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The Best Of Me – Lullaby in G major

Camila.

Quando clareou a manhã do domingo, Veronica e eu ainda estávamos sentadas nas espreguiçadeiras, aguardando o sol que por ventura não apareceu, barrado entre as nuvens escuras daquele dia que se iniciava nublado. E, mesmo que tivéssemos dado voltas e mais voltas, divagando até mesmo coisas sem menor sentido aparente, sempre voltávamos ao assunto inicial. Ela não tinha para onde correr. Não havia frase engraçada, memória ou riso que a salvasse do fantasma que lhe havia tirado o sossego, fazendo-a me acordar em plena madrugada.

Tudo isso poderia ser considerado como um medo precipitado, já que elas mal haviam começado a ficar, e eu até concordaria sem ao menos hesitar, se não houvessem motivos tão fortes para que esse medo viesse. Mas, era só parar por um instante e analisar a situação por todos seus ângulos, que os problemas iriam aparecer em formato de monstros.

Era de se compreender porque haviam demorado tanto a ter essa coragem de pôr em prática o que o coração tanto pedia e, era de maior compreensão ainda, que estivesse beirando o pânico – mesmo que Veronica estivesse sendo a primeira a perder a cabeça.

Todavia, entre vírgulas, interrogações e reticências; entre olhares e movimentos frenéticos de pernas nervosas, suas intenções ficavam ainda claras quanto o dia deveria ser. Estava transparente para quem quisesse ver que, Veronica tinha mais medo de magoar Lucy, do que de se ferir; alimentava mais a preocupação de que pudesse prejudicar a menina, do que a si mesma. E muito embora isso pudesse soar como um tranquilizante para mim, que era amiga de Lucy, essa situação soava bastante preocupante a cada “entretanto” acrescentado. Romeu e Julieta pareciam muito mais intensos agora, do que nos escritos de Shakespeare.

Por hora, sentia-me bastante lisonjeada por Vero ter depositado em mim toda a confiança que precisava para desabafar sobre algo tão pessoal e de tamanha seriedade. No entanto, me encontrava submetida à enorme responsabilidade de buscar uma solução – mesmo que temporária – para esse caos que estava apenas começando. E essa missão não estava sendo nada fácil para mim, afinal, eu não era a pessoa mais experiente e recomendada para situações desse porte.

Em questão de relacionamentos, meu grau de experiência era abaixo de zero. Nunca tinha namorado, muito menos estado sentimentalmente afetada para isso. Tudo sobre minha vida amorosa se resumiam em casinhos de dias, nos quais eu simplesmente enjoava e me desvencilhava com muita facilidade, até porque, eu nunca senti nada. Então, também não podia falar muito sobre a famosa paixão, pois nunca havia experimentado dela. Para mim, o amor era um território desconhecido, no qual eu ainda não tinha encontrado alguém que me fizesse ter vontade de desbrava-lo. E, mesmo tendo deixando claro minha falta de experiência, ela insistiu em querer meus conselhos, palpites e palavras de apoio.

– Acha que eu devo conversar com ela sobre isso? – Perguntou Vero, encarando o céu.

– É claro que sim! – Eu disse, unindo minhas mãos nos joelhos. – É mais sensato que seja honesta com ela desde o começo, mostrando até mesmo seus medos, para que não tenha que enfrentar isso sozinha. – Olhei para Vero, encontrando-a assistindo cada palavra minha, como um aluno assiste com fascínio a aula de seu professor favorito. – E, pensando pelo óbvio, creio que ela esteja enfrentando o mesmo tormento mental que você.

– Você tem razão… – Vero suspirou. – Conversarei com ela o mais rápido possível.

Concordei, balançando a cabeça.

– Obrigada, Camila…. Não sei o que seria de mim se não fosse você.

– Ah, que isso! – Sorri. – Sempre que precisar, sabe que pode contar comigo.

– Cuidado com as palavras – Advertiu, bem-humorada. –, costumo fazer merda com muita frequência.

– Isso eu já percebi. – Rimos juntas.

***

Lá pelas seis e tantas da manhã, já estávamos na cozinha, tomando café, apenas eu e ela, conversando amenidades, apenas para passar o tempo. Do lado de fora da janela, a garoa caia tímida, esbranquiçando o horizonte; corria leve a brisa fresca, ressentindo o aroma de grama molhada.

Breves eram os momentos de silêncio entre nós. Veronica agora parecia mais aliviada e assim, tinha voltado a ser a engraçadinha de sempre, fazendo suas brincadeirinhas e falando as gracinhas de sempre. Confesso que era melhor vê-la assim, sendo uma completa idiota. A postura tensa e séria não lhe combinava nem um pouco.

