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The Best Of Me – I have questions for you.

Halloooo!!

Música do capítulo: I have questions – Camila Cabello
LinkSong: https://www.youtube.com/watch?v=bSdPkBKHqac

 

Boa leitura!!

 

Lauren Jauregui.

 

– Aonde você deixou o carro? – Minha esposa perguntou em voz baixa.

– Corredor B, vaga 38. – Respondi-a distraidamente. – Por que?

– Nada… – Murmurou sem vida.

No momento, caminhávamos calmamente pelo estacionamento rumo aos nossos carros, para que assim, saíssemos finalmente daquele aeroporto. Do meu lado esquerdo, Charlie ia me explicando um breve caso que havia enfrentado dificuldade, enquanto ao direito, Keana caminhava cabisbaixa, puxando sua mala, olhando fixamente para o chão; parecia assombrada. Já Allysson, andava na minha frente, apressada, notoriamente enfurecida; só não sabia com o que.

Não sei de exato em que momento as coisas ficaram esquisitas, já que, do momento em que coincidentemente encontramos Allysson no aeroporto, até o início de nosso inesperado almoço na companhia de seu mais novo sócio, tudo parecia correr perfeitamente bem. No entanto, de repente, minha amiga, que antes estava sendo bastante participativa no diálogo, subitamente se calou, seu semblante relaxado converteu-se em fúria borbulhante e seus olhos ficaram negros.

Foi estranho, não só por ser repentino, mas por ter se iniciado após algumas poucas palavras que ela havia trocado com minha esposa, que também estava bastante esquisita desde o momento que Ally havia aparecido. Pensei até ser coisa da minha cabeça, mas não haviam possibilidades de ser. Keana estava calada, nem parecia a criatura tagarela que normalmente era.

Num momento onde me desliguei do que Charlie me dizia, vi Allysson praticamente duelando com o teclado de seu celular, murmurando palavrões e apertando o visor grosseiramente.

– Isso! Trava mais que está pouco! – Grunhiu baixinho e deu um soquinho na tela.

– Allysson, está tudo bem? – Preferi perguntar, vendo que seu estresse ia aumentando cada vez mais, mantendo a ideia de que, se tivesse alguma coisa errada, eu poderia talvez ajuda-la. Mas tudo que minha amiga fez foi me ignorar solenemente, parecendo sequer ter me escutado.

Charlie havia se calado; Keana já havia alcançado o meu carro.

– Ally? – Chamei-a, testando se ela me escutaria dessa vez.

– Hm? – A baixinha me olhou de um jeito vago. – Falou comigo?

– Está tudo bem? – Repeti a pergunta, pacientemente.

Não obtive respostas silábicas, ela muito mal me olhou nos olhos, apenas moveu a cabeça em um único aceno, indicando que sim, que estava tudo bem, para depois de avançar passos largos, alcançar seu carro e entrar nele, sem ao menos se despedir. E, mesmo achando o comportamento de Ally e Keana esquisitos, preferi não entrar em nenhuma linha de suposições.

Se houvesse algo errado, na hora certa eu saberia.

Então, me despedi cordialmente de Charlie, ressaltando que havia sim gostado muito de conhece-lo, e afirmando que sim, poderíamos marcar de nos encontrar para conversar mais vezes. E depois disso, eu já estava no carro, saindo do estacionamento, com minha esposa ao meu lado.

[…]

A noite havia acabado de se espalhar por completo pela selva de concreto, o vento corria fresco e o céu estava lotado de estrelas. Eu estava na varandinha do meu escritório, debruçada sobre o parapeito de vidro, assistindo os carros passando pela rua. Nada de interessante me ocorria em ideias, apenas o silencio de uma mente cansada. A vida se torna exaustiva depois de um tempo.

Foi então que meu celular vibrou.

[Camila Cabello] – Boa noite, Lauren! Como está?

Anteriormente, quando chegado sua hora de ir trabalhar, Camila havia se despedido de mim, alegando que me chamaria outra vez para conversar assim que largasse do seu serviço. Confesso que não acreditei, até porque, não fazia muito sentido ela, amiga da minha filha, estar querendo manter assunto comigo. No entanto, a mensagem veio, confirmando que sim, ela queria.

Eu só não estava entendo o motivo de meu coração ter ficado tão radiante ao ver seu nome subir na tela do meu celular, anunciando que ela estava do outro lado, esperando uma resposta minha. Os batimentos eram rápidos e festivos, tipo os de uma criança quando ganha um presente.

Uma felicidade genuína, de calmaria remetente a brisa ao fim do dia.

[Lauren] – Boa noite, jovenzinha! Estou bem, e você?

[Camila Cabello] – Não muito bem, mas vai melhorar.

[Lauren] – O que houve?

[Camila Cabello] – Coisa de família, nada demais.

[Lauren] – Entendo…se precisar de algo, sabe que pode contar comigo.

[Camila Cabello] – Sei disso, mas dessa vez, acho que não vai poder ajudar.

[Camila Cabello] – Enfim, vamos mudar de assunto…

[Camila Cabello] – Estou ansiosa para chegar em casa!!!

[Lauren] – Por que?

[Camila Cabello] – Porque faz muito tempo que eu não toco violão, quero tirar o atraso.

