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The Best Of Me – Other sides

Lucy Vives.

– Como está a situação da sua mãe com a Lauren? – Meu avô (Anthony) perguntou sem mais nem menos, um tanto preocupado.

Estávamos sentados na cozinha, tomando café, enquanto aguardávamos os cookies feitos por minha avó ficarem prontos. Assim como minha avó – sua esposa –, ele estava cansado de ter que ir me buscar no meio da noite porque eu não conseguia dormir com a gritaria delas, e eu estar ali, repentinamente, na ideia dele certamente o pior estava se passando.

– Ah, a Keana continua sendo irritante e minha mãe continua sendo budista em toda sua paciência. – Minha resposta veio em voz baixa, para que minha avó não escutasse. Ela odiava minha mãe Lauren e às vezes, eu a odiava por isso.

Meu avô riu, certamente das minhas palavras referentes à sua filha.

– A Lauren com você? Como está sendo? – Uma página de seu jornal foi deixada de lado.

– Ela me levou para sair hoje… – Sorri automaticamente com as lembranças ainda muito recentes de uma tarde incrível. – Fomos ao shopping, ela pagou pizza para minhas amigas, depois fomos fazer compras. Lauren sempre compensa sua falta de tempo sendo a melhor mãe possível, vô, só a Keana que…

Minha última frase já estava rabugenta o suficiente para que eu precisasse concluí-la, e nem precisava, meu avô já estava – literalmente – careca de saber.

– Sua mãe sempre foi muito difícil de lidar. – Ele fechou seu jornal, dobrando-o pacientemente, enquanto falava. – Ela sempre fez a pobre da Lauren de gato e sapato. Ainda não sei como a Lauren ainda não enganou sua mãe enquanto ela dormia. Eu no lugar dela, já tinha jogado Keana pela janela.

Ao final, meu avô já estava vermelhinho de tanto rir. Sua barriga balançava quando ele ria.

– Vô! – Dei um tapinha em seu ombro, rindo. – Só você para me fazer rir.

– Ué… – Suspirou, limpando o canto dos olhos. – É a mais pura verdade! Keana é igual à sua avó: Impossível. Não sei como aguento essas duas.

– O que vocês estão falando de mim aí? – Minha avó entrou na cozinha, falando.

– Estamos falando que você é linda e que seus cookies estão muito cheirosos. – Meu avô, sempre muito sacana, desconversou, falando de forma tão convincente que se bobear, até eu acreditaria se ouvisse isso sem saber do assunto anterior.

– Sei… – Dona Margot colocou suas mãos na cintura, desconfiada. – Meus cookies estão realmente muito cheirosos. Duvido que a Lauren consiga fazer cookies tão bons.

Ela tinha que provocar…

Revirei os olhos, soltando o ar pesadamente, mentalizando coisas positivas, cantando mantras mentais, contando de 1 à 10, tudo para não ser uma neta mal educada e mandar essa velha lavar a boca antes de falar da Lauren.

– Margot! – Meu avô a repreendeu. Ela apenas rolou os olhos, assentindo seu erro.

– Lucy, vá lavar as mãos para lanchar. – Ordenou minha avó. Autoritária como minha mãe.

Tudo que fiz foi me levantar, obedecendo sua ordem. Subir seria a melhor coisa. Assim eu não ficaria perto dela e não ouviria suas provocações. Meu avô acariciou meu ombro antes que eu saísse, como se dissesse: “Calma! Não a esgane, por favor”.

Subi até o meu quarto – sim, eu tinha um quarto na casa deles -, e lavei as mãos no banheiro todo decorado com coisas rosas. Nunca entendi o porquê de um banheiro ser tão colorido assim. Minha avó era muito exagerada. Sempre tentando de todas as formas possíveis e impossíveis, me conquistar.

Às vezes conseguia.

Tipo quando fazia seus cookies de chocolate.

Eu não era muito próxima dos meus avós por parte da Lauren, pois eles moravam em Londres, mas nas férias, quando eu viajava para lá, era uma farra. Mike e Clara, pais de Lauren, eram as criaturas muito joviais e modernos, e muito bem-humorados. Não tinha como ficar infeliz ou mal-humorado perto daqueles dois.

Apesar de ser meio (às vezes muito) grossa, Lauren tinha o senso de humor deles.

A mamãe sempre ia passar o natal com eles, enquanto a Keana ficava aqui com meus avós. Essas duas famílias não se bicavam de jeito algum. Eu odiava isso, sempre acabava tendo que escolher, e sempre escolhia os avós Jauregui.

Óbvio!

Por que diabos eu ficaria em Miami, aturando minha avó ranzinza e minha mãe ainda mais velha espiritualmente que minha avó, quando poderia estar rindo de sentir doer a barriga, com meus avós divertidos e descolados em Londres?

Ainda mais que nessas comemorações de finais de ano, Veronica e Allysson (melhores amigas de Lauren), se juntavam com a família. Na verdade, elas são praticamente da família. São tipo irmãs da minha mãe. Ally eu trato realmente como tia, mas a Vero… há certa relutância nisso. Começando pelo fato de que a Veronica é linda. Não que a Ally seja feia, porque ela também é muito bonita, mas a Vero é tipo: L-i-n-d-a!

Morena, cabelos castanho-escuro, olhos intensos e escuros (castanhos, mas puxando para o preto) mais ou menos da altura da minha mãe Keana (1,58) e um corpo de roubar o fôlego. Do tipo que te faz olhar e pensar: “Quero te comer”. E, não satisfeita em ser gostosa, ela é perfeita de rosto. Veronica é sem dúvidas a mulher mais bonita que já vi na vida. Toda espalhafatosa, enfezada, metida, e sempre usando roupas curtas…sempre me olhando de um jeito provocante…

Céus!

– Se controla, Lucy! – Falei comigo mesma, me abanando do calor repentino que havia tomado conta do meu corpo.

Na ideia – não muito útil -, de tentar me esquivar daqueles pensamentos, e enquanto minha avó não me chamava para comer, deitei em minha cama e fui ler minhas mensagens. E tenho a plena certeza que metade de Miami ouviu a gargalhada que eu dei, lendo as coisas que Dinah estava falando sobre nossa saída com minha mãe.

[D.J] – Mani, você perdeu! A Lauren nos levou ao shopping hoje para comer pizza, Camila ficou toda tímida perto da crush, mas faltou pouco comer ela com os olhos.

