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The Best Of Me – Game Of Survival

Camila.

 

Amiga, o que aconteceu? – Perguntou Dinah, debruçando-se sobre a mesa para me fitar mais de perto; seu semblante misturava preocupação com curiosidade. – Você parece exausta…

– Não dormi muito bem essa noite… – Respondi em um resmungo sôfrego e bocejei.

Estávamos no segundo tempo de aula, cujo qual, meu cérebro movido pela sonolência de uma noite não dormida, havia se esquecido de processar qual matéria era. Eu estava um verdadeiro bagaço, meu corpo parecia pesar toneladas e meus olhos exaustos, estavam queimando feito lavas.

No entanto, por mais exausta que eu estivesse, por mais ferrada que aquele ato inconsequente de passar a noite acordada rodando pela cidade com Lauren pudesse me deixar, eu não conseguia me arrepender, simplesmente porque havia sido a melhor noite de toda minha vida.

Foi como se por toda a madrugada, fossemos imortais, infinitas e inabaláveis.

Não nos conhecíamos bem até aquela noite, mas depois de tudo que aconteceu, eu me sentia, de alguma forma muito estranha e inexplicável, conectada a Lauren. Dentro do peito, meu coração pulsava de uma forma agoniante, minhas mãos suavam e eu sentia a grande necessidade de vê-la, de reviver cada mínimo detalhe em olhares, risos e conversas dessa noite recém findada.

Daqueles olhos verdes, pude contemplar todas as estações, desde os tons mais escuros e frios de sua fúria, até os mais claros de sua mansidão e paz de espírito, que me remetiam ao verão. Seu tom de voz, que sempre rouco, mostrou-se o mais aveludado e envolvente quando moldado as notas harmônicas de Carmen da Lana Del Rey. Lauren tinha tantas coisas escondidas dentro daquela alma, coisas tão lindas e cheias de vida, que me senti honrada por ter visto algumas partes.

Misteriosa como um anjo caído, cheia de segredos e exalando suspense, ao mesmo tempo em que era complexa quanto uma fórmula matemática, conseguia ser tão simples quanto a chuva. E, das coisas mais bonitas que já vi na vida, nada superou o brilho que domou os olhos de Lauren quando estávamos contemplando as estrelas e uma estrela cadente rasgou a noite de ponta a ponta. Parecia que ela estava contemplando o maior dos milagres, que estava vendo Deus através do céu.

Apesar de todo luxo que lhe rondava, ela emanava uma simplicidade absurda. Falava da fome como se doesse em seu próprio estômago; revoltava-se com a corrupção, como se fosse sua culpa. Envolvia-se com o peso do mundo, porque sabia que sozinha, a terra não ia aguentar tudo. E de todos os livros do mundo, nenhum personagem conseguia ser tão mais interessante que ela.

– Mila! – Lucy me chamou em voz alta e depois me deu uma cotovelada no ombro.

Ergui meu rosto, que sequer sabia ter enterrado entre os braços, e a encarei.

– O que foi?

– Em que mundo você estava? Estou te chamando faz tempo! – Protestou, fazendo bico.

Eu não estava em outro planeta, meu corpo e alma ainda pertenciam a terra, no entanto, minha mente não estava presa ao presente, mas sim, ao passado. Tendo meus olhos focados no quadro negro, eu me perdia em pensamentos, atravessando cadeiras, mesas e alunos, até chegar a noite passada, onde eu senti o verdadeiro gosto da liberdade, onde aprendi o real sentido da vida.

Se a liberdade tem seu cheiro e a vida tem seus olhos, quero viver livremente.

Era loucura, eu sabia. Era insanidade, falta de juízo de minha parte, estar pensando tanto em algo que havia sido completamente fora de cogitação. Todavia, o que eu podia fazer se meu cérebro, o órgão que comanda meus atos, não queria se desprender do êxtase proveniente da noite? Eu não tinha controle de mais nada desde que entrei naquele carro. E não me arrependia de nada.

