havia oxigênio que os fizesse inflar totalmente. Tento inspirado com imensurável dificuldade, expirei de vagar, tentando não morrer.

Eu não deveria estar numa boate em plena quarta-feira à noite, principalmente quando passei a noite anterior em claro e não havia pregado os olhos por nem um segundinho o dia inteiro.

No entanto, eu estava. A convite de Veronica – é claro.

Eu estava cansada, sonolenta e sentia meu corpo pesando toneladas, mas não podia negar que a musicalidade daquela boate estava me agradando bastante. Sacudi a cabeça, no intuito de afastar de mim toda aquela negatividade, e assim, me animar; massageei as têmporas, sentindo minhas retinas queimando como se estivessem em chamas. E, ao abrir os olhos, o copo estava ali.

O primeiro gole foi ingerido com a sede de horas no deserto; o segundo só aconteceu para finalizar a dose. Gesticulei ao barman pedindo um duplo e retornei à inércia de pensamentos ocos.

– É impressionante como você sempre volta à estaca inicial.

Ouvi soar ao meu lado aquela voz na qual há muito tempo não ouvia. Todos os meus pelos se arrepiaram e, imediatamente tratei de seguir a direção daquele timbre, descrente de que realmente era aquela pessoa ali presente. Quando meus olhos bateram na criatura, quase gargalhei.

– Você? – Proferi a pergunta debilmente de tão descrente. – O que está fazendo aqui?

O sorriso se moldou naqueles lábios bem desenhados, seus olhos escuros brilharam.

– Quantos meios infelizes você vai ter que viver para aprender a cortar o mal pela raiz?

Engoli seco com sua direta. Descrença e raiva se misturaram.

– Como você sempre sabe o que estou fazendo de errado? – Questionei-a, verdadeiramente incomodada com esse fato interrogativo. Retraí os ombros e encarei seus olhos.

Outra vez aquele maldito sorriso se exibiu. Senti arder meu rosto tamanha raiva sentida. Ela se encostou ao balcão, mantendo contato visual comigo pela lateral dos olhos. Num passe de mágicas, sem que ela sequer tivesse trocado qualquer palavra com o barman, sua taça de Martíni foi posta entre suas mãos pousadas no mármore frio do balcão; meu whisky veio logo em seguida.

– Somos praticamente a mesma pessoa, Laurenzinha. – Piscou seu olho provocativamente.

– Odeio quando você aparece… – Murmurei, passando a encarar meu copo com rancor.

– Não seja mentirosa! – Sua gargalhada sonorizou-se fatal. – O que é um corpo sem alma?

Tranquei o maxilar para não rosnar e lancei um mirar furioso – que por sinal, não a comoveu. Indiferente, ela nunca se dava ao luxo de comover-se com minhas asperezas e retinas tempestivas. Aparecendo sempre na hora inoportuna, gargalhava da minha desgraça e desparecia. E quando sua sombra se perdia em meio à multidão, minha vida começava a traçar novas direções.

Ela era como uma maldição do bem. Uma bruxa boa. Sempre por trás das cortinas, assistindo minha vida de camarote, aguardando o momento ideal para dar as caras e fazer minha vida virar de ponta cabeça. Sentia-me como marionetes em suas mãos, divertindo-a em seu tédio.

– Qual a lição de moral dessa vez? – Apressei-me em perguntar, sabendo que era em vão.

Seus jogos envolviam suspense, embora fosse ela a pessoa mais normal de todas. Quem a visse andando na rua diariamente, jamais acreditaria que ela, essa mesma criatura que agora estava diante meus olhos, era a mesma por trás de tantas histórias cheias de suspense e reviravolta.

Álgidos arrepios transgrediram minha pele ao que seus olhos caricatos piscaram em câmera lenta, ocasionando aquele mirar de felina prestes a atacar, que só ela conseguia expressar. Sua presença tinha um magnetismo místico e sombrio que, embora fosse ela uma criatura repleta de suavidade – que nunca usou comigo – transformava suas aparições em eventos de dar calafrios.

