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THE BEST OF ME – RESIST

Camila Cabello.

 

– Camila, será que você pode, por favor, sair da merda desse banheiro?

Essa era a terceira vez em que Veronica gritava, me apressando. Eu já estava vendo a hora que ela ia arrombar aquela porta, somente para certificar-se de que eu não havia morrido ali. E eu até sairia do banheiro tranquilamente, se caso contrário não estivesse me sentindo tão estranha naquela roupa ao ponto de não conseguir mover um músculo sequer. Congelada em frente ao grande espelho do banheiro, que me dava a visão total do meu corpo envolvido naquele vestido azul-celeste, de tecido requintado e corte justo em minhas circunferências, eu encarava meu visual, tentando me reconhecer. Parecia qualquer outra pessoa, menos eu; uma outra Camila.

E vocês agora devem estar se perguntando o que cargas d’água eu estava fazendo no banheiro de Veronica, arrumada para sair, em plena quarta à noite, enquanto eu deveria estar em casa, me ajeitando para dormir. Inclusive, essa era a mesma pergunta que eu estava me fazendo, porque realmente não me entrava na cabeça as coisas que eu estava fazendo por dar ouvidos a ela. Entretanto, eu preciso confessar que ainda me era um grande mistério a capacidade que ela tinha de conseguir me convencer a tais coisas tão facilmente. Ela parecia ter um dom místico para isso.

Tudo bem que eu não me arrependia nem um pouquinho de ter passado a madrugada com Lauren, até porque, sua presença me era das melhores companhias. Ela parecia um anjo humano. Só que, agir dessa forma, tão inconsequentemente, não estava na lista de planos futuros; não estava nos meus planos perder noites de sono em baladas, ou saindo com a mãe da minha amiga.

Mas não tinha como pestanejar; não haviam contras que se fizesse maiores que seus prós. Parecendo sempre ter resposta para tudo, com ela não tinha como debater. Uma vez dado brecha, ela ultrapassava todos os limites que se opusessem para conseguir seu objetivo – seja lá qual fosse.

Nessa noite, seu objetivo parecia me levar para uma boate.

Sacudi a cabeça, afastando os pensamentos e voltei a focar no que o espelho refletia. Olhei-me por todos os ângulos possíveis – alguns um pouco inusitados – tentando me sentir confortável naquelas vestes, mas era em vão. E eu não ia conseguir sair dali vestida daquele jeito.

Eu deveria ter dito isso quando, há algumas horas atrás, estávamos no shopping fazendo compras. Em contrapartida, devido às condições nas quais me encontrava nessa hora, calculei que não conseguiria falar nada coerente, que a fizesse mudar de ideia – sendo ela quase que irredutível.

Quando vi Veronica escolhendo aquela peça, ciente que a mesma custava mais de cem dólares, quase caí para trás de tão assustada que fiquei. Eu não estava acostumada a vestir algo tão caro, tanto que estava com medo até de me mexer errado e acabar danificando. Creio que se eu juntasse todas as minhas roupas e seus valores, todas juntas não dariam o valor daquele vestido.

O corte era simples, justo no busto e da cintura para baixo era solto, tendo sua saia rodada. Embora não fosse uma peça de gala, o charme daquele vestido era tanto quanto se fosse. E certamente chamaria atenção quando eu passasse por ser tão bonito e tão curto. Ou talvez eu realmente estivesse exagerando em enxergar tanta beleza. Sendo isso, ou não, eu estava surtando.

E meus surtos não se envolviam apenas ao que eu vestia, mas também, ao meu cabelo, que, noutro desses lapsos de loucura, nos quais eu dava ouvidos as palavras ditas por ela, me deixei levar por suas ideias mirabolantes, e assim, deixei que cortassem “as pontas”. Em desespero, olhei-me outra vez no espelho, agora, focalizando minha visão naquela bendita franja.

O problema não era a roupa, era meu cabelo, meu corpo; o problema era eu por inteiro.

