Menu fechado

QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo Final

Por volta de um ano depois da formatura, Amanda realizou a prova do concurso da Defensoria Pública do estado vizinho e obtivera a sonhada aprovação. Dessa vez, fora aprovada em décimo lugar, uma ótima colocação, tendo em vista que trabalhava e tinha pouquíssimo tempo para estudar. Valentina fora a sua grande incentivadora, visto que, muitas vezes, elas deixaram de sair com os amigos e de viajar para locais próximos, devido aos estudos de Amanda. Então, a jovem pintora sempre compreendera aquela renúncia da namorada aos prazeres efêmeros, pois sabia que era muito importante para a realização do sonho do amor da sua vida.

Durante os meses seguintes à aprovação, Amanda se dedicara ainda mais, visto que o concurso tivera mais de uma fase. E, dois meses antes do casamento, ela recebera o resultado da aprovação final do concurso. Havia se classificado em quarto lugar, o que deixara Amanda mais feliz e realizada do que na aprovação do primeiro concurso, o de técnico, porque, desde que tinha pensado em fazer faculdade de Direito, quisera ser advogada dos mais carentes, que não tinham condições de acessar a justiça com advogados particulares.

Com a nomeação no concurso, Amanda teria que mudar de cidade, tendo em vista que a Defensoria para o qual ela havia concorrido ficava no estado vizinho ao que elas moravam. Antes de fazer o concurso, ela conversara com Valentina sobre a possível mudança. A noiva, em nenhum momento, hesitara. Pelo contrário, incentivara Amanda, porque mudar de cidade não prejudicaria em nada seu trabalho, que poderia ser realizado em qualquer lugar do mundo.

Assim, nos dias seguintes ao resultado, elas viajaram para a cidade onde morariam para ver alguns apartamentos que Valentina tinha procurado em alguns sites. Depois de três dias de saga à procura de um apartamento, elas encontraram um do qual gostaram muito, pois tinha o tamanho que elas queriam e, ainda por cima, ficava próximo de onde Amanda trabalharia.

Mesmo sem saber quando a namorada assumiria o novo cargo, Valentina achara melhor alugá-lo logo, pois era melhor pagar uns meses de aluguel do que perder a oportunidade e acabar tendo que alugar um apartamento do qual elas não gostassem. Então, por causa do trabalho de Amanda, Valentina viajara sozinha para fechar o contrato de aluguel.

Durante as etapas do concurso, as jovens noivas tinham combinado que, caso Amanda fosse aprovada, Valentina entregaria o prédio, que ela alugara para instalar a galeria, somente quando Amanda fosse nomeada para o cargo. Através de conversas com os aprovados, Amanda descobriu que a previsão era que o órgão realizasse a nomeação dos primeiros colocados nos dias seguintes ao seu casamento.

Em uma das visitas semanais que fazia a sua menina e a namorada, Rosa soube da aprovação de Amanda no concurso e ficou muito feliz. Contudo, ao saber que elas teriam que se mudar da cidade, a alegria da ex-babá sumiu do rosto.

– Não acredito… que vocês vão… vão embora! – disse Rosa aos prantos.

– Calma, Rosinha! A gente vem sempre te visitar!  – emocionada, Valentina consolou a ex-babá com um abraço.

– Mas não é a mesma coisa…

– Eu sei, Rosinha, eu sei… Infelizmente, é a vida, né? Mas, olha, tem uma coisa boa nisso tudo: você pode sempre passar uns dias lá com a gente… É bom que você passeia!

– Eu não quero passear! Quero vocês aqui pertinho de mim! – Rosa abraçou as suas duas meninas.

– Oh, Rosa, não fica assim que eu choro também! – Amanda falou emocionada.

Enxugando as lágrimas que descia dos seus olhos descontroladamente e se soltando do abraço triplo, Valentina perguntou a Rosa, mudando de assunto:

– Sim, Rosinha, mas você não falou se recebeu o convite do nosso casamento!

– Ah, minha menina, recebi sim! Fiquei tão emocionada, minhas filhas! Nem acreditei que vocês vão casar! – Rosa riu.

– Às vezes nem a gente acredita, Rosa! – Amanda falou rindo também.

 

***

 

Devido ao custo de realizar uma grande festa e à vida corrida de trabalho tanto de Valentina quanto de Amanda, sem tempo disponível para organizar um casamento, elas conseguiram marcar a data da cerimônia somente para dois anos após as suas formaturas.