Esclarecendo os fatos: Camila sempre teve uma quedinha (um precipício) pela minha mãe Lauren, e Dinah (Claro! Quem mais poderia ser?) sempre fazia piadinhas sobre isso. Lembro-me até hoje de quando elas viram minha mãe pela primeira vez (o segundo dia de aula, da sétima série) e a Camila soltou um “acho que estou apaixonada”, que nos fez rir por semanas seguidas.

[Mani] – Hahahaha sério? Essas coisas só acontecem quando fico doente.

[Mila] – Vocês são ridículas! Ela não é mais minha crush.

[Lucy] – Ah, não? Então porque toda vez que minha mãe falava contigo, você ficava mais vermelha que uma pimenta?

[Mila] – Cala a boca, Lucy!

[Lucy] – Ainda ficou com o terno da minha mãe hahahaha vai ter sonhos eróticos com ela.

[D.J] – Vai dormir sentindo o cheirinho da senhorita J.

[Mani] – Vocês não valem nada! hahahaha

– Lucy, venha lanchar enquanto está fresquinho! – Minha avó berrou do andar de baixo.

O cheiro dos cookies invadiu meu quarto despudorado, fazendo meu estômago rugir de fome.

[…]

Quarta-feira

– Lucy, vamos! – Meu avô bateu em minha porta, passando pelo corredor.

– Já vou! – Berrei com a boca cheia de pasta de dente.

Devia ser um pouco mais de 6h40 da manhã quando Lauren ligou para o meu avô pedindo que o mesmo me levasse ao colégio, pois ela tinha que estar mais cedo no trabalho e não poderia o fazer. Até agradeci ela pelo bom senso de não mandar que a Keana viesse me buscar e me levasse à escola.

Ok, vamos por etapas:

1 – Eu não odeio (totalmente) a Keana. (Não totalmente).

2 – Sim, eu botei muita pilha nela sobre elas terem outro filho.

3 – Não, eu não faço a menor ideia do porquê fiz isso.

Aula de química.

Átomos, blá blá blá, moléculas blá blá blá…

– Que sono… – murmurei quase inaudível e derrotada, esfregando os olhos.

– Os átomos também podem juntar-se com outros átomos diferentes, formando as moléculas.

Numa animação atípica para aquela hora da manhã, Alfredo, o professor gordo e falho de química, tagarelava sem parar sobre sua matéria. Parecia estar contando algo incrível, que talvez fosse sei lá, mudar o mundo. Seus olhos brilhavam de uma forma que me fazia invejá-lo por estar tão alegrinho, enquanto eu segurava minhas pálpebras com a ponta dos dedos, para manter os olhos abertos.

No quadro, desenhos de círculos com letras “H e O” dentro, ocupavam o centro do quadro, enquanto como se fosse uma moldura ao redor do desenho, a matéria (ENORME) estava lá, a disposição para copiar.

– Os átomos podem ligar-se de formas bem diferentes e formar muitos tipos de moléculas. – Ele prosseguia falando, ainda mais animado que antes.

Ok… Átomos, meu cérebro tentou processar, mas foi em vão.

Átomos que se ligam…?

O que diabos são essas moléculas que ele está falando?

Ele explicou isso? Em que momento?

– Vocês estão entendendo alguma coisa? – Me virei para trás, para perguntar à Normani e Dinah, que estavam sentadas uma do lado da outra.

A resposta de Dinah foi seu caderno ser virado em minha direção, dando-me a visão de uma enorme interrogação desenhada por toda a extensão da folha em caneta vermelha.

– Já posso ver a silhueta circular do zero que vou levar na prova. – Normani comentou em voz baixa, sem tirar os olhos das anotações que fazia, certamente copiando as coisas que o professor havia copiado no quadro.

– Aonde está a Mila, hein?! – Dinah fez uma careta estranha, olhando para a tela do seu telefone. – Ela ainda não chegou, muito menos visualizou minhas mensagens.

É verdade! A Camila…

Estava com tanto sono que havia praticamente esquecido que minha melhor amiga existia. Que cabeça a minha!

– Seja lá onde ela estiver agora, certamente está melhor que a gente. – Me permiti a deixar aquela brincadeira flutuar pelo ar, roubando risinhos de minhas duas amigas.

Pigarreando teatralmente bem ao meu lado, como se apenas para chamar minha atenção, o professor havia se materializado sem que eu ao menos sentisse sua aproximação. Sua mão grande e áspera tocou meu ombro.

Normani fechou os olhos, temendo a bronca que estava por vir, Dinah derreteu em sua cadeira. Fiquei imóvel. Até uma pedra me invejaria nessa hora.

– Estou atrapalhando o diálogo das senhoritas com minha aula? – Seus dedos se apertaram em meu ombro. Mesmo que de cabeça baixa, eu sabia que todos outros alunos estavam nos olhando nessa hora. Eu sentia o calor de seus olhares e ouvia os burburinhos.

Rígida, lentamente fui me virando para a frente.

– Então, galera… – tremi instintivamente, com seu tom de voz alto. – Vamos dar continuidade.

Desvencilhando-se da minha fileira, e voltando para frente do quadro, seus olhos negros e irritados ainda faziam contato direto comigo, esperando mais um deslize meu para me levar para a direção.

– Da mesma forma que existem forças de atração entre átomos de cargas opostas, existe também atração entre as moléculas. – Prosseguiu dizendo, apontando para as coisas que havia escrito no quadro.

– Professor! – Dinah chamou-o em voz alta, levantando seu braço, e pelo seu risinho sacana expresso em seus lábios, tanto eu, quanto Normani, já imaginávamos que ela falaria alguma merda. – Eu tenho uma pergunta.

– Sim, senhorita Jane. – O homem colocou os braços para trás.

– Esses átomos que sentem atração pela carga oposta seriam os héteros e as moléculas os gays?

Fez-se silêncio por toda sala e de repente…todos gargalharam.

Minha cabeça despencou derrotada do pescoço, minha testa bateu no tampo da mesa, enquanto relutante, eu usava de todas minhas forças para não gargalhar daquela imbecilidade dita por Dinah.

O professor parou a aula para falar o quanto estava decepcionado com o comportamento daquela turma (Dinah, eu e Normani), e, abstraindo seus comentários nocivos, com o celular escondido de baixo da mesa, eu conferia minhas redes sociais, até que…

[Bruxa do 71] – Filha?

Engoli seco.