Eu não sabia de onde havia se originado tal tormento, afinal, ninguém havia ferido meu ego de forma tão cruel, para ocasionar isso; muito menos sofria algum tipo de bullying no colégio. No entanto, minha insegurança estava sendo facilmente comparada com uma doença crônica e degenerativa, que vinha me assolando há muitos anos, destruindo-me lentamente. E, embora minhas amigas vivessem me elogiando e tentando me fazer sentir melhor, não havia jeito. Eu não conseguia enxergar o que elas enxergavam, e por isso, todo esse turbilhão só ficava cada vez pior.

Sentia-me desconfortável e feia, e tinha vontade de me esconder para todo o sempre.

– Eu estou ridícula… – Resmunguei, quase vertendo em lágrimas.

“Mudar faz bem, mana”

As palavras de Veronica se rebatiam na minha mente, fazendo-me querer matá-la.

– Camila, você está viva? – A voz de Veronica veio branda dessa vez.

– Estou… – Respondi num suspiro sôfrego.

– Então, será que você poderia abrir essa bendita porta? – Ela falava pausadamente, como quem mentaliza um mantra, tentando não cair na tentação de esganar a outra pessoa. Acabei rindo sozinha da sua forte e falha tentativa de manter a calma e a paciência expressa em seu tom de voz.

Feito alguém que acaba de levar um choque, recuperando minha capacidade de mover braços e pernas, andei até a porta e a destranquei, e por ela, entrou Vero numa euforia assustadora.

– Garota, achei que tivesse morrido! – Exclamou ela, avaliando-me da cabeça aos pés.

– Não…mas…quase…

– O que foi? – Perguntou, pondo as mãos na cintura; seus olhos ainda avaliativos.

– Eu estou ridícula! – Vomitei aquilo, sentindo vontade de chorar. – Olha o meu cabelo!

A única coisa que se moveu em seu corpo foram seus olhos, que alcançaram meus cabelos, em um mirar muito monótono; perante seu olhar tedioso, senti-me ligeiramente estúpida. E, embora ela tivesse me enchido de elogios no caminho de seu apartamento, não podia evitar estar me sentindo tão estranha e desconfortável. Tudo em mim estava diferente demais para lidar.

– O que em você está ridículo, miga? Não consigo ver…

Ela estava sendo sarcástica, e eu sabia. E foi quando eu prestei atenção em sua presença, notando o quanto ela estava incrivelmente linda, que comecei a ter um verdadeiro ataque cardíaco. Eu não sabia distinguir o que era mais chamativo nela, se eram suas pernas exibidas através do vestido curtíssimo, ou se era aquele bendito cabelo perfeito, ou se era sua maquiagem impecável.

Veronica estava tão linda, que estava até me dando inveja.

– Vero… – Murmurei, sentando-me derrotada na tampa do vaso sanitário. Queria simplesmente desaparecer daquele banheiro e aparecer na minha cama, deitada em posição fetal.

Ouvi-a bufar audivelmente.

– Que foi, Camila?

– Essa roupa…não estou confortável…meu cabelo está horrível…quero ir embora.

Agora eu estava em prantos, tendo ela encarando-me como se eu fosse louca. Por instantes quis rir de sua expressão cômica com suas sobrancelhas franzidas e seu lábio superior enrugado. E só não caí na gargalhada porque, antes mesmo que eu tivesse essa chance, ela desapareceu dali.

– Vero? – Me levantei imediatamente, indo atrás dela. – Veronica?

– Estou no quarto! – Exclamou ela, parecendo muito tranquila.

Segui o corredor que me levaria até seu quarto e, ao adentrar o cômodo, encontrei-a pondo seu guarda-roupa praticamente a baixo, em busca de algo. Pilhas e pilhas de roupa eram derrubadas em uma cascata colorida de tecidos. Faltava pouco para ela ser soterrada pelas roupas.

