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The Best Of Me – One Last Time

Lauren.

 

Ódio (s.m)
É quem tem inveja da gratidão.
É filho da ira, irmão da discórdia, pai da raiva.
É a fogueira que cresce com o medo. É a arma dos fracos.
é o que apodrece a gente de dentro para fora.
É o que envenena a alma e condena o coração.
Eu posso te desagradar, mas para que me odiar?
E para que falar do ódio?
Falar dele é quase que um convite para ele entrar.

Isso daí não me faz bem.
(João Doederlein)

 

Eu estava pensando em diversas coisas aleatórias, desde mentalizar unicórnios saltitantes, até recitar frases bíblicas – nas quais nunca pensei que sabia. A desordem de meus pensamentos, misturando aleatoriedades com coisas inexistentes, criadas naquele instante, devia-se ao fato de que a loucura se fazia presente em minha mente; a fúria era constante em minhas veias ferventes.

O volante era esmagado por meus dedos angustiados; aquele carro nunca havia experimentado tanta velocidade até aquela noite. Até a impiedosa me atirar nas chamas infernais.

Nunca agi dessa forma, tão impulsiva e tempestiva, saindo de casa às pressas, feito uma fugitiva, para evitar cometer uma loucura. Em toda a minha vida, embora tenha passado muitas situações de dar nos nervos, eu nunca, nunca mesmo, havia provado desse amargo sabor da raiva.

Confesso que desconhecia esse meu lado sombrio, que dentro daquele carro eu estava vivenciando, rugindo o motor com a velocidade, tendo meus olhos negros e coração batendo frio. Cada movimento meu, era de meticulosa calma; mesmo quando ao fazer uma ultrapassagem arriscada, quase batendo de frente com um caminhão de carga, permaneci neutra e sem expressão.

“Cuidado com a raiva…”, meu pai uma vez começou a dizer, enquanto caminhávamos pelas ruas, procurando meu irmão, que havia se envolvido numa briga de escola e estava fugindo de casa, temendo a bronca que levaria. “A raiva é uma víbora, enroscada na árvore, esperando a hora de atacar; é a que te induz a comer o fruto proibido, a que te ludibria a fazer o que não presta. Tenha muito cuidado com a raiva. Tudo que por ela tem início, em desgraça tem seu fim”.

Meneei a cabeça em negativa, girando o volante para a direta.

Um vulcão a beira da erupção teria a frieza glacial aos pés da fervura em minhas veias.

É esse o preço que se paga omissões anuais, silêncios mútuos e acovardados. A raiva subindo feito ferro quente pelas veias, é o que acontece quando você protela a explosão por medo.

Tive tanto medo dos meus instintos humanamente animais, não querendo me corromper e me igualar aos monstros que enjaulei; sempre temi as palavras ferozes que da minha boca poderiam sair, porque um dia senti na carne o açoite das palavras afiadas e que pesam toneladas. Tanto temi, que sequer cheguei a pensar que, ao aprisionar todos estes atos, um dia, fatalmente eles poderiam se unir em um motim contra mim. Minha tão grande inteligência se fez em burrice. E como um câncer que se propaga pelo corpo em metástase, as palavras não ditas me consumiam.

Estacionei em frente à um barzinho de fachada iluminada em tons de azul e lilás. Não havia planejado beber, mas alguma coisa dentro de mim implorava por grandes doses de whisky. Deveriam ser a vozes dos demônios que urravam dentro do meu peito e dilaceravam meu coração.

“O amor é um cão dos diabos”, Charles Bukowski uma vez disse.

Enquanto caminhava em direção a porta de entrada, sentindo as pancadas graves da música que lá dentro tocava me atingir, comecei a refletir melhor sobre os pensamentos desse autor, que eu sempre considerei um grande mentor de coração fatigado e mãos fedendo a cigarro.

