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The Best Of Me – Gift

Camila Cabello.

O domingo acabou sem que eu ao menos tivesse notado, devido ao fato de que simplesmente, desde o momento em que entrei no escritório de Lauren e a encontrei tocando piano, meu cérebro decidiu que aquela cena, seria pelo resto da noite, a única digna a se repetir incansavelmente em meus pensamentos. Com isso, o resto da noite de domingo aconteceram em flashs, como lapsos de lembranças muito antigas, nas quais você só lembra de uma coisa ou outra. Assim, eu só me lembrava muito vagamente de ver as meninas jogando UNO e rindo de alguma coisa que meu cérebro imergido em torpor foi incapaz não só de processar, como também, escutar.

Entretanto, repleto de vivacidade, como se estivesse acontecendo repetidamente em tempo real, eu assistia por várias e várias vezes Lauren atenta ao piano e sentia aquela melodia preencher meu silêncio do vazio de ideias. Não sei em qual momento meus devaneios se transformaram em sonhos, só sei que, madrugada a fora, aquela harmonia foi minha companhia, levando-me a flutuar por diversas paisagens, onde o ponto de pouso eram aqueles malditos olhos.

Meu corpo se transformou em poeira e foi soprado para todos os cantos da terra por meio dos graves de um furacão branco e preto. Devorada pelo mar tempestivo daquelas retinas de esmeralda, senti-me em casa; era como se minha alma tivesse reencontrado o corpo após a morte.

As ondas furiosas e verdes se quebravam fazendo alarde.

Os relâmpagos de seus olhares atingiram meu corpo inesperadamente e, aquela descarga de energias provenientes de seus olhos intensos como a vida costuma ser, agiram em meu corpo com efeitos de desfibrilador, trazendo a vida de volta a esse meu coração que não sabia que estava morto até encontrar-se com os olhos daquele anjo. As trovoadas de sua voz rouca me tamborilavam na caixa torácica, como um fugitivo da tempestade repentina procurando se abrigar.

Me desfiz em pedaços, virei poeira, voltei a forma humana; tudo isso diante aquele olhar.

Em agudos uivantes, os fortes ventos foram amenizando, tornando-se brisa leve, levando meus pensamentos e lembranças para longe, onde não pudessem mais me machucar ou assustar. Submersa na íris verde, respirando seu perfume como meu único e necessário ar, escutei sua voz rouca cantar dentro de minha alma, ressoando entre pele e ossos a melodia de uma paz que eu jamais tive conhecimento até encontrá-la. A calmaria em mim era tão grande, que fazia o afogamento parecer uma visita ao céu, onde cansada de dar braçadas contra a correnteza, eu podia simplesmente flutuar nas águas, imaginando estar a descansar entre as nuvens de algodão do céu.

[…]

A segunda-feira amanheceu ensolarada e com um céu sem nuvem alguma a nos saudar, quase que afrontosamente contrária ao domingo, que foi de muita chuva e frio, e por mais sonolenta que eu estivesse, meu humor era completamente ímpar ao das outras meninas que, emburradas e amarguradas por terem acordado cedo, arrumavam suas coisas em absoluto silêncio.

– Dinah, você viu meu carregador? – Perguntou Normani, seca e grogue de sono.

Como resposta, a morena também azeda, apenas apontou para o fio branco, embolado entre o travesseiro dela e o meu. Normani, que deveria ter agradecido, apenas o pegou e guardou.

Pensei ter algo de muito errado comigo por estar tão animada em plenas sete da manhã, já que enquanto dobrava o cobertor usado por mim, eu cantarolava numa animação de dar inveja a melodia de ‘Dear Future Husband’ da Meghan Trainor e recebia olhares tortos de minhas amigas. E, parando para refletir, lembrando assim o que estava me fazendo ficar tão bem-humorada, concluí que sim, realmente havia algo de muito, MUITO errado acontecendo comigo.

Ao repassar meus sonhos um a um, chegando à brilhante conclusão de que havia passado a noite inteirinha sonhando com Lauren, eu quis – de alguma forma –, fazer algo que desfizesse esse meu maldito bom humor de uma só vez por achar aquilo muito errado. Tudo bem que haviam sido apenas sonhos e que eu não tinha como controlá-los, entretanto, alegrar-me com aquilo soava muito inapropriado. Sentir felicidade por ter encontrado seus olhos em meus sonhos e escutado sua voz como canção de ninar por toda uma noite, parecia muito pior quanto mais era repensado.

Por fim, exausta de tanto pensar e considerar coisas, decidi que era melhor eu me concentrar em dobrar o lençol, porque de um jeito ou de outro, eu esquecia os sonhos mais tarde.

– Hmmpffff…

Ouvi Lucy grunhir impaciente, mas como a mesma estava irritada, preferi não olhar em sua direção, muito menos lhe dirigir a palavra, temendo ser engolida pelo seu azedume matinal.

– Hurrrrr….

Ela estava começando a parecer um rottweiler raivoso, e por isso, não olhei para ela.

– Arrrrrgh! – Exclamou depois de bufar, verdadeiramente frustrada e irritada.

– Ai, que merda! Que foi, garota? – É claro que a impaciência veio na voz de Normani.

Voltei minha atenção para Lucy, encontrando-a sentada na cama, derrotada, parecendo uma múmia, embolada entre cobertor e lençol. Foi realmente impossível não gargalhar dessa cena.

– Já está pronta para o halloween, miga? – Debochou Dinah entre risos.

– Não sei dobrar essas coisas… – Lucy resmungou, cruzando os braços e fazendo beicinho.

Tivemos que ajudar Lucy a se desembaraçar daquele nó que havia magicamente conseguido dar em si mesma com as roupas de cama. E depois de dobrar tudo da forma correta, o quarto ficou finalmente arrumado, faltando apenas o colchão inflável ser esvaziado e dobrado.

– BOM DIAAAAAA! – Veronica se materializou no quarto repentinamente e aos berros.

– Que susto, mulher! – Minha exclamação veio num gritinho agudo, depois de ter tremido por inteiro; com a mão no peito, eu tentava sentir se meu coração ainda batia, após aquele susto.

– Está louca???!!! – Berrou Dinah, pondo a mão no peito, apavorada.

– Se não morri do coração agora, não morro nunca mais. – Normani falou até que bem-humorada, sentando-se na cama, como se precisasse se recompor do susto.

Talvez realmente precisasse.

– Se for para não ter uma entrada triunfal, eu nem entro! – Vero se gabou, dando risadas.

Veronica terminou de entrar no quarto como se estivesse desfilando, exibindo o quanto estava deslumbrante naquela manhã de segunda-feira, indo logo em direção a Lucy – é claro. Por instantes invejei sua autoestima e sua capacidade de estar impecavelmente maquiada e bem vestida às sete e pouca da manhã, quando eu muito mal estava envolta por um moletom gigante. E também fiquei me perguntando quantas horas de sono ela havia perdido para estar tão arrumada.

Depois de quase engolir Lucy na nossa frente – o que foi constrangedor demais de se assistir –, ela veio até mim, enlaçou meu pescoço com um braço, sorrindo feito uma doida varrida.

– Bom dia, Camêlinha! – Apertou minha bochecha com força. – Dormiu bem?

Confesso ter odiado quando ela me chamou daquele apelido pela primeira vez (ontem de manhã, enquanto conversávamos sobre Lucy), mas não tive outra reação a não ser começar a rir.

– Camêlinha? – Lucy repetiu em tom de deboche; tinha uma sobrancelha arqueada e mãos na cintura, descaradamente enciumada. As outras meninas pararam atrás de Lucy, de braços cruzados e emburradas, como se fosse realmente ameaçador Veronica estar fazendo amizade comigo e até ter me apelidado. – Desde quando você tem essa intimidade toda com minha amiga?