– Amiga, você viu os meninos novos que entraram? – Normani perguntou, só não sei para quem. Porém, pelo silencio que se fez na conversa, pude notar que havia sido para mim a questão.

– Não vi… – Vagueei a resposta, não sendo capaz de falar mais que isso.

Honestamente, eu não estava nem um pouco afim de participar daquele assunto ou de qualquer outro que fosse iniciado, e não era por estar sonolenta, querendo dormir por semanas. Eu só queria continuar repassando cada traço da noite, revivendo cada fragmento de olhar esverdeado. O mundo ao redor não me era mais tão interessante quanto o expresso nos olhos dela.

– São uns gatos! – Dinah se introduziu enfática. – O moreno é o mais gato de todos.

– São mesmo! – Concordou Normani. – Mas prefiro o cabeludo.

– Amiga, acho que do que você gosta, ele também gosta, viu. – Lucy se fez presente, soltando aquela intriga. Imediatamente a encarei, vendo em seu rosto um sorriso perverso exibido.

– Como assim? – Perguntei, verdadeiramente intrigada.

– É, como assim? – Intercedeu Normani, chegando mais perto.

– Ouvi uns boatos de que ele tem um rolinho com o outrozinho, o mais alto. – Comentou ela em tom de segredo, praticamente balbuciando. – E eu soube disso por fontes muito seguras.

Dinah estreitou seus olhos, desconfiada.

– Não confio muito no pessoal desse colégio. –  Dinah tinha os olhos estreitados em puríssima desconfiança, e suas palavras até podiam estar sendo um pouco amargas, mas eram muito sinceras. – Muitas coisas são ditas por esses corredores, mas pouquíssimas são verdadeiras.

– Isso é verdade. – Concordei, porque era a coisa mais sensata a se fazer e porque era a maior das verdades sendo ditas. – A julgar pelos absurdos que já falaram e inventaram sobre nós…

– Argh! Nem fala… – Lucy bufou, após revirar os olhos.

– Lembra quando disseram que Dinah estava grávida? – Normani começou a rir.

– Até hoje eu não sei quem inventou isso. – Dinah se remexeu na cadeira, demonstrando todo seu incomodo com aquela fofoca ridícula. – Só sei que, se eu descobrir, eu juro que espanco.

Alguma coisa ia ser dita por Normani, que até chegou a tomar fôlego e abriu seus lábios para soltar alguma frase, que, no entanto, foi interrompida pelo sinal soando como o grito da independência. Imediatamente, os alunos se transformaram em animais indomáveis, ultrapassando a porta da sala feito uma manada ruidosa, arrastando suas mochilas como fugitivos. Ficamos só nós quatro na sala, guardando nossos materiais calmamente, enquanto digeríamos aquela cena um tanto apavorante, que se repetia todos os dias, quando o sinal do intervalo tocava.

– Esses meninos parecem bicho. – Lucy ralhou, sendo comicamente amarga.

– O que vocês vão fazer hoje depois da aula? – Perguntou Normani, no que prendeu sua mochila ao ombro direito e começou a caminhar rumo a porta. E, tendo guardado todo nosso material, nós a seguimos. – Estou pensando em ir ao cinema, mas não tenho companhia para isso.

– Posso ir contigo, Mani. – Dinah ficou de braços dados com Normani. – Vamos, Lu?

– Não sei… – Lucy hesitou, ficando estranhamente tensa.

Atravessamos a porta e seguimos para o refeitório, andando lado a lado.

– O que houve, amiga? – Perguntei, mesmo sabendo parte do assunto. Porém, eu só sabia a versão de Lauren, que fora ligeiramente fragmentada pela mesma, ao resumir tudo de forma apressada, como se recebesse chicotadas a cada palavra acrescentada sobre o assunto em questão.

E como toda história tem duas versões, eu queria saber a dela.