– O que está fazendo? – Preferi perguntar por pura precaução, temendo que, no meio de suas roupas, ela estivesse apenas procurando uma arma para me dar um tiro por ser tão dramática.

Depois de pôr tudo a baixo, voltou-se em observação ao amontoado de roupas no chão.

– Estou procurando algo que seja mais a sua cara… – Falou coçando o queixo, pensativa.

– Não sei se agradeço ou se fico com medo… – Eu disse, tentando descontrair.

– Não me agradeça. – Ela me encarou. – Apenas prometa que, depois de pronta, vai aceitar que você é linda, incrível e gostosa, e que não tem motivo algum para se sentir tão insegura assim.

Engoli seco, pois seus olhos eram muito sérios; como eu nunca havia visto.

– Ok.

Pontuei com firmeza, porque de alguma forma, suas palavras me passavam segurança.

Da mesma forma que ela havia conseguido me convencer a sair com ela àquela noite, aos poucos, enquanto me ajudava a decidir o que vestiria, ela foi tratando de me abrir os olhos para algumas verdades. Nunca pensei que a ouviria falando sério, mas, suas palavras, embora tão pesadas e sem meios, foram muito preciosas. Se eu saí completamente transformada e feliz daquele apartamento, deve-se o mérito inteiramente a Veronica Iglesias.

Por fim, quando já estávamos no táxi, a caminho da boate, eu ia remoendo suas palavras uma por uma, ao mesmo tempo em que, a contragosto, tinha que a escutar cantando (berrando) Despacito a plenos pulmões – e numa animação de dar inveja –, com a cabeça para fora da janela.

Veronica era um evento no qual para participar, era necessária muita disposição e bom humor – e muitas vezes precisava de paciência. Quando vista assim, era impossível acreditar que essa louca, era a mesma criatura a me ensinar coisas sobre amor próprio de forma tão sutil e séria.

“Cada ser é único, e belo em sua singularidade.
E, se por outrora não tiverem a dádiva de sua beleza compreender,
sinta-se lisonjeada:
És tão bela,
que nem as palavras desses pobres humanos
podem expressar
”.

Lauren Jauregui.

 

– Aquela não é a…

– Sim, Veronica. – Interrompi sua frase, antes mesmo que aquele maldito nome fosse pronunciado. Minha voz saiu grave, quase rosnada; engoli pedras e espinhos, menos saliva. O sangue que corria em minhas veias verteu em fervura, transformando-se em lava vulcânica de ira.

– O-oh…

Fechei o semblante, enfurecendo minhas expressões em tempestade. Voltei-me em direção ao barman, quase implorando-o que deixasse a garrafa de whisky a minha disposição. E talvez eu viesse a fazer isso em algum momento daquela noite, caso aquela criatura permanecesse.

– Elas estão vindo para cá… – Veronica avisou, quase sussurrando.

– O que a Camila está fazendo aqui? – Rosnei em puríssima cólera.

– Ela veio comigo, oras. – Pontuou sarcástica, dando gargalhadas a seguir.

– Você e aquela criatura combinaram de vir juntas? – Indaguei, referindo-me ao diabo.

– Não, mas seria o meu sonho. – Replicou ela, dando tapinhas no meu ombro.

Revirei os olhos, quase bufando chispas de fogo.

– Eu vou ir embo….

– Lauren! – A voz de Camila surgiu animada, atropelando a continuação da minha frase.

Fui virada imediatamente e inesperadamente por algo, que constatei ser seus braços, e quando dei por mim, ela estava me abraçando de forma efusiva e fortemente. Retribui, apertando-a ainda mais contra meu corpo, mesmo estranhando aquele acesso de afeto. Por outro lado, era bom estar abraçando-a outra vez, embora não tivessem muitas horas desde o nosso último abraço.