Veronica encarou a cena com cara de tédio, revirou os olhos e, afim de se divertir um pouco mais com a situação, iniciou aquela manhã com mais uma de suas piadinhas sem graça.

– Não tem porque se preocupar, Lu, tem Camila para todo mundo. – E sorrindo travessa, ela concluiu: – Só a bunda dela pode ser dividida entre três grupos de amigos com 30 integrantes.

O riso foi unânime.

Nunca entendi o que essas meninas viam de tão anormal no tamanho da minha bunda. Tudo bem que era grandinha, mas não da forma que elas viam. Aliás, não tinha nada demais nisso.

– Eu mereço! – Bati em minha própria testa, rindo.

– Mas então, dormiu bem? – Veronica perguntou, parecendo realmente interessada na minha resposta; ainda me olhando.

Por instantes, ponderei a resposta que daria, mexendo em coisas aleatórias dentro da minha mochila, apenas para ter o que fazer enquanto pensava. O meu erro foi ter pensado demais, porque assim, Lauren invadiu meus pensamentos e os sonhos se refizeram todos em minha mente.

Sem que eu ao menos tivesse percebido, estava não só ruborizada, quanto sorrindo.

E é claro que minha reação não passou despercebida.

– Epa…. – Dinah deixou a cara de sono de lado para me fitar com malícia.

– Pelo que percebo, dormiu bem até demais, né?! – Veronica provocou.

– Essa carinha aí… conheço bem o que te faz ficar assim… – Normani tinha olhos espremidos e sorriso travesso. – Na verdade, não conheço o que te faz ficar assim, mas sim, quem.

– Hmmm, acho que também conheço, Mani. – Dinah intercedeu na zombaria.

Todos os olhares estavam em minha direção e eu precisava urgentemente fazer algo que fosse casual o suficiente para dissipar aquelas ideias/curiosidades/suposições que rondavam as meninas, na esperança de afastar delas as possíveis piadas que poderiam surgir. O problema em si não era pensar no que fazer, mas sim, controlar a vontade de gargalhar que estava me domando.

– Que cara? – Me fiz de sonsa. – Estou normal. – Dei os ombros e sentei no colchão.

Normani enrugou o rosto, inclinando a cabeça um pouco para o lado, numa careta indescritível, mas que dizia claramente: Me engana que eu gosto.

Eu, que inocentemente pensei estar agindo casualmente, me vi completamente enganada, pois estava tendo uma crise nervosa de riso – coisa que sempre acontecia quando eu ficava nervosa, ou quando mentia. Sabendo disso, tanto Dinah, quanto Lucy e Vero, me olharam com olhos apertados em desconfiança. Mas, a primeira a expressar sua desconfiança foi Lucy, dizendo:

– Então, por que você está rindo assim, feito uma louca?

Dinah e Veronica se entreolharam; Normani me analisava, ainda com a mesma expressão.

– Não estou rindo! – Me defendi, fazendo força para tentar esconder meus dentes entre os lábios, mas tudo que consegui foi reproduzir uma careta, certamente horrenda.

– Parece que alguém sonhou com o palmitinho rosado da Mortícia…

Acho que nem preciso dizer que foi Veronica que disse isso, não é?!

– VERONICA! – Lucy exclamou em voz aguda parecendo ofendida, com os arregalados de raiva. – EU NÃO QUERIA SABER A COR DA PARTES ÍNTIMAS DA MINHA MÃE!

O coro de risadas explodiu, tomando conta de todo o cômodo.

Numa expressão de puríssima neutralidade, ignorando solenemente o chilique de Lucy, e certamente no intuito de causar mais risos (e obtendo muito sucesso nisso), Veronica prosseguiu com suas implicâncias provocativas, dizendo com uma inocência digna de canonização:

– E você achou que seria de qual cor, sendo que Lauren é branca daquele jeito? Preto?

– Vero….ahahahahaha… – Dinah ofegou, entre risos. – Você é a melhor!

– Idiota! – Lucy grasnou raivosa, jogando uma almofada em direção a Veronica, que por sua vez, pegou a almofada no ar e tacou de volta em Lucy, acertando-a em cheio no meio da testa.

– Loser! – Pontuou triunfante.

No tempo em que as duas brigavam entre si e as outras riam do que foi dito, eu permaneci tampando o rosto com as mãos, tentando esconder a vermelhidão do meu rosto, rezando para que elas apenas esquecessem aquele assunto. Pena que minhas orações foram ignoradas solenemente.

– Então quer dizer que você teve uma noite sonhando com a Mortícia? – Veronica se materializou ao meu lado no colchão, cutucando minhas costelas de um jeito instigante e irritante.

Saltei para longe dela, indo parar no outro canto do quarto, ao lado da janela.

– Não é nada disso, ok? – Protestei emburrada, cruzando os braços acima do peito.

– Mila, não precisa mentir…. – Normani disse, olhando-me feito uma cobra venenosa – Somos suas amigas, poxa…

“Com amigas assim, não preciso de inimigos”, pensei.

– A pessoa não pode nem ter uma noite boa de sono… – Murmurei, me fazendo de vítima.

– Uma ótima noite de sono, sonhando com mozão, huh? – Novamente, Veronica tinha brotado na minha frente, sorrindo feito uma psicopata. Ela parecia sentir prazer em irritar as pessoas; acho que era um dom de Veronica Iglesias ser irritante. – O que sonhou, hein, amiguinha?

As outras apenas riam, esperando minha resposta.

– Achei que vocês tinham parado com isso. – Resmunguei amarga, me esquivando dos ataques de Veronica. – E não. Não sonhei com Lauren. Vocês precisam parar com essas bobeiras!

– Então você admite que Lauren é seu mozão? – Dinah interviu com suas insinuações, ficando de pé na cama de Lucy. Me faltaram forças para responde-la. – Viu gente! Ela admite!

– Af! – Rosnei. – Não dá para conversar com vocês… – Bufei em desistência.

– Ouvi meu nome?

Aquela voz…Aquela maldita e rouca voz!

O ar se perdeu no meio do caminho das minhas vias respiratórias; tremi dos pés à cabeça e fechei meus olhos, apertando-os, na esperança – muito ingênua – de que aquele ato me faria simplesmente desaparecer, mas eu ainda estava ali. E o perfume dela havia dominado todo quarto.

– Falando no diabo… – É claro que aquele sussurro debochado veio de Dinah, que para me sacanear ainda mais, completou suas reticências, dizendo: – E que diabo lindo, viu?! Senhor!

– Dinah! – O travesseiro jogado por Veronica atingiu a morena com tudo em sua cabeça, fazendo ela se desequilibrar e se espatifar no colchão – Tira o olho do palmitinho! Tenho ciúmes.

– Já que é pra tombar: Tombei. – Todos os presentes caíram na gargalhada com as palavras de Dinah, depois de terem certeza que Veronica não tinha causado nenhum traumatismo craniano na mesma, que ainda estava sentada no chão, esfregando o galo inexistente em sua cabeça.

– Mas então… – Lauren recomeçou, exibindo toda sua estranheza com nossos atos em uma careta que dizia: “Essas meninas precisam de um hospício”. – O que falavam de mim?

Nessa hora, meu riso desmoronou de uma só vez, dando lugar a uma expressão de terror, que em outras situações seria hilária. Lucy fez menção em falar algo, mas não o fez, apenas fechou a boca e me direcionou seus olhos apáticos. Eu, de olhos arregalados, voltei minha total atenção para Dinah e Veronica – que estavam lado a lado –, e, sacudindo a cabeça desesperadamente, implorei que elas não viessem com nenhuma piada. Normani parecia nem estar ali de tão neutra.