Responder ou não responder? Essa era minha maior dúvida. Keana nunca. Se liguei nesse termo: Nunca. Ela nunca, em hipótese alguma, me mandava mensagens de texto nos horários de aula, porque “aula é lugar de prestar atenção”.

E se essa mensagem fosse um teste para um possível castigo?

Mas e se fosse algo sério?

Ainda bem que tirei a confirmação de visualização e o visto por último.

– Não responde. – Magicamente, como se tivesse lido meus conflitos mentais, Dinah disse.

– Se for importante mesmo ela vai mandar outra. – Agora foi a vez de Normani interceder.

As duas pareciam as vozes da minha consciência, uma falando baixinho em cada ouvido meu.

– É verdade…

Travei a tela novamente e quase que no mesmo ato, a mesma se iluminou de novo, brilhando o “apelido carinhoso” de Keana.

[Bruxa do 71] – Eu sei que você está na aula, mas por favor, me responde, é sério.

Por favor?

O que é isso? Ela foi abduzida por aliens? Bebeu? Será que está se drogando?

– Por favor? – Repetiu Dinah. – Ela realmente está com problemas.

[Lucy] – Oi.

[Bruxa do 71] – Graças à Deus!!!! Preciso de um conselho seu.

Conselho? Meu?

– Será que ela bebeu água do vaso no café da manhã? – Mani brincou.

Outras pessoas chamariam aquelas duas de bisbilhoteiras, mas elas eram minhas melhores amigas, então, sempre iam/viam/sabiam tudo que eu fazia.

– Com certeza! – Dinah riu.

[Lucy] – Diga.

[Bruxa do 71] – Hoje é aniversário de casamento meu e da sua mãe…

[Lucy] – E daí?

– Seca, hein… – Dinah comentou bem humorada, referindo-se à minha frieza nas respostas. Ri.

[Bruxa do 71] – Queria fazer algo especial…

Fechei os olhos por alguns segundos, tentando assimilar se queria rir ou chorar.

Mães não transam. Mães não transam! Mentalizei.

Dinah e Normani riam, batendo as costas de uma mão na palma da outra. Gesto um tanto obsceno.

– Desnecyrus… – Revirei os olhos, constrangida.

[Lucy] – Você não tem amigas não? É bem esquisito aceitar o fato de que vocês transam.

[Bruxa do 71] – Que isso filha! rsrsrs foi assim que você nasceu.

[Lucy] – Infelizmente sei disso… mas olha, sei lá… compra uma lingerie, faz um jantarzinho romântico, seja doce, tente não estragar a noite e não ser desagradável.

– WOW! – Dinah expressou, como se eu tivesse dado um fora épico em Keana, gesticulando feito um rapper.

– Podia ter dormido sem essa. – Normani gargalhava.

[Bruxa do 71] – Assim vamos acabar te dando um irmão rsrsrs

[Lucy] – Acho que já está passando da hora.

[Bruxa do 71] – Oi?

[Lucy] – Tudo bem, gata? Você vem sempre aqui?

Debochada? Eu? Jamais!

[Bruxa do 71] – Não se faça de sonsa Lucy. Você concorda com a ideia de um irmão?

[Lucy] – Claro! Vocês estão azedas demais. Só um bebê fofinho e gordinho para melhorar esse azedume

[Bruxa do 71] – *-*

– Lucy! – meu avô se materializou na minha frente, fechando a torneira. – Em que mundo você está, minha filha? Já são 7h30!

Num estalo meu cérebro recobrou suas funções normais. Peguei minhas coisas e desci direto para a garagem, sabendo que se fosse me despedir da minha avó, ela soltaria algum comentário venenoso sobre Lauren não ter ido me buscar.

O percurso rumo ao colégio foi tranquilo, conversei coisas banais com meu avô, e ele me fez prometer que passaria um final de semana com eles assim que desse. Por fim, eu já estava de frente com a enorme e vermelha fachada do meu colégio.

– Bom dia, meninas! – Cumprimentei Dinah, Normani e Camila, que estavam sentadas na escadaria em frente ao colégio, esperando o portão abrir.

– Bom dia, Lucy! – Dinah foi a única a responder, sempre eufórica. Normani apenas acenou com a cabeça, e Mila sorriu.

– Lu, isso é da sua mãe. – Camila me estendeu o terno preto da minha mãe, dobradinho.

Guardei-o em minha mochila ouvindo ela dizer que não tinha tido tempo de lavar, nem era necessário, então, apenas mandei ela relaxar.

– Cadê sua mãe? – Perguntou Dinah, provocativa, roubando uma gargalhada de Normani. Camila corou violentamente.

– Isso não tem graça. – Camila se defendeu, mais vermelha que um tomate maduro.

– Se eu estou rindo é porque tem graça. – Dinah mal conseguia falar de tanto que ria.

– Ai, Mila, não precisa ficar tímida. Nós compreendemos sua paixão platônica por aqueles olhos verdes sedutores. – Gargalhei. – Mas ela não me trouxe hoje, o vovô quem me trouxe.

– Ah, que pena né, Mila! – Dinah abraçou Camila pelo ombro, fazendo beicinho de deboche.

– Vocês me pagam. – Camila arqueou uma sobrancelha, nos ameaçando.

***

As aulas passaram depressa, graças aos céus. E quando o sinal finalmente tocou, uma muralha parecia ter saído de meus ombros.

Quatro tempos de matemática em um dia só era demais.

Estava pegando meus livros no armário quando meu celular vibrou dentro do meu bolso.

– Halloo! – Atendi animada. Era a Lauren.

– Oi, filha, tudo bem? – Sua voz saiu afoita.

– Sim, claro! Já está aí fora me esperando?

– Hoje você está livre tanto de mim, quanto da sua mãe, mas não conte para ela, será segredo nosso, hein. – Seu risinho no fundo, me fez rir. E Keana ainda me perguntava por que eu sempre preferia a Lauren.

– Aconteceu alguma coisa? – Preferi perguntar, porque isso era algo inacreditável de se acontecer.

– Não, só fiquei presa no trabalho, então, não conte para sua mãe que não fui te buscar, ela não vai estar em casa quando chegar, e qualquer coisa, diga que te deixei e saí, ok?

– Ok.

Depois disso, nos despedimos e eu desliguei o celular.

– Meninas, vou poder ir embora andando com vocês hoje. – Anunciei, animada.