Automaticamente sorri, constando que aquela ideia de a presentear, havia sido a melhor de todas as ideias que tive durando todo o ano. No exato momento que a ouvi contar sobre seu sacrifício feito ao abrir mão de algo que gostava para ajudar sua família, eu, que não sou Deus de nada, me vi na obrigação de fazer algo para recompensá-la por seu ato de bravura e compaixão. Essa garota tinha um coração doce, e eu não precisava conhece-la por completo para saber disso.

Quando a vi tocando, dedicando-se de corpo e alma naquelas notas harmoniosas, pude enxergar a beleza escondida daquela alma jovial, que mesmo fatigada pelos problemas precoces da vida que não é fácil para ninguém, não perdia o brilho intenso da esperança de dias melhores.

Camila, com aquele jeito tímido, doce e gentil, havia me fascinado de um jeito estranhamente bom. Por toda noite, antes de finalmente concluir que compraria aquele presente, fiquei a imaginar o sorriso expressado por ela ao deparar-se com a surpresa. Ao pensar no bem que eu a faria, meu coração bateu feliz. Assim, eu me decidi que essa era sim, a coisa certa a fazer.

[Lauren] – Ah, então é por uma boa causa! Hahaha

– Lauren? – A voz de Keana preencheu meu silêncio.

Virei-me em sua direção, encontrando-a parada na porta, de braços cruzados.

– Sua filha está no quarto, chorando. – Disse ela, como se a frase fosse autoexplicativa. E vendo que eu não havia compreendido o enredo pontuado ali, decretou: – Vá conversar com ela.

– E por que você não o faz? – Rebati secamente e guardei meu celular no bolso.

– Porque ela não me escuta! – Ela desafinou ao se expressar.

– Certo… – Falei, depois de suspirar profundamente. – Irei daqui a pouco.

– Daqui a pouco? – Arqueou uma sobrancelha, contrariada.

Na solenidade que estava, permaneci; recostei no parapeito e cruzei os braços.

– Sim. Daqui a pouco. – Minha voz soava serena. – Ela precisa de um tempo para sentir seja lá o que for, antes de querer conversar com alguém sobre. Aprenda a agir como mãe, Keana.

Tudo bem que eu não havia planejado dar aquela resposta, mas depois de verbalizada no ímpeto, senti certo júbilo por tê-la pronunciado. Fazia bastante tempo que eu não falava o que realmente se passava na minha cabeça, e fazer isso agora, me fez sentir um pouco mais feliz comigo mesma. Depois de certo tempo – e de muitas brigas –, desenvolvi uma defesa intensiva de não rebater as palavras ásperas de minha esposa, por elas nunca nos levarem a nada além de brigas maiores, e por isso, passei uma quantia significativa de tempo engolindo sapos e desaforos.

Mas parece que de repente alguma coisa havia mudado em mim; algo que me fez ser rude o suficiente para chama-la, mesmo que nas entrelinhas, de mãe ruim – o que não deixava de ser um pouco verdade. Apesar de júbilo, da sensação de ter expelido aquela acidez, senti uma ligeira preocupação com minha atitude instintiva; ela poderia ser perigosa, caso usada de forma incorreta.

– Eu não vou discutir com você. – Foi tudo que ela disse antes de se retirar.

– É claro, você não tem argumentos. – Retruquei em um murmúrio inaudível.

– O que disse? – Sua indagação me fez congelar por instantes.

O vácuo criado no meu cérebro me fez ter uma súbita vontade de rir. E enquanto eu tentava achar palavras na minha cabeça oca, tentando também não rir, Keana me encarava do meio do escritório com cara de poucos amigos. Então, do nada, a resposta saltou dos meus lábios.

– Eu disse que estou com vontade de comer cogumelos.

Ao pontuar a frase, me permiti rir de minha própria estupidez.

– Vá conversar com a sua filha e pare de piadas, Lauren.

Ela se retirou, dessa vez por completo, deixando-me sozinha novamente – fato que eu agradeci quase de joelhos. Tornei a encarar o céu por algum tempo, esperando que os ponteiros avançassem minutos, e quando isso aconteceu, respirei fundo e segui para o quarto de minha filha.

Meu celular vibrou por algumas vezes, mas tive que ignorar.

Segui o corredor em passos calculadamente lentos; mãos no bolso e a melhor expressão de ouvinte estampada na cara, eram o que eu apresentaria a minha filha, esperando que isso a ajudasse, de alguma forma, a querer desabafar comigo, mesmo sabendo que não precisava disso.  O que Lucy tinha de confiança para me contar suas crises existenciais, dramas adolescentes e fofocas de seu colégio, ela tinha de resistência para com Keana. E eu nunca a condenaria por isso.

Keana estava tendo da filha, o que vem semeado há muito tempo. É como diria aquele velho ditado popular, que ninguém aguenta mais escutar: Quem planta vento, colhe tempestade.

Das coisas que eu menos compreendia em minha esposa, seu comportamento ímpar era o que gritava. Conforme a vida vai passando, esperamos que as pessoas evoluam em suas filosofias de vida, conceitos, até mesmo em seu caráter, mas parece que Keana não ia nessa onda. Parece que, de acordo com as ondas da vida a quebrar sobre a orla, ela desaprendia algo precioso.

O problema nisso é que a vida é rara e breve; a vida é um sopro e nós não temos tempo a perder. A cada erro acrescentado ao seu livro da existência, ela perdia pedaços do amor da filha. Mas uma hora o coração cansa de sofrer; uma hora a carne adormece e para de sentir a chicotadas. E quando isso acontece, não há volta, nem desculpas. O que se perde do amor, nunca é recuperado.