Olhei Lauren, e ela permanecia intercalando os olhares, esperando uma resposta.

Foi então que alguém respirou sonoramente, tomando a frente para falar. E, para aumentar o desespero iminente, as palavras posteriores sairiam da boca de Veronica. Por instinto, fechei meus olhos e prendi a respiração, esperando o momento em que minha cabeça rolaria pelo quarto.

Houve silêncio.

Meu coração suspendeu em uma batida.

Olhos fechados e apertados.

Mais silêncio.

Até que…

– Eu falei que você já ia subir para chamar as Miss Estados Unidos aqui.

A tensão que envolvia o quarto se dissipou. Acho que todas as meninas respiraram aliviadas. Meu pobre coração recuperou seus batimentos normais, pulsando com calma outra vez.

Veronica deu uma piscada discreta para mim e balbuciou um “de nada” quase mudo.

– Pois é, meninas! – Lauren falou com um sorriso discreto, concordando com o que foi dito por Veronica. – O café da manhã está na mesa, e logo levarei as mocinhas para o colégio.

– Ebaaa! – Lucy comemorou, feito uma criança ao ganhar um doce, batendo palmas e saltitando.

– Se controla, sapatão! – Advertiu Dinah, dando-lhe uma cotovelada nas costelas.

– Oi? – Lauren abriu bem os olhos, surpresa. – O que disse, Dinah?

Silêncio tenso e constrangedor.

Todos os olhos ali estavam arregalados.

Lucy vermelha feito pimenta.

Dinah riu descaradamente, feito uma maníaca, e disse, com muita naturalidade:

– Lauren, você nunca viu o tamanho do pé da sua filha não? Ela calça quase 40.

O riso me subiu rápido. Tão rápido que não pude conter. E bastou que eu exibisse meus dentes, para sentir as unhas pontiagudas de Normani se fechando na pele de minha cintura em um beliscão doloroso.

– Hmmrrr… – Grunhi discretamente, fazendo cara de dor. – Aiiii!

Lucy e Veronica encaravam Dinah com olhos assassinos. O clima estava tenso e pesado, até que Lauren finalmente riu, e deu tapinhas condolentes no ombro da morena extrovertida.

– Boa tentativa, Dinah, mas eu não nasci ontem. – Pontuou, dando uma piscadela. – Agora façam o favor de descerem, porque o tempo urge e eu não quero que se atrasem para a aula.

As meninas acataram ao que foi praticamente ordenado e saíram em disparada, praticamente fugindo daquela situação criada por Dinah. Já eu, que havia sido a última a sair, fui barrada por uma mão fria segurando meu antebraço e por uma voz rouca vindo logo em seguida.

– Camila…

Fui puxada delicadamente para dentro do quarto outra vez, dando de cara com aquelas órbitas verdes, me encarando com expectativa. Transbordando interrogações e me tremendo inteiramente por dentro, encarei sua mão em minha pele, depois seus olhos. E, parecendo entender minha incompreensão, Lauren sorriu, soltando o elo de dedos que firmavam sua palma em mim.

Ela ficou em silêncio por um tempo, parecendo duelar contra seus pensamentos; parecendo não se decidir se falaria ou simplesmente não sabia como falaria seja lá o que pretendia falar. E talvez, só talvez, isso estivesse me deixando um pouco muito mais nervosa que já estava.

– Lauren? – Tentei chamar sua atenção, mesmo com minha voz saindo em sussurro.

Depois de alguns – longos – segundos, ela quebrou o silêncio.

– É….que…eu…. – Sua a voz saiu trêmula, suas bochechas estavam rosadas (o que eu achei adorável). E não conseguindo concluir a frase, ela parou, fechou os olhos, limpou a garganta, para depois respirar fundo, como se estivesse tomando coragem ou se preparando para falar algo sério.

– É que…? – Gesticulei sacudindo as mãos, pedindo por continuidade.

Repentinamente, Lauren voltou a si; estufou o peito, ergueu o rosto e sorriu.

– Me tira uma dúvida? – Sua voz saiu mais grave e rouca que o normal, apesar de não portar seriedade ou hostilidades. Fiz que sim com a cabeça. Ela continuou. – Você tocava, certo?

Perdi um bom tempo tentando decifrar o que quis dizer com aquela pergunta, mesmo tendo ela gesticulado demonstrando que o “tocar” referia-se à violão. No entanto, meu cérebro havia decido que existia algo além e, não encontrando outro sentido implícito naquilo, respondi:

– Sim…? – Hesitei apenas por estar confusa.

– Qual tipo de corda você achava melhor? Nylon ou aço?

Cerrei os olhos, achando aquilo ainda mais esquisito.

– Sempre toquei em nylon… – Comecei falando cheia de reticências, tentando ler o que seus olhos tão intensos, focalizados em mim, queriam daquele assunto. – Meus dedos doíam muito quando eu pegava algum violão de aço emprestado, aí acabou que eu me habituei assim… – Pontuei, esfregando meus braços por nervosismo, sem muito saber ao que se devia tal sentimento.

– Ok. – Ela intensificou o sorriso que já estava aberto em seus lábios.

Foi instantâneo o efeito que aquele brilho teve em meu corpo, arrepiando cada pelo.

– Por que a pergunta? – Falei de repente, vendo que ela já estava cruzando a porta.

– Só uma opinião musical mesmo. – Ela disse simplesmente, sorrindo e deslizando seus dedos pelos fios negros de seus cabelos, jogando-os para o outro lado. Garanto que se ela soubesse o quanto aquele gesto me arrepiou, talvez não tornasse a fazer isso na minha frente. – Mas então, vamos tomar café? As meninas devem estar te esperando.

[…]

Aula de geografia, segundo tempo.

Acordei sem ao menos saber em que momento daquela manhã eu havia dormido; olhei ao redor, aturdida, massageando minha nuca, que por alguma razão estava doendo muito. A primeira a ser encontrada por meus olhos confusos foi Dinah, que estava sentada à esquerda, mascando chiclete, enrolando uma mecha de seu cabelo loiro em seu indicador, visivelmente entediada com a aula. A outra foi Normani, à minha direita, fazendo anotações com a caneta rosa.

– Bom dia, flor do campo! – Desejou ela, sorrindo cintilante.

– Deve ter babado o caderno todo. – Dinah retrucou; apenas revirei os olhos.

Esperei mais alguma piada, que viria na voz de Lucy, mas quando a encontrei, logo a minha frente, de cabeça baixa, concentrada em trocar mensagens em seu celular, suspirei aliviada.

Voltei meu olhar para frente, dando de cara com o quadro cheio.

Arregalei os olhos e tossi duas vezes, engasgada pelo susto; Dinah riu com meu ato.

Abri meu caderno, agindo mecanicamente por estar ainda muito aérea e sonolenta, e comecei a copiar a matéria disposta no quadro abarrotado, me esforçando ao máximo para entender o que diabos a professora ruiva estava explicando, enquanto gesticulava animadamente.

Pedras preciosas, foi a primeira frase que escrevi, em uma folha vazia, antes de ser interrompida por Normani dizendo:

– Lucy já copiou para você, lindona.

Pisquei algumas vezes, encarando-a feito uma doente mental, e depois de voltar duas folhas, vi tudo copiado em perfeita caligrafia, usando vermelho para grifar as partes importantes. Me senti imensamente grata por Lucy, mas nada consegui expressar, só tive forças para bocejar.

– De nada. – Ouvi a morena provocar, mas rir em seguida.