– Ontem à noite aconteceu uma briga feia lá em casa… – Lucy iniciou soltando aquelas reticencias e esfregava seus braços como se estivesse sentindo frio, deixando claro o tanto que lhe incomodava o que seria dito. – A Lauren ficou muito furiosa, de uma forma que eu nunca pensei que a veria ficar…A coisa foi tão sinistra, que cheguei a pensar que Lauren fosse bater na Keana.

Todas nós paramos no meio do corredor, assustadas com aquilo.

– Bater? Na Keana? – Arregalei meu par de olhos, tendo quase me engasgado.

Eu estava em choque. Lauren havia me dito sobre um desentendimento com sua esposa, mas não citou motivos, muito menos deu detalhes, só disse o quanto havia ficado furiosa com o comportamento egoísta e prepotente de Keana. Eu só não pensei que haviam chegado a tal ponto.

A diante, no meio do círculo contido de Normani, Dinah e eu, Lucy estava vermelha, com os olhos cheios d’água. Parecia um vulcão prestes a entrar em erupção. Se nós três havíamos ficado chocadas com aquela situação, era de se imaginar o tanto que ela estava balada em ter vivenciado tal coisa. Eu, por experiencia própria, sabia o quão é assustador viver situações assim, e honestamente, tinha pena de Lucy por estar sendo obrigada a conviver com esse caos familiar. Esse é o tipo de desastre que nos muda totalmente – e não é de uma forma nada positiva, garanto.

– Você viu tudo? – Normani indagou; seus lábios tremiam de nervoso.

– Por que elas brigaram? – Dinah questionou; tinha olhos vítreos em apreensão.

– A briga foi porque eu pedi uma coisa para elas, mas a Keana achou um absurdo, enquanto Lauren se fez totalmente disposta e me ajudar. – A voz de Lucy soava com tremor, devido ao avanço do choro, que utilizava de todo armamento pesado, afim de vencer a batalha e se derramar pelo rosto da menina. – Eu só sei que estou chegando ao meu limite com isso tudo….Ela está destruindo tudo de bom que a gente tinha, ela está começando a destruir a Lauren.

A primeira lágrima se derramou, deixando o rastro de sua passagem.

– Eu não sei mais quem ela é.…ela é minha mãe, mas parece uma estranha. – Lucy prosseguiu, dando total liberdade para as lágrimas, deixando-as se derramar sem recusas. – Ela está irreconhecível, parece outra pessoa. Antes, eu sentia prazer em ir para casa, porque sabia que estaria segura ali, com ela e a Lauren. Mas agora, eu sinto vontade de sumir. Quando estou em casa, sinto que estou presa dentro de uma jaula cheia de leões ferozes. Eu sinto medo de conversar com ela. Quando ela aparece no meu quarto, sinto que a qualquer instante ela vai começar a gritar. Eu não durmo direito faz um bom tempo, porque elas brigam direto e eu fico com medo de dormir e alguma coisa ruim acontecer…. Eu tenho medo de que elas virem aqueles casais de noticiários…

Através de seus olhos castanhos e dolorosamente vermelhos, pude ver as feridas abertas que sua alma carregava. Ali, dentro das retinas, escondida em um canto escuro e frio, eu via sua felicidade se esconder, cheia de medos e mágoas; a paz de espírito tinha corrente em seus pés e braços e já não brilhava. Aos poucos, seus olhos, que sempre claros, foram tornando-se escuros e sem vida. Ferida quase que fatalmente, sua alma, quase desistindo de tudo, implorava por socorro.

– É tão estranho que a mesma pessoa que um dia nos foi sinônimo de paz, amor e sossego, por alguma razão, na qual talvez nunca saibamos o porquê, vem a se tornar a que mais nos sangra. Aquela pessoa que nos deu a vida, que só de olhar já nos sentimos em paz, acaba se tornando o inverso, como o anjo mais querido de Deus, se tornou seu maior inimigo. É muito assustador quando, de repente, tendo passado uma vida inteira ao lado da pessoa, percebemos nunca a ter conhecido verdadeiramente. É ruim olhar para aquele rosto tão familiar e não o reconhecer mais.