Talvez ele realmente estivesse certo sobre essa coisa de amor, embora que, em seus livros ele tenha sido na maior parte do tempo o “heart-breaker” e não o “heart-broken”. Charles era um cara vivido, cheio de histórias para contar, mas, estaria ele, correto ao dizer que o amor se esgota?

– Um whisky, por favor. – Pedi educadamente ao barman, ao que me encostei no balcão.

– Com gelo, senhorita? – Questionou ele.

– Tolice blasfemar essa bebida com gelo, que a deixa aguada e sem gosto. – Respondi.

O copo foi posto perto de minhas mãos unidas sobre o tampo escuro do balcão. Abracei o vidro com meus dedos e encarei aquele líquido marrom-claro, movendo-se em ondas ali dentro.

Sobre o amor, só sei dizer que no começo, ele é o sentimento mais belo que os humanos, esses miseráveis, poderiam ter a sorte de ter correndo em suas veias. O amor é como uma dança clássica, ao mesmo tempo que contemporânea, que mistura estilos e movimentos, onde dois corpos de ritmos plenamente distintos, mas que movidos pela paixão, que os faz querer ficar juntos, precisam, de alguma forma, encontrar uma maneira de juntos bailar sem sair do compasso.

No começo, a dança desajeitada, de tão intrigante, chega a ser interessante. E depois de cair algumas vezes, trombar contra o outro e errar por vezes seguidas os passos, você se pergunta:

Onde foi que tudo deu errado?

O amor é uma dança perigosa, onde os bailarinos são lutadores em um ringue, duelando pelo cinturão. Transformando cada passo, que deveria ser bailado, em sangue e dor, a luta segue.

“Mais uma criatura atordoada pelo amor”, outra vez Bukowski se mostrou correto.

Pelo amor, fazemos loucuras sem pensar nas consequências; metemos os pés pelas mãos sem ao menos pestanejar. Em uma de suas cartas, Coríntios dizia: “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta”. E um homem nunca esteve tão certo sobre esse paradigma amoroso. No entanto, ele se esqueceu de avisar que o amor é como um jardim, precisa ser cuidado com zelo e afinco, precisa ser regado, ter suas plantas podadas e adubadas, senão, a praga se alastra como a ojeriza que contamina a humanidade e devasta tudo que um dia foi de esplendorosa majestade.

Fala-se muito sobre a beleza estupenda desse sentimento magnânimo, mas não se ensina a dele cuidar. Do que adianta dar à uma criança um cãozinho, mas não a ensina a cuidar bem dele?

Tudo que é muito belo, precisa de cuidado exacerbado. Assim é com o amor. E o que acontece quando não se cuida bem dele, é o mesmo que acontece quando um marido maltrata sua esposa: Um belo dia ele acorda e não tem café sobre a mesa, o guarda-roupa está vazio. Ela partiu.

O amor vem, se instala, tenta fazer dali sua morada, mas se não dá certo, ele se vai.

Sem dó. Sem despedidas. Apenas sai pela porta e não volta nunca mais.

As coisas dão errado. O amor não é feito somente de belas histórias e finais felizes.

“O amor é uma piada de humor negro, onde todos riem por fora e choram por dentro”, li uma vez, em algum lugar, e quando li, não vi sentido algum, mas agora, eu estava rindo muito.

***

Decisões tomadas por impulso podem sim nos trazer arrependimentos, mas a vida é feita de riscos. Só ganha quem aposta. Era isso que eu estava obrigando meu cérebro a pensar, enquanto dirigia até a casa de Camila, a amiga da minha filha, que eu tinha decido chamar para dar uma volta.

Eu só queria conversar com alguém que não fosse tão negativa quanto eu estava sendo; só queria ouvir as palavras de alguém que não fosse me condenar por não saber o que fazer com minha vida conjugal. Eu só queria estar na presença de alguém que pudesse falar sobre música, livros, seriados, debater política e soluções para a corrupção, discutir a existência de Deus, descarregar os pesos da vida, sem precisar falar dos problemas, e depois de tudo, voltar para casa.