***

Depois de simplesmente dormir por toda aula de matemática e por boa parte da de geografia, consegui me manter acordada pelo resto dos últimos quatro tempos, que seriam de português e literatura. Eu não fazia a menor ideia de onde havia surgido aquele sono todo, mas podia apostar que havia surgido ao ver a cara velha do professor velho de matemática. Nada contra ele, mas falar pausadamente, movendo-se na mesma velocidade de uma tartaruga, às oito e meia da manhã, não é a melhor forma de manter seus alunos interessados. Ainda mais em matemática.

Mas, sendo sincera, estava agradecendo por ter tirado aquele cochilo, mesmo que eu viesse a me ferrar futuramente, por ser um fracasso em matemática e ter perdido a explicação do professor sobre a matéria nova. Depois daquelas duas horas extras de sono, eu estava novinha em folha e me sentia muito mais disposta para passar o resto do meu lindo dia em pé, servindo café.

Até rimou.

– Argh… – Lucy rosnou, assim que bateu a porta de seu armário com força.

Estávamos no corredor, guardando os livros para irmos embora. Nas últimas duas aulas, o humor de Lucy, que antes estava bom, havia mudado para cara emburrada e patadas. E como para bom entendedor, meio ponto basta, nós já sabíamos o exato motivo para sua brusca mudança.

– Keana chegou? – Normani fez as honrarias em perguntar aquilo.

Lucy revirou os olhos, encostando sua testa na porta do armário.

– Não, mas já deve estar chegando. – Resmungou amargurada, para logo depois bater a testa no armário duas vezes. – Como diria a rainha das trevas, Lana Del Rey: Queria estar morta.

– Se joga na frente de um Scania, linda. – Normani pontuou, impaciente.

Ela detestava tudo que se relacionava a morte, até mesmo brincadeiras assim.

Respirei profundamente, exercitando minha tão limitada paciência, controlando a vontade de dar um tapa nas duas. Já mais calma, puxei Lucy delicadamente pelos cabelos, fazendo-a afastar sua testa do armário, antes que ela arrumasse um jeito de se machucar e ir parar no hospital.

– Não fale besteiras. – A repreendi, falando calmamente; ela bufou. – E não adianta ficar bufando igual um cavalo, queridona. Você precisa parar de reclamar da sua mãe e tentar fazer as coisas funcionarem entre vocês duas. Ficar lamuriando nunca resolveram problemas de ninguém.

Lucy me encarou, com a cabeça inclinada para o lado e olhos de peixe morto.

– Lamuriando? – Dinah repetiu, fazendo careta de quem não havia entendido nada.

– Procura no google. – Normani retrucou num sussurro.

– É fácil falar quando sua mãe é uma fofa. – Lucy começou falando lentamente, como se sentisse tédio daquele assunto. – Queria eu que minha mãe fosse meiga como a tia bate o Sinu é.

Eu estava séria até Lucy soltar aquela pérola com o nome da minha mãe, me pondo na obrigação de ter uma crise de risos, acompanhada não só por ela, quanto por Normani e Dinah.

– Tia “bate o Sinu” – Dinah praticamente berrou, gargalhando.

– Melhor pessoa! – Normani disse.

– Coitada da minha mãe, viu?! – Eu ria, balançando a cabeça em negação.

***

Descemos a rua do colégio juntas, pegando o caminho que, mesmo sendo o mais longo, era o que nos faria passar pela casa de cada uma, começando pela de Lucy. O percurso até que foi rápido e bastante divertido, já que fomos juntas e conversando sobre os novos alunos que haviam entrado. E aos poucos o número de cabeças foi diminuindo, até que se resumiu em Dinah acenando para mim, enquanto eu continuava andando, por morar duas casas de distância da sua.

– KAKIIIIIIIII!

Eu estava chegando na calçada de casa, quando simplesmente ouvi Sofi gritar meu apelido num volume extremamente alto e vi seu corpinho vindo em minha direção, correndo pelo gramado, veloz feito um meteoro, só me dando tempo para me preparar para o tombo que levaria.

Que por ventura não aconteceu.

Ela saltou com tudo em meu colo e tudo que fiz foi cambalear alguns passos.

– Mi, amor!!! – Falei totalmente apaixonada, distribuindo beijos pelas bochechas gordinhas e rosadas de Sofia; ela era só risos. – Como é bom te ver! Estava com saudades de você.

E do mesmo momento em que estava feliz por vê-la ali, depois de um final de semana inteiro longe de casa, fui lançada para o momento em que comecei a estranhar o fato de que, a essa hora, era para Sofia estar na creche, já que minha mãe estaria trabalhando e eu também iria.

– ¿Qué haces aquí? – Perguntei, enquanto caminhava para dentro com ela no meu colo.

– Mamá…mamá está llorando, Kaki. – Sua voz mudou bruscamente de entonação, dando indícios de que ela choraria; seus bracinhos envolveram meu pescoço com força. O abraço forte perdurou até entramos em casa. Depois de fechar a porta, coloquei-a no chão e me abaixei, ficando da sua altura para olhar em seus olhos, e assim, tentar entender o que estava acontecendo.

– O que aconteceu, meu amor?

– Eu não sei…a mama me buscou mais cedo hoje e ela estava chorando no ônibus. – A pequena falou de forma preguiçosa, escondendo o rostinho na curvatura do meu pescoço.

Respirei fundo, já me preparando para o pior. Minha mãe não era de chorar, principalmente na frente de Sofia. E, na última vez que isso aconteceu, a notícia que veio a seguir foi a do falecimento do meu pai. Então, das lágrimas de minha mãe, só conseguia esperar o pior.

– Tudo bem, vou resolver isso. – Beijei sua testa; os olhinhos castanho-mel me encaravam ainda com lágrimas. E eu precisava dissipá-las. – Mas, que tal fazermos uma maratona de Bob-Esponja antes de eu ir para o trabalho?

– Demais! – A pequena exclamou num grito agudo e eufórico. – Eu sou a Sindy.

– Brrrrrr! Eu sou o Bob Esponja. Brrr!

Minha irmã soltou uma gargalhada gostosa com minha péssima imitação da risada do Bob-Esponja. Aquilo certamente havia sido a coisa mais ridícula que eu já havia feito em toda minha vida, porém não importava. Eu faria quantas vezes fosse preciso. Eu faria de tudo, do possível ao impossível, moveria céus e terra para conseguir roubar pelo menos um sorrisinho dela.

Ela era apenas uma criança, que merecia viver sua ingenuidade em paz, que merecia ser feliz sem interrupções; que merecia ser cuidada, merecia ser amada como ele nunca amou. Sofia era uma criança muito amorosa, que não merecia ter passado o abandono e a rejeição que passou. Por isso, eu faria de tudo para fazer a vida dela ser repleta de amor e felicidade, como ela merecia.

Nunca precisamos dele para nada.

– Agora, vamos fazer assim… – Comecei; ela me olhava atentamente. – Senta no sofá para assistir desenho, que eu vou falar com a mamãe e já volto, ok?

– Ok! – Berrou, toda animada, fazendo um joínha com o polegar, e saiu correndo.

Deixei minha mochila no canto, perto da porta, e fui para a cozinha, que era onde eu sabia que minha mãe estaria. E não teve outra. Chegando ao cômodo, encontrei-a prostrada sobre mesa, balbuciando coisas incompreensíveis, visivelmente atordoada. Por cima da mesa, toneladas de folhas espalhadas, lápis e calculadora apostas, mas nenhuma atenção depositava ali, pois a mulher mantinha seu rosto escondido em suas duas mãos, paralisada em seus pensamentos. E, como conhecia muito bem a mãe que tinha, sabia bem que Sinuhe estava em seu modo pensante agora.

