Search for content, post, videos

Quando tudo parecia perdido – Parte 1

A Gabi, autora da nossa maravilhosa história “20 e poucos anos” mandou essa historinha pra gente dividida em duas partes. A primeira hoje, a segunda na próxima semana.

Parte 1

– Você chegou! Até que em fim! Já estávamos de partida. – falou o dono de um mini “pau de arara”, que levava os turistas para os lençóis maranhenses, a uma mulher que usava calças folgadas, botas de caminhada, uma camiseta e carregava uma grande mochila nas costas.

– Desculpe! Entrei na rua errada.

– Bom, o importante é que já está aqui. – respondeu ele rapidamente e, voltando-se para todos, falou:

– Como eu dizia, nós podemos ir até as lagoas de duas formas. Uma é pela estrada e a outra é pelas dunas.  

“Geralmente o pessoal prefere as dunas pq é mais aventura, mas se a maioria quiser, a gente vai pela estrada que é mais tranquilo e sem balanço.”

– Vamos pelas dunas. – falou Rafael, um dos turistas.

– De acordo! – Falaram outros três, Diego, Thiago e Rodrigo, amigos de Rafael.

– É…vim pela aventura. – falou a quinta turista, Sandra, que havia acabado de chegar.

– É o jeito. – disse Cátia, a sexta e última turista. Ela não conhecia Sandra, mas já conhecia os quatro amigos.

No dia anterior tinha ido até um restaurante almoçar e os quatro bebiam em uma mesa próxima. Eles a chamaram para sentar com eles, mas ela recusou. A partir daí os rapazes começaram a encher a paciência da garota, que já estaria vivendo um feriado ruim, mesmo sem aqueles quatro.

Ela havia acabado de terminar um noivado. Na verdade, o ex noivo que terminara. Então para mostrar que estava bem, resolveu viajar no feriadão e tirar algumas fotos para postar no facebook.

Estava toda maquiada e com um vestido impecável (ou pecável, poderíamos dizer). O que não passou despercebido aos olhos dos rapazes, que ainda estavam se sentindo rejeitados pelo dia anterior.

– Bora, motora! Que eu quero ver burguesinha engolindo areia. – falou Rafael.

Sandra subiu e em seguida os rapazes.

Cátia ficou desolada, pois não conseguiria subir ali sem levantar bem as pernas. Ela começou a pular para tentar sentar na beirada da carroceria do pau de arara, mas foi em vão. Na sua primeira tentativa de levantar as pernas, os quatro fizeram menção de tentar ver sua calcinha.

Quando viu aquilo, Sandra irritou-se:

– E o cavalheirismo foi pra casa do caralho, né? – ela jogou a mochila no banco, desceu da traseira da caminhonete e de uma vez só carregou Cátia no colo e a colocou na beirada da carroceria.

– Espera aí. – falou Sandra para moça.

Ela deu um salto e subiu. Então, de pé, estendeu as duas mãos para Cátia e a içou em um único puxão.

Nossa! Que forte…- pensou Cátia enquanto era erguida – …e grande.- concluiu seu pensamento quando ficou em pé de frente para a mulher.

– Pronto! – disse Sandra sorrindo.

– Ahh! Qual é a tua?! Acabou com nosso showzinho! – Falou Diego.

Sandra sentou e pegando o folheto de turismo, falou:

– Bom, não vi nada sobre “showzinho” aqui no cronograma. – olhou para Diego e deu um sorriso irônico.

– Ha, ha, ha! Mulher com atitude. Gamei! – falou Thiago.

Sandra sorriu, mas não disse nada.

Cátia se aproximou para sentar entre ela e Rodrigo, pois era três de cada lado. Na mesma hora, Rodrigou se aproximou de Sandra, dando o espaço perto da entrada para Cátia.

– Quero ver quanto tempo esse cabelinho vai durar. – falou ele e os outros riram.

Sandra fechou a cara. Ela empurrou Rodrigo para perto da entrada e puxou Cátia pela mão para sentar no lugar dela.

– Quando as pessoas são mal educadas é foda! – falou ela, virada para Cátia.