E Camila, naquele momento, era a pessoa ideal.

Jovem, mente aberta, cheia de ambições e um sorriso de quem leva a vida com leveza.

Realmente o tipo de pessoa que eu precisava para conversar por algumas horas.

9h15pm

Conferi as horas antes de encostar o carro rente a calçada e retirar o celular do bolso.

[Lauren] – Cheguei.

[Camila Cabello] – Já estou saindo, pera.

[Lauren] – O que disse para sua mãe?

Preferi perguntar, pois sabia que não seria nada convincente ela sair de casa a essa hora da noite, alegando que iria dar uma volta com a mãe da amiga de escola. Seria loucura dizer isso.

[Camila Cabello] – Disse que você e Keana vão viajar, e que Lucy, não querendo dormir sozinha, me chamou para dormir lá. E isso explica o fato de você estar vindo me buscar agora.

[Lauren] – E o que vai dizer quando eu te deixar em casa?

[Camila Cabello] – Que seu carro deu defeito e vocês perderam o voo.

Pisquei seguidas vezes, querendo acreditar que realmente havia lido aquela mensagem. Boquiaberta, eu estava perplexa, mas não com aquela mentira meticulosamente criada, mas sim, com o fato de que havia sido Camila a mentora daquela genialidade. Por fim, acabei rindo daquilo.

Às pessoas são cheias de surpresas.

[Lauren] – Isso foi genial! Pensou nisso sozinha?

[Camila Cabello] – Não, mas preciso acreditar que sim.

[Lauren] – Como assim?

Não houveram respostas digitais, pois, sobrepondo-se ao envio de minha mensagem, a porta da residência de Camila foi aberta, e por ela, saiu a morena. Abraçada em seu próprio corpo, afim de aquecer seu corpo da gélida ventania que transformava aquela noite em inverno, ela veio caminhando em passos calmos, olhando destemida para mim, que a encarava pela fresta do vidro.

Depois de avançado o caminho cimentado que fazia mediações entre um gramado e outro, ela contornou o carro e pela porta do carona entrou. Acomodando-se ao acolchoado macio do banco, pôs o cinto e me lançou uma fatal mirada. Parecia muito mais valente agora, do que havia sido enquanto esteve em minha casa, no fim de semana. Seu olhar era firme em mim, sem recusas.

– Oi, Lauren. – Disse ela, de forma casualíssima e tranquila. Acompanhei o movimento que seus lábios fizeram ao ditar aquelas vogais e consoantes unidas em interjeição e substantivo.

– Oi, Camila. – Revidei de forma petulante, sorrindo-lhe gentilmente.

Discreta como sempre, envolvida num moletom grande e branco, ela estava linda. Não pude deixar de reparar no quanto seu cabelo úmido e derramado sobre os ombros se exibia majestoso. Como também, meus olhos, atentos a tudo que é belo, não deixaram de reparar na coloração diferenciada que sua íris havia tomado como trajes noturnos. Era um castanho reluzente, mas escuro e denso. Parecia duas versões de Marte, dispostas a olho nu, assim, de graça.

– O que vamos fazer? – Indagou ela, ainda me olhando.

Cômico era relembrar que essa mesma menina, que agora me acorrentava a atenção usando contato visual direto e sem temores, era a mesma que ao ouvir minha voz se avermelhava. Em contrapartida, apesar de curiosa essa sua mudança de atitude, confesso que me era satisfatória.

Seria muito mais fácil quebrar o gelo e iniciar um diálogo – para ambas as partes.

– Temos todas as opções em aberto. – Comecei a falar, ao mesmo tempo em que liguei o carro, engatei a marcha e o coloquei em movimento. – Podemos ir comer, beber, sentar numa calçada e jogar conversa fora, enquanto rachamos um pacote de pipocas. Você escolhe e eu dirijo.