A essa altura, Lucy vertia em um choro preocupante, soluçava e respirava com dificuldade. E, sem reação alguma, nós deixávamos ela botar para fora tudo aquilo que lhe estava entalado. Sabíamos que ela tinha muito a dizer, porque era muito estranho toda sua neutralidade perante aquilo tudo. E enquanto ela desabafava, eu só conseguia pensar em como poderia ajudar.

– O rosto é o mesmo, a mesma voz, o mesmo cheiro, mas parece que um mal espírito pegou sua mão e a levou para um passeio sem volta, deixando o corpo sem alma, fazendo tudo que não presta. É como estar perdido num labirinto, com as mãos amarradas e vendas nos olhos, trombando com as paredes, tropeçando em nossos próprios passos. É ver a mentira em carne viva.

Os pelos de meus braços se arrepiaram ao que as palavras de Lucy, tão parecidas com as ditas por Lauren na noite anterior, preencheram o silêncio de minhas ideias totalmente alheias. De repente, olhei para minha amiga, mas enxerguei Lauren diante meus olhos. Lucy, que sempre fora tão parecida com Keana desde sua aparência, até em sua personalidade, na hora da dor, mostrou ser também herdeira daquela mentalidade que parecia já ter vivido inúmeras encarnações, tendo assim, adquirido o dom de moldar as palavras com a maestria do mais sábio dos filósofos e a melancolia daquele que sentiu dilacerar sua própria carne, tudo que de sua boca estava saindo.

O fim das palavras trouxe o silêncio, onde só as lágrimas passaram a ter voz naquela cena.

Como não sabíamos o que falar perante aquela situação aparentemente sem solução, simplesmente nos juntamos ao redor de Lucy, envolvendo-a em um abraço grupal meio desajeitado. Aquela era nossa forma – mesmo que muito singela – de prestar nosso apoio nesse momento tão difícil que ela estava passando. Às vezes, um abraço vale muito mais que palavras.

***

– Escondam a comida, a baleia se aproxima!

Ouvimos alguém de voz masculina gritar e todos do refeitório se voltaram em direção a porta e explodiram em gargalhadas e zombarias. Na porta, segurando a bandeja com seu lanche, estava uma menina baixinha, de cabelos negros e curtos; seus olhos estavam quase transbordando.

No colégio, por falta de maturidade – ou por má criação –, às vezes, os adolescentes são cruéis, falam coisas que dói escutar, tratam as pessoas menos favorecidas como vermes, pisam e tripudiam das limitações e pobrezas. Poucos são os que fazem a diferença, poucos se manifestam.

“Ela é só uma vadia gorda”

“Ela é tão estranha…Olha como ela se veste”

Nós não conhecíamos essa menina, sequer havíamos conversado com ela alguma vez, mas sobre ela, já havíamos escutado coisas terríveis. Nos corredores, quando ela passava, era sempre a mesma balbúrdia. Chamando-a de nomes feios e diminuindo-a à uma bactéria, todos caçoavam do fato dela ser um pouco mais cheinha, não usar roupas de marca e não ser tão bonita.

“Eu soube que ela já ficou com todos os meninos do time”

“Dizem que ela transou com o capitão”

“Ela nunca vai ser amada sendo estranha desse jeito”

No entanto, uma coisa martelava em minha cabeça: E se a beleza dela fosse tão magnânima, que os olhos humanos não tivessem a capacidade de enxergar? E se ela, daquele jeito ímpar, fosse a menina mais bela do mundo, mas que, assim como acontece com os anjos, que nunca mostram seus rostos, nossa humanidade estúpida e ignorante, não tivesse a capacidade de interpretar sua esplendorosa exuberância, e por isso, estranhasse e rejeitasse tamanho efeito? E se, no fim das contas, as vendas caírem de nossos olhos e percebermos que todos nossos conceitos de beleza sempre estiverem errados e a feiura for a verdadeira beleza, e a beleza, for a verdadeira feiura, o que faremos para nos redimir com os que foram magoados por nossa grande ignorância?