– Falta de Educação é recusar um convite, minha filha. – disse Rafael.

– Falta de Educação é não respeitar o espaço dos outros, meu filho. – falou Sandra de um jeito tal que matou o papo ali.

Cátia começou a repensar aquele passeio, aquela viagem, aquela…vida?

Fala sério! Suicidio também é demais. Mas bem que eu podia sumir um pouquinho da face da terra.- pensou ela.

O carro começou a andar e assim que entraram na estrada de areia, aconteceu como o guia havia dito. O carro começou a chacoalhar de todo jeito.

Sandra olhava para fora do carro. Estava deslumbrada com aquela paisagem.

Ela havia iniciado sua viagem pelo Brasil havia pouco tempo. Tinha o desejo de viajar para fora do país em breve. Mas tinha um pressentimento de que jamais esqueceria aquele lugar.

O carro passou por cima de um banco de areia e Cátia, que estava enjoada e com um pouco de dor de cólica – que sempre vinha antes da sua menstruação – acabou não se segurando o suficiente e bateu com a testa no ombro de Sandra.

Rafael deu uma gargalhada com a cena e os outros riram junto.

Sandra pediu desculpas, apesar de não ter sido a causadora do acidente e pediu pra ver o rosto de Cátia, mas esta foi ríspida e afirmou estar tudo bem.

Então, Rafael disse:

– Quando eu digo que é mal educada…

Sandra fingiu não ouvir. Ela não precisava discutir com aquele babaca a cerca de boa educação. Além disso, ela viu uma lágrima escorrer pelo rosto de Cátia e logo percebeu que ela não queria ser vista chorando.

Além de mal educado é insensível. Se um cara desses arrumasse uma namorada na minha frente, eu faria questão de roubar. – pensou ela, antes de perceber Diego olhando para as pernas de Cátia.

– Nossa! O que há de errado com esses caras?

Sandra pegou a jaqueta que estava amarrada na mochila e jogou sobre as pernas da moça.

– Obrigada! – disse ela sem levantar a cabeça e penando – Que atitude fofa!

Finalmente chegaram ao destino.

Os rapazes desceram e Sandra esperou que eles se afastassem para então pedir licença e pegar a jaqueta. Quando descobriu as pernas da moça, seu corpo pulsou e ela se viu surpresa, pois não havia percebido como aquela mulher tinha pernas bonitas.

– Obrigada pela jaqueta e…por todo o resto…- disse Cátia ainda sentada.

– Ah! Sem problemas! Os caras são uns idiotas. Dá até gosto de defender alguém contra eles. Fica mais fácil ainda, quando a dama é tão formosa. – falou Sandra e imediatamente se arrependeu de ter usado aquelas palavras. – Estou no século XIX por um acaso?

Cátia ficou surpresa, mas achou graça daquela frase, o que acalmou Sandra.

Elas desceram do carro e, em silêncio, começaram a caminhar nas dunas em direção a uma, das muitas lagoas azuis que havia na região. Quando chegaram, Sandra tirou da mochila uma câmera profissional e começou a tirar fotos da paisagem. Cátia já havia se recuperado um pouco, ela se afastou e começou a tirar selfies.

Vendo que suas fotos estavam ruins, Cátia pediu para que Sandra tirasse fotos com a câmera de trás do seu celular. Esta aceitou, mas pediu para que elas fossem para o outro lado da lagoa. Cátia não questionou, para ela, quanto mais longe dos quatro idiotas, melhor.

Elas chegaram do outro lado e Sandra posicionou a outra, para então tirar várias fotos. Quando acabou, mostrou o resultado para Cátia, que exclamou:

– Uau! Que filtro você usou aqui?

– Esse filtro se chama, “a luz do sol incidindo sobre esse ângulo aqui do seu rosto”. – falou e passou o dedo indicador levemente no rosto de Cátia, que se arrepiou.

Sandra achou que a moça estava confusa, então, disse sorrindo:

– Do lado de lá, quando você virava para a lagoa, o sol batia nas suas costas. Já aqui, ele bate no seu rosto. A foto sai melhor.

