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The Best Of Me – Does his love make your head spin?

Keana Issartel.

Ruas, pessoas, carros, motos, tudo em preto e branco, parecendo um cenário de filme dramático, mas era apenas o vidro escuro do carro, enturvecendo a vida que acontecia ensolarada do lado de fora. Dentro daquele táxi, aspirando o eucalipto que vinha do purificador de ar em formato de pinheiro, pendurado no retrovisor panorâmico, ouvindo country entre muito chiados, interiormente eu comemorava o fato de que aquela catastrófica viagem havia chegado ao seu fim.

Cansados, meus pulmões recusavam-se a trabalhar, tornando o ato de respirar, que antes tão mecânico, algo que agora me exigia força maior, a ponto de fazer doer o peito ao inspirar. Ferido quase fatalmente, meu coração pulsava em batidas dolorosas, e que, mesmo fracas, eram capazes de estremecer tudo em mim, intensificando os lancinantes sentimentos que me rondavam.

Desde o maldito momento em que pisei em Toronto, na maldita madrugada de sexta para sábado, parei de esperar que Deus pudesse emanar qualquer tipo de ato misericordioso pelos meus atos terrenos, se viesse mesmo a existir um juízo final. E agora, mais do que nunca, sendo movida pelo remorso, eu perdia o pingo de fé que me restava, aceitando que, após aquele final de semana de palavras sangrentas e gestos impiedosos, eu jamais viria a ser perdoada – nem por mim mesma.

Em meus pensamentos ocorria um motim. Unidos contra mim, meus neurônios se moviam em vingança, fazendo uma única frase latejar a cada pontada de dor de cabeça que sentia. A frieza daquela vingança interna, flagelava-me a carne, usando palavras como chicotes afiados.

Tudo que vai, uma hora tem que voltar.

– Problema no útero, Keana? – Repetiu Gabriel, mais incrédulo que enraivecido; estava vermelho, agarrado em seus negros cabelos cacheados. – Você enlouqueceu? Perdeu o juízo?

À essa altura, eu que já estava nervosa, me encontrava agora beirando uma síncope.

Gabriel andava de um lado para o outro, cruzando a cozinha oca do apartamento em que preparávamos para a visita de um possível comprador. Parecia indeciso entre sentir raiva e decepção, ou se vertia em total descrença. Sacudia os braços e bufava; olhos grandes de medo.

Ele era meu único amigo em toda a empresa e na vida; era o único confidente que eu tinha. Aquele que sabia exatamente de tudo sobre mim e sobre a besteira que eu estava fazendo.

O único que poderia me ajudar.

– Você queria que eu fizesse o que, Gabriel? – O choro subiu em minha garganta e entalou ali. Desesperada era pouco para me definir naquele momento. – Eu não ia prever que Lucy ia estar em casa, muito menos que escutaria a conversa. Vê-la me encarando daquele jeito me amoleceu…você sabe o quanto meus hormônios estão loucos.

– É claro que eu sei sobre seus hormônios. Infelizmente você me fez cumplice dessa sua irresponsabilidade. – Exibiu um sorriso desesperado; logo retomou a amargura anterior. – Só que agora, depois dessa sua ideia imbecil, eu só quero sentar e assistir o que você vai fazer quando ela perguntar sobre médicos, sobre cirurgias. Eu juro que quero estar na sua frente quando a cinta não segurar mais sua barriga.

– Não vai ter barriga. – Cuspi impulsivamente.

Os olhos de Gabriel se abriram a ponto de quase saltarem de suas órbitas.

– É o que? – Encolerizou-se, deixando a voz sair aguda e raivosa. – Repente.

Uma freada brusca sacudiu meus neurônios e desfez os devaneios em que me perdia; ouvi palavrões bastante chulos vindos do motorista. Ainda muito aturdida, custei compreender o que havia acontecido, mas, segundos depois, vendo um ciclista dando o dedo do meio para o nosso carro, ponderei que o mesmo havia atravessado em nossa frente, quase provocando um acidente.

– Esses ciclistas não têm jeito. – Ouvi dizer o motorista ancião, bastante ranzinza.

– Argh, é verdade… – Resmungou o homem ao meu lado. – Eles são terríveis!

Olhei em sua direção, erguendo apenas os olhos.

Eu não queria. Ver seu rosto não era minha intenção, pois não queria me ferir mais uma vez, mas foi inevitável, um ato automático. E, quando meus olhos se encontraram com os seus já em mim, senti meu órgão vital ser exprimido contra cacos de vidros, lâminas afiadas e espinhos.

– Você vai tirar essa criança, né?

Encarei-o incrédula demais para aceitar que havia escutado aquilo.

– O que disse? – Fingi não ter escutado direito.

– Isso mesmo que ouviu, Keana! – Ele deu um passo à frente e, pegando o laudo médico esbravejou: – Eu não vou me responsabilizar por isso!

– Há-há-há – Debochei, raivosa e ofendida. – Agora é assim, né?! Mas na hora de me comer foi ótimo! – O sangue ardia minhas veias. – Você vai se responsabilizar sim. O filho é seu!

– E quem me garante isso? – Rebateu em argumentação, num agudo de fúria. – Você não tem caráter algum, Keana. Traiu sua esposa, mente para a mesma há dois anos já. Quem me garante que eu não sou mais um otário a cair nas suas mentiras? Você não é digna de confiança.

– Não acredito que está fazendo isso. – As lágrimas escorrem sem autorização.

– Pois acredite, Keana. – Deixando o laudo cair, aproximou-se de mim e, ficando com o rosto bem próximo ao meu, praticamente rosnou. – Eu não vou me prejudicar por sua causa.

Deixando aquela frase me estapear de inúmeras formas, driblou meu corpo, pegou seu blazer meticulosamente pendurado na cadeira de madeira, sua pasta e saiu, batendo a porta.

O choro veio rápido, congelando em meus olhos, ardendo minhas retinas e possivelmente avermelhando meu rosto. Na mesma frieza que portou por todo o final de semana, ele virou para a janela ao seu lado, desvencilhando-se de mim, focalizando sua atenção nas ruas que passávamos.

Tudo que vai, volta; repetiu-se em minha mente outra vez.