E, quando aos poucos fomos nos separando, seu corpo foi se revelando diante meus olhos, quase me fazendo cair para trás. O ar se perdeu no caminho até meus pulmões; pisquei seguidas vezes, tentando acreditar que não estava vendo uma miragem. Se naturalmente Camila já era linda, naquela noite, estava o dobro. Por fim, esqueci-me da raiva para lhe sorrir da melhor forma.

– Oi. – Fui cordial, mesmo que sorrindo descaradamente. – Você está muito bonita.

Esperei os efeitos de sua timidez agirem avermelhando sua pele, fazendo seus olhos brilharem cheios de ingenuidade, mas, para minha surpresa, não aconteceu. Através da máscara de cílios que enegreciam seus olhos, ela mirou-me aquelas órbitas castanhas e sorriu lindamente.

– Obrigada. – Agradeceu numa convicção anômala. E, dizendo as palavras posteriores, tratou de se aproximar para ajeitar a gola da minha blusa. – Inclusive, você fica bem nessa jaqueta.

Tão cheia de atitude, olhando-me tão profundamente, me vi na obrigação de engolir seco.

– Parece que o jogo virou, não é mesmo?! – Veronica somente soltou aquela pérola e riu.

Outra movimentação súbita aconteceu, dessa vez feita por Allysson que, puxando-me pelo braço esquerdo, levou-me para um canto vazio da boate, pondo-me cara a cara com a criatura. E não houveram oportunidades para protestos, pois logo ela já estava soltando seus marimbondos.

– As duas façam o favor de parar com essa babaquice. Vocês já estão velhas demais para ficar nessa infantil rivalidade. Lauren, aceite que os fatos: Ela queria te ajudar, mas você é burra.

E, virando-se para a outra, falou diretamente com ela.

– E você, dona Brenda, pare de ser cruel com ela. A vida já faz isso de graça.

O sorriso se moldou nos lábios dela; meu sangue ferveu ao ouvir seu nome.

– O que aconteceu no passado, ficou no passado. Ponto final. – Decretou Allysson.

***

Algum tempo depois, tendo já secado duas garrafas de vodka, Veronica, Brenda e Camila estavam já na pista de dança, enquanto eu e minha amargurada amiga Allysson estávamos ainda no bar, jogando conversa fora. E, eu até faria sobre minha rivalidade com Brenda, mas Ally havia me proibido de tocar no assunto àquela noite, deixando claro que, era para ser uma noite divertida.

E, por um lado eu até que estava feliz. Embora a odiasse veemente, eu gostava muito dela. Tendo humor muito mais ácido que o de Veronica, confesso que gostava da sua visão do mundo. Brenda era uma criatura perversa comigo – e somente comigo –, mas no fundo era muito maneira.

Porém, outro dia falaremos sobre isso.

– Agora que está mais calminha, vamos dançar? – Allysson indagou, olhando-me.

– Pode ir, Ally. – Eu disse calmamente. – Irei quando meu whisky acabar.

– Ok.

Pontuando isso, ela desapareceu entre a multidão de corpos.

Fiquei de costas para o balcão, tendo meus cotovelos descansados no mármore frio e um repleto copo de whisky preso entre os dedos da mão esquerda. A diante, um pouco mais a direita, meus olhos miravam fielmente Camila, descrentes de que aquela garota que estava dançando tão livremente, era a mesma garota tímida que conheci em um final de semana em minha casa. Eu já deveria ter me acostumado com o fato de que Camila era cheia de surpresas, devido ao momento que tivemos rodando pela cidade, debatendo banalidades, vivendo a noite como se fosse a última. Entretanto, perante aquelas retinas que me brilhavam tão ingênuas, custava-me aceitar esses fatos.

Meus olhos, esses arqueiros verdes, que tem me acompanhado fielmente e sem falhas por uma vida inteira, de repente – e sem avisos – pareciam ter encontrado outra musa para deslumbrar. Nenhuma das belas coisas que eu havia visto na vida, tinha beleza suficiente para sobrepor a sua. Ela parecia pertencer àquela pista, seu corpo parecia ter sido moldado de forma única, para se mexer da forma hipnótica e sensual, que só ela estava tendo ao mover suas belas e sinuosas curvas.