Podia parecer bobagem minha ficar animada com isso, até porque eu não faria nada além de ir caminhando por dois quarteirões até chegar em casa, mas eu nunca tinha liberdade. Raríssimos eram meus momentos longe de alguma de minhas mães. Keana sempre dava um jeito de me cercar de todas as maneiras possíveis. Ir ao shopping com minhas amigas exigia da Lauren horas de muita paciência para conseguir convence-la a deixar. Acho que se dependesse dela, eu passaria todas as horas do meu dia, trancada no quarto, estudando.

Não era assim antes… Quando eu tinha 9 anos, eu tinha muito mais liberdade do que tenho agora com 15. A Keana foi mudando bruscamente conforme os anos foram passando e deixando de ser minha mãe favorita, para tornar-se meu maior tormento.

Antes, eu contava com ela para tudo, já que a Lauren trabalhava muito e era muito ciumenta comigo, mas parece que o jogo virou. Agora a Lauren era minha favorita, porque me dava liberdade, me ajudava a ter uma vida social, enquanto a Keana faltava pouco me prender na torre mais alta, do quarto mais alto, cercada por dragões.

– Que milagre! – Normani pareceu abismada.

– A Lauren é a melhor mãe do mundo. – Ajeitei minha mochila nos ombros. – Keana nunca vai ser um terço do que a Lauren é para mim.

– Não fale assim, Lu… – A voz doce de Camila surgiu, abafando um pouco da minha amargura. – Sabemos que ela não tem sido uma boa mãe, mas ela ainda é sua mãe.

– É… tem isso.– Concordou Dinah.

Eu gostava da Keana, juro, ela já tinha sido uma boa mãe, mas de repente, tudo que eu fazia parecia estar errado, ela só sabia brigar comigo e com a minha mãe. O que meu avô disse era verdade, nem eu entendia o que minha mãe Lauren tanto insistia com a Keana, era nítido que elas não se amavam mais.

Não existia mais aquele brilho nos olhos.

– Sabe, meninas… – Comecei a falar, enquanto andávamos rumo a porta de saída do colégio. – Eu tenho quase certeza de que elas não se amam mais, sabe?! A Lauren pode até gostar um pouco a minha mãe, mas está na cara que ela não aguenta mais tantas brigas.

– Você acha que a Keana ama a sua mãe Lauren? – Normani perguntou, fitando-me.

– Não. Quem ama não faz o que ela faz.

Senti um nó se formar em minha garganta. Era doloroso encarar o fato de que minha família estava se despedaçando, mas quem disse que a realidade seria fácil?

– A Keana só sabe gritar, criticar e reclamar. Nada está bom para ela. A Lauren se esforçou ao máximo, quando isso começou, mas vendo que não dava jeito, ela desistiu. Para mim, elas só estão casadas no papel, porque na vida elas já se separaram a muito tempo. Ontem foi o aniversário de casamento delas e a Lauren nem ia comprar presente.

Concluí, suspirando com certa angustia.

– Isso é tão triste… – Camila comentou, com pesar. – Sei como se sente, Lu. E posso garantir que as coisas vão melhorar.

Beijei a bochecha da latina.

Camila era a minha favorita entre Normani e Dinah. Ela era aquela amiga que tinha um conselho certo para toda e qualquer situação. Era a que acordava no meio da madrugada com ligações minhas e mesmo sonolenta, ouvia todos os meus choros e desabafos. Sempre tão pés no chão (mesmo que muito sonhadora) e tão doce (mesmo com a vida sendo tão amarga com ela). Adorava passar horas conversando com ela sobre as coisas da vida.

Ela era a mais velha entre nós, tinha 17 anos e já tinha passado por tanta coisa.

Há quase um ano seu pai havia falecido, deixando sua mãe e irmã numa dificuldade tão grande, às vezes, ela tinha que deixar de lanchar na escola para ajudar sua mãe a juntar dinheiro para pagar o colégio, que era particular e caríssimo. Claro que nós não a deixávamos sem lanche. Conosco, ela nunca passaria nenhuma necessidade. Mas ainda assim Camila era uma guerreira.

Isso tudo me fazia admirá-la.

Já Dinah e Normani, tinham a minha idade, pais ricos, vida ganha. Dinah era filha de advogados, Normani filha de médicos. A maior dificuldade enfrentada por elas foi quando o iPhone 7 lançou e elas tinham acabado de comprar o 6.

Nós não tínhamos do que reclamar. Mesmo com minhas mães quase se divorciando, eu não tinha do que reclamar, pois tinha tudo, estudava no colégio mais caro, tinha sempre as roupas da moda. Minha vida era perfeita nesse sentido. E ver Camila passando por essas dificuldades e permanecer sorrindo, muitas vezes me motivava a continuar, a ter calma com a Keana, e acreditar que tudo poderia melhorar.

Amava minhas amigas, amava muito, mas Camila sempre me cativava de uma forma diferente, tanto pela sua simplicidade, como por sua doçura.

[…]

Eu já tinha feito meu dever de casa, estudado para a prova de biologia que teria no dia seguinte, e estava assistindo televisão na sala, quando Keana chegou falando ao telefone. Acho que nem se ligou que eu estava ali, pois continuou falando em alto volume.

– Eu sei, Gabriel, mas não posso fazer isso agora. Eu tenho uma filha de 15 anos que quer um irmãozinho. Como ela vai ficar se eu falar isso sem mais nem menos?

Meu corpo inteiro estremeceu ao ouvir aquilo. Do que diabos essa mulher estava falando?

– E ainda tem a Lauren… – Sua pausa foi dramática. – Ela vai ficar arrasada.

Ouvindo aquilo, eu ergui meu rosto, para ver o que ela estava fazendo. Keana estava parada em frente o espelho enorme, localizado em cima da mesa de bebidas, seu rosto estava rosado, como sempre fica quando segura o choro. Quando vi que ela ia se virar para mim, ao invés de abaixar a cabeça, permaneci fitando-a. Nesse instante, a muralha em forma de mulher desmoronou, derramando grossas lágrimas.

– Gabriel, depois nos falamos.

Ela desligou o celular e o jogou de qualquer jeito em cima da mesa de bebidas, não se importando se quebraria. E, como uma criança correndo para o quarto dos pais após ter um pesadelo, minha mãe avançou até mim, apressada, e atirando-se em meus braços, começou a chorar compulsivamente.

– Mãe, o que houve? – Perguntei, assustada, abraçando-a meio sem jeito.

A mulher era apenas prantos, com o rosto afundado em meu pescoço. O mundo parecia estar acabando para ela.