Não estou dizendo que Lucy nunca viria a perdoar sua mãe pelos seus atos, mas também não posso acreditar que o amor sentido por ela seria o mesmo. O perdão é o ato mais nobre que podemos ter para com nosso semelhante e para com nós mesmos. Perdoar, não é só reconhecer a falha do outro, mas também, entender que da mesma forma que erraram conosco, um dia erraremos e precisaremos do perdão para seguir em diante. No entanto, uma coisa é preciso dizer: Perdoar não é esquecer.

Existem coisas que ficam marcadas e, uma vez partido, o coração sempre guardará lembranças amargas daquela ferida, mesmo tendo ela já cicatrizado. Uma vez quebrada, a confiança nunca mais é a mesma, isso se ainda sobrar pedaços dela. A vida é assim, infelizmente. E todos nós passamos por isso. Todos nós portamos cicatrizes, mesmo que elas não sejam visíveis.

Causadas pela Keana, eu tinha várias. E muitas feridas abertas também.

Quando cheguei ao quarto de Lucy, deparei-me com a porta aberta. Deitada na cama, encolhida em posição fetal, com a coberta puxada até o queixo, ela cascateava grossas lágrimas. Nesse instante, eu não soube como reagir, muito menos soube se deveria falar alguma coisa, e na dúvida, eu entrei de mansinho, sentei-me à beira da cama e me pus a observá-la silenciosamente.

Ela sabia que eu estava ali, não porque me viu chegar, mas sim, porque meu silêncio a abraçou. Quando as palavras e atos se tornam inúteis, cale sua boca e deixe que o coração cante. E por muitos minutos, a música que nos embalou foi a sinfonia do meu silêncio e de suas lágrimas. Foi então que ela se movimentou na cama, desfazendo-se do cobertor, e se sentou recostada na cabeceira. Seus olhos em quase carne viva de tão vermelhos; seu rosto estava encharcado ao todo.

Encarei-a, mantendo o silêncio, sabendo que ela falaria quando estivesse pronta.

– Eu preciso de ajuda… – Sua voz veio, como eu previa; seu tom era quase desesperado.

– Se estiver ao meu alcance… – Deixei fluir as reticências em timbre sutil.

– Preciso que me adiante minha mesada…e se possível…aumente ela em 100 dólares…

Em conjunto com a expressão de dúvida e confusão que brotou imediatamente em meu rosto, Keana adentrou ao quarto de Lucy, já interagindo no diálogo, sem sequer ter sido chamada.

– E para o que diabos você precisa de 400 dólares, minha filha? – Keana perguntou em voz baixa, se esforçando em ser paciente. – O que você pretende fazer com tanto dinheiro assim?

Lucy hesitou, suplicando em suas pupilas que eu retirasse sua mãe da conversa.

– Deixe-me resolver isso, Keana. – Tentei argumentar, fixando meu olhar em Lucy.

Eu podia enxergar nos olhos da menina os agradecimentos pela minha intervenção.

Keana me encarou, depois avaliou Lucy, e então, respirou fundo antes de dizer:

– Eu não vou sair daqui, Lauren. Se nossa filha está com problemas, vamos ajudar juntas. – Pontuou, tentando soar o mais calma e compreensiva possível; sentou-se ao meu lado e suspirou.

Preferi não debater, apenas prossegui a conversa, recebendo olhares ácidos de Lucy.

– O que está acontecendo, filha?

Minha interrogativa a fez mirar seu celular e o encarar por longos segundos, como se estivesse ponderando se diria ou não o que tanto lhe afligia. Respirou fundo diversas vezes, e por fim, encheu os pulmões de coragem e soltou tudo de uma só vez, em palavras rápidas e tropeçadas:

– Lembra da Camila? Então, ela está passando por uma dificuldade financeira muito grande e mãe dela vai ter que tirar ela do colégio, porque elas não têm dinheiro para custear a mensalidade. Dinah, Normani e eu conversamos muito e decidimos ajudar ela, pagando as mensalidades que faltam para fechar o ano letivo. E é para isso que eu preciso desses 400 dólares.

No que o ponto final veio, minha filha precisou puxar todo fôlego para se recuperar do desabafo que havia acabado de fazer. Ficamos eu e minha esposa em completo silêncio, digerindo o que foi dito. Keana não parecia ter se comovido muito com história, muito ao contrário de mim.

– E vocês estão pensando que são quem para decidir algo assim?

Fechei meus olhos por segundos, querendo acreditar que não havia tido o grande desprazer de escutar Keana dizer aquilo de forma tão autoritária e venenosa. Porém, infelizmente era verdade. E sua grosseria se rebatia em gritos a coar pelas paredes do quarto e da minha mente.

Lucy se remexeu incomodada, seu semblante foi sendo tomado pela fúria.

Silenciosamente, comecei a me preparar para a discussão que aconteceria.

– Keana, me deixa resolver isso com ela. – Tentei negociar, na ideia de evitar o pior.

– Não! – Negou elevando algumas oitavas. – É um absurdo isso!

– Absurdo é você estar praticamente berrando, enquanto estamos tentando conversar como pessoas normais e civilizadas, Keana Marie. – Vire-me somente para encará-la diretamente.

– E você quer que eu reaja como, Lauren? Olha o que sua filha está falando!

Pisquei repetidas vezes seguidas, quase achando graça daquela cena toda.

Só não digo que estava assustada com sua reação exagerada, porque já havia me acostumado com minha “doce e amável esposa” transformando situações minúsculas em um caos.