– Você precisa de um namoradinho, amiga. – Soltou ela, sem mais nem menos, mudando totalmente o rumo daquela proza, que antes envolvia suas ideias de planejamento para seu aniversário de vinte e três.

Encarei-a por cima de minha xícara.

– Estou bem, obrigada.

– Nada disso! – Retrucou. – Vou te ajudar a arrumar um namoradinho.

Revirei os olhos, teatralmente, ignorando-a e focando em apenas tomar meu café.

– Quem cala consente. – Provocou, cantarolando e dançando em cima do banco.

– Deixe a garota em paz, Vero. – A voz de Lauren se espalhou rouca por toda a cozinha.

Eu, que estava de costas, sentada de frente para Veronica – que estava na parte interna do balcão –, virei-me rapidamente em direção à Lauren, vendo-a passar por mim, meio zonza, contornando o balcão, afim de chegar no armário para pegar uma caneca.

– Mortícia! – Vero exclamou toda alegrinha, parecendo uma criança quando ganha um doce. – Bom dia! Dormiu bem?

Ignorando-a solenemente, Lauren sequer a olhou, depositando total empenho em achar alguma coisa na geladeira. Ao contrário do dia anterior, ela não parecia de muito bom humor; estava séria, sobrancelhas franzidas, lábios unidos em um quase bico. Ao voltar-se em direção ao balcão, usando certa força, praticamente socou a caixa de leite em cima do mármore forrado pelo tecido branco da toalha. Seu ato fez Vero me olhar rapidamente, como se perguntasse: Que bicho mordeu ela?

– Está tudo bem? – Vero insistiu em quebrar o silêncio de Lauren, esticando o pescoço para fitar o rosto da mulher ao seu lado. – Aconteceu alguma coisa?

Como resposta, Lauren encarou firme os olhos da morena, faltando pouco esganá-la com suas retinas escuras, quase tempestivas. Já sentada, ela bebeu o primeiro gole de seu café, para logo em seguida, apoiar os cotovelos no mármore frio e assim, afundar o rosto em suas mãos.

– Ih…já vi que acordou azeda. – Veronica revirou os olhos.

– Me deixa em paz, Veronica. – Lauren resmungou, sem ao menos olha-la.

– Ok… – A morena virou-se de lado, dando ligeiramente as costas para Lauren.

Ficamos ali, em silêncio, tomando nossos devidos cafés, temendo até mesmo respirar um pouco acima do volume normal, possivelmente irritando ainda mais a mulher de olhos verdes, que sentada entre nós, estava bastante brava.

Alguns minutos se passaram e o silêncio apenas se estendia. Veronica estava a checar as suas redes sociais em seu celular, e eu me perder em pensamentos vagos, assistindo a chuva, que antes era uma fina garoa e agora caia em fortes pancadas.

Entre um suspiro e outro, soou entre nós um diferente – e irritante – som, um toque agudo de um celular, que por ventura, causou o mesmo susto em nós três. Afim de fazer o aparelho parar de gritar, rapidamente Lauren atendeu a ligação, emburrando ainda mais a cara e se levantou, rumando para algum canto da casa.

– Liga não – Vero começou. – Tem dias que ela acorda assim, azeda igual limão.

Acabei rindo do comentário.

– Todos nós temos dias assim. – Eu disse, brincando de fazer espirais com a ponta do dedo na borda da xícara, só para ter alguma coisa para fazer.

– Falta de sexo faz isso com as pessoas. – Prosseguiu, falando em tom brincalhão. – Por isso que, como uma amiga preocupada com seu humor, vou te arrumar um namoradinho.

Novamente ri, dessa vez um pouco mais sonoramente.

Eu sabia que a partir do momento que deixasse minhas inexistentes experiências em relacionamentos explícitas, eu seria alvo de muito mais piadinhas do que já era antes, no entanto, não estava preocupada. Até estava achando graça. Pelo menos isso faria meu “crush” pela Lauren ser esquecido de uma vez.

Confesso ter gostado muito de sua aproximação repentina. Veronica tinha algo de muito diferente no seu jeito de lidar com as pessoas, algo em sua personalidade, que me fez sentir muito livre e confortável para falar sobre tudo. Comecei a perceber isso quando mudamos de assunto, deixando Lucy de lado, e começamos a falar sobre meus casinhos e sobre minha falta de talento com namoros; coisa que só Lucy sabia sobre mim, porque só havia sentido tal conforto em me abrir com ela.

E, sentindo-me bastante à vontade em brincar e a aderir às suas provaçõezinhas, deixei uma interrogação intrigante e cheia de malícia sair por meus lábios, surpreendendo-me levemente com o teor, mesmo tento pensado bastante se diria ou não aquilo.

– E quem disse que para ter sexo preciso namorar?