Sentada no sofá, Valentina segurava, com uma das mãos, o livro Casamento igualitário, de Bruno Bimbi e, com a outra, acariciava os cabelos de Amanda, que estava deitada em seu colo, também fazendo a leitura de um livro, só que de poesias. A jovem artista passeava o olhar atento pelas palavras, que se ligavam formando ideias, as quais traziam reflexões importantes e pertinentes acerca do casamento homoafetivo. O tema do livro a fez lembrar, com um misto de alegria e ansiedade, que faltavam apenas alguns dias para o seu casamento com Amanda. Ela então interrompeu a leitura, apesar de ter mantido os olhos na página do livro, e começou a ser tomada pelas lembranças de quando Amanda começou a fazer parte da sua vida.

 

Seis anos atrás

 

– Valentina! Abre a porta! Elas chegaram! – Agnelo falava com o tom de voz alto devido à música estrondosa que saía do quarto da filha.

A garota abriu a porta de repente e disse com mau humor:

– Preciso mesmo fazer isso?

– Por favor, Valentina! Só alguns minutos… Quero que você conheça minha namorada e a filha dela… É pedir demais?

– Na verdade, é. Mas se você faz tanta questão, desço daqui a pouco. Vou só trocar de roupa. – ela falou fechando a porta sem dar tempo de o pai dizer nada.

Quase uma hora depois, Valentina desceu e, ao aparecer na sala de estar, os olhares se voltaram para ela. O pai suspirou revirando o olhar e Júlia e Amanda arregalaram seus olhos assustadas com o visual lúgubre da garota. Valentina estava vestida com uma calça jeans preta muito rasgada, os pés estavam calçados em botas pretas de canos médios e, na cintura, um cinto de couro com penduricalhos de caveiras. Cobrindo-lhe o dorso, uma camiseta preta, cuja estampa era também de uma caveira. Uma coleira de couro com detalhes pontiagudos e um colar com pingente de caveira lhe arrodeavam o pescoço. E, para terminar de compor o visual macabro, a garota rebelde usava uma maquiagem pesadíssima: sombra e lápis pretos nos olhos e batom marrom escuro.

Valentina teve vontade de rir quando viu o espanto nos rostos de Júlia e Amanda, que usava um vestido rosa claro com detalhes floridos, os cabelos estavam trançados e, no rosto, os óculos de grau compunha seu visual de garota comportada. Totalmente diferente de Valentina, que não costumava exagerar tanto assim no visual, mas tinha feito aquilo de propósito para implicar com o pai, que, mesmo insatisfeito, levantou-se, aproximou-se da filha e, pondo o braço em seu ombro, disse meio constrangido:

– Júlia, essa é minha filha Valentina. – olhou para a filha. – Valentina, essa Júlia, a namorada da qual eu falei…

– Oi… – Valentina levantou a mão e disse com uma voz sem cor.

Sem se levantar do sofá, Júlia, apesar de ter lhe lançado um olhar azedo, tentou transparecer simpatia e falou, dando um sorriso, que não conseguiu manifestar verdade:

– Oi, Valentina… Nossa, Agnelo, ela parece uma modelo…

– É mesmo… – Agnelo tentava abstrair o fato de sua filha estar parecendo que ia para um ritual macabro.

– Essa é Amanda, a filha de dela… Ela estuda na mesma escola que a sua! – olhou para a filha de Júlia. – Amanda essa é Valentina.

– Oi… – Amanda falou com a voz trêmula e baixa e desviou o olhar para o chão rapidamente.

– Oi. – a filha de Agnelo respondeu com a voz inexpressiva.

“Porra! Não acredito que essa garota é a filha da nova namorada do meu pai! Pô, pai, poderia ter arranjando uma namorada com uma filha melhorzinha! Essa santinha do pau oco é sacanagem! Se bem que a mãe também parece ser um pé no saco!”. Valentina ainda não tinha conseguido acreditar que era Amanda ali sentada no sofá de sua casa. A garota e sua turma de patricinhas era tudo que Valentina mais tinha raiva, porque, para ela, as garotas só queriam ser as alunas mais estudiosas e mais certinhas da escola.

Logo após a apresentação, um silêncio constrangedor se instaurou no ambiente, que foi quebrado por Valentina, porque ela não pretendia ficar ali mais nenhum minuto:

– Falou, pai! Tô indo encontrar a galera… – disse caminhando para a porta de saída.

– Espera, Valentina! Você não vai fi…

Sem se virar, ela apenas levantou a mão e disse, interrompendo o pai:

– Fui!

***

Valentina riu, fechando o livro. Amanda perguntou do que ela estava rindo, então ela indagou:

– Você se lembra da primeira vez que você foi lá em casa com sua mãe? Que meu pai foi me apresentar a vocês?

– Como esquecer aquele dia? – Amanda riu fechando o livro.

– Por quê, meu amor? Você ficou assustada com meu visual?