Quem define o que é belo, quando a beleza não passa de um estado de espírito? Existem dias nublados que são belos para alguns olhos, como dias ensolarados para alguns são terríveis. Esculturas são belas para alguns, mas para outros, não há beleza alguma. Isso é questão de espírito.

Então, quem dita as regras desse jogo cruel? Aliás, existem mesmo regras?

– Estou cansada disso! – Normani vociferou; seus olhos ficaram sombrios.

Nesse momento, éramos quatro misturadas às outras trezentas e tantas cabeças.

A algazarra é tão grande, tão ruidosa e cheia de escárnio, que sentia como se estivesse conhecendo o inferno sem antes mesmo ter sido julgada. Vendo as chamas dos mais cruéis sentimentos expressos nos olhos daqueles meninos e de alguns outros alunos que presenciavam o espetáculo da crueldade acontecer, mas que, de braços cruzados, só faziam aumentar a zombaria.

Sentia-me assistindo um estupro, um furto, um assassinado, mas tão cheia de covardia e egoísmo, pensava que não era problema meu, e por isso, nada fazia, apenas continuava a almoçar tranquilamente, como se o inferno não estivesse ao meu redor, como se o diabo não estivesse ali.

– Eu também não aguento mais… – Dinah intercedeu, depois de um suspiro entristecido.

– Eles se acham tão superiores, mas não são merda nenhuma. – Normani ia dizendo, como se estivesse desentalando sua alma. – Quando eu entrei foi a mesma coisa, lembram? Eles zombavam de mim por eu ser negra, como se isso me fizesse diferente e inferior do resto da humanidade, sendo que, o que me difere deles, é que eu tenho caráter, coisa que eles jamais irão ter. O problema desses humanos doentes, é achar que são alguma coisa diante o universo infinito.

– Eu li uma vez sobre isso. – Argumentou Lucy. – Nesse mundo, somos apenas a poeira dos sapatos de um viajante. Não temos direito de julgar ninguém, afinal, somos tão falhos quanto.

– Se eles sentissem na pele o quanto as palavras machucam, se calariam. – Dinah pontuou.

Só sabe o verdadeiro peso das palavras, aquele que as sentiu invadir sua pele feito laminas afiadas, rasgando sem piedade. Apenas aquele que teve sua vida devastada por palavras infelizes, sabe o quanto se deve pensar bem antes de abrir a boca. As palavras têm peso. E pensam toneladas.

Quantas vidas são destruídas pelo que não pensamos antes de falar? Quantas vidas são destruídas pelo silencio que mantemos ao ver uma injustiça acontecer e nada fazemos para evitar? Quantas almas perderão seu rumo devido a crueldade dos humanos que no lugar do coração, tem uma masmorra sombria, onde habita o carrasco, que estala seu chicote e gargalha a dor do outro?

 

O início de tudo, foi criado um mundo inteiro a nossa volta, cheio de maravilhas. O sol brilhava, o céu era azul. De noite, a lua e as estrelas vinham enfeitar nosso descanso. Existia um equilíbrio e o amor passeava sobre a terra livremente, correndo entre as árvores, brincando conosco, vivendo entre nós, como se fosse um de nós. A vida sorria, a alegria pairava sobre o ar.

Mas algo deu muito errado nesse percurso diário chamado existência.

Os humanos, os tais estrangeiros, que ganharam passagem grátis para conhecer o paraíso da terra, repentinamente viram grandeza onde simplesmente não existia. Não sabemos como aconteceu, mas sabemos que um belo dia, abrimos os olhos e nos vimos rodeados por serpentes.

Ao achar que esse mundo os pertencia, ao dar ouvidos as víboras que existem em seus corações, os humanos começaram a traçar um caminho de sangue, onde não haveria luz no fim do túnel, somente dor. Demarcando a felicidade com rótulos de luxo, dinheiros exorbitantes, poder, foram perdendo aos poucos, sua pele, sangue, sua humanidade. A raça perdeu sua essência.