[…]

No silêncio opressivo e melancólico das palavras entaladas na garganta que jamais seriam pronunciadas, espirando aquelas reticências ásperas, caminhávamos lado a lado, rumando ao portão de embarque. Lá, mesmo que pegássemos o mesmo voo, mesmo que sentássemos na mesma fileira, nossos caminhos bifurcariam. De um jeito, ou de outro, seguiríamos outros rumos.

Ao que nos aproximamos da fila extensa para o embarque, parando pouco mais de um metro de distância da mesma, ficamos frente a frente e, pela primeira vez em toda aquela manhã de segunda-feira, nossos olhos quiseram se encontrar; a despedida se iniciou silenciosa entre eles.

Charlie; seu nome se repetia em meus pensamentos, como se para reafirma-lo ali.

Charlie Weber, um homem de 38 anos, alto, de intensos olhos azuis e muito bonito, que havia roubado meus suspiros por dois longos anos – tempo que alimentamos essa insanidade, tempo em que traí a Lauren diariamente. Ele era um advogado trabalhista, que havia sido contratado pela empresa de imobiliária em que eu trabalhava. Como corretora chefe, passei a ter maior contato com ele, resolvendo pendências de imóveis e coisas do gênero. No começo, nosso vínculo era estritamente profissional, mas quando me dei conta, já estava completamente apaixonada por ele, beijando-o efusivamente, em seu escritório.

E então, os beijos se tornaram frequentes, até que deixaram de ser apenas beijos.

Agora, olhando-o pela possível última vez, amargurei-me outra vez.

Dois anos de mentiras, de uma paixão incandescente, terminados em um final de semana doloroso, impiedoso e traiçoeiro, onde a culpa era unicamente minha.

É como diria o velho ditado popular: Quem planta vento, colhe tempestades.

Ainda que muito magoada, sentindo-me imunda, quis apreciar aquelas feições que, possivelmente – e rezava para isso – não tornaria a ver mais. Mesmo com feridas abertas e sangrando, quis dar adeus a cada mínimo tracinho daquele rosto belíssimo diante meus olhos.

Guardei no bolso das memórias, seu olhar azul-safira; seu semblante fechado, de ar sisudo, se desenhou em uma tela mental, onde apareceria em exposição nos meus sonhos, exibindo os detalhes mais evidentes e bonitos, que eram sua barba malfeita, tão charmosa, e seu cabelo castanho-escuro, perfeitamente penteado para trás. Decorei as roupas que ele usava, definindo como minha nova favorita sua blusa xadrez marrom, que o deixava tão despojado. Pela última vez aspirei seu perfume, saboreando a dor de nunca mais sentir aquele frescor mentolado.

– Então é isso… – Ele rasgou o silêncio de repente, abusando dos graves de seu timbre. – Chegamos ao fim da linha.

Feito uma adolescente apaixonada, reparei em cada movimento feito por seus lábios, enquanto ele deixava aquelas poucas palavras soarem em meio ao falatório do aeroporto.

Ele era meu carrasco, mas ainda assim, tinha um pouco do meu coração.

– É… – Foi tudo que eu consegui falar, enchendo-me de tristeza.

– Eu percebi uma coisa. – Começou ele; cruzou os braços, sem tirar os olhos de mim.

– O que?

Por poucos segundos – que pareceram horas –, ele se manteve imóvel e em silêncio, ponderando sabiamente o que seria de suas próximas palavras. E por fim, quando já havia avaliado e reavaliado minunciosamente cada letrinha, cada vírgula, cada ênfase, limpou sua garganta e concedeu a sua voz a permissão para que se projetasse baixa, audível unicamente para mim.

– Você perdeu tanto tempo comigo, sem sequer se dar conta de que passou todo esse tempo procurando em mim, talvez até mesmo em outras pessoas, tudo que a pobre da Lauren foi e ainda é para você. Espero que tenha aprendido alguma coisa com isso que se obrigou a passar.

A frieza de mar em fúria nos seus olhos me fez querer chorar. Ele tinha razão.

Lauren não era uma esposa ruim e estava muito longe de assumir esse fardo sobre suas costas. Eu estaria mentindo não só para mim, quanto para todas as pessoas do universo se continuasse a afirmar isso com tanta veemência. Era muito cruel o que eu estava fazendo com ela.

Em todos esses anos, ela havia sido a melhor coisa que já me acontecera em todos os sentidos, afinal, se minha vida era esse mar de rosas muito confortável, beirando o luxo, era graças ao esforço dela, em se desdobrar em mil pessoas numa só, trabalhando em milhões de coisas, para conseguir dar conforto para sua filha e para mim, enquanto eu estava grávida – até os dias de hoje.

Se minha casa era a maior do bairro, se eu tinha tudo que queria, era graças a ela.

O problema entre nós não eram as brigas frequentes – causadas por mim, que estava cegamente apaixonada por outro –, muito menos o fato dela trabalhar muito.

O problema entre nós era o famoso “Não é você, sou eu”.

O problema entre nós, era eu.

Quando eu conheci Lauren, aos meus quinze anos, acreditei na primeira vez que me deparei com aqueles olhos verdes, que ela seria o “príncipe encantado” do meu felizes para sempre. Mal sabia eu, que seria a própria causadora da destruição desse romance. Como fui tola!

Me lembro perfeitamente que estava sentada na arquibancada, remoendo o sentimento de inveja e ódio pessoal por ter quebrado a perna na semana de apresentação das animadoras de torcida, quando pela primeira vez dirigi a palavra a Lauren. Aquele dia transformou minha vida.

A quadra estava vazia, todos já estavam em suas receptivas aulas, mas eu não.

Lutando contra os sentimentos angustiantes, que se apertavam em nó em minha garganta, eu olhava para o centro da quadra, relembrando a coreografia – montada por mim – ainda muito recente ali, imaginando o quão estaria feliz agora, se não tivesse quebrado minha perna, ficando obviamente impossibilitada de participar das funções de líder.

Foi num desses momentos de ausência mental que ela se aproximou de fininho.

Lauren era muito popular nos corredores por dois grandes motivos: Um que ela guarda entre as pernas e outro que ela insistia – e ainda insiste – em desmerecer, dizendo que não é isso tudo, que é sua beleza absurda. Algumas garotas eram simplesmente insanas por ela, até lhe enviavam bilhetinhos no intervalo, dizendo que os pais viajaram e que estariam sozinhas em casa; até mesmo alguns garotos entravam nessa loucura de tentar chamar a atenção de Lauren Jauregui.