Os lábios da morena se abriram em surpresa, logo sua gargalhada soou por toda a cozinha.

– Eu disse que até o final de semana te transformaria numa cópia minha!

[…]

O dia já havia deixado de reinar, passando o trono e a coroa para que a noite fria e chuvosa pudesse então imperar. Havia sido um domingo tranquilo e bastante divertido, onde passamos metade do dia jogando carteado no corredor e a outra metade, passamos jogadas no sofá da sala, amontoadas entre cobertas e almofadas, comendo brigadeiro – como estávamos agora.

Por todo aquele dia, a única aparição de Lauren, havia sido aquela no café da manhã. Pelo resto do dia, não vi seu rosto, muito menos ouvi sua voz, quem falou com ela foi Veronica, que voltou com olhos arregalados, dizendo que era melhor deixa-la em paz, pois a mesma estava de péssimo humor e tendia a piorar. Obedientes e temerosas de uma morte eminente, acatamos ao que foi dito.

Admito que senti falta dela, de seus olhos verdes e sua voz rouca.

– Parece até um pesadelo já ser domingo anoite… – Lucy lamentou, trazendo-me de volta à realidade ao deitar sua cabeça em minhas coxas. – Não quero ir para a escola amanhã…

– Argh… – Choramingou Dinah. – Nem me fala.

– Onde é que aperta para voltar para a sexta? – Normani se juntou aos lamentos.

– E eu que terei que trabalhar? – Resmunguei, quase chorando. Literalmente.

A pior parte dos meus dias era ter que trabalhar. Não por preguiça, mas por cansaço físico mesmo. A rotina de acordar cedo, ir para a escola, trabalho e dormir tarde, por ter trabalhos para fazer e coisas para estudar, estava acabando comigo. E o pior era não ter escolhas, afinal, eu tinha que ajudar minha mãe.

– Você trabalha, Camila? – Vero quis saber, aparecendo na sala de pijamas.

– Sim. – Respondi-a. – Na cafeteria daqui de perto.

– Não se acho legal ou se acho isso uma merda.

– É uma merda. – Falei e rimos juntas.

– V, você viu se minha mãe ainda está viva? – Perguntou Lucy, sentando-se no sofá.

– Está sim. – Vero fez careta. E, revirou os olhos para dizer. – Só está mal-humorada.

– Ainda? – Lucy cruzou os braços, emburrando a cara. – Odeio quando ela fica assim…

– Ninguém gosta. – Retrucou Vero.

A conversa mudou totalmente o rumo, e eu perdi totalmente a concentração nelas.

Por alguma inexplicável razão, repentinamente fui tomada por uma súbita ideia de subir até o quarto de Lucy para fazer algo que embora eu não soubesse exatamente o que era, parecia de legítima importância para mim. Agindo por um impulso – vindo sabe se lá de onde –, quando dei por mim, já estava no meio da escada, subindo mais um degrau.

Ao fundo, eu ouvia sim as vozes das meninas, conversando e rindo lá na sala; todavia, o som que me puxava – quase que literalmente pelas pernas – era outro. Bem de fundo, abafado por paredes e portas, com um pouco de ruídos, o entoar melódico de um piano rompia vozes e risos, tomando para si, toda minha atenção.

Avancei o corredor, flutuando feito uma pluma, sem ao menos me dar conta dos meus próprios passos. As pernas que em mim haviam sido costuradas ao nascer, tomaram vida própria; desprendendo-se das minhas vontades, mas ainda em meu corpo, faziam as suas.

Segui em direção à porta escura – de onde vinha o som –, inerte de muitos pensamentos. E, ao alcançar finalmente a maçaneta prateada, nenhuma força precisei usar, bastou que eu encostasse no inox frio para que o madeiro se abrisse sem ruído algum fazer.

A melodia, que antes baixa, veio em mim como um vendaval de acordes a me cortar.

Já com a porta parcialmente aberta, muito curiosa e pouco racional, sem temer invadir sua privacidade ou se expulsa, coloquei o rosto para dentro, para assim, encontrar quem estava a me hipnotizar tão facilmente com acordes tão belos e cheios de vida. Foi aí que encontrei Lauren sentada ao piano, dedicando-se de corpo e alma no que fazia com as teclas.

Ela vestia um moletom cinza, que em sua simplicidade de cor e corte, alheio a desenhos ou escritos, contrastava perfeitamente com o tom albino de sua pele. Seus cabelos negros estavam amarrados em um rabo de cavalo alto e desajeitado, e, era a primeira vez que eu a via usando óculos de grau.

O rosado de seu rosto, o verde claro de seus olhos, seus cabelos; a seriedade e concentração em seu semblante, o som feito pelos seus dedos habilidosos movendo os acordes, o cenário pouco iluminado, e todo o resto que compunha aquela cena, tornava-se agora, inconscientemente, minha visão preferida dela.