Meu olhar escorreu por suas circunferências, varrendo suas curvas minuciosamente.

Camila estava usando um maldito blusão branco, cujo o corte ficava bem justo em sua bunda volumosa. E, aquele blusão que dizia em letras negras para “resistir”, agia de forma reversa.

Não havia como resistir àquele corpo.

Parecia puramente proposital seus olhos não desgrudarem dos meus; era como se ela estivesse, de alguma forma inusitada, tentando me hipnotizar, para assim, me atrair para sua teia. Aqueles olhos de amêndoa reluziam mais que as luzes coloridas daquela boate, seu corpo se colocava em evidencia. Não havia outra garota naquele lugar, que pudesse tomar minha atenção.

E, parecendo ter lido meus pensamentos, desvendando o conflito interno em que eu me encontrava, confirmando que, sim, era de propósito, ela sorriu, lançando-me uma piscadela fatal.

Ardeu, de um súbito espantoso, meu coração. Mandei grandes goles de whisky para dentro, afim de apagar aquele calor que por dentro me ardia – e por poucos instantes, funcionou. Quando outra vez ardeu, derrotei o copo com grandes goles, logo substituindo-o por outro cheio. E quanto mais eu bebia, mais copos eram acrescentados a comanda, mais eu queimava por dentro.

Sorri discretamente em sua direção, mantendo a pose de abismo impenetrável.

De muita estranheza era essa troca de olhares provocativos que ocorria. A imponência daquela menina, parecia muito maior que a minha, desafiando-me sem precisar de muitas armas. Perante aquele olhar cheio de intenções implícitas, eu me colocava novamente em pura descrença. Parecendo habitar duas pessoas distintas dentro de uma, Camila era sim, uma caixa de surpresas.

Rolava por entre corpos e copos, as batidas afrodisíacas da música que embalava o local. Os graves esmurravam minhas paredes ósseas, as palavras melódicas me invadiam as moléculas. Sendo consumida por toda aquela aura propensa a luxúria, tendo meus olhos vidrados no corpo daquela morena, comecei a suar frio – embora estivesse sentindo um calor descomunal me arder.

– Eu deveria saber como chegar nela… – Resmunguei para mim mesma, sendo pega de surpresa pela petulância de minhas palavras súbitas e cheias de segundas e maliciosas intenções.

Assolada com a linha de raciocínio que estava sendo criada em minha mente agitada, na qual me levava diretamente a Camila, fiquei de costas para a cena e me debrucei sobre o balcão. Puxei todo ar que podia comportar nos pulmões, logo soltando lentamente, afim de me abrandar. Minha testa estava suada e fervente, molhando meu braço com suas gotas gélidas; eu estava febril, e não era só a parte superior do meu corpo que estava sendo consumida por aquele ardor indômito.

Excitada era pouco para definir meu estado; a minha sorte era estar vestindo uma calça apertada, que ajudava a disfarçar o volume evidente. Estava me sentindo adolescente novamente, com os hormônios a flor da pele, tendo ereções repentinas e inexplicáveis. O que me diferia da adolescência era que, ao contrário dessa fase, dessa vez eu tinha boas e perigosas razões: Camila.

Foi então que eu comecei a passar mal verdadeiramente ao constatar que: Eu, casada, já na casa dos trinta, estava desejando uma garota que é menor de idade e é amiga da minha filha.

Eu só não sabia dizer em que momento da vida havia começado a ver ela daquele jeito.

– Um momento bom pra caralho nunca machucou ninguém, Laurenzinha…

– Se tem o consentimento, as coisas mudam de figura, meritíssima.

Sussurros em meu ouvido me fizeram quase saltar de susto. Ergui meu corpo imediatamente, dando de cara com aquela maldita criatura do inferno, acompanhada de Veronica.