E isso só me fazia ter mais certeza de que algo estava muito errado.

Me aproximei em passos suaves, não querendo assustá-la, mas minha mãe estava tão afogada em seus pensamentos, que sequer notou minha aproximação, então, toquei carinhosamente em seu ombro e falei baixinho:

– Mama?

Ao ouvir minha voz e sentir meu toque, automaticamente a mulher começou a secar desesperadamente as lágrimas de seu rosto, logo abrindo um sorriso amargo de tão entristecido.

– Mi hija! Como foi a escola? – Disse ela, forçando-se a não deixar sua voz tremer.

– Foi bem, mãe… – Minha voz certamente se esvaiu com lentidão, pois eu estava muito distraída captando o máximo de informações das folhas espalhadas na mesa, vendo apenas contas, muitas contas. Seria esse o problema a lhe tirar o sossego? Eu perguntaria, mas iria por etapas. Me recompus, depositando total atenção em seus olhos cansados e perguntei: – Por que Sofia está aqui à essa hora?

Formou-se um silêncio esquisito entre nós, mas que rapidamente foi rasgado por minha mãe, novamente usando de todas as suas forças para fazer sua voz soar com normalidade, mesmo que seus olhos estivessem turvos de lágrimas congeladas. O que a voz mentia, os olhos revelavam.

– A professora passou mal…

Aquilo não foi e passou muito longe de ser uma afirmativa; mesmo que ela tivesse se esforçado muito em acreditar no que havia dito, mesmo que tivesse, ao menos por instantes, considerado que eu também acreditaria – ciente de que não iria acontecer. Sabendo disso, ela se arrependeu de ter deixado flutuar aquelas reticências e respirou fundo, reprovando o próprio ato.

Agora eu tinha certeza. Algo estava muito errado. E eu precisava saber o que era.

Sinuhe Cabello era, simplesmente, a mulher mais forte e determinada que tive o prazer de conhecer em todos esses meus dezessete anos de existência. Por diversas vezes a vi suportar o peso mundo inteiro nas costas, trabalhando duro para nos dar o que comer, sendo a figura materna e paterna ao mesmo tempo, enfrentando um marido vagabundo e bêbado, e ainda por cima, sabendo sobre a existência das várias outras mulheres que ele usava para satisfazê-lo. Isso tudo ela fazia calada, engolindo as agressões verbais e físicas, as afrontas, tudo em completo silêncio.

Mas o silêncio da voz não calava a alma, não calava a fé.

Pelos cantos da casa, eu a via suspirar entre uma reza e outra. Isso, quando não estava na cozinha, preparando o almoço, cantarolando que esperava por dias melhores.

Nas horas difíceis, quando o medo e a dor gritavam, o rosário em sua mão lhe servia como alívio. Nas turbulências e nos gritos, a quietação mostrava sua sabedoria. Bem sabia que palavras e socos são a mesma coisa quando ditas sem pensar na intensidade, e por isso, resguardava sua voz. Preferia mil vezes se ferir com as palavras ásperas alheias, do que ferir alguém dessa forma.

O silêncio e a fé, esses foram seus únicos – e grandes – amigos por longos anos. Eles a mantiveram de pé e sorrindo. Isso era o que mais me deixava surpresa: Ela nunca havia deixado de sorrir. Mesmo com um olho roxo ou um corte na boca; mesmo com as costelas doendo; mesmo com a fome, porque havia dado o pouco que tinha para nos alimentar. Ela estava de pé, sorrindo.

Até que um dia, na calada de uma noite de segunda-feira, o telefone tocou.

O câncer havia levado meu pai.

E a muralha de silêncio desabou.

O silêncio agiu como bebida em estômago mal-acostumado, a fé se tornou enjoativa, e o vomitar daquela alma desesperada se resumiu em lágrimas que duraram por muitos dias. Foi aí que minha mãe encontrou uma nova melhor amiga, que por sinal, sempre esteve ao seu lado, assistindo-a encarar aquilo tudo sozinha, quando simplesmente poderia ter dividido tal peso: Eu.

Agora, ela estava me olhando, lembrando que éramos mais que mãe e filha, que éramos amigas, e que ela podia desabafar. Eu não precisei dizer nada, ela por si só resolveu parar de relutar contra as lágrimas, deixando que elas se derramassem por seu rosto cansado dessa batalha.

Em um pedido mudo, apontou a cadeira ao lado da sua, que foi onde me sentei e apenas esperei que ela começasse a dizer o que tanto lhe tirava a paz. Foram longos minutos de silêncio, suspiros e lágrimas, até que ela finalmente encheu-se de ar e começou a falar, em voz baixíssima.

– A mensalidade da creche de sua irmã aumentou em quase duzentos dólares… não terei como custear isso.  As contas estão vencendo, o dinheiro que temos é muito pouco para bancar isso tudo, e se eu tiver que tirar Sofia da creche, não poderei mais ir trabalhar para ficar com ela.

Um soluço engoliu sua voz, demonstrando o desespero que sentia lhe apertar.

Eu sabia onde aquele assunto chegaria. Na verdade, estava demorando muito para que chegasse. Infelizmente, a vida nos submete a esse tipo de situação. E, por alguma razão, eu não só já sabia o que seria dito a seguir por minha mãe, como também já estava preparada para ouvir.

– Infelizmente, vou ter que te tirar do colégio…. – Seus olhos me encontraram num misto de aflição e vergonha. – É isso ou ficaremos sem luz e Sofia sem a creche…E eu não posso perder esse emprego, filha.

Como eu previa, pensei amarga, mas conformada.

– Tudo bem, mãe. – Simplifiquei, surpresa com meu tom de voz calmo. – A gente sempre dá um jeito, não é? E eu acho que já está na hora de eu retribuir tudo que a senhora faz pela gente.

Seu semblante se encheu de esperança e isso fez meu coração se despedaçar.

Eu queria fazer algo para ajudar. Eu precisava. Porém, já não tinha mais ideias do que poderia fazer, afinal, eu já trabalhava, e nem isso estava sendo o suficiente. Me vi de mãos atadas.

– E como fará isso? – Perguntou ela, sorrindo de um jeito lindo. E doloroso.

– Eu vou sair da escola e vou aceitar a oferta de trabalhar os dois turnos. – Comecei, já com os olhos brilhantes de mil e uma esperanças, mas fui interrompida por minha mãe, praticamente gritando em repreensão, exibindo meu tão afamado olhar fuzilante de mãe furiosa.

– Sair da escola, Camila?!

– Sim…porque assim, conseguiríamos quitar nossas dívidas… – Prossegui, fingindo que ela não havia quase me ensurdecido dom sua indagação. – Também consertar aquele vazamento de água que está dando infiltração na parede da sala…Sofia está precisando de umas roupas novas.

– Karla Estrabão, você está se ouvindo? – Minha mãe estava vermelha. Assustadoramente vermelha. – Você vai continuar estudando, garota! Que loucura! Não quero que tenha o mesmo destino que eu, tendo que me contentar com empregos ruins, por não ter estudos. Eu quero que você tenha um futuro. Vou te colocar em um colégio público, mas você não vai parar de estudar.

Sinu despejou aquilo tudo de uma só vez, tendo que puxar o fôlego ao terminar. Porém, por mais que ela tivesse barrado totalmente a minha ideia, não me dei por vencida. Se minha opção soava financeiramente melhor que a dela, eu lutaria em sua defesa até me cansar de debater.