A vi torcer e morder os lábios, refletindo sobre as alternativas, e então, ela disse:

– Acabei de comer. Sou menor de idade para beber. Acho que a pipoca não seria uma boa.

– Comida nunca é demais. Bebidas eu posso comprar. Pipoca é uma dádiva. – Rebati.

– Comida demais engorda. Se beber, não dirija. Pipoca agarra a casquinha no dente.

Olhei-a de esgueira, somente para ter a certeza de que ela estava tentando me irritar com suas contestações e, ao me certificar de que era isso tatuado no sorriso travesso em seus lábios, decidi que seria mais do que justo, que eu também entrasse na brincadeira e replicasse as questões.

– Calculando pela sua altura, afirmo que a senhorita ainda tem alguns quilos a aumentar, para alcançar o peso médio para sua baixa estatura. – Argumentei de forma extremamente profissional e séria, mantendo minhas vistas atentas ao trânsito. – Outra coisa, com o avanço da tecnologia, foi criado um mecanismo de “piloto automático” para grande maioria dos veículos de quatro rodas e, coincidentemente, esse que nós estamos, foi presenteado com essa dádiva. – E enquanto soltava as frases posteriores, fui apertando os botões no painel, configurando a rota que desejava ser levada pelo GPS. – Então, basta apertar alguns botões e, tcharãn! Não preciso dirigir.

Quando soltei o volante e o mesmo virou por si só para a direita; os lábios da morena se escancararam em incredulidade. Sorri vitoriosa, afinal, havia vencido aquele breve duelo verbal.

– Você é boa nisso! – Exclamou, boquiaberta. – Mas não solucionou a última questão.

Cruzei os braços e a encarei; eu estava sorrindo, verdadeiramente divertida com aquilo.

– Você tem dez dedos, cinco em cada mão, use um deles para desagarrar as casquinhas.

Sorri sem mostrar os dentes ao pontuar.

– Não tem graça brincar com você! – Resmungou ela, amargurada pela derrota.

– Esse é meu trabalho: Discordar do que os outros falam. Eu tinha que ser no mínimo boa.

– É verdade.. – Concordou.

– Mas então… – Desativei o piloto automático e voltei a guiar o veículo. – O que faremos?

– O que você tinha em mente quando me chamou? – Seus olhos fitavam através do vidro.

– Eu não tinha nada em mente. – Confessei, sentindo-me confortável o suficiente para ser sincera. – Depois de muito estresse e doses de whisky, decidi desligar meu cérebro por um tempo.

Fez-se então, silencio entre nós.

Camila deixou de mirar a paisagem que se movimentava do lado de fora, para observar-me, e eu só sabia disso, porque sentia a quentura de seus olhos me varrendo da cabeça aos pés. E, muito embora eu estivesse achando mais fácil de lidar com essa sua versão mais solta, confesso que estava começando a achar muito esquisito. Ela era muito tímida para mudar assim, de repente.

No entanto, cortando meus pensamentos pela raiz, sua voz surgiu em interrogação.

– Então, sem pensar, responda: O que você quer fazer no momento?

E sem pensar, eu respondi:

– Agir como se essa noite fosse a última da minha vida.

– E se realmente fosse o último dia, o que você faria? – Perguntou.

– Eu seria tudo que não tive tempo de ser. – Eu disse, sentindo indícios de choro.

– Lauren, eu tenho péssimas notícias. – Repentinamente seu tom mudou. Se antes ela estava a conversar com leveza e descontração, agora, Camila estava sombria, exalando suspense.

Desconfiada, olhei-a de esgueira antes de perguntar:

– Que notícias?

Sua mão tocou meu ombro em um ato condolente, no qual eu não entendi.

– Hoje é nosso último dia. Amanhã não existirá. O mundo acabará ao nascer o sol.