Aqueles olhos negros como uma noite tempestiva, de formato pequeno e grandes cílios, portavam em si uma severidade ímpar, digna de uma criatura com sua imponência. Diziam que éramos parecidas nesse quesito, já que nossas aparências divergiam grotescamente. E, embora fossemos realmente de uma discrepante semelhança, eu me recusava a aceitar essa dura realidade. Não gostava nem um pouco dessas comparações. Odiava ser igualada a ela, embora fossemos realmente “quase a mesma pessoa”. Como uma irmã que odeia o irmão, eu a detestava fortemente.

– Se você ainda não sabe, imagine eu. – Argumentou, fazendo-se de inocente.

A forma como seus lábios se moviam ao falar era assolador de tão fascinante.

– Oras, não somos “quase a mesma pessoa”? – Ironizei, logo me arrependendo do feito.

Era burrice tentar sair ganhando de alguma de nossas discussões, e eu sabia muito bem. Porém, sentia tanta raiva por ela sempre ter respostas para tudo, conseguindo assim, passar por cima de todos os meus bons argumentos, que me sentia na obrigação de pelo menos tentar vencer.

Vale ressaltar que: Em anos de rivalidade amiga, nunca consegui vence-la.

– Exatamente! – Gargalhou sarcasticamente. – Nossa diferença está na estupidez.

– Você percebe que acabou de se auto insultar? – Retruquei, sentindo-me vitoriosa.

– Somos quase a mesma pessoa, Lauren. Quase. O que nos difere é a sua estupidez.

O riso triunfante que estava em meus lábios desmoronou. Ela gargalhou outra vez.

– Por que você me odeia? – Perguntei com amargura.

– Não odeio você. – Afirmou, mas acrescentou em seguida. – Odeio quem está sendo.

E ao pontuar isso, sem ao menos me deixar argumentar, ela magicamente desapareceu.

Como sempre.

– MORTÍCIA! – Veronica surgiu num pulo, que fez meu coração parar de bater por instantes, tamanho o susto. Fiquei sem reação, encarando-a com olhos esbulhados e sem piscar. – Você está uma gata, hein! Tenho muito bom gosto mesmo. – Ela se gabou, depois de me avaliar.

– Você só escolheu o look, as roupas quem combinou fui eu. – Falei, recuperada do susto.

– Não seja chata, Laurenzinha. – Veronica revirou os olhos, fazendo careta.

– Até você vai ficar com esse “Laurenzinha” hoje, é?! – Resmunguei, amargurada.

– Eita… – A morena me olhou confusa e chegou mais perto de mim. – O que houve?

– Aquela que o nome não se pronuncia acabou de sair daqui… – Dizendo isso, virei todo meu whisky num gole só.

– MENTIRA QUE EU PERDI ISSO?! – A exclamação de Veronica, de tão alta, conseguiu sobressair até a música que tocava. – Odeio ser atrasada…mas foi por uma boa causa.

Senti resquícios de malícia em seu timbre, mas não tive tempo de falar nada, somente olhei adiante, dando de cara com Camila adentrando a boate acompanhada por Allysson Brooke. Perdida no espaço tempo, encarei Veronica, que estava sorrindo feito o diabo em minha direção.

– O que vocês estão tramando? – Perguntei imediatamente e com raiva.

– Nada… – Sua voz se arrastou perversa. – É só uma noitada, Lauren….Calma.

– O que ela está fazendo aqui? – Apontei discretamente com a cabeça para a direção de Camila e Ally, que vinham devagar, tentando se desvencilhar das pessoas. Meu coração estava dando velozes galopes dentro do peito e minhas entranhas começaram a se estranhar ferozmente.

– Eu convidei, oras… – Simplificou ela, da forma mais natural possível.

E quando Veronica se virou em direção a elas e eu encarei-as também, o que vi fez todos aqueles efeitos ficarem ainda mais devastadores. Eu certamente estava tendo um troço e não sabia. A alguns metros adiante, aquela maldita criatura que a poucos minutos estava aqui comigo, estava agora conversando com Allysson – que era sua amiga há anos. Porém, o problema não estava em ela conversar com Ally, mas sim, o fato de que, Camila estava bastante entrosada naquele diálogo.

– Aquela não é a…

– Sim, Veronica. – Interrompi sua frase, antes mesmo que aquele maldito nome fosse pronunciado. Minha voz saiu grave, quase rosnada; engoli pedras e espinhos, menos saliva. O sangue que corria em minhas veias verteu em fervura, transformando-se em lava vulcânica de ira.

– O-oh…