– Mãe…por favor… – Lucy choramingou, olhando para ela. – Vamos conversar.

– Não tem conversa! – Decretou, ficando de pé. Seu olhar foi de encontro direto a nossa filha, que agora parecia um cão com medo dos trovões, encolhida e com olhos arregalados. – Você não vai pagar nada para ninguém. Que ideia imbecil, foi essa?! Não tem cabimento algum.

– Não estou entendendo essa exaltação toda, Keana. – Meu cenho franzido misturava indignação com total descrença e confusão. – Nossa filha só está querendo ajudar a amiga, gente.

– Lauren, você sabe quanto custa a mensalidade? – A cada palavra dita, sua voz ia tomando tonalidades mais altas e agudas; a veia no meio de sua testa estava tão saltada e ela estava tão vermelha, que cheguei a pensar que Keana estava prestes a explodir. – São 350 dólares. Agora você soma esses 350 dólares por seis, que é o total de meses que faltam para o ano letivo finalizar.

Permaneci encarando-a feito uma débil mental, tentando encontrar o problema implícito.

– É dinheiro o problema? – Perguntei, já impaciente. – Eu vou pagar então.

– Você o que?! – A mulher faltou pouco explodir ao externar aquilo. – Eu não permito.

– Você não tem que permitir nada, Keana. O salário é meu e eu faço o que quiser com ele. E se eu quiser pagar o colégio dessa menina, eu vou pagar. Pago até a faculdade se ficar enchendo meu saco. – Pontuei na mesma grosseria que uso com os réus abusados que tentam bater de frente comigo na sala de júri. Eu estava tão irritada, que comecei a cogitar a dar uns tapas nela, para ver se isso fazia seu cérebro voltar a funcionar normalmente. Com minha resposta, Lucy apenas riu.

– São mais de dois mil dólares, Lauren! – Argumentou como se eu fosse louca por estar ouvindo nossa filha. – É absurdo elas desembolsarem essa quantia exorbitante de dinheiro por causa de uma amiguinha. O que essa menina tem de tão especial que não pode estudar em um colégio público, como pessoas pobres normalmente fazem?

– Não fala assim dela! – Lucy esbravejou, pondo-se em retirada do quarto. E ao chegar na porta, soltou a frase final em um rosnado cruel. – Fale de você mesma, que não presta para nada.

Os lábios abertos em incredulidade e a expressão de dor dominavam seu rosto. Keana havia sido golpeada praticamente de forma física pelas palavras ríspidas de Lucy, e foi bem feito.

– Você… – Ela apontou para o vazio da presença de Lucy. – Você ouviu isso, Lauren?

– Não sou surda. – Cruzei as pernas, encarando-a com neutralidade. – Você pediu.

– EU O QUE? ESSA PIRALHA ME AFRONTA E VOCÊ DIZ ISSO?

Foi quando seu brado zuniu em meus tímpanos que o sangue começou a arder em minhas veias, trazendo aos meus sentidos uma raiva jamais sentida por mim antes. Me levantei por impulso, parando a milímetros de distância de seu corpo. Sentia minha pele queimando com o calor dos meus sentimentos tempestivos. Dedo por dedo fui fechando meus punhos, até cerrarem.

Engoli a seco o fel da fúria que sentia.

– Grita comigo mais uma vez, Keana, e você vai ver o que eu vou fazer contigo. – As palavras vieram sombrios no tom mais grave que minha voz alcançava. Amedrontada, ela recuou alguns passos para trás; seus olhos grandes de medo faltavam pouco saltar para fora das órbitas.

– Vai fazer o que, Lauren? – O veneno se esvaiu em seu timbre. – Vai me bater?

Sorri como o diabo e contornei seu corpo, rumando para fora do quarto.

– Responde, Lauren!

Congelei o passo que dava, centímetros antes da porta e a encarei.

– Minha vontade é de te bater mesmo, mas não vou sujar as minhas mãos. Boa noite!

Avancei passos rápidos para fora daquele quarto, seguindo em direção ao meu escritório para pegar minha carteira, celular e chaves do carro. Eu não podia ficar naquela casa por mais um segundo sequer, pois me conhecia bem o suficiente para saber que, se eu ficasse, me arrependeria.

 

Camila Cabello.

De noite, lá pelas oito e meia, depois de já ter retornado do trabalho e ter feito meu dever de casa, eu estava na sala, assistindo TV com minha irmã, segurando meu celular entre os dedos, ligeiramente impaciente. Na tela luminosa, minha conversa com Lauren estava aberta há longos minutos, aguardando uma resposta, que parecia ter se perdido nessa longa jornada até meu celular.

E com o silêncio mental criado pela ausência de uma resposta, meu cérebro, sem ter nada mais para pensar, trouxe à tona todos os outros pensamentos que haviam sido ignorados pelo dia.

Voltando ao momento em que retornei do colégio e me deparei com minha mãe chorando, a notícia de que teria que sair do colégio se fez concreta e sólida em meus pensamentos. Eu havia passado o dia inteiro evitando pensar naquilo e, embora tivesse contado para minhas amigas, na minha cabeça, aquilo era algo temporário, que, no fim das contas, nem chegaria a acontecer de verdade. Porém, quando repensado, fez-se realístico. Eu sairia da escola e deixaria minhas amigas.