A porta da sala foi aberta e por ela entrou Lauren, que vendo aquela situação esquisita, franziu o cenho, deixando que sua pasta escorregasse por sua mão e caísse no chão.

– O que houve? – Minha mãe balbuciou sem som, enquanto passava a chave na porta.

– Não sei… – Repeti o mesmo ato que ela.

Em passos rápidos, ela se aproximou de onde estávamos e segurando o queixo de Keana, ergueu seu rosto.

– Keana, o que houve? – A voz de minha mãe saiu baixinha e rouca.

Usando as mangas do meu casaco, sequei o rosto da minha mãe.

Eu estava apavorada com aquilo, tão apavorada que mão conseguia piscar.

– Precisamos conversar… – Keana disse, olhando Lauren nos olhos, após fungar.

– Vamos para o quarto…

Tomando Keana pela mão, Lauren e ela subiram, e eu fiquei ali, sem entender nada.

[Lucy] – Gente, aconteceu uma coisa muito estranha.

[D.J] – O que?

[Lucy] – Minha mãe chegou falando com um tal de Gabriel sobre algo que não poderia contar para mim e para a Lauren pois ficaríamos arrasadas, e quando me viu começou a chorar.

[D.J] – Será que ela vai pedir o divórcio?

[Mani] – Dinah! Não seja negativa.

[Lucy] – É uma possibilidade… mas acho que ela não choraria por isso.

[Mani] – Fogos ela também não soltaria.

[D.J] – Lauren está aí?

[Lucy] – Sim. Elas subiram para conversar.

[Mani] – O que te resta é aguardar que elas desçam e contem o que houve.

As horas passaram depressa; já era mais da meia noite e nenhum sinal delas, – que haviam subido pouco antes das oito.

Eu ainda estava bastante confusa com a cena que havia acontecido, ainda mais pelo fato de Keana chorar na minha frente. Era mais fácil a Lauren – que era feito uma rocha de tão firme -, chorar na minha frente, do que a Keana, que era sempre tão intensa em suas expressões. E vê-la chorando daquela forma, tão perturbada, me deixou incomodada.

[Mila] – Lu, como estão as coisas aí? Tudo bem?

Camila sempre sendo uma fofa.

[Lucy] – Acho que sim, amiga… ainda não sei o que houve. Elas ainda não desceram.

[Mila] – Tenho certeza que não foi nada demais…

[Lucy] – Confio nas suas palavras…

Eu ainda estava na sala, assistindo um filme qualquer, comendo pipoca, quando ouvi passos descendo a escada. Pelo ritmo e força das passadas – lentas e pesadas -, eu já sabia que era Lauren.

Lauren sem dúvidas era a pessoa que eu mais conhecia no mundo. Eu sabia exatamente quando ela estava alegre ou triste, apenas pela cor de seus olhos. Conhecia seus passos de longe, até o som do seu carro. Sabia quando ela estava ficando irritada, pois mesmo que ela não demonstrasse, sua voz tornava-se mais grave. Suas manias eu poderia enumerá-las facilmente, desde à principal delas que é mexer no cabelo, até a pouco notada, que é sua mania de não saber disfarçar quando acha algo – ou alguém – bonito, e fica encarando.

Acho que eu sabia mais da Lauren, do que minha própria mãe sabia. Seria uma boa se eu fizesse um manual da mamãe Lauren e entregá-lo como presente para a Keana.

– Ainda acordada, filha?

Lauren beijou meus cabelos, e sentou-se ao meu lado no sofá. Recostando no estofado, suspirou profundamente. Parecia derrotada, seus ombros pareciam pesar toneladas. Ela ainda vestia as mesmas roupas de quando havia chegado.

– É, né, estou esperando alguém me explicar o que diabos foi isso que aconteceu aqui.

Minha mãe acabou rindo, um riso cansado, que parecia ter exigido o que restou de suas forças mentais e físicas, mas voltou a sua seriedade inicial.

– Bom.. – Limpou a garganta para prosseguir. – Como sua não está se sentindo bem para falar sobre isso, ela pediu que eu te contasse. – Lauren fez uma pausa, apenas para desligar a TV. – Keana fez alguns exames essa semana e neles, ela descobriu que está com um problema no útero, que vai obrigá-la a retira-lo ou seja, não vamos poder te dar um irmãozinho.

As palavras lentas e carregadas de preocupação foram se assentando em meu cérebro, mas nenhum pensamento específico se manifestou sobre.

– Ela vai ficar bem? – Foi tudo que eu quis saber.

– Sim, vai, mas não era bem essa nossa preocupação. – Disse fitando-me com desconfiança, certamente por eu ainda não ter expressado nenhum tipo de desapontamento.

– Se a preocupação era que eu ficasse triste por não ter um irmão, quero dizer que estou um pouco aliviada por saber que isso não vai acontecer. – Ouvindo minhas palavras, os olhos verdes de minha mãe se arregalaram. Vendo isso, me apressei em concluir, antes que ela pensasse mais alguma besteira. – Vocês não estão nada bem como casal, seria cruel colocar uma criança nesse meio.

Mesmo não querendo, Lauren concordou, balançando a cabeça positivamente.

– Fiquem tranquilas. – Sorri sem mostrar os dentes. – Vou superar isso.

– Então…

Lauren pareceu desconcertada. Sem mais palavras a acrescentar. Possivelmente surpresa com minha reação e com a maturidade que lidei com a situação toda em si. Eu tentava não me meter no meio delas, muito menos dialogar sobre as brigas e tentar apaziguar, afinal, isso era coisa delas. Mas isso não significava que eu era surda ou idiota. E ela sabia disso.

– Era isso mesmo. – Minha mãe se pôs de pé, estava exausta, seus olhos estavam vermelhos. – Agora vamos dormir porque está tarde e a senhorita tem aula amanhã.

Eu me levantei também, estava sonolenta e ainda tinha que encarar uma prova de biologia na manhã seguinte. Em silencio, fomos caminhando rumo à escada.

– A propósito! – Lauren se voltou para mim, parecendo ter se lembrado de algo. Abracei-a pela cintura, e olhei. – Sua mãe viajará no final de semana e só irá retornar na segunda-feira, então, após conversar um pouco com ela, decidimos que você poderá trazer suas amigas para passar o final de semana aqui. Sua tia Vero também estará aqui.

Não contendo minha animação, fiquei na ponta dos pés e agarrei o rosto da minha mãe com as duas mãos.