Tendo olhos fixos em mim e tonalidade de convicção sombria, quase acreditei que realmente o mundo estava prestes a explodir e Camila era, sei lá, uma espécie de profeta bíblica. Porém, ao findar as palavras, o sorriso travesso ilustrou seu rosto. A metáfora havia sido pontuada.

– Ok! – Suspirei, ligeiramente animada. – Quer aproveitar seu último dia comigo?

– Claro! – Camila deu os ombros e sorriu. – Por que não?

O que se faz quando você dá o seu melhor, mas acaba não sendo o suficiente, e você se sente cansado, mas quando deita, não consegue dormir? O que faz doer menos o rasgo feito na alma, quando as lágrimas caem ao que você percebe estar lutando em vão, por algo que já acabou?

E quando todos os caminhos se apertam e não há luz no fim do túnel, para onde você vai?

Naquela noite escura e fria, eu estava perdida no labirinto assustador e úmido, onde feras me cercavam por todos os lados, prestes a me devorar. E quando achei que era o fim, surgiu em minha mente uma ideia, que não julguei ser estratégia, mas que agora, estava me salvando do mal.

Quando pensei que havia chegado ao fim da linha, que a vida já tinha me dado todos os motivos para jogar tudo para o alto e desistir, eu encostei o carro na frente daquela calçada e esperei que, da porta branca, saísse o anjo – que até aquele momento, eu não tinha visto suas asas.

Eu, que nunca acreditei em deus, magia ou milagres, pisei no acelerador, tendo em mente a falsa crença de que aquela noite, era a última da minha vida. E quando o velocímetro foi aumentando seu ponteiro e a paisagem do lado de fora passando como flashs, um milagre ocorreu. E, inclinando-se em seu trono, para assistir o começo de algo, que até aquela noite eu não sabia que era realmente possível de acontecer, Deus estava a me observar e parecia estar muito contente.

Daquela noite, que se fez longa, mesmo que curta, só me lembro de ter começado com trinta e cinco anos, infeliz e raivosa. Depois disso, novamente eu tinha dezessete e estava dirigindo o carro do meu pai pela primeira vez, com uma incrível garota ao meu lado, música alta e cervejas. Por dentro daquela lataria, eu vivia tudo que havia sido primava. Novamente vivendo meus dezessete, eu me sentia mais jovem do que nunca, infinita como o universo, livre como uma águia.

Por dentro da carne, além dos ossos e do sangue, minha alma sorria.

Deitadas sobre o capô, contamos estrelas, sentimos frio e demos risadas. De perto, seus olhos eram ainda muito mais bonitos e encantadores. Sua íris cheia de pontinhos escuros, submersa naquela calda castanha e grossa, tornava o universo infinito e carregado de constelações e planetas algo dispensável, trivial. Nada perante aqueles olhos tinha maior beleza, maior impacto.

Nós cantamos até ficarmos roucas e pela primeira vez, o teto solar do meu carro foi usado para algo. Ela sorria com a majestade que brilha o sol e em seus olhos castanhos eu via a vida se renovar. Me lembro de rir de suas caretas ao provar pela primeira vez uma dose whisky, também me lembro de vê-la vermelha de raiva, pois havia perdido por vezes seguidas as partidas de poker.

Eu gostava da sua voz, mas depois de ouvi-la enrouquecida, após tantas risadas, posso dizer que me apaixonei por aquele timbre. Camila era linda, mas vista assim, tão de perto, era de tirar o fôlego. Seus traços, tamanha delicadeza depositada neles, tornavam seu rosto obra de arte. Ela tinha a beleza de todas as deusas do olimpo, misturada aos feitos dessa natureza inexplicável. Se existia alguém no mundo com mais beleza que Camila, certamente, era um clone idêntico dela.