– Vocês estão juntas nisso?! – Comecei a proferir palavras ofegantes. – Deveria imaginar.

As duas sorriram abertamente e reviraram seus respectivos olhos teatralmente.

– Qual é, Lauren! – Brenda soltou perversamente. – Ela quer tanto quanto você.

Engoli seco; era como se minha saliva tivesse evaporado com toda aquela quentura.

– Você parece o diabo… – Deixei o copo de lado e usei as mãos para me abanar.

– Por que, Laurenzinha? – Sorriu maliciosamente. – Minhas palavras estão te tentando?

– Ou são os seus desejos que estão te pondo em tentação? – Veronica se intrometeu.

Encarei-as, totalmente descrente de que aquilo estava acontecendo. E, sem muitos argumentos plausíveis, apenas ergui minha mão esquerda, exibindo minha aliança de casamento. O que resultou em, inesperadamente, Veronica agarrando-se a minha mão como um cão faminto ao ver um bife, e depois daquela súbita exaltação, a aliança não estava mais presa em meu anelar.

Brenda gargalhou triunfante com o feito. Aturdida, só tive olhos para encará-las.

– Não esta noite. – Veronica pontuou em decreto, como se suas palavras viessem para responder a frase que ficou implícita com meu ato anterior. Depois de falar, exibindo um sorriso cafajeste, tratou de esconder o anel dourado dentro do seu sutiã. Embasbacada, não tive respostas.

– Você enlouqueceu, Veronica? – A incredulidade saltou por meus lábios.

Depois de fazer gestos incompreensíveis ao barman, Veronica me abraçou pelos ombros somente para ter acesso ao meu ouvido, e, assim, poder sussurrar no tom mais malicioso possível:

Chifre trocado, não dói.

Arregalei os olhos, quase sentindo eles saltarem para fora.

– Não faça perguntas. – Brenda entremeou-se, lançando um mirar reprovativo para Veronica, vendo a fúria expressa em meus olhos. – Apenas curta a noite, cara. A vida é uma só.

– A noite é uma criança, meritíssima… – Veronica argumentou. Era incrível como aquelas duas estavam sendo tão venenosas em suas palavras tão naturalmente. – Ela quer, você também.

– Ela quer o que? – Perguntei de repente, zonza com aquele tanto de informações.

Minha vida poderia ser facilmente comparada a um trem fora de controle, descarrilhando lentamente, enquanto eu assisto toda essa tragédia acontecer, com as pernas amarrados nos trilhos. Minha visão estava ficando confusa devido ao álcool, meus pensamentos estavam embaralhados.

– Você. – Brenda deu o ponto final, dando as costas e voltando para a pista de dança.

– Bom… – Veronica recomeçou, falando na mais pura normalidade. – Vai beber comigo?

Voltei-me em direção ao balcão, encontrando seis doses de tequilas alinhadas lado-a-lado.

Eu estava verdadeiramente abestalhada, sem saber mais o que pensar sobre nada, perdida em minha própria vida. E, depois de dar uma risada gostosa e escandalosa, escarnecendo da minha lerdeza e desgraça, Veronica dividiu as doses, posicionando três para o meu lado e três para o seu.

Fitei os copinhos de shot, depois seus olhos.

– Vejo você no inferno! – Falei, pegando um dos copinhos, e pisquei para ela.

“Um, dois…três: Beba!”

Numa velocidade anômala, sem brindes, sem cerimônias, as doses foram ingeridas uma seguida da outra; sequências de sensações foram surgindo, misturando dormências, tremores e calores. Quando virei o último, tudo girou rapidamente; me encostei no balcão, tentando não cair.

E não houve tempo para muito degustar da amarga tequila, pois, em seguida, grandes goles de whisky estavam sendo ingeridos. Garganta e estômago pareciam estar sendo fervidas em ácido, assim como meu corpo inteiro estava entrando numa violentíssima combustão. Por sorte, eu estava muito acostumada com bebidas fortes, caso contrário, estaria muito ferrada a essa altura.