Eu nunca havia sequer falado com ela, muito menos estado tão perto assim. Não tínhamos nenhuma aula juntas, nem possibilidades de ter, já que eu me estava me especializando em ciências contábeis e ela em história. A única proximidade que eu tinha com Lauren, eram as aulas de artes com cerâmica, que eu fazia com seu irmão Christopher. Fora isso, não tínhamos contato.

Enquanto os outros garotos se atiravam aos meus pés, apenas alimentando a possibilidade de ir para a cama comigo, ela apenas se sentou ao meu lado, perguntando se eu estava bem, mostrando-se bastante solidária e preocupada, por ver-me ali, sozinha. Ela me olhou de um jeito bastante incomum nessa hora, sem malícia alguma, apenas sendo amistosa e sorria modestamente, com a única intenção de me fazer rir também. Eu jamais havia sido olhada de forma tão gentil.

Embora nunca tivesse tido contato algum com ela, deixando brechas para possíveis surpresas, nunca cheguei a imaginar que ficaria tão envolvida, como fiquei naquele primeiro momento. O olhar de Lauren me pegou completamente desprevenida, aquele sorriso dela veio como uma flecha. Seu cheiro, seu rosto, sua voz rouca, sua gentileza, tudo nela se tornou atrativo e encantador, e quando me dei conta, já estava perdendo o pouco de juízo que me restava, por ela.

Nosso namoro foi literalmente como nos contos de fada. Ela fazia questão de ser extremamente perfeita em tudo, sempre muito carinhosa, atenciosa e sempre me fazendo surpresas. Não existia no mundo, alguém que pudesse ser para mim, o que Lauren estava sendo.

Mas então, no último ano do colegial, após as férias de verão, surgiu uma novata.

Era uma loira de corpo exuberante; seu rosto era tão perfeito, desprovido de defeitos, que a fazia parecer uma boneca; tinha olhos azuis, lábios carnudos. Ela era tudo que a Lauren se atraía numa mulher. Seu nome era Margot Robbie, e ela tinha todas as aulas com Lauren, e estava decidida a ficar com a mesma, deixando isso bem claro para mim, na única conversa que tivemos.

Lauren nega até hoje, mas estava na cara, para quem quisesse ver, que ela havia ficado muito balançada pelos encantos de Margot, e foi por isso que eu perdi completamente a cabeça. Agindo feito uma louca inconsequente, apaixonada demais para pensar com clareza, temendo que ela viesse a me trocar por aquela garota, tive a brilhante ideia que a prenderia a mim. Eu não pensei nas consequências; fui egoísta e burra. Na minha cabeça aquilo fazia todo sentido. Soava como um crime perfeito. Então, furando todas suas camisinhas, algumas semanas depois veio o resultado: Eu engravidei de Lucy.

A novidade foi recebida com alegria por Lauren e sua família, mas com bastante ódio por meus pais, que desde então, passaram a culpar ela por um erro que na verdade foi meu, e que eu não poderia jamais assumir a culpa, por saber que Lauren sumiria da minha vista e eu seria vista como uma louca, afinal, até eu pensava isso de mim.

Como era de se imaginar, fui expulsa de casa e morei por um ano com os pais de Lauren, até que a mesma conseguisse juntar dinheiro suficiente para termos nosso próprio lugar. Taylor (sua irmã) foi bastante solidária em aceitar dividir o quarto com seu irmão Chris, para que ficássemos com um quarto só para nós, e assim, as coisas foram caminhando aos poucos.

Eu era tão ingênua e tão inconsequente, não tinha a menor coerência no que estava fazendo, muito menos parava para pensar no que o futuro poder esconder. Não tendo a menor mentalidade, destruí minha juventude e a de Lauren.

Nós demos certo por um tempo, ela se esforçou tanto, a ponto de me fazer amargurar em vê-la tão infeliz, como a vejo agora. Nós seríamos um casal muito saudável se eu não tivesse apressado as coisas. Mas, o que foi feito, não pode então ser desfeito. E então, por estar frustrada com as consequências de minhas próprias ações, me achei no direito de culpar a Lauren, de pôr nela toda a responsabilidade pela minha infelicidade e amargura, quando a mesma, tendo todos os motivos – e até mesmo maiores que os meus –, não usava desse ato cruel contra mim. Agora, parada nesse aeroporto, aguardando por ir de volta para casa, sentindo-me ferida, imunda e imensamente culpada, eu aprendia da pior forma a lição: Aqui se faz. Aqui se paga.

– Você vem? – Ouvi-o perguntar, tocando levemente meu ombro.

Voltando ao foco visual, dando de cara com seus olhos fortemente azuis, vi um levíssimo, quase imperceptível sorriso riscando seus lábios. Guardei aquela imagem em minha mente, despedindo-me de mais um traço seu.

Vendo-o tomar o passaporte e a passagem – que eu já nem lembrava mais de estar segurando – de minha mão, notei que a fila havia sumido, suas malas já haviam sido despachadas e só faltava minha passagem ser conferida para que pudessem fechar a porta.

***

Já sentada em minha poltrona, ouvia vagamente a aeromoça repassando aquelas informações sobre como se portar no voo e como usar os equipamentos de emergência, que já conhecíamos bem, mas que era procedimento. E, aproveitando que ainda estávamos em terra e que ainda havia sinal telefônico, retirei meu celular de dentro da bolsa, para avisar Lauren que estava embarcando de volta à Miami.

[Keana] – Babe, já estou no avião, o voo deve durar umas 3 horas e 20 minutos, provavelmente chegarei aí por volta das duas da tarde. Você irá me buscar?

Demorou um pouco para que sua réplica viesse, mas veio.

[Lauren] – Sim. Estarei à sua espera. Tenha um ótimo voo.

Li e reli aquelas palavras, empregando diversos tons de voz que poderiam ser emitidos por Lauren, encontrando em um único e mais sério tom, o som que se encaixava perfeitamente.

Por não ser a primeira vez que acontecia, eu sabia bem que não passava de paranoia minha pensar que ela estivesse brava comigo ou desconfiada de algo, apenas pela formalidade de suas palavras. E, embora soubesse que isso tudo não passava da culpa pontiaguda a me furar, eu não conseguia convencer o meu coração a bater aliviado, enquanto não ouvisse sua voz e visse suas expressões.