Era essa minha real tristeza, ter que deixar minhas amigas, sabendo que jamais faria amizades como essas outra vez. Tudo bem que não deixaríamos nossa amizade apenas por eu ter saído do colégio, mas não teríamos aquela mesma proximidade e isso estava me deixando péssima. Sentia, por antecipação, como se estivesse perdendo parte uma da vida delas, como se estivesse me ausentando provisoriamente, dando brecha para a vida nos afastar permanentemente.

Meus olhos arderam, anunciando a chegada das lágrimas. Balancei levemente a cabeça em negação, tentando afastar de mim aqueles pensamentos um tanto egoístas. Se eu ia sair do colégio, era por uma razão verdadeiramente significativa, onde ninguém era culpado – além do meu pai –, e chorar não era a melhor solução, para essa situação que não haviam soluções além de milagres.

Dentro de mim, algo dizia que esse era só o começo de uma fase péssima na minha vida. Pela primeira vez, não havia positividade e otimismo em mim; eu não conseguia enxergar a saída desse labirinto sombrio, frio e úmido, que parecia ficar ainda mais estreito a cada esquina virada.

No dia onde a morte levou o cruel traidor, a tristeza veio até mim, apresentando-se esplendorosamente como um belíssimo anjo. Vestida de preto, falsamente condolente para com minha dor, ela me envolveu em seus braços e disse, com toda certeza, que tudo ficaria bem. Desde aquele dia, a tristeza se tornou uma amiga, na qual a ela dediquei músicas, poemas e homenagens.

De repente, enquanto refletia sobre o caminho que minha vida estava trilhando, vi as vestes do anjo irem a baixo, exibindo a verdadeira fera que se escondia de meus olhos. Horrenda e cruel, a tristeza me rodeava, assombrando-me com indagações frias, nas quais, um dia, ela me poupou.

Socando as paredes do meu peito, afim de derrubar minhas paredes, as perguntas soavam feito gritos de feras e demônios, monstros com rostos humanos e femininos, das mulheres que foram usadas para destruir tudo que um dia foi um incrível trabalho do criador para suas criaturas.

Apavorada com todo aquele turbilhão de sentimentos obscuros que me envolvera, não querendo chorar na frente de minha irmã, para assim, evitar perguntas não só dela, como de minha mãe, eu corri para o meu quarto. Ao entrar e fechar a porta, encontrei em minha cama, a cura para todo o mal. O violão estava ali, deitado sobre o colchão, e parecia brilhar uma luz vinda de Deus.

Se Lauren soubesse o que havia feito ao me dar aquele violão, ajoelharia e agradeceria ao onipotente por esse dom inconsciente de salvar as pessoas das trevas. Se ela tivesse ideia do que foi me sentar a cama e deixar que a melodia proveniente daquelas cordas me curasse, ela choraria.

Eu não tinha noção musical, não sabia compor, muito menos havia tentado algum dia. No entanto, para a música efetuar seu trabalho libertador de cura e livramento, você não precisa saber ler partituras e ser um exímio em ritmos e melodias, basta você fechar os olhos e se entregar aos acordes; basta você chegar à beira das lágrimas, respirar fundo e se atirar sem medo ao precipício.

(Play)

O primeiro acorde veio, trazendo a mim, a voz do meu pai e seus olhos castanho-escuro.

Why did you leave me here to burn?
I’m way too young to be this hurt.

I feel doomed in hotel rooms,
staring straight up at the wall,
counting wounds and I am trying to numb them all.
(Porque você me deixou aqui para queimar?
Sou muito jovem para estar tão machucada.
Me sinto presa nos quartos de hotéis, olhando para a parede,
contando as feridas e estou tentando não sentir todas elas)

 

De olhos fechados, presa entre aquelas paredes inexistentes de uma realidade morta, eu iniciava a conversa por mim adiada a tanto tempo. Ele me olhava em silêncio, enquanto as palavras se cantavam para fora de meus lábios em perguntas afiadas a dilacerar meu tolo coração.

Do you care? Do you care?
Why don’t you care?
(Você se importa? Você se importa? Por que você não se importa?)

 

Como pode ser possível, de repente, o herói se transformar em vilão?

 

I gave you all of me, my blood, my sweat, my heart,
and my tears…
Why don’t you care, why don’t you care?
(Eu te dei tudo de mim, meu sangue, meu suor, meu coração e minhas lágrimas.
Por que não se importa? Porque não se importa?)

 

Como ele pode, de repente, mudar sem nenhuma explicação?

 

I was there, I was there, when no one was.
Now you’re gone… and I’m here.
(Eu estava lá, eu estava lá, quando ninguém estava. Agora você se foi e eu estou aqui)

I have questions for you.
(Tenho algumas perguntas para você.)

 

Ele era meu ídolo, o mais forte dos heróis, era invencível. Quando eu era criança, ele me contava histórias antes de dormir; quando víamos as estrelas, ele dizia que o universo só era lindo, quando visto através dos meus olhos. Seu abraço me protegia do perigo; nas noites escuras, seu sorriso clareava minhas trevas. Ele estava ali, sempre, para tudo. E de repente, sua máscara caiu.

Number one: Tell me, who you think you are
you got some nerve trying to tear my faith apart?
(Número um: Me diga quem você pensa que é para tentar destruir a minha fé?)

 

Com quantos dólares se faz uma família feliz?

 

Number two: Why would you try and play me for a fool?
I should have never ever ever trusted you.
(Número dois: Por que você tenta me fazer de boba? Eu nunca deveria ter confiado em você.)