– Mãe, presta atenção: – Recomecei, rezando para que ela simplesmente aceitasse minha alternativa. – Sem meu colégio, serão menos 350 dólares gastos. Então, você vai poder pagar a creche de Sofia tranquilamente e ainda vão sobrar 150 dólares para inteirar em alguma conta. E, como eu sei que nossa conta no banco está no vermelho há muito tempo, posso fazer as compras do mês e depositar o resto do meu salário lá, para que assim possamos dar um futuro para Sofia.

Pausei para respirar, mas quando vi minha mãe mencionar que ia falar, descaradamente insatisfeita com minha ideia, as palavras tornaram a tropeçar apressadas para fora da minha boca.

– Eu posso cuidar dos meus estudos mais tarde, mãe. Só não acho justo que enfrente isso tudo sozinha, quando eu tenho braços, pernas e saúde para simplesmente poder te ajudar a lutar.

Concluí, torcendo silenciosamente para que a resposta fosse positiva.

– Karla, não. – Decretou, irredutível. Meus ombros desmoronaram em derrota. – Você irá para um colégio público e continuará estudando, goste você ou não. Sua ajuda será tirando boas notas, se formando e conseguindo um futuro digno. Eu, como sua mãe, não posso permitir que se anule dessa forma. Estudar é importante. Se com estudos as coisas já estão difíceis, imagine sem…

E mesmo sabendo que não adiantaria nada, resolvi insistir mais um pouco.

– Não estou desmerecendo os estudos, mãe. – Admito que já estava começando a ficar irritada. Porque ela simplesmente não aceitava minha ajuda? – Eu já decorei todo seu discurso sobre a escola e valorizo cada segundo lá, mas não está dando, mãe. – E foi aí que eu comecei a exagerar. – A parede da sala está caindo! Podemos ser despejadas ou pior, alguém pode aparecer e tomar até nossas roupas do corpo, por alguma dívida que o papai tenha deixado sem nos avisar.

Vendo que não conseguiria me fazer desistir daquela ideia, por conhecer bem a filha que tem, tudo que minha mãe fez foi rir baixinho, meneando a cabeça negativamente. Depois disso, dando-se por derrotada e cansada daquele assunto, deixou sua clássica frase ressoar. A frase que eu mais odiava, e que dizia Eu vou fazer o que eu quero”, só que muito delicadamente.

– Deus proverá, mi hija…Deus proverá.

Bufei e cruzei os braços, revirando os olhos, puta demais para pensar em outra reação.

– Desisto de debater com a senhora! A senhora sabe muito bem o que está fazendo, mas pensa melhor. Não será por muito tempo. Com um semestre já dá para conseguir uma boa quantia.

O riso que minha mãe alimentava no rosto quebrou no exato instante em que pontuei minha insistência em forma verbal. Olhando-me como se eu fosse uma bactéria insolente, seus ombros desmoronaram, deixando claro que ela estava prestes a perder toda sua paciência comigo.

– Filha, chegou um presente para você! – Exclamou repentinamente, como se ter relembrado aquilo significasse “ótimo, agora ela vai parar de me encher”. – Está no sofá da sala, vai lá ver. – Gesticulou chacoalhando as mãos, me enxotando.

– Presente? Para mim? Mas nem meu aniversário é. – Eu realmente estava confusa.

– Vá ver, ué. – Sorriu de forma desconfiada, com olhos semicerrados. – Mas garanto que vai gostar…dei uma bisbilhotada. – Admitiu, rindo abertamente agora.

– Mãe! – Protestei, achando graça.

– Vai logo! Depois volte para almoçar.

Desconfiada, me dirigi até a sala.

E como eu já esperava, Sofia ficou eufórica ao me ver chegando.

– KAKIII!!! – Sofia ficou de pé no sofá e começou a falar enquanto pulava animadamente, fazendo suas frases seguintes virem entrecortadas. – Você…comeu….a sopa…que a…. mamãe fez?

– Sofia Cabello, pare de pular no sofá! – Minha mãe gritou da cozinha.

– Você ouviu, mocinha… – Adverti em um quase sussurro. A baixinha obedeceu mesmo que choramingando, sentou no sofá cruzou os bracinhos junto ao peito, fazendo cara de brava.

– Ei… – Me sentei ao seu lado. – Não faz essa carinha…

Rapidamente o semblante de Sofia mudou e ela abriu um sorriso presunçoso.

– Só se você me deixar abrir a caixa misteriosa. – Quis negociar, mas não entendi.

– Caixa misteriosa…?

– SIM! – Gritou, ficando em pé no sofá novamente, apontando para case de madeira, enfeitada com um enorme laço amarelo, pousada no sofá maior, perto da janela. – Aquela ali, ó!

Aquela case, com aquele formato…. Meus olhos não estavam vendo isso!

– O que é essa caixa misteriosa e grande que mama não deixou eu abrir porque falou que era um presente para você??? – Perguntou de forma afoita, falando em velocidade de fórmula 1.

Eu estava abalada demais para esboçar qualquer expressão ou ter qualquer reação.

– Eu posso abrir? Deeeixaa! – Insistiu, fazendo carinha de cachorro pidão.

Respirei, percebendo que havia prendido o fôlego inconscientemente.

– Pode… – Fui surpreendida com minha voz saindo pelos lábios em um sussurro.

Sofia não quis perder tempo, quando dei por mim, ela já estava com o laço amarelo em uma mão, e com a outra, tentava abrir as prensas laterais e prateadas. Ao que conseguiu destrava-las, lentamente foi subindo a tampa, revelando o tal presente. Nesse instante, meu coração suspendeu em uma batida, como se estivesse pegando impulso para correr quilômetros sem parar.

– Um violão! – Sofia exclamou deslumbrada, pondo as mãozinhas na boca.

E, por mais que eu soubesse o presente que se escondia dentro daquela case – porque era óbvio pelo formato –, aquela exclamação afirmativa de Sofia me fez perder o pouco de ar que restava em meus pulmões. Sem saber de onde me haviam surgido a força para andar, muito menos saber quando havia dado aqueles passos, retirei o violão da case para admirá-lo em minhas mãos.

Elétrico, num marrom bem clarinho, o braço fino e as cordas de Nylon.

De repente, o interrogatório de Lauren sobre encordoamento fez sentido.

É claro! Aquela cabecinha pensante não me faria tantas perguntas sem um motivo.

Eu estava sorrindo. Muito. Tanto que senti minhas bochechas doerem.

E não era só isso.

No fundo da caixa, encontrei um envelope preto, e dele, retirei um bilhete que, em folha branca e em caneta azul, estava algo que me fez o sorriso quase, literalmente, rasgar meus lábios.

“O brilho de uma estrela nunca deve ser apagado,
uma vez que disseram que sonhos também eram estrelas.
Obs.: Você está proibida de rejeitar.
Ass.: Ah…você sabe”

Aquele, sem dúvidas, havia sido o melhor presente já recebido por mim em todos esses dezessete anos de vida. Seria não só uma falta de educação minha, como seria loucura recusá-lo.

A essa altura, eu estava começando a ficar preocupada com o meu rosto, pois a cada vez que meus olhos passavam e repassavam cada letrinha daquele bilhete, e eu me dava conta de que era Lauren por trás desse presente incrível, o sorriso se intensificava muito mais do que já estava.

Como poderia essa mulher ser mais fofa? Era a pergunta que me rondava.

Depois de minutos perdidos em total inércia, meu cérebro solavancou despejando mil e um pensamentos sobre mim. Por vezes me perguntei porque Lauren havia me dado aquele presente; também me questionei se Keana ou Lucy sabiam daquilo. E por fim, cansei de pensar.

Ela havia feito e ponto. Só me restava aceitar e aproveitar o presente.