“Sou fotógrafa, daí entendo um pouco.” – sorriu timidamente.

– Essa é a melhor foto da minha viagem até agora. – disse Cátia – Obrigada…er…parece que não nos apresentamos ainda…

– Sandra. – falou estendendo a mão.

– Cátia. Prazer!

– Todo meu, Cátia.

“Então, eu costumava fotografar modelos, mas de uns tempos pra cá comecei a fotografar paisagens e artisticamente.”

– Artisticamente?

– Sim. Uma foto que transmite um sentimento.

– Hum…acho que entendo.

– Vou te dar um exemplo. Senta ali.

Assim que ela sentou, Sandra arrumou os cabelos de Cátia e pediu para ela jogar o corpo para trás e se apoiar sobre os braços.

Sandra se posicionou e, como que cronometrado, uma nuvem cobriu o sol, um vento soprou e ela apertou o botão da máquina.

– Pronto! Olha como ficou! –falou Sandra sentando ao lado da moça.

Quando Cátia viu a foto. Teve vontade de chorar.

Era como se Sandra tivesse fotografado sua vida naquele momento.

Ela havia usado um filtro da máquina, que possuía um tom azulado, sendo assim, mesmo com um dia iluminado e uma lagoa maravilhosa à sua frente, Cátia parecia estar numa paisagem melancólica, seus cabelos voavam e as dunas ao longe davam a impressão de que ela estava solitária num deserto.

– É assim que me sinto – pensou e chorou.

– E aí? O que ach…ei! O que houve? Algum problema? Você está se sentindo bem? – perguntou Sandra preocupada.

Cátia não conseguiu conter o choro. Sua vida estava vazia como aquele deserto. Ela não sabia mais o que fazer. Tentara desesperadamente se refugiar longe da família e amigos, por vergonha de ter sido feita de idiota; para ter descanso das enxurradas de perguntas; para mostrar que não estava destruída por dentro, mas nem ali ela encontrara paz.

Sandra ficou sem jeito. Não sabia o que fazer, até que decidiu abraçar Cátia. Assim que o fez, a garota enterrou seu rosto no abraço dela.

Quando finalmente se acalmou, Cátia pediu desculpas e começou a contar sobre sua vida para Sandra. Não entendia como, mas sentia que poderia falar qualquer coisa para aquela mulher.

A conversa fluiu e elas começaram a falar sobre várias outras coisas.

O tempo passou sem que elas percebessem. Quando olharam para o outro lado da lagoa não viram ninguém. Correram até lá e constaram que todos haviam ido embora, nem os carros dos outros guias estavam mais por lá.

– Como eles puderam esquecer-nos aqui? – perguntou Cátia.

– Eu sei como. Aqueles quatro não pareciam mesmo ser gente.

“Devem ter dado um jeito para o motorista achar que estávamos no carro.”

Sandra pegou o celular, mas não havia sinal. E, de qualquer modo, nem saberia para quem ligar, ela chegou à cidade e ficou na primeira pousada que encontrou, pagando apenas uma diária. Não tinha o número de ninguém dali. A outra até poderia ter, mas de nada serviria sem rede.

artes-facebook-2

– E agora? – perguntou Cátia olhando para o próprio celular.

– Agora nós acampamos. Não é seguro ir andando por aquela estrada. Não iremos chegar lá antes do anoitecer e vai ser perigoso.

“Eles tem esses passeios todos os dias, amanhã deve ter uma turma por aqui e a gente se espreme entre eles na volta.”

– Acampar? Mas e-eu…

Sandra tirou de dentro da mochila uma tenda e uma toalha.

– Vá tomar banho enquanto eu arrumo a barraca.

Cátia não falou mais nada, apenas obedeceu.

Quando terminaram de tomar banho e arrumar tudo, já estava escurecendo. Elas entraram na barraca e deitaram sobre um colchão inflável.

Sandra tirou um pacote de bolachas e um cantil de água e elas começaram a comer e beber.

– Uau! Você anda preparada pra tudo mesmo! – disse Cátia.