Os anjos se tornaram monstros.

Ao perderem sua simplicidade e humildade, ao se acharem mais fortes que esse universo que ergue planetas sobre nossas cabeças, foram esquecendo sua verdadeira condição. Assumindo a máscara de potências, eles assinaram seu óbito usando canetas com tinta de seu próprio sangue.

Havia um mundo inteiro a nossa volta, cheio de maravilhas. O sol brilhava, o céu era azul. De noite, a lua e as estrelas vinham enfeitar nosso descanso. Existia um equilíbrio e o amor passeava sobre a terra livremente, correndo entre as árvores, brincando conosco, vivendo entre nós, mas a humanidade aconteceu. E para ser sincera, acredito que existam poucos humanos de verdade rodeando essa terra abandonada pelo amor que, cheio de vergonha, se escondeu de nós.

Acredito que lá de cima, Deus chora o que suas criaturas se transformaram; seu choro é de dor, mas também de esperança. A esperança de que um dia aceitemos carregar com alegria o fardo de nossa condição de miséria; que enxerguemos ser feitos de carne e sangue, e que por isso, diante desse mundo magnífico, não temos grandeza alguma; somos nada e para o nada voltaremos; não passamos de criaturas sortudas e viajantes; que somos só visitantes. Deus espera que um dia, nossa tão grande inteligência e soberba de acharmos que somos melhores que os outros caia por terra em derrota, exibindo nosso rosto humano, e que assim, entendamos que somos apenas um grãozinho de areia, que logo será soprado para bem longe desse mundo.

Enquanto a zombaria fazia daquele refeitório o inferno na terra, senti pesar em meus ombros a omissão de nunca ter sequer tentado defende-la. Ao mesmo tempo em que me senti miserável por ser tão covarde, dentro de minhas veias, senti uma espécie de medo, algo que fez todos os meus ossos tremerem e um arrepio gélido transformar minha pele em geleira. Parecia um aviso, o sussurro de alguma espécie de anjo, avisando que algo terrível estava para acontecer.

Quando tornei a olhar em direção a porta do refeitório, ela já não estava mais lá.

E de repente, minhas pernas criaram vida própria e me arremessaram em galopes para fora daquele ambiente pesado e cheio de maldade. Nada fui capaz de ouvir, muito menos pessoas a minha frente eu vi; se meu corpo trombou com algo ou alguém no caminho, nunca irei descobrir.

Avancei aquele corredor, sentindo em meu peito uma estranha dor. Como uma leoa ultrapassando a mata para salvar sua cria em apuros, corri por todas as salas de aula, em busca daquela criatura que, de alguma forma mística e estranha, eu sentia que precisava muito de ajuda.

Encontrei-a no banheiro, sentada no chão frio, comendo seu lanche, sozinha e em prantos.

A que nível de tirania nos submetemos quando nos calamos perante o sofrimento alheio? Foi o que eu pensei, quando meus olhos se depararam com seus braços desnudos do moletom sombrio, avistando a pele branca, blasfemada por inúmeras feridas, quase em carne viva, exibindo toda vulnerabilidade da alma a beira da desistência. Meu coração se fez em cacos ao ver o que a crueldade foi capaz de fazer com aquela menina que, não sabendo mais como lidar com todas suas dores, encontrou nos cortes, a válvula de escape para sobreviver a maldade desses humanos.

Uns vão dizer que foi fraqueza, outros dirão que foi por atenção, mas nenhum deles realmente saberá o que aconteceu. Enquanto muitos levantam especulações, poucos são os que realmente se interessam em saber o porquê escondido atrás daqueles cortes e de toda dor sentida.

Deixando para lá todos os meus problemas, minhas ignorâncias e até mesmo esquecendo da vida lá fora, ajoelhei-me ao seu lado e simplesmente a abracei. Embora tenha sido um ato impensado, que para ela fora não só estranho, como inesperado, não demorou a vir a retribuição. Agarrando-se ao meu corpo como um náufrago se agarra a boia, derramou sobre meu ombro as lágrimas que, entaladas em sua garganta, dia após dia, matavam um pouco mais de sua juventude.