Esse voo seria longo…

– Bom dia, senhoras e senhores. Sou o comandante Will e estarei guiando a nave nessa viagem com destino à Miami. Peço que fechem seus cintos e mantenham-se em seus devidos assentos, pois iniciaremos agora o processo de decolagem.

Obedecendo o que ditava a voz masculina, vinda dos auto-falantes espalhados por toda a nave, me acomodei em minha poltrona, ficando o mais confortável possível e fechei o cinto de segurança em minha cintura. Dado isso, em poucos segundos as turbinas foram ligadas, logo o avião começou a se mover, correndo em linha reta pela pista, aumentando gradativamente a velocidade e, num solavanco único, de causar vazios e frios na barriga, decolamos.

Inclinando-me um pouco para o lado, encostei-me na janela redonda para ver a vista.

A manhã fria, mas ensolarada de Toronto, se fazia mais bela quando admirada através de algumas nuvens branquinhas. As tão belas e movimentadas ruas, pareciam feitas proporcionalmente para uma casinha de brinquedo. Pessoas que antes grandes, viraram pingos e de pingos, desapareceram entre nuvens e um extenso oceano.

Sem outras distrações, fiquei sozinha com a pior das companhias: Meus pensamentos.

Do outro lado da nave, também na janela, estava ele, fixado em olhar o oceano a baixo de nós. Sua presença ali, tão distante – quando antes tão perto –, parecendo um mero estranho – quando nos conhecíamos tanto –, era a lâmina a rasgar mais o corte que já era profundo; a dor muito recende da separação necessária, latejou em meu peito; a culpa amargou minha garganta.

– Eu sabia que você viria. – Ele disse sem ao menos me olhar, quando parei ao seu lado e permaneceu imóvel em sua poltrona, lendo um livro qualquer. – Sabia que faria o certo.

– Certo? – Repeti, provavelmente rosnando. – Você acha isso certo?

Num ato bem calculado e bastante frio, ele fechou o livro e me encarou.

– Sente-se e curta o voo. Quando chegamos, debateremos sobre isso.

E assim, o voo fluiu em genuíno silêncio, que perdurou até finalmente chegamos ao hotel onde ficaríamos por todo aquele final de semana derradeiro.

A todo tempo a voz da minha mente, rebatia veemente a afirmação: Você está cometendo o maior erro de sua vida.

O pior era hesitar em ouvi-la, tendo plena convicção de que estava certa.

Sentada na beira da cama, encolhida e assustada sem a menor razão aparente, o vi colocar nossas malas para dentro do quarto, com ajuda de um funcionário do hotel, e logo depois fechar a porta atrás de seu corpo.

– Enfim, a sós. – Anunciou, sorrindo de um jeito falso. – Animada?

Olhei no fundo de seus olhos, almejando queimá-lo com minhas retinas furiosas.

– Você só pode estar brincando comigo.

– Oras! – Abriu os braços, num gesto de incompreensão. – O que eu fiz?

– Não se faça de sonso.

Deixando aquela frase solta, levantei num súbito, rumando até minha mala.

– Você sabe que a culpa disso não é minha, não é? – Sua voz se projetou elevada em uma mínima oitava grave, que fez toda diferença, hostilizando sua frase.

Já com a mala aberta, revirando minhas roupas, procurando algo confortável para vestir, pausei o que fazia apenas olhar em seus olhos e procurar traços de piada em seu semblante. Embora ele fosse um grosso às vezes, desde que ficou sabendo da tal notícia, havia se tornado duas vezes mais e a todo o tempo.

– Não precisa se preocupar com isso, Charlie. – Enraiveci o melhor que pude minha voz e, pegando um conjunto de moletom, fechei minha mala, colocando-me de pé, de frente para ele. – Sendo sua culpa ou não, acabaremos com isso hoje pela manhã.

– É o que eu espero. – Novamente o sorriso falso tomou seus lábios.

E o derradeiro sábado amanheceu, sem que eu ao menos pregasse os olhos.

Antes das seis da manhã, eu já havia conhecido o prédio inteiro do imenso hotel, pois havia passado toda a madrugada percorrendo corredor por corredor, enquanto pensava – ou ao menos tentava – no erro fatal que estava prestes a cometer.

Às setes, Charlie e eu já estávamos no saguão, alugando um carro para podermos “turistar” pela belíssima cidade de Toronto. Feito isso, pegamos um mapa da cidade, onde tracejei em caneta vermelha o trajeto que faríamos até nosso ponto principal e, sem perder mais tempo – pois tínhamos hora marcada –, rumamos para lá.

O medo me subia e descia em impetuosos tremores e calafrios, enquanto ao meu lado, Charlie dirigia tranquilamente, como se estivesse indo comprar pães. Dentro daquele carro, senti a imensa – e amarga – sensação de remorso, por estar ali, indo fazer o que iria fazer, quando poderia estar em casa, com a Lauren, tentando fazer a coisa certa.

A comparação traçada em minha mente, com linhas de sangue, ampliou o remorso que já era grande. Voltando brevemente ao passado, revivi a cena em que contei para Lauren que estava grávida e, que mesmo muito jovem, mesmo que não tendo condições algumas, ela ficou feliz, tomando para si, toda a responsabilidade. Enquanto isso, aqui no presente, após cometer erros e mais erros, eu rumava ao matadouro.

– Você tem certeza que ele é…. – Hesitei em continuar; pensando no melhor termo para adequar aquela situação. E como se estivesse lendo meus pensamentos, Charlie completou:

– Confiável?

– Sim…

– Sim, ele é. – Afirmou convicto e seco. – Já tive algumas experiências comprovadoras.

Engoli a mágoa de não ser a primeira submetida a isso por ele e nada ousei falar.

O pior de tudo era não ter outra alternativa. Se mentir para Lauren já estava sendo mortificante; obrigá-la a responsabilizar-se por isso, iludindo-a com a falsa crença de aquilo era fruto de nossas relações, seria demais. Eu não aguentaria olhar para aquela criança. Não aguentaria conviver com aquele fardo.

Perdida em pensamentos amargurados e carregados de lamentos e arrependimentos, senti o carro reduzir, até que parou totalmente; o freio de mão foi puxado, ouvi o cinto de Charlie ser solto também.