Como uma espécie de bônus – que fez meu sorriso se alargar mais ainda – ao eu virar o pequeno bilhete anexado no presente, encontrei, com as mesmas letras que falava de estrelas e sonhos, um recadinho crucial deixado no verso:

“Pode falar comigo quando quiser, ok?!
212 – 664 – 7665
L.J.M

Numa velocidade sobre-humana, saquei o celular do meu bolso traseiro e digitei apressadamente não só a mensagem, quanto o número de destinatário. Eu estava eufórica; errei diversas vezes as palavras por estar tremendo. Mas por fim, consegui projetar uma frase e enviar.

[Camila] – Não sei como te agradecer por isso! Eu simplesmente amei! Foi o melhor presente que eu já ganhei em anos! Muito obrigada!! ❤

[Lauren Jauregui]  Aceito como agradecimento te ouvir cantando e tocando. 😊

[Lauren Jauregui] – E fico feliz que tenha gostado do presente. Você merece!

Sorrindo feito uma boba; era assim que eu estava, enquanto lia e relia aquelas palavras, deixando que cada letrinha me atingisse e me derretesse de formas diferentes e avassaladoras, ignorando totalmente os alertas de racionalidade que meu cérebro enviava desesperado, avisando que aquilo era muito perigoso para eu estar rindo. Mas, eu estava muito feliz para dar importância.

[Camila] – Não sei se você vai querer ouvir meus arranjos fora de ritmo de novo.

[Lauren Jauregui] – Modéstia sua! Você tem talento e uma voz linda.

[Lauren Jauregui] – Agora me coloque para cantar…quebro todos os vidros da casa.

[Camila] – HAHAHA Duvido!

[Lauren Jauregui] – Mas, falando sério, você canta muito bem, mocinha.

[Camila] – Algum dia, talvez, eu acredite em você.

[Lauren Jauregui] – Por que não acreditar em minhas palavras agora?

[Lauren Jauregui] – O que me faria estar sendo mais sincera depois?

Me sentei para processar as palavras de Lauren e encontrar uma resposta à altura.

Mas não encontrei.

[Camila] – Bom, as pessoas geralmente querem causar boa impressão

[Camila] – Não que você esteja mentindo, mas talvez, querendo ser gentil.

[Lauren Jauregui] – É uma ótima teoria, linda.

Linda?

Eu estava enxergando direito?

[Lauren Jauregui] – Porém, eu não preciso de palavras para causar boa impressão, quando já nasci com olhos lindos, que fazem isso por mim.

É, eles realmente fazem…, mas ela não precisava saber disso, certo?

[Camila] – Que ingenuidade sua achar que seus olhos verdes funcionam comigo.

Isso havia sido ridículo, e eu estava à beira de estapear meu próprio rosto, caso Lauren não tivesse resolvido agir por mim, enviando uma foto – possivelmente recém tirada – que exibia, não só seu maldito e perfeito rostinho, como também, seus malditos e lindos olhos de esmeraldas.

[Lauren Jauregui] – Responda agora se meus olhos não funcionaram te fazendo ficar fatalmente vermelha e risonha. E como já sei a resposta, dou como encerrado esse assunto. hahaha

Eu poderia jurar que, de alguma forma, Lauren estava querendo me provocar. No entanto, preferi ignorar meus pensamentos e voltar a me concentrar apenas em responder sua mensagem.

[Camila] – Você não sabe de nada!

[Lauren Jauregui] – Será?

Só pela presunção, resolvi deixar Lauren um pouco de lado, depositando minha atenção no presente por ela dado. Era perfeito. Incrivelmente lindo. E coincidentemente, já estava afinado.

[Camila] – Hey, foi você quem afinou?

[Lauren Jauregui] – Sim. Está tudo certo?

[Camila] – Está perfeito! Muito obrigada!

Tão natural quanto a brisa do inverno, daquele assunto, emendamos em outros completamente distintos. Debatemos política, causas sociais e histórias de vida. Conversamos sobre tudo, trocamos ideias, ideologias e pensamentos aleatórios, mas meu horário de trabalho badalou e tive que me despedir de sua companhia agradável, mas deixei garantido que a chamaria outra vez.

 

Veronica Iglesias.

 

– Vero!

Ouvi alguém gritar meu nome, mas por ter soado tão baixo, achei ser loucura minha e ignorei, seguindo o percurso para dentro do Campus, desvencilhando-me de pessoas que entravam e saiam o mesmo tempo. Estava de tarde, eu tinha uma reunião com o meu grupo do TCC, e eu estava atrasada, então, quem entrasse na minha frente, ia ser empurrado, sem pedido de desculpas.

– Veronica!

A voz veio de novo, dessa vez mais alta. Nisso, eu me virei, procurando de onde ou quem havia me chamado, encontrando Allysson, parada no meio da escadaria, me encarando de um jeito muito estranho. Refiz todo meu trajeto em passos hesitante, e, ao me aproximar, perguntei:

– Allysson, o que faz aqui?

Quis sim expressar toda confusão que me assombrava, porque era simplesmente de muita estranheza receber uma visita de Allysson assim, sem mais nem menos, em plena segunda-feira, em minha faculdade. E, o mais estranho não era apenas sua visita, mas sim, seu olhar grande e apático, tendo como contraste a vermelhidão em seu nariz, que a fazia parecer ter chorado muito.

Quando mais perto cheguei, nenhuma outra pergunta pude fazer, pois seu corpo pequeno trombou contra o meu, em um abraço desesperado, que agora, servia de motivo ápice para minha preocupação. Algo muito grave havia abalado ferozmente a pequena criatura quase sem coração.

Vinda de trágicas perdas e dolorosos abandonos, tendo enfrentado a vida e o mundo apenas com a cara e a coragem, Allysson tinha sim bom coração, mas não sabia usá-lo muito bem, sendo sempre muito fria e insensível, distante fisicamente e sentimentalmente. Como a conhecíamos muito bem, sabíamos lidar com seu jeito de encarar o mundo, diferenciando-nos dos outros humanos como: Lauren e sua família, eu e minha família, e as baratas a serem pisadas. Ciente disso, encontrá-la assim, tão vulnerável, era sem dúvidas um grande motivo para espanto.

Tive meus pensamentos interrompidos por um soluço alto, voltando a realidade rapidamente e encontrando-a a debulhar-se em lágrimas, abraçada em mim com toda força, como se eu fosse uma boia a te salvar de um afogamento em alto mar. Tudo que eu podia e conseguia fazer naquele momento era apertá-la a mim, tentando, mesmo que inutilmente, lhe trazer calmaria.

Lágrimas e mais lágrimas depois, a fria mansidão de seu estado natural de ser foi sendo retomada. Quando já conseguia respirar sem soluçar e engasgar, minha amiga soltou-se daquele abraço apenas usar as mangas de seu casaco para secar o rosto, que havia sido lavado pelo choro.

E, após respirar profundamente, ela me olhou nos olhos para dizer:

– Precisamos conversar…

– Vamos até o refeitório, lá costuma ficar vazio agora. Podemos sentar lá e conversar.

Sem hesitar, ela fez que sim com a cabeça, aceitando minha ideia, e logo estávamos a caminhar para dentro da universidade, onde pegaríamos o corredor a esquerda e seguiríamos pelos armários até a rampa, que desceríamos e chegaríamos finalmente ao bendito refeitório. No caminho, aproveitei para enviar uma mensagem para o meu grupo de TCC, avisando-os que poderiam começar a reunião sem mim, já que eu havia tido um imprevisto e não chegaria a tempo.

Como já tinha imaginado, o refeitório estava vazio, pois todos estavam em suas respectivas aulas. Escolhemos uma mesa bem ao centro, onde não pegava sol e nos acomodamos.