 

Quantas mulheres é preciso para um homem ser feliz?

Number three: Why weren’t you who you swore that you would be?
(Número três: Por que você não é quem jurou ser?)

 

E quando todo amor do mundo não é suficiente para um coração ambicioso?

 

I have questions, I got questions haunting me.
(Tenho algumas perguntas que me perseguem.)

 

Seu nome significava paz, seu sobrenome, felicidade. Antes, suas lembranças eram alegres, espera-lo era sinônimo de um dia bom. E, num estalar de dedos, a paz se transformou em medo, a felicidade verteu em lágrimas; o coração que tanto amava, foi pisoteado e cruelmente esmagado, feito uma barata asquerosa, que invade a cozinha. O anjo se fez demônio, e o céu, virou inferno.

 

My, my name was safest in your mouth
and why’d you have to go and spit it out?
Your voice, it was the most familiar sound,
but it sounds so dangerous to me now.
(Meu nome era mais seguro na sua boca
e por que você teve que ir e cuspi-lo?
Sua voz, era o som mais familiar,
mas parece tão perigoso para mim agora.)

 

Eu o confiava minha vida, minha alegria, minha paz. Ele pegou tudo, amassou e atirou na lata do lixo, todo o meu amor. Seu lugar das lembranças felizes, deixou cicatrizes visíveis e invisíveis, muitas feridas abertas também. Dela, o tempo curou o olho roxo e as costelas quebradas, mas o coração, ainda em pedaços, é despedaçado todo santo dia, quando ela se depara com sua realidade e percebe que, o passado era bom, mas era apenas a ilusão de uma apaixonada.

I have questions for you…
(Tenho algumas perguntas para você)

Ele se foi, mas deixou seu legado: A gente só conhece do outro, aquilo que ele mostra.

Silêncio.

As cordas se calaram, minha voz se fez muda e o choro venceu aquela batalha. Assumindo a derrota de meu corpo, deixei que as lágrimas grossas cascateassem rosto a baixo, lavando minha pele da sujeira do passado. Desentalada, minha alma que amordaçada desde sua morte, não teve voz para chorar seu pranto e viver sua mágoa, agora sentia o gosto amargo de suas condolências.

– Não é sua culpa. – A voz de minha mãe preencheu todo o quarto. – Nem de ninguém.

Ergui meu rosto banhado pela maré da alma, encontrando-a sentada à beira da cama. Não soube em que momento ela havia entrado, como também não soube desde quando ela havia adquirido a capacidade de ler meus pensamentos, para assim, dizer aquilo, que respondia às perguntas feitas pelos fantasmas em minha mente. Tudo que eu sabia era que, estava feliz em vê-la ali. Sua repentina aparição, soou para mim como um recado de Deus, que no silêncio de sua misericórdia infinita, mostrava-me a tolice por mim cometida ao chorar por alguém que me feriu.

Naquele instante, vendo minha mãe ali, a me olhar, eu entendi que estar ferido e chorar é completamente normal, mas era preciso abrir os olhos e se atentar que, a dor não é o fim da linha quando existem pessoas que nos amam ao nosso redor, prontos para nos amparar e nos proteger.

Pensando na proteção, busquei refúgio em seus braços, e neles me escondi.

– Deus trabalha de formas misteriosas e silenciosas. Para tudo há uma explicação e nada acontece por acaso. E, se isso teve de nos acontecer, é porque existe algo muito melhor a nossa espera e tudo isso não passa de uma lição que precisamos aprender, para valorizas as bonanças futuras, afinal, o que seria da felicidade, se a tristeza não existisse? Então, não se martirize pensando no que já passou e no que poderia ter sido diferente. Não há tempo para arrependimentos, pois a vida é muito breve. Levante-se, bata a poeira dos joelhos e siga em frente.

Eu sabia que era minha mãe a falar comigo, porque conhecia seu timbre suave e sua forma pausada de falar, quando as palavras vinham rápido em sua mente. Porém, naquele instante, foi como se a força suprema que rege todo o universo estivesse a falar comigo; foi como ouvir Deus. E, eu até iria responde-la, se caso contrário a campainha não tivesse tocado, interrompendo-nos.

– Se importa em atender? – Perguntou minha mãe. – Já estou com roupas de dormir.

– Claro!

Me desagarrei de minha mãe – mesmo que a contragosto – e rumei para a sala. No caminho, sequei meu rosto, usando a manga do casaco e, quando finalmente alcancei a porta e abri, não tive tempo de fazer nada além de usar as mãos para me segurar nas laterais da porta, tentando não cair, ao que um corpo colidiu bruscamente contra o meu em um abraço efusivo e meio sufocante.

– CAMELAAAAAAAA!! – O berro dado por Veronica, veio seguido por ela me balançando de um lado para o outro, ainda me abraçando. – QUE SAUDADE DE VOCÊZINHA!

– Vero… – Balbuciei, sufocada em seu aperto. – Eu não sou surda.

– Você é muito chata! – Exclamou, apertando minhas bochechas e me olhando de um jeito assustadoramente animado. O sorriso em seu rosto parecia de um maníaco. – Mas eu gosto disso.

– Ao que devo a honra de sua visita a essa hora da noite? – Expressei toda minha estranheza com sua aparição usando aquela indagação em olhar constrangido, assustado e muito perturbado.