– É por isso que eu te amo! – Apertei suas bochechas macias. A risadinha gostosa emitida por ela nessa hora, tornou-se meu som favorito.

Camila Cabello.

– Não vai dormir, filha?

Sinu, minha mãe, perguntou, encostando-se ao batente da porta. Já passavam das duas horas da manhã, e eu que já deveria estar no décimo quinto sono, estava com a cara afundada no livro de biologia, estudando para a prova que teria de manhã.

– Tenho prova amanhã no primeiro tempo, mama. – Suspirei. – O professor tem sido muito exigente comigo por causa das minhas notas vermelhas em sua matéria.

Sabia que não deveria estar comentando isso com minha mãe, pois ela já estava enfrentando muitos problemas, e não precisava de mais um, ao saber que sua filha não estava conseguindo ir bem no colégio, que ela se esforçava tanto para pagar. Mas era inevitável, uma hora ela saberia de qualquer modo. Então, que soubesse inicialmente por mim.

Às vezes, eu me pegava imaginando como estaríamos se ainda morássemos em Cuba. Talvez tudo ainda estivesse bem. Talvez nada do que aconteceu à nós aqui teria acontecido.

Não tínhamos uma vida perfeita lá, mas tínhamos conforto financeiro e felicidade dentro do lar. O que para mim, vale muito mais do que qualquer quantia em dinheiro.

E, bastou que meu pai fosse transferido para Miami que o inferno se instalou entre nós.

Ele arrumou amantes, se envolveu com jogatinas, passou a beber muito e por fim, acabou ficando muito doente e veio a falecer. Suas amantes levaram o pouco que nos havia restado, e agora, tanto eu, quanto minha mãe tínhamos que trabalhar para sustentar a casa e minha irmãzinha de cinco anos chamada Sofia.

– Acho que vou conversar com o gerente e pedir suas contas na cafeteria, você precisa estudar. – Agora, minha mãe estava sentada em minha cama, e fitava o chão, pensativa. – Vou ver se arrumo algum bico como doméstica para ajudar nas contas.

– Nada disso! – Retruquei, elevando um pouco minha voz. – Prefiro ir para um colégio público.

– Camila, minha filha… – Os olhos castanhos e cansados de minha mãe se encontraram com os meus. – Olhe para sua mãe, exausta de tanto trabalhar, tudo isso porque não teve estudo. Eu insisto que permaneça nessa escola, que se esforce para tirar boas notas, porque com estudos já está difícil, imagine sem.

Ela tinha tanta razão. Mas ainda assim me sentia amarga.

– Eu sei, mama… mas me dói ver a senhora trabalhando tanto para pagar um colégio tão caro para mim. Ainda tem a creche da Sofia.

– Não se preocupe com isso, mi hija! Vai dar tudo certo. – Dona Sinu sorriu em toda sua simplicidade. E, no mundo, jamais existiria um sorriso tão lindo quanto aquele. – Agora estude e vá dormir. Ficarei em seu turno da tarde para que possa descansar sua mente.

– Mas e Sofia? – Questionei-a, preocupada com minha irmãzinha.

– Ela estará na creche, esqueceu?

A calmaria das palavras de minha mãe, sempre me faziam sentir tola por ser tão desesperada com as coisas. Eu estava sempre tão preocupada com as contas, que acaba me esquecendo até dos horários da Sofia.

[…]

Quinta-feira

– Nossa, Mila, você está horrível! – Dinah comentou, me observando com uma careta estranha.

Estávamos apenas eu e ela, sentada no refeitório. Normani e Lucy ainda estavam na sala fazendo a prova de biologia. E eu estava exausta. Fisicamente e psicologicamente.

– Passei a madrugada toda estudando. Não tive tempo de estudar de tarde, porque estava no trabalho… – Bocejei. – Mas acho que fui bem nessa prova.

– É, estava bem fácil dessa vez. – Dinah sorriu, aliviada. Nós duas estávamos ferradas em biologia. – Tome isso, vai te despertar. – Ela me empurrou seu copo térmico de café.

– Era tudo que eu estava precisando!

– Eu sei, eu sei! – Gargalhou, convencida.

– Eu tenho a plena certeza que vou tirar um zero bem redondo nessa prova! – Normani chegou se lamentando em voz alta, de braço dado com Lucy, que saltitava, toda animada.

– Ah, que isso! Estava tão fácil! – Disse Lucy, sorrindo de quase rasgar o rosto.

Dinah e eu trocamos olhares de “tem alguma coisa no meio dessa animação toda”, mas preferimos esperar que a própria Lucy nos contasse o porquê de sua súbita animação às 9h40 da manhã.

– Tenho que concordar. – Falei finalmente.

As meninas se juntaram à nós na mesa, onde ficaríamos até o sinal da saída tocar, pois não teríamos mais nenhuma prova, nem aula. A semana de provas sem dúvidas era a melhor semana de todas.

– Gente! – Lucy exclamou alto, tomando nossas atenções para si, como se estivesse prestes a fazer um pronunciamento importante. – Esqueci de comentar que minha mãe vai viajar na sexta e vocês vão poder ir passar o final de semana lá em casa.

Sabia! Lucy não fica alegrinha assim de manhã atoa.

– Não sei porquê, mas sempre que a Lucy fala algo sobre a mãe dela viajar ou sumir do mapa com toda essa euforia, eu já sei que é da Keana que ela está falando.

O comentário feito por Normani fez com que todas nós ríssemos.

– Ela é um porre… – Lucy revirou os olhos, ainda rindo. – Mas fiquei com pena dela noite passada.

– Por que? – Perguntei, lembrando-me da situação comentada pela mesma, noite anterior.

– Ela fez uns exames essa semana e indicaram que ela vai ter que tirar o útero, aí a bichinha ficou arrasada porque não vai poder me dar um irmão.

Se eu não tivesse conhecimento de toda a situação de Lucy com as mães, acharia absurda e talvez um pouco desumana a sua neutralidade ao explicar aquilo, enquanto jogava CandyCrush no celular. Dito daquela forma tão despreocupada, o assunto parecia irrelevante, como se a mesma não desse a mínima. Mas no fundo, sabíamos bem que ela estava chateada, porém, ainda assim, aliviada. Seria praticamente um crime colocar uma criança indefesa no meio daquele casamento conturbado.

– Que triste. – Dinah ficou tensa.