– Não foi nem isso! Eu fiquei assustadíssima quando vi que VOCÊ era a filha do novo namorado da minha mãe! Eu e minhas amigas morríamos de medo de você! – Amanda riu.

– Por quê? – Valentina perguntou como se não soubesse o motivo.

– Ora, por quê? Além do seu visual, seu jeito passava uma imagem de garota má pra todo mundo! Muitas vezes, na escola, a gente já chegou até a mudar de caminho pra não passar por você!

Valentina riu acompanhando a risada da noiva e depois falou:

– A intenção era essa mesmo, mas não sabia que conseguia mesmo passar essa imagem!

– Conseguia, viu! E muito! Inclusive, tinha umas meninas que diziam que você bebia sangue em rituais macabros!

Com aquela declaração, elas caíram na gargalhada. Depois, Amanda confessou:

– Nesse dia da apresentação, eu fiz até uma pequena oração a Deus no momento em que te vi!

– Sério? Como foi? – Valentina riu e perguntou curiosa.

– Foi assim: Meu Deus, eu Te peço com toda a força do meu coração, que minha mãe não queira casar com esse homem, porque não sei como seria viver na mesma casa que essa garota! Mas hoje dou graças por Ele não ter atendido a minha oração. – Amanda sorriu.

Valentina lhe beijou levemente os lábios e falou:

– Graças a Deus! – ela sorriu. – Eita, amor! Mas eu era tão ruim assim? – ela falou como se tivesse triste.

– Ah, amor, desculpa, mas eu achava! Mas era culpa sua! – Amanda riu.

– É, mas hoje você me ama, né? – Valentina perguntou sorrindo e fazendo cócegas na namorada.

– Ai, amor! Para, para! – Amanda implorou se contorcendo.

Valentina parou e abraçou a noiva, encostando o dorso em cima do dela e dando-lhe um beijo mais demorado. Logo após, Amanda respondeu:

– Hoje eu amo demais! Às vezes, eu mesma não acredito como toda aquela irritação – e raiva! – que tínhamos uma pela outra, se transformou em amor.

– Às vezes, eu também custo a acreditar… – Valentina beijou o pescoço da noiva.

– Pois é! Nossa história é bem peculiar, né? Mas só sei que hoje eu te amo muito e, por isso, vou me casar com você daqui uns dias!

 

Alguns dias depois…

 

Numa tarde ensolarada e ventilada de um sábado do mês de outubro, Valentina e Amanda se arrumavam para, juntas, darem um grande passo em suas vidas. Cada uma estava em um quarto diferente no primeiro andar da casa de praia que elas alugaram para realizar a cerimônia do casamento.

– Coloca, Valentina! Vai ficar mais bonito! – Sabrina incentivou a amiga a colocar um enfeite de rosas no cabelo como a cabeleireira sugeriu.

– Não quero! Não tem nada a ver comigo isso! – olhou para a cabeleireira – Moça, pode fazer qualquer coisa, menos colocar esses enfeitinhos aí..

Roberta revirou os olhos e falou:

– Hoje é o dia do seu casamento, Valentina! Deixa de ser tão cabeça dura, pelo menos hoje!

– Não quero por nada no cabelo! Tenho que estar do jeito que eu sou… Senão a Amanda não vai nem me reconhecer! Já basta estar maquiada de um jeito que não parece comigo, né? – ela riu.

Sabrina e Roberta, as madrinhas de Valentina, estavam ajudando a amiga a se arrumar. No quarto ao lado, outra cabeleireira arrumava o cabelo de Amanda, que estava uma pilha de nervos, apesar de as amigas, Letícia, Maria Clara e Samara conversarem o tempo todo na tentativa de acalmá-la.

Na parte externa, a cerimonialista e seus ajudantes finalizavam os últimos detalhes. O amplo espaço fora da casa estava decorado com muito bom gosto, apesar da simplicidade. Para os convidados, foram dispostas cadeiras de madeira branca em duas colunas com cinquenta unidades em cada uma, viradas de frente para o mar. À frente delas, a organização do casamento armou um pequeno ‘altar’ em forma de caramanchão, onde puseram uma mesa para a juíza de paz realizar a cerimônia.

 

***

 

Por volta das três da tarde do dia do casamento, Rosa se dirigiu até à sala de estar, onde o patrão lia uma revista, e perguntou:

– Dr. Agnelo, posso falar com o senhor?

– Claro, Rosa. – Agnelo respondeu, colocando a revista no assento do sofá ao seu lado.

– Eu sei que o senhor sabe que sua filha e a Amanda se casam hoje. – ela foi direto ao ponto, fazendo o patrão se remexer no sofá. – Desculpe doutor, mas ouvi sua conversa há uns dias com seu irmão tentando convencer o senhor a ir ao casamento…

– Não quero falar sobre isso, Rosa! Já não basta o Lorenzo? – Agnelo falou com dureza, pegou a revista e voltou a ler.