Tentei ensiná-la a dirigir, mas Camila mostrou não ter noção de reta alguma e quase bateu com meu carro num hidrante. Mas se batesse, eu não me importaria, pois assim, eu teria lembranças físicas dessa noite que, entre um sorriso e outro, desejei que nunca chegasse ao fim.

Sobre Camila, descobri coisas que certamente ninguém havia reparado. Enquanto a ouvia contar sobre sua história de vida, senti emanar dela, uma forma incomum, capaz de destruir exércitos e, falar sobre seu pai, vi seus olhos ficarem turvos e negros quando as lágrimas vieram. Ela era apaixonada por dias frios e chuvosos, mas tinha o sorriso de uma primavera cheia de cores. Amava filmes românticos, daqueles que fazem chorar, mas tinha nos olhos, uma felicidade ímpar.

Camila era discordância, concordância e ressonância musical.

Em momentos, Camila era ingênua e mansa, como uma garoa após a tempestade. Em outros, era brava feito uma leoa; era tempestade, furacão e tsunami, devastando tudo a sua frente.

Complexa como as mulheres de Bukowski, mas intensa e delicada como foi Capitu.

Julgando pela sua idade e pelo que conheci dela em minha casa, me vi completamente enganada sobre ela. Ao achar que ela era só uma menina normal, como todas as outras eram, fui tomada pela brilhante constatação de que, em inúmeros aspectos, essa menina de dezessete anos, era muito mais mulher do que eu era; mais valente que eu, mais otimista e muito mais inteligente.

Quando silenciada, escutava minhas palavras com atenção e me olhava profundamente, avançando a barreira de meus olhos verdes, com aquele maldito castanho denso, que parecia fervente e literalmente me derretia por dentro. E se por algum tempo congelei meus sentimentos, por estar ferida por causa de Keana, naquela noite, Camila fez questão de revitalizar meu coração.

E quando o sol começou a mostrar seus primeiros raios, foi a hora da despedida.

– Você tem certeza que sua mãe não vai estranhar o fato de que você estar chegando a essa hora da manhã em casa? – Perguntei, enquanto caminhávamos juntas em direção ao carro.

– E quem te disse que você vai me levar para casa? – Retrucou ela, naturalmente.

Franzi o cenho, verdadeiramente confusa.

– E para onde eu deveria te levar, Camila? Está quase de manhã e você tem aula.

– Esse endereço aqui. – Disse ela, exibindo-me um post-it amarelo, cujo qual tinha um endereço descrito, numa caligrafia que eu conhecia muito bem. – E não me faça perguntas agora.

– Você sabe que eu vou perguntar para ela, né?! – Meus olhos enérgicos a fitavam.

– Eu sei.

***

– Depois eu quero explicações. – Praticamente rosnei, olhando fixo nos olhos de Veronica.

– Eu também, Mortícia. – Disse ela, sendo irônica. – Agora vaza, quero dormir.

Sem me dar chances para mais palavras, ela fechou a porta na minha cara.

Seguindo o corredor bem iluminado do prédio de Veronica, rumo a escadaria, eu me sentia toneladas mais leve; meu corpo parecia feito de plumas a flutuar pelos ares. Eu estava em estado de êxtase, extasiada e plenamente feliz. Há anos eu não me sentia tão contente dessa forma.

Depois da euforia que havia sido a noite, novamente meu coração pulsava lento e minha respiração era tênue. Meu cérebro funcionava normalmente e repassava em flashbacks todas as cenas por mim vividas desde às dez e meia da noite, até agora, às cinco e cinquenta da madrugada.

Dessa noite milagrosa e repentina, eu sabia que iria me lembrar com emoção, mas nunca com arrependimentos. De todos meus atos impensados, esse havia sido o mais sábio de todos. Eu só não tinha ideia de que, devido a essa noite ter acontecido, meu cérebro decidiria pensar em Camila pelo resto do meu dia. E para ele, apenas pensar foi pouco, tive também de sentir saudade.

E foi dessa saudade, que vieram as mensagens.