O silêncio se estendeu entre nós.

Mesmo que estivesse me correndo internamente de curiosidade, eu não quis apressá-la, deixando-a livre e em pleno silêncio para pensar na melhor forma que usaria para começar a dizer. Suspiros e mais suspiros depois, soltando o ar audível, sua voz saiu tão baixa quando um sussurro.

– Não sei como contar isso, mas sei que não deveria, porque sei que você vai perder a cabeça, porque sei como ninguém o quanto você ama a Lauren e o quanto a considera. Mas eu preciso externar isso, porque está me matando. Ter descoberto isso e não ter dito nada, está esmagando minha cabeça por cada dia que eu adiei, dando a Keana a chance de contar a verdade.

Allysson encarava o chão com a frieza de um assassino, seu tom baixo e ameaçador, já estava me deixando realmente amedrontada quanto ao rumo daquela conversa. Se ela havia começado a falar sobre minha relação para com Lauren já era preocupante, saber que tinha Keana no meio disso tudo só piorava. Porém, eu nada falei, deixei-a ir seguir até onde realmente queria.

– Eu vou ser direta. – Continuou ela, voz trêmula de tensão e choro. – Vou simplificar da melhor forma possível, que torne rápido e menos doloroso, porque dói tanto dizer o que será dito, que me dilacera a ponto de quase, literalmente, me fazer agonizar e sangrar até a morte.

Houve uma pausa; Ally respirou profundamente, contendo as lágrimas.

– Sabe que eu considero a Lauren como uma irmã, certo?

Mesmo sem entender o sentido da sua indagação, eu fiz que sim com a cabeça.

– Então, tenho plena consciência disso, espero muito que compreenda que, no que fiz, não fiz por piedade daquela imunda, mas sim, porque sei o quanto a verdade irá abalar o mundo de Lauren. Embora a verdade seja sempre o melhor caminho, preferi dar a ela um tempo para preparar o terreno, mas que no final desse tempo, contasse a verdade, senão, eu mesma contaria.

Novamente houve mais silêncio.

Ela ponderou por algum tempo, parecendo estar batalhando com as palavras que almejava dizer, mas que amedrontadas, não se desentalavam de sua garganta. E, quando a vi tomar fôlego, enchendo os pulmões de coragem, como um guerreiro prestes a entrar na arena, por um instinto, me arrepiei por inteiro. Em seus olhos escuros, eu via que suas próximas palavras seriam de legítima seriedade e gravidade, mas o que eu não esperava era que palavras e pedras fossem ter peso igual, como aconteceu no momento que o silêncio veio a baixo como desabar de um prédio.

– Há pouco tempo atrás, eu infelizmente descobri o motivo de Keana estar tão diferente. Sendo honesta, confesso que preferia ter morrido sem saber disso, porque agora, não consigo mais olhar para a cara dela, sem sentir ânsia de vômito. Ela está diferente, porque tem dormindo com um homem há dois anos, inclusive engravidou dele, mas ele não foi tão ingênuo como Lauren foi, quando ela engravidou de Lucy. Sua viagem para Toronto não foi, muito menos chegou perto de ser um Workshop da empresa. Ela viajou junto com ele para abortar essa criança, porque ele não iria assumir a responsabilidade. Esse rapaz é meu sócio e me contou isso num jantar que tivemos.

Tendo ela despejado tudo aquilo sobre minha cabeça, permaneci encarando-a debilmente, descreditada, confusa, perdida; alheia a tudo. As palavras ditas por ela não assentavam em meu cérebro, muito menos faziam sentido. Meu cérebro se recusava a compreender o que tinha ouvido.

Vendo que eu parecia ter dado uma espécie pane no sistema, simplificou:

– Keana traiu a Lauren e só parou porque engravidou e teve que abordar.

– Eu não acredito… – Pisquei com força, como se tivesse sido golpeada fisicamente por aquela revelação derradeira. Repentinamente, abandonando o estado de incredulidade, fui tomada por uma raiva quase titânica, que me fez ter vontade de chorar. – Maldita! Aquela desgraçada…

Minha única vontade naquele instante, era de ir atrás de Keana, mesmo que eu tivesse que conhecer o inferno para isso; e encontrando-a, queria mostrar a ela o que acontece quando se entra no caminho de alguém importante para mim. Quis esfregar seu rosto em lâminas, até que estivesse totalmente dilacerado, em carne viva. A raiva em mim era tão grande, que eu só conseguia chorar.

E não era para menos.

Eu cresci ao lado de Lauren, acompanhei toda sua vida, assim como ela acompanhou a minha. Eu vi toda sua batalha, trabalhando muito, dormindo pouco, vivendo quase como um zumbi, para conseguir sustentar Keana grávida e dar a ela, e a filha, todo o conforto possível. Vi todo seu esforço em ser uma ótima esposa, em ser uma boa mãe, e vi todas as vezes que ela se sentiu para baixo, porque todas as suas tentativas não pareciam ser suficientes para agradar Keana. Quando adulta, lá em Nova York, virando madrugadas estudando, muitas vezes parei o que estava fazendo, para atender as ligações de Lauren, que muitas vezes vinham acompanhadas de lágrimas.

O sangue fervia em minhas veias; era inadmissível para mim, ouvir aquilo. Era simplesmente inaceitável saber que minha melhor amiga, minha irmã, meu porto seguro, havia sido enganada dessa forma e por tanto tempo, depois de tudo que ela tinha feito por aquela mulher.

Ela sofreu tanto, abdicou de tantas coisas, para no fim, receber isso em troca.

– Eu vou matar ela. – Pontuei com toda convicção existente em meu ser, após tanto silêncio. E, aquela frase, dita por mim, era quase uma promessa. Eu me conhecia suficientemente bem para saber que, se ninguém me impedisse, eu realmente faria o que havia dito. Assim, me perdendo em pensamentos sombrios, disse aquilo mais uma vez, como uma jura. – Vou matar ela.

– Nada disso, Veronica! Nem pense.

Eu a ouvi, entendi sua reprovação, mas não me importei.

A raiva não me deixava raciocinar com clareza. Todos os meus pensamentos eram resumidos formas de matar Keana, esganando-a até que ficasse roxa e sem vida ou simplesmente empurrando-a na frente de um carro em alta velocidade. Preferia mil vezes tirar sua vida e pagar por isso, do que ver minha amiga passando pelo desgosto de descobrir a traição. Soava muito mais confortável Keana sumir de repente, do que soava o som da verdade, que na minha mente, já se reproduzia na voz de choro de Lauren. Eu preferia morrer na cadeia, do que morrer por dentro, assistindo o sofrimento dela quando descobrisse que havia sido usada e muito enganada.

– Veronica?

Allysson tentou me trazer de volta à realidade apenas chamando por meu nome, mas eu estava muito longe, andando por terras desconhecidas e perigosas, ouvindo os pensamentos que jamais deveriam ser escutados, conhecendo os demônios que se escondem em nossa mente humana, e vendo que não conseguiria me puxar do tormento mental apenas com meu nome em sua voz firme, ela segurou meu rosto, promovendo um encontro direto entre nossos olhos.

– Ela poderia ter feito isso com qualquer outra pessoa, Allysson, mas não com a Lauren. – Minha voz se esvaiu, mas para mim, era como se eu apenas tivesse pensando alto. Hipnotizada pela cólera, as palavras apenas escorriam. – Até se ela fizesse isso comigo, estaria tudo bem…

Como boa conhecedora de minhas frases, Ally disse o que latejava na minha cabeça:

– Faça comigo, mas não faça com os meus.

Apenas concordei, ainda muito distante, ainda nadando nas lavas ferventes dos pensamentos infernais.