– Chegamos. – Anunciou ele.

Olhei para fora, vendo ampliar em minha vista, um enorme prédio branco, de estrutura bem parecia a uma convencional clínica particular, que, no entanto, não era tão ortodoxa assim, por ser uma clínica especializada em aborto.

Tremi dos pés à cabeça e, vendo meu ato e meu medo eminente, ouvi Charlie bufar, irritado, em seguida sair do carro apressando. De repente, a porta do meu lado foi aberta e meu cinto foi solto; tudo isso pelas mãos dele.

– Vamos.

Coloquei uma perna para fora, pisando forte no chão, testando a firmeza de minha perna, que tremia suficientemente para me fazer duvidar se conseguiria ou não andar. E, percebendo que conseguiria, saí totalmente do carro, remoendo todos os meus erros, mentalizando a frase “Bem feito”, em diversos tons diferentes.

Nós entramos; ele entrou – e eu apenas o segui, feito uma cachorrinha.

A recepção muito bem arejada, aparentemente bem limpa também, estava parcialmente vazia; duas outras mulheres, acompanhadas de seus respectivos parceiros aguardavam por serem atendidas.

Sem que eu ao menos tivesse forças para falar ou pensado em algo para dizer, quando a recepcionista fez suas perguntas, ele respondeu a todas. E, muito prontamente ela nos encaminhou à uma sala toda decorada em branco, onde um médico de meia idade e grisalho, nos aguardava.

Em sua mesa, numa pequena plaquinha de madeira, estava escrito seu nome, mas por puro nervosismo, não fui capaz de conseguir ler; as letras se embaralhavam e brincavam de ciranda, girando e girando em meus olhos.

– Senhorita Issartel? – Indagou ele, lendo o que dizia seu prontuário.

– Sim…

Analisou-me rapidamente e, pontando a cadeira a sua frente, disse:

– Por favor, sente-se.

Eu o fiz. Charlie ficou de pé, atrás de mim.

Olhando-me por cima de seus óculos fundo de garrafa, avaliou-me novamente, para em seguida, voltar a atenção ao seu prontuário, onde anotou coisas que nunca vou ter conhecimento.

– Quantas semanas de gestação, senhorita? – Soltou, de repente.

– Dez semanas.

Novamente fui olhada, depois Charlie foi.

– Alérgica a algum medicamento?

– Não…

Mais coisas foram anotadas.

– Trouxe os exames que foram pedidos?

Incapaz de mover algum músculo e sequer tendo me lembrado da pasta transparente, no banco de trás do carro, fui surpreendida pela mesma, sendo posta na mesa do médico, pelas mãos de Charlie.

Atentamente o médico conferiu meu exame de sangue e exames ginecológicos. Findando sua leitura, fez mais anotações e respirou fundo.

– A senhorita é casada…

Não foi uma pergunta, eu sabia que não havia sido, mas não entendia o que significava aquela afirmativa, muito menos o que se escondia nas reticências ali postas. Não sabia o que esperar dela, muito menos se deveria dizer algo ou fazer algo com relação a isso.

E, percebendo isso, o médico quis simplificar as coisas para mim, dizendo:

– Devo deixar algum recado para família?

Ele não precisou me olhar, muito menos hostilizar sua frase. Os simplicíssimos teores de suas palavras vieram a me golpear invisivelmente com um tapa sem mão.

Morri por dentro, ouvindo aquilo.

– Não…

– Tem certeza que deseja mesmo isso, senhorita? – Fui profundamente encarada pelo médico. – A partir do momento que entrar naquela sala e for sedada, não haverá volta. – Concluiu, muito seriamente.

– Ela tem. – Charlie respondeu por mim, depois de um tempo de silêncio.

O médico arqueou sua sobrancelha grossa.

– Meu rapaz, se sou realmente letrado como penso ser, creio ter lido que a mocinha é casada com uma Lauren, deduzo então, que você não venha a ser a mesma. Então, como não tem laço algum com a moça, peço que não interaja na conversa. – Rebateu o médico, engrossando a voz. – Se perguntei a ela, desejo que ela responda.

Não vi sua expressão, mas ouvi-o engolir seco.

– Eu sei de tudo, doutor, e estou de acordo.

Por instantes, ele avaliou minha resposta. Concluindo o que desejava, achando que fosse aceitável, desprendeu-se de mim para abrir sua gaveta e tirar da mesma um bloco de olhas, onde destacou apenas uma e deslizou até que parasse perto de mim.

– Peço que assine isso. – Induziu o médico. – É um termo de responsabilidade, onde assume a total responsabilidade por qualquer arrependimento, erro ou culpa.

– Ela não vai assinar nada sem que eu leia antes. – Novamente Charlie se meteu.

– Então leia, meu caro.

Permanecendo ético e sublime, o médico aguardou enquanto Charlie lia o tal contrato.

Eu ali, já não sabia mais o que sentir. Já estava tão esmigalhada por dentro, que me restava poucas emoções – as mais dolorosas possíveis.

– Não concordo com alguns desses termos. – Argumentou Charlie, em tom baixo. – São desumanos demais para serem médicos. Eu, que sou advogado, não concordo.

– Desumanos? – O médico riu sem vontade. E, unindo suas mãos sobre a mesa, exibindo uma expressão cética, finalizou. – Quer mesmo debater de direitos humanos numa clínica abortiva? Tem certeza?

Engolindo toda sua faculdade e todos seus argumentos baseados em pura hipocrisia, Charlie se calou, dessa vez pelo resto da manhã.

Após assinado o documento, fui encaminhada para uma outra sala, uma espécie de quarto, todo em tons de azul, onde as vestimentas cirúrgicas me foram entregues e eu as vesti.

Sozinha, sentada na maca, aguardava como um condenado aguarda ser dilacerado na guilhotina, a hora que a enfermeira entraria para me levar até a sala onde aconteceria o procedimento. Com o celular nas mãos, usei o resto de força física que tinha, para digitar entre um espasmo de tremor e outro, mensagens para Lauren.

O choro estava entalado em minha garganta, apertando o nó, ardendo meus olhos.

Como eu fui burra…

– Senhorita?

Tomada pelo susto, dei um breve pulinho na maca, vendo o médico parado a minha frente, acompanhado por outros dois enfermeiros; Charlie estava parado na porta, observando tudo, pela primeira vez exibindo em seus olhos a culpa que sentia.