Não fazia sentido estar recebendo visitas de Veronica Iglesias uma vez que havíamos acabado de nos conhecer. Entretanto, como havíamos tido uma conversa séria sobre Lucy, considerei que sua visita fosse para continuar aquele assunto ou dizer alguma coisa a mais sobre.

– Não sei exatamente… – Instantaneamente, sua expressão foi se convertendo de alegria para tensão e apatia. Ela se afastou um pouco, tomando uma postura retraída; olhava-me em fragmentos rápidos e desviava, suas mãos agitadas se esconderam nos bolsos traseiros de sua calça. – Eu gostei de conversar contigo naquele dia.…e estou precisando conversar com alguém…

– Entra. – Falei no mesmo momento que dei um passo para trás, dando-lhe passagem.

Trocamos segundos de olhares fragmentados, que pareciam dizer mais do que demonstravam, até que ela finalmente entrou e eu fechei a porta. Enquanto nos dirigíamos até a cozinha – que era o lugar mais quieto da casa –, Veronica manteve-se sustentando aquele súbito nervosismo; esfregava seus braços como se estivesse com frio e admirava com veemência o chão.

Confesso que estava começando a ficar com medo do que estava por vir.

– Você quer alguma coisa? Água? Café? – Perguntei, enquanto pegava água para mim.

– Eca! – Fez uma careta enjoada. – Que blasfêmia é essa você me oferecendo café?!

Virei-me lentamente em sua direção, pousando a garrafa sobre a pia, indignada.

– Como assim? – Torci o nariz. – Não gosta de café?

– Não! – Disse, ainda com cara de nojo. – Esse troço é horrível.

– Sai da minha casa. – Pontuei em falsa seriedade. – Não confio em quem não gosta de café.

Outra vez ocorreu uma mudança brusca em seu semblante. A expressão apática transformou-se magicamente em sorriso sacana. E eu fiquei feito uma pateta, encarando-a sem entender nada. Veronica mudou tão rápido de humor, que cheguei a considerar que ela sofresse de um grave caso de bipolaridade e estivesse cursando psicologia só para aprender a lidar com seus próprios problemas mentais. Ou talvez ela só fosse muito louca e vivesse de picos de humor.

– Lauren diz a mesma coisa, acredita?! – Comentou usando um tom estranho e venenoso.

– Que bom… – Minhas sobrancelhas estavam quase virando uma só, de tão unidas em confusão. Peguei meu copo de água e me sentei na lateral da mesa, ao lado dela, que estava na cabeceira. Ela continuava sorrindo marotamente, me analisando. – Enfim…o que quer conversar?

– Você andou chorando? – Indagou repentinamente.

– Sim, mas não foi nada demais, só TPM. Agora me conte, o que queria conversar comigo?

Esquecido dentro do bolso do meu casaco, meu celular vibrou audivelmente, fazendo-me relembrar de sua existência. Afastei minha concentração daquela situação para ver ao que se devia a notificação, já que Veronica nada falava, só ficava me olhando. E quando vi que era uma mensagem de Lauren, imediatamente esqueci que havia chorado e Veronica; o sorriso veio forte.

[Lauren Jauregui] – Ei, Camila! Me perdoe pela demora…. Tive uns problemas aqui. Enfim, respondendo sua pergunta anterior: Não fiz nada de interessante nesse dia, além de trabalhar. E você? O que fez de bom hoje?

[Camila] – Problemas? Está tudo bem?

[Camila] – Bom, só trabalhei mesmo e agora de noite, compus acidentalmente uma música.

[Lauren Jauregui] – Não está, mas eu não ligo.

[Lauren Jauregui] – Compôs? Isso é ótimo! Quando vou poder ouvir?

[Camila] – Quando quiser, oras…

– Alô-ô!! Planeta terra chamando Camila.

A voz de Veronica surgiu alta, acompanhada de dedos estalando na frente de meus olhos.

– Que foi? – Pisquei por vezes seguidas, encarando-a.

– Estou há horas falando contigo e você não me escuta! – Protestou, inconformada.

Depositei meu celular sobre a mesa e cruzei os braços, direcionando-a o olhar.

– Pois então, diga-me, o que te aflige?

– Donald Trump.

Cerrei os olhos, tentando encontrar resquícios de piada, mas nada encontrei.

– Você veio até a minha casa falar sobre política? – Arqueei uma sobrancelha.

– Sim, ué… – deu os ombros e sorriu. – Você deveria estar preocupada, sendo latina.

– Eu me preocuparia se não tivéssemos conseguindo a dupla nacionalidade. – Argumentei.

– Sorte de vocês!

Eu até quis acreditar que Veronica realmente estava preocupada com a possibilidade da minha família ser deportada, devido as novas leis desse fascista eleito pelos americanos. Só que, em contrapartida, não fazia o menor sentido a pessoa vir até a minha casa, apenas para falar isso.

Então, decidi ir direto ao ponto.

– Veronica, para de enrolar e fala a verdade: O que te trouxe aqui?

Foi aí que a vida decidiu me sacanear.

No justo e exato momento em que Veronica ficou inquieta novamente e sua boca se abriu para soltar seja lá qual era o motivo de sua visita, a tela do meu celular se iluminou, exibindo o nome de Lauren. E ao se deparar com aquela mensagem, as sobrancelhas de Veronica se arquearam e o sorriso perverso veio brilhante. Engoli seco, sentindo meu corpo tremer por inteiro.

[Lauren Jauregui] – Vou cobrar isso!!

Seu olhar saiu da tela do meu celular e veio de encontro ao meu.