– Amiga, tudo bem? – Perguntou Veronica, vertendo em risos.

A boate estava girando diante meus olhos, mas tudo que fiz foi gargalhar.

– Ainda estou respirando. – Eu respondi fazendo um joínha com o polegar.

E se eu tinha problemas, não conseguia lembrar, porque, simplesmente, a vida parecia subitamente mais cômica e suave, correndo plena e tranquila naquela noite, naquela boate lotada. Eu estava ali, com minhas melhores amigas – e a Brenda, que eu detestava, mas no fundo amava. Eu estava ali, naquela boate, em plena quarta-feira à noite, novamente revivendo uma juventude que de mim foi ceifada muito prematura, na companhia de uma menina-mulher, com ferozes e gentis olhos castanhos, que tinha as curvas mais sinuosas, nebulosas e traiçoeiras. Ela me devastaria com a leveza de um furacão, mas me faria sentir viva como a muito não estava sendo.

Tendo engolido meus conceitos junto com a tequila, que agora me ardia o sangue, eu aceitava que, sim, a noite era só uma criança, e, dois corpos que se desejam, juntos devem ficar. Lancei um olhar promissor para minha amiga, mas que foi retribuindo de forma venosa e maldosa.

Ela mirou em direção a pista de dança, depois, tornou a me encarar; sorria majestosa.

Segui o tracejar de seu mirar, buscando encontrar o que lhe havia feito brilhar os olhos daquela forma tão perversa e cheia de divertimento, encontrando algo que me fez verter em fúria.

– O que diabos ela pensa que está fazendo? – Rosnei feito um cão; meu maxilar trancado com toda força, faltava muito pouco estilhaçar todos os meus dentes; minha respiração era pesada.

Muito próximas, Brenda exibia os melhores sorrisos para Camila, que dançava junto dela.

Elas estavam muito próximas.

Próximas até demais.

– O que ela sempre faz: Te desafiando a lutar pelo que deseja. – Simplificou ela, mantendo aquele sorriso desgraçado nos lábios. – Agora é você quem decide se vai ficar só olhando ou não.

E quando dei por mim, já estava me embrenhando no emaranhado de pessoas, empurrando quem entrasse em minha frente, somente para acabar com aquela brincadeira cretina.  Ao me aproximar, dei toques no ombro de Brenda, somente para tomar sua atenção, e, assim, seu lugar. Quando ela me olhou e sorriu, dando-se por satisfeita em me ver ali, foi saindo de fininho.

Allysson sorriu, meneando negativamente a cabeça, depois de ouvir alguma coisa que Veronica havia sussurrado em seu ouvido. Todavia, tudo que fiz foi ignorá-las direcionando meu olhar para Camila, que já estava avaliando-me com aquelas retinas devastadoras de tão castanhas.

A mudança repentina no ritmo que nos embalava, transmutando-se para algo mais arrastado, sem perder a sensualidade, pareceu tão proposital, quanto o sorriso que Camila exibiu, prendendo a língua entre seus dentes. Sabia que era errado, mas como poderia eu, não a desejar?

Como poderia eu, olhar para aquela maldita boca, sem querer beijar?

E, quando achei que havia controlado minha excitação, a latina virou de costas e o perfume de seus cabeços se espalhou. Meu corpo começou a se mexer de forma mecânica, porque eu havia simplesmente perdido a capacidade de processar meus comandos, quando inebriada com seu perfume e hipnotizada com o movimento de suas curvas, eu sequer conseguia respirar direito.

Meu peito estava em chamas, ardendo sentimentos que eu nunca havia testemunhado acontecer – pelo menos não dentro dessas paredes ósseas, cheias de carne e sangue. Eu podia sentir o inflamar que acontecia em minhas veias transpassar a epiderme, como uma febre tórrida, que nunca cessa, apenas queima mais e mais. Conforme aquele perfume me invadia as narinas a violentíssimos pontapés, o fogaréu se espalhava de forma ainda mais devastadora por meu corpo. Como uma floresta em chamas, aquele aroma era o vento a espalhar minhas labaredas destrutivas.