Não sei em que momento eu me sentei, só sei que, quando me dei conta, estava sentada, tendo a garota agarrada em meu tronco, desabafando em lágrimas todas suas mágoas e dores. Adiante, estavam minhas amigas, que haviam magicamente aparecido ali, feito anjos enviados por Deus, para me ajudar a guiar aquela menina tão ferida e assustada de volta ao caminho da luz.

Quando a tempestade foi se acalmando e o choro erguendo sua bandeira de trégua, tendo recuperado a voz, ela viu na gente, algo que lhe deu conforto suficiente para desabafar e contar o tanto de coisas que havia passado até chegar aquele ponto. Contou-nos do quando doía ser julgada pelo seu peso e pelas roupas baratas que usava; relatou-nos sobre o sofrimento que sua família passava, sendo eles muito pobres, e também disse o quanto se sentia cruel em estar sofrendo, diante o esforço que seus pais faziam para dar a ela tudo do bom e dor melhor – que para os outros nunca parecia ser o suficiente. O que foi dito não passou de um reflexo do que a sociedade se tornou. Ao nos julgarmos melhores, superiores, ao apontarmos o dedo, é esse feito que causamos.

Ela explicou sobre seus cortes, sobre como sentia a solidão se tornar sua melhor amiga aos poucos; contou-nos sobre ter visto inúmeras vezes o rosto da morte. Confessou que antes não tinha coragem de acabar com tudo, mas também foi sincera ao dizer que já sentia firmeza no ato.

– Não tenho amigos, meus pais trabalham muito para me dar tudo que preciso…se eu morresse, não faria falta para ninguém, e para eles, seria uma despesa a menos. – Ela desabafou.

E, apesar de seu desabafo ter tido boa parte de seu enredo sombria, acabou que no fim das contas, a luz aos poucos voltou a se aproximar. Conforme mostrávamos solidariedade, conforme escutávamos suas dores com atenção, em cada palavra dita por ela, ouvíamos a voz de um demônio se calar. Aos poucos, o que era uma gritaria escurecedora e agonizante, foi se tornando silencio e calmaria outra vez; a paz de espírito estava aos poucos voltando a nela habitar.

E então, quando mais calma, apresentou-se formalmente, depois de rirmos ao perceber que ainda não sabíamos seu nome. Assim, nosso grupo havia aumentado em mais uma. Demetria nunca mais tornaria a comer sozinha, porque daquele dia em diante, ela nunca mais seria sozinha.

Naquele banheiro, é possível dizer que salvamos aquela vida, porém, quantas outras estão vagando por aí, implorando silenciosamente por socorro, sendo ignoradas por nossa desatenção?

[…]

Por ter ficado mais tempo na escola, conversando com nossa nova amiga de grupo, acabei tendo de correr direto para o trabalho, sem ao menos ter tido tempo de ir em casa trocar de roupa. E lá, como sempre, o tempo passou rastejando-se vagarosamente. As horas enrolavam ao máximo.

– Camila, leve esse café para a mesa cinco, por favor. – Dorote disse, pondo a bandeja sobre o balcão. Fitei-a cheia de dúvidas, afinal, era regra da casa a mesma garçonete que atendeu o cliente, ser a que irá servi-lo. E por isso, acrescentou. – A cliente exigiu ser atendida por você.

Se antes eu já estava confusa, fiquei ainda mais nessa hora. Porém, deixei para pensar no porquê disso quando avistasse o rosto da tal pessoa exigente. Peguei então a badeja, tomando extremo cuidado para não derramar o café posicionado ao meio e, quando alcancei a mesa cinco…

– O que está fazendo aqui? – Perguntei descontraidamente, vendo-a me encarar e sorrir.

– Você não respondia minhas mensagens, quis me certificar que estava tudo bem. – Explicou formalmente, mesmo que sorrindo. Aqueles olhos verdes me observavam atentamente.