– Hm?

– Tem certeza? – Insistiu novamente em minha desistência.

– Sim…

– Ok. – Disse ele. – Entregue seus pertences ao enfermeiro e acomode-se na maca.

Coloquei o celular no saco plástico, onde já estavam minhas roupas, sapatos e joias, e entreguei ao enfermeiro negro e parrudo, que estava na minha frente agora. Deitando minhas costas no fino colchão desconfortável, o vi entregar a sacola nas mãos de Charlie e após isso, fechar a porta.

– O procedimento começa por aqui, ok? – O médico tornou a falar, muito calmamente. – Lhe aplicaremos um sedativo em sua veia e em questão de segundos irá dormir. Você não irá sentir nada. Tudo bem?

Fiz que sim com a cabeça.

Agilmente, o outro enfermeiro – um ruivo –, envolveu meu bíceps com uma espécie de liga elástica e apertou firme o nó feito com a mesma. O outro – que havia pego meus pertences –, surgiu segurando delicadamente uma seringa mediana, pela metade de um líquido azulado.

– Vai doer só um pouquinho, tudo bem? – Disse o enfermeiro, pouco antes de me furar o braço, introduzindo o líquido que entrou enrijecendo e fervendo minhas veias.

E daí por diante, tudo que eu me lembro são de borrões sem forma e zunidos.

***

Abri os olhos de repente, como se estivesse despertando de um horrível pesadelo – que não deixava de ser uma verdade, olhando aquela situação por certos ângulos –, deparando-me com os olhos azuis de Charlie me encarando, como quem observa um animal raro.

– Você está bem?

Não soube responder, ainda estava parcialmente dormente e retardada pela sonolência, mas algo era notório, um desconforto em minhas partes íntimas, que fiz questão de exprimir com a pior careta de dor que consegui formar.

– Ah…isso é normal…sentirá isso por pelo menos uns dois dias.

– Ok… – minha voz saiu, pegando-me de surpresa; não sabia que tinha forças para falar. Pus-me sentada e no ato, vi tudo rodar. Rapidamente fechei os olhos, apertando-os e segurei a respiração, controlando o enjoo que me tomou.

– Você está bem? – Apressou-se em dizer, um tanto desesperado. – Precisa de algo?

Sacodi o indicador, fazendo que não.

Lentamente fui abrindo novamente os olhos, testando se tudo rodaria ou não. Percebendo que já estava com os olhos totalmente abertos e tudo parecia normal, voltei a respirar aliviada.

Perceber o fato de ainda estar vestida com as roupas da cirurgia, me agoniaram um pouco; senti nojo daquelas vestes, até mesmo de minha própria pele. Eu precisava com urgência de um banho demorado, minhas roupas e de uma cama para chorar até pegar no sono.

– Já podemos ir? – Perguntei, basicamente sussurrando, encarando com fé o chão.

– O médico disse que assim que despertasse e se recuperasse totalmente da anestesia, não demonstrando qualquer tipo de complicação ou alergia, poderia sim ir embora.

– Que horas são?

– Vinte para às três da tarde.

Fiquei realmente surpresa com o horário, lembrando-me de ter chegado pouco antes das oito da manhã e tendo sido anestesiada pouco antes da dez.

Silenciosamente, pedi ajuda a Charlie, estendendo minha mão, para que ele a segurasse e me desse firmeza para levantar. Depois de alguns segundos de pé, vendo que conseguiria andar, sem cair e bater com o nariz no chão, soltei sua mão e encontrando a sacola com meus pertences, ali mesmo retirei aquela roupa e vesti as minhas.

***

Já dentro do carro, seguíamos em um mórbido silêncio, em direção ao hotel.

Segurando meu celular com certa força, por estar muito incomodada, almejando simplesmente acordar em minha casa e perceber que isso não passou de um pesadelo, eu via e revia as fotos postadas por Vero e por minha filha no Instagram, onde até Lauren aparecia entre as amiguinhas de Lucy, se divertindo na piscina.

Ver Lauren tão sorridente, ao lado das meninas, me fez querer estapear-me até que meu rosto se desfizesse. Há anos eu não a via tão alegre, porque eu havia feito questão de matar lentamente e cruelmente suas alegrias, transformando-a numa mulher silenciosa e muito reservada, que eu sabia muito bem não ser ela e sim alguém que ela se forçava a ser por minha causa.

– Então… – Charlie quebrou o silêncio, falando maliciosamente, pousando sua mão sobre minha coxa coberta pelo jeans escuro da calça. – Agora que tudo está resolvido, acho que podemos prosseguir o que fazíamos muito bem.

Encarei-o, boquiaberta, apavorada com o teor de seu comentário, até mesmo um pouco ofendida com aquela suposição. Eu só tinha certeza de uma única coisa naquele instante e a certeza era que, eu jamais voltaria a dormir com ele.

– Is-Isso é uma p-piada? – Gaguejei, puramente incrédula e nervosa.

– Oras, qual o problema? – Deu os ombros, como se não fosse nada e ainda riu.

– Você é louco? – Elevei todas as agudas que conseguia, para expressar minha indignação e raiva. – Você acha mesmo que ainda teremos algo depois disso que me obrigou a fazer? Depois desse atentado contra uma vida que eu acabei de cometer? É sério?

À essa altura eu já não conseguia mais olhar para ele, apenas encarava as ruas do lado de fora do vidro, tentando não chorar e rezando com fé ainda maior – mesmo sabendo que seria inútil –, para que aquilo não fosse nada além de um pesadelo.

E, por não estar olhando-o, nem prestando mais atenção no que fazia, por estar focalizada demais em minhas súplicas mentais, não vi a hora que o mesmo estacionou o carro e virou-se em minha direção.

– Keana, deixe-me dizer uma coisa… – Começou ele; permaneci sem olha-lo. – Essa era sua única alternativa, porque não satisfeita em ser infiel, você foi simplesmente burra em acreditar que em algum momento da vida, eu assumiria qualquer tipo de responsabilidade contigo, só porque transávamos.

Fui golpeada violentamente por suas palavras; senti até arder a pele de meu rosto.