Silenciosamente, entramos em um desafio para ver quem iria pegar o celular primeiro. Em posição de estátua, nós duas armávamos o bote silenciosamente, como duas felinas atrás da mesma presa. Mantínhamos os olhos astutos em cada mínimo movimento feito. A essa altura eu nem respirava mais, e rezava para que o interesse em minha caixa de mensagem fosse esquecido.

Veronica movimentou-se esticando e recolhendo rapidamente a mão, testando meus reflexos. Inconscientemente correspondi a seu trote repetindo os mesmos movimentos, só que de forma um pouco mais desesperada e desajeitada. Os olhares eram fixos no aparelho sobre a mesa.

Na vida, existem certos momentos que existem unicamente para causar risos no futuro, mas que no presente, servem unicamente para nos fazer pensar a seguinte frase: Puta que me pariu!

E, um desses momentos foi quando meu celular tornou a vibrar, trazendo mais mensagens.

[Lauren Jauregui] – Está ocupada?

[Lauren Jauregui] – Quer dar uma volta?

Veronica abriu três palmos de boca em incredulidade.

– Veronica… – Deixei as palavras escaparem, confirmando o desespero eminente.

– Desde quando vocês duas são amigas? – Ela tinha os olhos espremidos em minha direção.

– Não somos amigas. – Soltei sem pensar. – Na verdade, não sei o que somos! Nós conversamos bastante no final de semana, ela me deu um violão de presente…só isso, nada demais.

Foi quando terminei de falar, que percebi a merda que havia feito.

– ELA TE DEU UM VIOLÃO? – Veronica estava praticamente berrando e sorrindo feito uma louca. – E COMO EU NÃO FIQUEI SABENDO DISSO? QUANDO ISSO ACONTECEU?

– Vero, calma… – ergui as mãos, numa suplica muda. – Fala baixo, minha mãe está em casa.

– Ok! – Ela controlou sua euforia. – Me explica isso a-g-o-r-a.

– Não tem o que explicar! – Ri por puro nervosismo. – Apenas contei uma história de vida, onde eu tinha vendido meu violão para ajudar minha mãe a pagar as contas e por isso, ela teve a ideia de me dar um de presente. Eu até pensei em devolver, mas Lauren praticamente me proibiu.

Os olhos analíticos de Veronica me avaliavam, mas seu sorriso maníaco permanecia.

– Isso é perfeito… – Murmurou ela, parecendo falar consigo mesma. Passou seu olhar para as unhas bem-feitas e continuou seu monólogo. – Isso vai ser muito mais fácil do que eu pensava.

– Do que você está falando?

Ao ouvir minha pergunta, rapidamente ela se consertou e tratou de me olhar, usando a maior feição de santidade que existia na terra. Madre Tereza perdeu seu posto por alguns minutos.

– Nada não. – Ela disse, empurrando o celular em minha direção. – Não vai responder?

Existia uma espécie de brilho demoníaco em seus olhos, mas não quis criar muitas teorias sobre, apenas peguei o celular e comecei a digitar rapidamente, mesmo sem saber exatamente o que responderia para Lauren. Só que, antes de qualquer resposta concreta sair, Veronica disse:

– Não fale para ela que estou aqui.

– Ok… – Respondi tensa.

[Camila] – Dar uma volta? Com você?

Fui imediatamente visualizada e a resposta veio no ato.

[Lauren Jauregui] – Sim. Comigo. Vamos?

[Camila] – Como assim? Para aonde? Fazer o que?

[Lauren Jauregui] – Dar uma volta, ué. Sair, comer alguma coisa, conversar…

Eu sentia os olhares de Veronica firmes em mim, e mesmo sem vê-la, eu sabia que ela estava sorrindo feito uma psicopata. E como eu já não estava entendendo mais nada do que estava acontecendo com a minha vida, decidi que seria melhor ignorar solenemente as loucuras de Vero.

[Camila] – O que Lucy vai achar disso?

[Lauren Jauregui] – Não estou em casa, então, ela não vai saber.

[Lauren Jauregui] – A não ser que você prefira contar.

[Camila] – Onde você está?

[Camila] – Meu Deus, Lauren!!

– Diz logo que você vai. – Pontou Veronica, pondo-se de pé.

– Eu vou? – Encarei-a feito uma débil menta.

– Vai. – Sorriu de forma simples. – Manda a mensagem e vai se arrumar.

– Me arrumar? – Nessa hora, meu cérebro decidiu ser um sacana. – Que?

– Sim. Se arrumar. Ou você vai sair assim… – Apontou para meu moletom de dormir.

– Certo. – Concluí que ela tinha razão, eu precisaria me arrumar. Mas espera. – Eu não vou.

– Ah… – Seu sorriso veio diabólico. – Você vai sim.

– Minha mãe não vai deixar, Veronica. Olha a hora!

– Ah… – Outra gargalhada fatal. – Ela vai deixar sim.

– Você me dá medo! – Confessei.

– ANDA LOGO!!! – Ela saiu cantarolando cozinha a fora. – Vou achar seu quarto e escolher uma roupa lacradora para você. – Sua voz foi se afastando. – Oi! Você é a mãe dela? Que linda!! Já gostei de você! Muito linda, amei!

Perdia no espaço tempo – vulgo, minha vida –, só tive controle das palavras que digitei.

[Camila] – Ok. Eu vou.

[Lauren Jauregui] – Vista um casaco, pois está ventando bastante. Chego em 5 minutos.