Por poucos segundos (que pareceram longos) tudo ficou silencioso: Lucy ainda neutra, jogando no celular; Dinah encarando as unhas rosa-choque; Normani fazendo cara de paisagem; e eu, tentando achar em meus pensamentos, algo que fosse relevante para ser dito. Nada encontrando, decidi que talvez o silêncio fosse a melhor resposta.

– Mas, vamos falar de coisa boa! – Lucy se sacudiu, dissipando as ondas negativas do assunto anterior, e abrindo um sorriso malicioso logo depois. – Minha tia Vero vai ir lá para casa também, então, existem grandes possibilidades de ter bebida e da minha mãe nos deixar beber.

Ah… A tal Vero.

– Uhmmmm…. A Vero… – balancei as sobrancelhas, provocativa, deixando minha voz sair o mais maliciosa por isso.

– Adoro a tia Lauren por isso! – Dinah brincou.

– Espera! – Normani piscou, confusa. – Essa sua “tia Vero”, não é aquela amiga da Lauren que é afim de você?

– E que a Lucy é afim. – Dinah simplificou.

– SIMM! – Lucy praticamente gritou, eufórica. – Ela é tão linda… – Se abanou, fingindo estar com calor, nos roubando risos. Seus olhos claros brilharam. – Pena que minha mãe é capaz de morrer se existir algum tipo de contato entre nós.

– Sua mãe Lauren é capaz de matar a Vero. Sua mãe Keana é capaz de matar você. – Normani pontuou a frase em tom descontraído.

– Verdade… – Lucy passou a língua pelos lábios, pensativa – Vocês bem que podiam me ajudar nisso, não é?! – De forma cômica, ela balançou as sobrancelhas, como eu havia feito anteriormente, e sorriu sacana.

– Não quero arrumar problemas. – Me retirei logo da jogada.

– A Mila fala isso só porque não podemos ajudar ela a ficar com a Lauren. – Dinah me esbofeteou com aquela deboche. Fuzilei-a com os olhos, boquiaberta, forjando estar ofendida.

– É verdade! – Lucy e Dinah bateram um “HighFive”.

– Coitada da Mila! – Normani me defendeu, acariciando piedosamente meus cabelos.

Elas duas adoravam me encarnar, só porque um dia eu disse que estava apaixonada pela Lauren, mas foi só brincadeira inocente…

Ok, não tão inocente assim. Mas vou explicar melhor.

Lauren Jauregui, mãe de Lucy, era sem dúvidas uma das coisas mais bonitas já vista pelos meus olhos que um dia a terra irá de comer. Isso se não a mais bonita. Era bastante inocente de minha parte achar ela bonita, pois é claro que muito concordariam comigo, afinal, a mulher era absurdamente linda. Não de um jeito comum, mas sim de um jeito que… uau...

A beleza de Lauren era tão extraordinária que a pobreza do vocabulário humano não era capaz de expressar elogio apropriado.

Tinha olhar imponente na cor verde-esmeralda, rosto muito bem desenhado, sem defeito algum; pele muito alva e corpo malhado. Estava sempre muito bem vestida, sempre muito elegante. E, toda vez que ela ia buscar ou levar Lucy no colégio, seu perfume forte e amadeirado me causava arrepios estranhos.

Mas é claro que seria idiotice de minha parte alimentar alguma espécie de crush” por ela, logo por ela: Mãe da minha amiga, casada há anos. Aquilo não se passava apenas de uma admiração, uma quase que idolatria por sua beleza, postura irreverente e sorriso gentil. Sem contar com sua simpatia e forma amistosa de lidar com as pessoas.

Assim, divagando sobre Lauren, me peguei relembrando da conversa breve que tivemos no dia anterior, quando ela me olhava nos olhos e perguntava com certo espanto, o porquê de eu estar fazendo o dever de casa enquanto deveria estar me divertindo.

Aquele olhar dela…aqueles olhos dela

Como se por instinto, por pura vocação provocativa, um vento frio soprou em minha nuca, arrepiando-me lentamente e por inteiro.

Banal e corriqueiro, adjetivos que relacionados aos olhos dela, soariam como uma infame. Um pecado gravíssimo. Um crime inafiançável. Incomum e sobre-humano era o magnetismo que aquelas retinas tão verdes portavam em si. Um poder dito propriamente como avassalador. Cada fragmento de olhar vindo dela, tinha a capacidade de avançar livremente toda e qualquer barreira de olhos, sendo capaz de ficar cara-a-cara com a alma.

Quando sorrindo, seus olhos pareciam um clarão no meio às trevas de tão brilhantes, e seguindo essa linha, mecanicamente me peguei imaginando como seria olhar aqueles olhos quando carregados de ira ou…luxúria.

Céus…!

Dedos estalando na minha frente. Unhas rosas. Anéis e pulseiras.

Minha vista focalizou novamente, meus pensamentos voltaram à realidade.

Era Dinah.

– Amiga, aonde você estava? – Perguntou ela, me olhando como se eu fosse um E.T.

– Estava pensando em formas de suicídio por não poder beijar a Lauren. – Normani soltou aquela frase, enquanto ria.

– Fica assim não, miga! Se um dia elas se separarem, prometo fazer maior força para que vocês se peguem. – Lucy não perdia a chance de fazer suas piadinhas ridículas. – Vou adorar te ter como madrasta.

– Ha ha há. – Debochei, logo depois mostrei a língua. – Faria questão de ser uma madrasta muito perversa!

– Ai, pelo amor de Deus! – A menina fez uma carinha de nojo. E fez o sinal da cruz. – De perversa já basta minha mãe que é um saco.

– Eu posso saber do que vocês tanto riem?

Estremeci. Arrepiei. Tremi.

A voz rouca e profunda, capaz de amolecer qualquer um e ruir qualquer muralha, rompeu nossos risos, vibrou por todo o refeitório, e me roubou uma lufada de ar. Seu perfume dançou entre nós, inebriando-nos, até que se alastrou por todo o lugar, se apoderando de nossas respirações.

Ou talvez só a minha.

Foi como se um raio tivesse caído sobre minha cabeça, quando por pura teimosia, procurei com os olhos quem havia me causado aquilo, encontrando parada de braços cruzados a nossa frente, nada mais, nada menos que Lauren. Seus olhos brilhavam tão intensamente, ofuscante, que fazia seu sorriso gentil (e sedutor) expresso no canto dos lábios passar quase despercebido. Quase.

– Falando no diabo… – Dinah murmurou apenas por provocação. Virando-se em direção à reencarnação da Deusa Vênus.