– Ou você abortava, ou você simplesmente se virava para desfazer aquela mentira ridícula que inventou para a pobre coitada a Lauren, iludindo a mesma da falsa ideia de que teria mais um filhinho na família. – Ele prosseguiu, impiedoso, disparando palavra após palavra. – E eu duvido que aguentaria sustentar essa mentira, olhando para a cara do bastardinho todos os dias, vendo minha feição ele.

Fiz menção em falar, sentindo a imensa necessidade de rebater a tudo que me foi dito, usando qualquer palavrão, qualquer frase ríspida, mesmo não tendo nada em mente. E, aproveitando-se do meu silêncio, continuou a me açoitar com suas cruéis verdades.

– Eu não seria estúpido para me prejudicar dessa forma. Eu não desperdiçaria anos de faculdade, porque uma mulherzinha infeliz com seu casamento engravidou de mim, ainda mais sabendo que essa mesma mulher é casada com uma das juízas mais conhecidas de Miami, braço direito de Viola Davis, a maior advogada criminal existente na região. Você acha mesmo que eu, sonhando em trabalhar ao lado dessas figuras, teria a capacidade de estragar tudo por causa de uma mulher? Ah, faça-me rir.

Ouvi-o rir, debochadamente, e o carro voltou a movimentar-se. Enquanto isso, eu lutava bravamente em segurar as lágrimas que insistiam em cair, lavando meu rosto.

– Então, minha cara, se está ressentida, cogitando dar uma nova chance ao seu casamento, porque viu que fez merda e se fodeu, tem todo meu apoio. Pelo menos algo positivo vai tirar disso tudo.

– Senhora? – Ouvi uma voz doce e feminina, seguida de um toque em meu ombro.

Virei-me aturdida em direção a voz, dando de cara com a aeromoça me observando.

– Hm?

– Está tudo bem? – Indagou ela, intensificando o olhar preocupado. – Precisa de algo?

Franzi o cenho, desentendida com a situação, ainda muito perdida entre uma amarga realidade e trágicas imaginações. Foi quando senti uma gota escorrer do meu queixo, correndo pelo pescoço, que percebi estar chorando e deveria estar chorando muito e a muito tempo, para ser notada assim, pela aeromoça. Notei também muitos olhos em minha direção, incluindo os de Charlie.

– Estou bem. – Disse eu, voltando a olhar para a moça; secando apressadamente meu rosto e forçando o melhor sorriso que consegui exibir. – Só com saudades de casa.

– Ahh… – A moça sorriu de volta. – Logo pousaremos. Se precisar de algo, me avise.

[…]

– Atenção senhores passageiros, pedimos que se mantenham em seus devidos assentos e apertem os cintos. Iremos pousar. – Anunciou o piloto, por meio dos auto-falantes.

Em pouquíssimo tempo após o aviso de pouso, senti a nave inclinar levemente para frente e, em menos tempo ainda, causando um frio na barriga, pousamos. Pela janela, eu via a estrutura do enorme aeroporto se aproximando cada vez mais, conforme o avião manobrava, para assim, encaixar-se na área de desembarque.

Alivio e ansiedade se misturavam, conforme a ideia de estar perto de casa se concretizava, dissipando todos os sentimentos negativos, que me assombraram por toda viagem – e por todo aquele final de semana.

Era bom pensar que em menos de uma hora estaria em casa, aconchegada em minha cama, ao lado da pessoa que eu nunca deveria ter ousado trair e que agora, eu havia aprendido a lição. Era bom pensar que veria minha filha, que estaria perto dos meus pais, que agora, longe de Toronto e de tudo que fiz de errado, eu poderia tentar fazer a coisa certa.

***

Já com minha mala em mãos, atravessei a porta do desembarque, dando de cara com Lauren parada a poucos metros, mexendo em seu celular, bastante distraída. E, não sei dizer se foi coisa do meu remorso e da culpa ou se foi apenas a saudade contida, misturada ao arrependimento, apenas sei que, naquele instante, ela parecia muito mais bonita do que já costumava ser; meu coração acelerou ao vê-la.

Notando minha aproximação, num breve momento que olhou para a porta, checando se havia se aberto, ela sorriu levemente, guardando o celular em seu bolso traseiro, logo dando alguns passos de encontro a mim. E, do jeito que sempre fazia, ela abriu os braços, para que eu me encaixasse ali, e foi o que eu fiz. Seus braços se fecharam ao redor de meu tronco, apertando-me contra seu corpo; seu perfume amadeirado veio forte, acelerando ainda mais meus batimentos.

Nesse instante, tendo seus braços circulando meu corpo, amarguei novamente relembrando exatamente de tudo que lhe havia feito. Remorso, culpa e arrependimento se uniram impiedosos, enquanto Lauren se fazia cada vez mais presente e viva ao meu toque.

Como pude ser tão tola? Era a pergunta que eu me fazia a todo tempo.

– Queridas! – Surgiu de repente, a voz de Ally. – Que coincidência encontrar vocês aqui.

Separei-me lentamente do abraço que me segurava forte, para olhar na direção que vinha a voz e me arrependi no mesmo ato, sentindo o peso da ausência daqueles braços em mim, quando minhas pernas fraquejaram.

Allysson estava ali, ao nosso lado, sorrindo feito uma maníaca e ao seu lado, estava Charlie, todo sorridente, como se nada tivesse acontecendo. Como se ele não estivesse frente a frente com Lauren, como se eu não estivesse ali.

Perdi a fala nessa hora, o máximo que consegui foi exibir um sorriso amarelo.

Lauren e Ally estavam a se abraçar fervorosamente, como sempre faziam ao se encontrarem, enquanto eu, permanecia em posição de estátua, tentando encontrar em meu cérebro, algum neurônio que não tivesse fugido amedrontado.

– É bom te ver aqui, Keana. – Ally falou, de repente, fazendo-me perceber que elas já haviam se soltado e que agora, estavam a me olhar. – Estou precisando conversar contigo.

– Conversaremos então. – Num súbito, minha voz saiu assustadoramente calma.

Vi então, desenhar-se no rosto da morena baixa, o sorriso infernal que eu já conhecia muito bem. Não era psicose minha. Pelo menos não parecia ser. Aquele sorriso era assustador demais para ser coisa da minha cabeça.

E, ainda nesse escárnio sorridente, ela tornou a falar, mas de forma venenosa:

– Esse é o Charlie, meu grande amigo. E agora, também meu sócio.