Sendo muito leiga, eu desconhecia que melodia era aquela que estava sendo tocada por ela. No entanto, o som emitido, tão harmônico, tão cheio de vida e alma, passava a ser, naquele instante, minha música favorita.

De início, foi apenas uma paz aguda a valsar entre ritmos e acordes. E, conforme sua evolução se iniciara, a melodia que antes solene, remetente ao som da felicidade, foi criando força, dando aos sentimentos mais profundos e intensos a chance de brilhar. Deixando resplandecer sua bravura musical, vindo forte em cada nota grave enfatizada na força que Lauren usava ao pressionar as teclas, a brisa leve tornou-se furacão.

Fazendo espirais invisíveis, girando e girando de forma devastadora, as evoluções em acordes lhe tiravam diversificadas – porém muito intensas – expressões. Era como se fosse o desentalar de sua alma a cada nota grave. E talvez realmente fosse.

Habilmente seus dedos percorriam sem timidez pela silhueta branca e preta, dedilhando com amor selvagem, as notas que pareciam vir em sua mente como palavras vindas de um poema. Cada tecla tinha uma coisa a dizer. Cada grave era uma dor, cada agudo uma alegria, e festivos, eles se misturavam, girando juntos no furacão de partitura.

E, de repente, tudo que era uma tempestade barulhenta, tornou-se garoa.

De olhos fechados, a expressão que antes carregada, voltava a ser de calmaria.

Acalmando o percorrer de dedos, tocando agora com a mais delicada paixão, a melodia foi chegando ao seu poente. Até que por fim, com um único acorde, findou-se.

Permaneci ali, imóvel, ainda sentindo os vestígios harmônicos me circularem. Nenhum pensamento se passava em minha mente. Nada era tão digno de me furtar a atenção. Tudo que eu conseguia fazer era ficar ali, parada, encarando Lauren e o piano, feito uma pamonha.

Foi quando de repente, me puxando do estado de letargo, surgiu a voz rouca e aveludada de Lauren, soando baixa, mas ainda assim, intensa suficiente para me arrepiar.

– Você gostou?

Pisquei com força, tentando enxerga-la novamente, mesmo sem ter notado o momento em que perdi o foco na visão. E, ao encontrar seus olhos, meu coração fez o que já estava começando a se habituar a fazer quando os encontrava, tropeçando em seus batimentos, perdeu totalmente o compasso.

Lauren tinha uma coisa naqueles olhos, uma espécie de magnetismo, algo que tornava impossível não se fixar naquele olhar. Pensem num mar em fúria, ondas altas e ventos fortes. Essa era a imagem refletida naqueles olhos tempestivos. Era hipnótico até seu piscar. Incomum era pouco para definir não só a coloração, como também a profundidade daquela íris esmeralda.

Seu semblante agora era amistoso; existia um levíssimo sorriso no canto de seus lábios.

Por um lado, respirei aliviada, percebendo que ela não havia se incomodado com minha presença, mas em contrapartida, senti-me imensamente idiota por não saber o que dizer. Havia sido apenas uma pergunta. Uma simplória interrogação. Mas para mim, parecia uma questão de álgebra insolúvel, pois nenhum neurônio meu achava resposta para aquela indagação.

Parecendo perceber meu conflito, ela tornou a falar, dessa vez rindo.

– Fazia certo tempo que não encostava no piano. Acho que estou enferrujada.

– Claro que não! Você foi incrível…! – Minha voz saiu de repente, pegando a mim mesma de surpresa. E o pior nem era ter falado, mas sim, o tom fascinado, quase que apaixonado de minha voz.

Rasgou em seus lábios um sorriso para lá de lindo e tímido, fazendo-a parecer uma criancinha rosada e alegrinha.

– Mesmo? – Seus olhos brilharam, esperançosos da confirmação.

Fui corroída internamente pela vontade quase incontrolável de apertar suas bochechas e até mesmo de mordê-la, mas nada fiz. Claro. Nem podia. Todo meu ato a seguir, foi concluído por mim, como algo digno de um prêmio, pois não sabia de onde havia saído tanta naturalidade tanto na voz, quanto em meu comportamento, de um corpo inteiramente abalado por ela.

– Claro, Lolo. Você tem muito talento.

– Lolo? – Repetiu ela, intensificando aquela maldição bela, chamada sorriso. Senti meu rosto fumegar, já ciente que estava vermelha feito uma pimenta. E, não satisfeita com em me ver tímida, quis testar os tons mais fortes de minha vermelhidão facial. – Gostei não só do apelido, mas de como ele soa na sua voz, Camz.