– E ainda estavam falando de mim? – A voz dela soou ainda mais grave, porém descontraída, e, sorrindo ainda com mais ânimo, ela pôs as mãos na cintura. – Que feio!

Era a primeira vez que eu não a via com roupas formais. Lauren estava vestindo um blusão cinza-claro, calça skinning preta, bem justa em suas coxas (e que coxas!) e rasgada nos joelhos; calçava coturnos preto-desbotado. Seus cabelos estavam presos em um coque bem feito, seus lábios tingidos de vermelho-claro.

Ela estava linda…Mais do que o normal. Jesus!

– O que faz por aqui, mãe? – Lucy perguntou, abraçando-a pela cintura, permanecendo sentada, com a cabeça encostada na barriga da maior. Lauren fez carinho em seus cabelos.

Sempre tão amorosa.

Uma súbita e amarga inveja (e raiva) de Keana vieram, esquentaram meu sangue e se dissiparam.

– Vim pagar seu colégio, já que sua mãe esqueceu de fazer isso ontem. – Lauren explicou atenciosamente, olhando a filha nos olhos. Lucy tinha muita sorte em ser filha dela.

Vendo que o único espaço vago que tinha no banco era ao meu lado, Lauren caminhou até mim e se sentou. Foi impossível conter minha timidez e meu nervosismo, que agiram praticamente de imediato, fazendo meu rosto ferver como lava vulcânica. Não entendia o porquê de ficar tão ruborizada perto dela. Talvez fosse sua beleza excessiva que me deixasse tão inconstante.

– Como vocês estão, meninas? – Sua pergunta foi para todas, mas seu olhar era unicamente direcionado à mim.

Por que diabos ela estava me olhando?

Certamente estava reparando nas minhas olheiras ou no fato de um mendigo estar muito mais bem vestido que eu naquela manhã.

– Nós estamos bem! – Dinah foi a primeira a falar, casualíssima. Invejei-a por não se intimidar tão fácil por aquela criatura desaforadamente bela.

– Mãe, acho que você não conhece a Normani, mas ela irá passar o final de semana conosco também.

Lucy apresentou Normani à Lauren, que sorriu de forma gentil e simpática para a mesma. As duas apertaram as mãos e trocaram algumas brincadeiras que meu cérebro não conseguiu processar.

– Você vai ir também, Camila?

Fui puxada para a realidade, dando de cara com Lauren me encarando.

Minha garganta secou.

Bolas de feno passaram em meu cérebro, tipo como acontece em filmes de faroeste.

– Ela vai sim. – Lucy respondeu por mim, vendo que eu não iria conseguir.

Normani tinha o rosto apoiado nas mãos, rindo, certamente pensando: “Assim não dá para te defender, amiga!”.

Já Dinah, tinha o triunfante olhar de quem está prestes a soltar mais uma de suas piadinhas, e eu comecei a rezar para que ela ficasse muda repentinamente. Minhas preces claramente não foram ouvidas, sendo logo pisoteadas pela voz de aguda de Dinah.

– Depois fala que não tem crush nisso aí…

As lavas vulcânicas derreteram meu rosto. Normani agora estava de olhos fechados, esperando a reação de Lauren, no entanto, quem reagiu foi Lucy, dando uma cotovelada em Dinah.

– Aí! – A morena resmungou, fazendo careta de dor. – Só estava brincando!

A frase de Dinah, a cotovelada de Lucy, minha vermelhidão, até mesmo a cara de Normani, pareceram ter passado despercebidas por Lauren, que parecia debilmente alheia, me olhando.

Por que raios ela estava me encarando?

– Finalmente te encontrei!

Todos os olhares se voltaram para a voz que havia praticamente berrado aquela frase.

Mais adiante, uma morena muito bonita, de longos cabelos castanhos, vestindo um short curtíssimo cinza e blusa branca, caminhava gloriosa em nossa direção, enquanto retirava seus óculos escuros dos olhos. Sua entrada só não foi mais triunfal porque não tocou Crazy in love da Beyoncé, para que ela pudesse desfilar com os cabelos ao vento. Mas fora isso, nota dez para sua entrada, que arrancou suspiros de uma certa Lucy, agora mais vermelha que pimenta.

Seria essa a tal Vero?

Tudo bem que Lucy já tinha me mostrado fotos dela, mas minha memória é horrível.

– Ninguém mandou ficar uma eternidade no banheiro. – Lauren falou com a moça, que parou ao seu lado, olhando para cada uma de nós. E depositando um certo olhar muito demorado em Lucy. – Meninas, essa é minha amiga Veronica.

– Ah… – Dinah tinha que abrir a boca. – É um prazer, Vero.

O riso de Normani, após o enfático “Vero”, na voz de Dinah foi o fim para mim, o riso escapuliu de sem que eu ao menos conseguisse conter.

– Então essa é a famosa Vero! – Falei, abusando da malícia, olhando para Lucy como quem diz: “Tudo que vai, volta”.

– Vocês estão muito risonhas hoje… – Em tom de desconfiado, Lauren fez aquela observação, intercalando seus olhares entre cada uma de nós, como se estivesse decidindo para quem iria olhar, até que parou em mim, agora com uma sobrancelha arqueada.

– São as drogas. – Dinah… sempre a Dinah. Vendo que Lauren a encarava, ela continuou. – Brincadeira. Não uso drogas…São as vozes na minha cabeça.

Lauren parecia ter desistido de compreender as loucuras de Dinah, finalmente voltando a olhar para Lucy, pegando-a no pulo, trocando olhares com Vero.

– Cof cof… – Normani falou teatralmente.

– Não está na hora de você ir não, mãe? – Lucy se corrigiu, faltando pouco colocar asas e uma aureola em cima da cabeça.

– Está me expulsando? – Lauren mudou sua postura analítica, fazendo beicinho, feito uma criança pirracenta.

A vontade de apertar suas bochechas foi intensa, mas nada fiz. Nem podia.

– Sim! – A menina engasgou, logo tossindo e se recompondo. – Não. Claro que não.

– Sei… – A de olhos verdes, estreitou suas pálpebras, desconfiada. – Mas eu realmente tenho que ir. – Pôs-se de pé. – Vejo vocês amanhã de noite, meninas.

Após despedir-se da filha, ela e a tal Vero se retiraram, conversando e rindo entre si.

– Eu vou matar vocês! – Lucy rosnou, furiosa.

Agora ela sabia como eu me sentia com suas brincadeirinhas de mal-gosto.