Sangue e álcool se misturavam em embriagues, fazendo meu rosto formigar. Minha alma, liberta de suas corretes, sentia-se feliz. Tamborilava em meu coração as apressadas batidas de uma euforia assustadora de tão boa. Era loucura, mas eu conseguia enxergar o paraíso refletido naquelas retinas castanhas e cheias de pura e ingênua malícia. O céu é castanho, estou certa disso.

Estávamos tão próximas, mesmo que distantes. As miradas lascivas daqueles olhos me atingiam feito dardos de adrenalina. Corria em minhas veias o choque proporcionado por aqueles benditos, de tão malditos, olhos. Era alucinante era ver como suas curvas se moviam; seus cabelos derramados sobre ombros e costas eram detalhes hipnóticos, assim como o sorriso em seus lábios.

O mundo ao redor não passava de luzes coloridas e desfocadas, girando lentamente e de forma hipnótica. Ou eu estava sofrendo alguma espécie de overdose, ou eram apenas os seus devastadores efeitos agindo verdadeiramente – e livremente – em meu ser. Se era ela a criatura que me levaria as ruínas cinzentas, que meu reinado viesse a baixo na mais gloriosa imponência.

Quando lonjura de seu calor se tornou massacrante, uma dor lancinante, ao cérebro parei totalmente de dar ouvidos. Tendo cada terminação nervosa de meu corpo suplicando por mais pele, cheiro e toque, feito um animal selvagem e indócil, deixei para depois minha racionalidade.

E as distâncias que antes nos separavam os corpos, se transformaram em sua mão em minha nuca e suas unhas cravadas em minha pele. Havia um sorriso em seus lábios tão tentadores quanto o fruto proibido. Grudados como um ímã, nossos corpos sem moviam na mesma lentidão.

Ela cheirava a pecado, suas curvas eram moldadas nas linhas traiçoeiras da perdição. A tão tímida e calada menina, transmutada em mulher devastadora, estava a me ensandecer a mente. Perdendo o controle dos meus atos, esquecendo todos os meus conceitos, todas as minhas cadeias, de pouco a pouco, eu ia me rendendo – quase de joelhos – aos seus encantos, permitindo-me apenas desfrutar o momento. Aquelas curvas eram labirintos que atraiam os mais íntimos desejos.

Deixando-me incendiar por completo, desistindo de lutar contra o fogo que insistia em me consumir, lancei-me de braços abertos as chamas, sem me preocupar com as queimaduras que seriam provenientes desse meu ato impudente. Tendo minha pele em chamas, queimando de dentro para fora, eu estava ali, com minhas mãos em sua cintura e meus lábios em sua pele quente.

Moldei meus lábios em seu pescoço e deixei ali beijos suaves, que preencheram sua pele com arrepios. E como resposta, ela rebolou lentamente, roçando sua bunda em meu quadril. Por alguns segundos senti-me envergonhada, porque ela certamente havia sentido minha nítida ereção, mas os pensamentos de mim foram ceifados quando reparei na sincronia de nossos corpos.

O encaixe era perfeito; seu corpo parecia ter sido feito para se moldar ao meu dessa forma.

O álcool agindo forte em meu sangue, estava a despertar em mim um desejo quase animal, no qual eu precisava com urgência controlar. E quanto mais eu me colocava para pensar na coerência de meus atos, mais perdida eu me via, e mais longe do caminho de volta eu ia ficando. E foi num estalo de sanidade, pensando na merda que eu estava fazendo, que me vi não tendo mais controle de minhas atitudes. Era para me afastar dela e simplesmente ir embora, mas tudo que fiz foi virar seu corpo e, agarrando-a pela cintura, juntei nossos lábios em um beijo ardoroso, que demorou a ser retribuído.

Mas foi.