– Como eu disse pra você mais cedo. Sou uma viajante. Se eu não tiver o básico, corro risco de passar mal.

“Tem lugar que não tem nada. E, às vezes, eu é que estou sem nenhum tostão no bolso. Daí o jeito é acampar”. – sorriu

– Uma vida livre. – falou Cátia e bebeu um pouco de água.

– Uma escolha. – falou Sandra com segurança, o que mexeu com a outra.

Desde cedo, o sorriso, o tom de voz e o toque de Sandra estavam causando arrepios nela.

Inicialmente, Cátia achou que era por conta do cuidado que recebera, mas depois que as horas passaram, já não tinha mais certeza.

Do lado de fora, a lua cheia iluminava a noite.

Elas não acederam uma fogueira por medo de chamar a atenção de pessoas indesejadas e, para a sorte delas, a noite não estava tão fria.

Um vento bateu e sacudiu o tecido da barraca. Elas olharam para cima e Sandra fechou os olhos.

Sorrindo, falou:

– Adoro esse barulho. – quando os abriu, se deparou com Cátia olhando para seu pescoço.

Elas se olharam sem dizer nada.

De repente, Cátia sentiu algo em seu pé, ela deu um grito e saltou para trás, forçando a barraca.  Sandra, temendo que ela danificasse o tecido, pulou pra cima dela e a trouxe de volta falando:

– Calma, calma! Foi a minha mão! Foi a minha mão!

– Sua mão?

– Sim. –disse Sandra sem jeito – Pensei que ia tocar a sua mão, mas acabei tocando seu pé. Desculpa!

Cátia caiu na risada e Sandra sorriu envergonhada. Quando parou de rir, Cátia falou:

– Fazia tempo que eu não ria tanto.

– É…você tirou um bom atraso aí.

– Não seja boba. Você tem que admitir que a situação foi cômica.

Sandra deitou.

– É, foi sim. Que saco! – sorriu.

– Ninguém mandou ter essas mãos frias.

Cátia pegou a mão da outra e começou a esfregar entre as suas. Sandra olhou para ela e sorriu. Depois fechou os olhos.

– Nossa! E esses braços tão frios também? – falou Cátia enquanto subia suas mãos.

– É para te esfriar melhor. – falou Sandra sem abrir os olhos com uma voz grossa, imitando o lobo mau.

As duas sorriram da bobagem e aos poucos, as mãos de Cátia foram ficando mais suaves. Ela começou a alternar a caricia com leves apertos nos músculos definidos do braço de Sandra.

A respiração das duas mudou.

Cátia olhou para o ombro daquela mulher de pele morena, que estava deitada sobre o colchão e começou a subir sua mão até lá, no entanto, antes de alcançar o objetivo a mão fora parada. Ela assustou-se e ia pedindo desculpas, quando Sandra abriu os olhos e falou:

– Essa é a sua mão, né?

Cátia sorriu lembrando-se de antes, mas não teve muito tempo pra pensar, pois estava sendo puxada para cima de Sandra, a qual botou a mão dela no outro braço.

– Esse aqui também tá com frio. – sorriu e fechou os olhos.

Cátia sorriu levemente e recomeçou o “processo de aquecimento” no outro braço. Nisso um músculo se contraiu embaixo de sua mão e instantaneamente ela sentiu uma pulsação entre as pernas.

– Uau! – foi tudo que se permitiu pensar. Ela fechou os olhos e quando os abriu lentamente, Sandra estava terminando de molhar os lábios, vermelhos, volumosos.

Instantaneamente ela teve vontade de avançar contra aqueles lábios.

– Nossa! – exclamou em voz alta sem perceber.

– O que foi? – falou Sandra com uma voz suave e abrindo os olhos.

Cátia não conseguiu pensar em nada. Ela sabia que se falasse alguma besteira iria cortar o clima – que estava uma delicia. Então, disse a verdade (ou melhor, partes dela):

– Seus lábios…tão vermelhos…

Sandra fez um sorriso cínico e falou:

– Vem cá, que eu vou te mostrar o que eles fazem de melhor.

sig_Gabi

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.