– Sócio? – O agudo incrédulo veio forte, que não o pude conter.

Lauren me olhou rapidamente, estranhando meu ato, mas ignorou-o.

– Que maravilha! É um prazer. – Lauren como sempre, foi simpática, cumprimentando-o cordialmente com aperto de mãos. – Me chamo Lauren, e essa é minha esposa. – Senti a mão de Lauren puxar-me para perto pela cintura ao apresentar-me, e esforcei-me ao máximo para sorrir.

– Prazer…Keana… – Tenho certeza que minha voz saiu desesperada e trêmula.

E olhando no fundo dos meus olhos, ele apertou firmemente minha mão.

– O prazer é todo meu,Keana.

E quando achei que isso seria um pesadelo e que não poderia piorar, percebi estar redondamente enganada. Quando Charlie abriu a boca, falando ser um grande admirador do trabalho de Lauren, quis simplesmente ter um infarto fulminante e morrer ali mesmo, no meio do aeroporto.

Por decisão deles ali, caminhamos em direção à um restaurante, para que eles pudessem sentar, comer e conversar sobre trabalho e sobre a tal sociedade de Charlie e Ally.

Eu estava alheia a tudo, mal sabia como ainda estava respirando. Era demais para mim estar vivendo aquilo, assistindo aquela interação entre Lauren e Charlie, após todo aquele final de semana que se passara.

Já acomodadas na mesa do restaurante, me agarrei no braço de Lauren, abraçando-o e tentando fazer com que ela reparasse naquilo e pensasse que eu queria sua atenção, decidindo assim, ir para casa. Mas não obtive sucesso, pois Charlie havia conseguido chamar sua atenção, falando sobre um caso que ela e Ally trabalhariam juntas.

Derrotada, me concentrei em apenas mexer no celular, esforçando-me ao máximo para não enlouquecer. Quando volta e meia percebia Charlie depositando seu olhar em mim, eu tremia dos pés à cabeça, suando frio pela espinha.

– Mas então, Keana… – Ally começou; falando baixo. – Como foi a viagem?

Ergui a cabeça para olhar para ela, que estava sentada de frente para mim.

– Foi tranquila… – Respondi hesitante, percebendo algo diferente em seu semblante.

Olhando no mais fundo dos meus olhos, Ally deixou que se esvaísse a neutralidade de seus olhos, passando a me encarar como se quisesse me queimar viva com suas retinas. A raiva que estava nítida ali, me dizia com imensa clareza: Eu sei de tudo. E isso só me fez voltar no tempo, na quinta-feira anoite, quando repentinamente ela apareceu em minha casa.

– E você e a Lauren? Como estão?

No mesmo instante em que sua voz soou baixa, acendendo aquela pergunta súbita; ali, descendo as escadas, rumando em direção à porta da sala, deixei de considerar a aparição repentina de Ally, como uma mera e casualíssima visita de velha amiga.

Olhei rapidamente em sua direção, sendo pega de surpresa pelo seu olhar já em mim, não conseguindo assim, disfarçar que havia sido pega de supetão e não sabia o que responder, por não saber o que ela estava querendo saber afinal.

– Estão bem? – Acrescentou ela, espremendo seus olhos em desconfiança.

– Estamos… bem… – Hesitei; avaliando suas feições ao ouvir minha resposta.

O problema de toda a situação não estava só na feição reprovativa de Allysson, que destemidamente deixava claro não estar convencida, muito menos satisfeita com minha resposta, – onde nem eu tinha gostado da entonação duvidosa que tinha aplicado ao fazê-la. E embora aquilo pudesse soar como uma simplória interrogação, um mero gesto de preocupação fraterna, todo e qualquer bom conhecedor de Ally, saberia que no fundo, existiria um motivo chave, algo que lhe incomodara suficientemente para pôr em palavras, o que tanto lhe martelava em seus pensamentos. O problema era descobrir o que estava entranhado naquela repentina indagação.

– Estão bem? – Duvidou escrachadamente, apertando ainda mais seus olhos entre pálpebras, em sua famosa expressão cética. – Por que isso não me soa verdadeiro?

Nós paramos no meio da escada; eu um degrau a cima, ela um degrau a baixo. E, enquanto eu evitava contanto visual, sacolejando meus pensamentos de forma que alguma resposta boa viesse, vi seu olhar ir direto na marca em meu anelar, ausente de aliança.

– Perdeu, foi roubada ou tirou por que quis?

Essa era a chance de eu falar algo verdadeiro. Era um teste. Um dos famosos testes que Ally fazia, quando estava prestes a perder a confiança em alguém, onde sabia a resposta com todas as letras – mesmo que nunca ditas – e deixava a seu critério confirmar ou não.

Presa nisso, simplifiquei a frase da melhor forma, para não a deixar perceber em minha voz trêmula o quanto eu estava nervosa – mesmo sabendo que seria em vão.

– Tirei porque quis.

– Vocês não têm jeito mesmo… – Retrucou ela, seca e impaciente.

Pude então, respirar aliviada.

Enquanto a oração estivesse no plural, tudo estaria bem.

E, de repente, tirando-me daquele devaneio, meu celular vibrou em minhas mãos.

O nome de Allysson subiu, anunciando a mensagem de texto.

Meu coração bateu na garganta.

Ela me encarava, ainda com a mesma raiva.

Apertei para abrir a mensagem, tremendo violentamente e, suspendendo em uma batida, ao ler o que dizia, a vida pareceu escapar de mim por segundos – que pareceram eternos e congelados.

[Allysson Brooke] – Achou que poderia simplesmente viajar, dar um basta, e assim, anular o que foi feito? Quanta inocência! Esperava mais de inteligência de sua parte, já que conseguiu sustentar isso por tanto tempo. Na verdade, esperei qualquer coisa de ti, menos um ato tão baixo. Sua máscara caiu, minha querida. Eu sei de tudo. Sei que isso dura há dois anos, sei todos os mínimos detalhes sobre a relação de vocês dois, até mesmo que viajou para Toronto, apenas para abortar uma criança inocente da podridão dos seus atos miseráveis. A mentira tem perna curta, Keana. E, só não contei a verdade para ela, porque tive pena. Por tentei e ela reagiu muito mal. Então, eu te dou um mês para contar a verdade para Lauren. E se você não contar, eu conto.