Rosa então respirou fundo e, sem pedir permissão, sentou-se no sofá. Agnelo a olhou e suspirou, revirando os olhos, percebendo que a ex-babá não iria desistir. Com a calma que lhe era característica Rosa falou:

– Não sei se o senhor sabe, doutor. Acho que não, mas minha irmã é casada com uma mulher há muitos anos…

Agnelo se empertigou no sofá, mas nada falou. Então, Rosa continuou com uma voz exalando tranquilidade:

– Além disso, elas têm um filho, um menino muito bom e inteligente. Sabe, doutor, na época, eu não aceitei essa relação, achei que era errado… Mas, com um tempo, eu mudei completamente minha opinião. E sabe por que, doutor? Porque, um dia, eu me permiti conviver com elas e ver se aquilo era de verdade… E o senhor não imagina o que descobri! Descobri a relação mais linda que conheço, com companheirismo, amor e respeito… Até hoje dá gosto de ver elas juntas! E agradeço a Deus por me permitir abrir os olhos, pra poder enxergar que eu era que estava errada! Que aquele preconceito que eu tinha era ridículo… Ele que faz sofrer! – Agnelo olhou para ela. – É isso mesmo, doutor! A homossexualidade em si não faz ninguém sofrer! O que faz mal, o que traz sofrimento é o preconceito, a intolerância… O que importa é se a pessoa é boa, respeita o próximo e não com quem ela se deita…

De cabeça baixa, o patrão apenas ouvia a governanta, que prosseguiu:

– Hoje, depois de muito sofrimento, minha irmã é respeitada na vizinhança, no trabalho e na família… Mas ela não precisava ter sofrido tanto pra ter isso tudo, porque ela sempre foi a mesma boa pessoa. Qual o sentido dela ter sofrido tanto? Só por que ela ama uma pessoa que a sociedade diz que é errado? Não tem sentido nenhum nisso! Discriminar é que é errado! Minha família, doutor, é humilde, sem muito estudo, mas nos respeitamos muito e, hoje, não temos preconceito não… Como eu disse, um dia teve e, infelizmente, foi por minha causa, que fui a única que não recebi bem a notícia de que minha irmã namorava uma mulher. Mas isso se resolveu, graças a Deus! E sabe o que ela me disse um dia desses, doutor? Que a felicidade dela só ficou completa quando eu passei a amar ela do jeito que ela era. Ela disse que, antes, até estava feliz, mas faltava uma coisinha, sabe. E essa coisinha, ela falou que era o meu acolhimento, era o amor da irmã mais querida dela! Aquilo me doeu tanto, doutor! Como eu pude fazer minha irmã querida sofrer com meu preconceito ridículo? Passei tanto tempo sem falar com a pessoa que mais amava depois que meus pais morreram! E tudo porque ela amava uma mulher? Naquele dia, pedi perdão a ela! Porque nunca tinha pedido antes! – Rosa limpou as lágrimas que escorreram de seus olhos. – Desde a época que nos conciliamos, nosso relacionamento melhorou ainda mais, porque eu percebi que eu não podia recriminar minha irmã por ela ser quem ela é! Porque ninguém escolhe ser assim, doutor! E tenho certeza que Deus ama ela do jeito que ela é! Deus ama a todos nós do jeitinho que nós somos! Porque Deus é amor! Qualquer tipo de amor!

Rosa então se levantou e finalizou:

– Bom, eu vou indo… Sabia, doutor, que todos os amigos de Valentina e de Amanda vão estar lá? Os parentes que moram na cidade também! Mas vai ficar faltando uma coisinha! – ela balançou a cabeça afirmativamente. – Porque as pessoas mais importantes e as que elas mais amam não vão estar lá…

Então, Rosa se dirigiu à porta de saída da casa, deixando Agnelo pensativo e emocionado. Instantes depois, ele levantou o olhar e avistou a esposa no alto da escada, com um semblante sério e os olhos encharcados de lágrimas.

 

***

 

Por volta das cinco e quinze da tarde, Valentina parou no alto da escada que dava para a sala da casa e respirou fundo. A moça do cerimonial que a acompanhava desceu na sua frente e disse que a esperaria na entrada. Valentina estava vestida com um macacão de tecido na cor nude, de calça pantalonas, com um cinto na altura da cintura feito com o mesmo tecido e, na parte de cima, o tecido lhe cobria o dorso até o pescoço, onde havia uma renda guipir bordada prendendo o tecido. Seus cabelos estavam soltos e ondulados. No rosto, uma maquiagem leve, bem diferente do que ela costumava usar. Seus pés estavam abraçados em uma delicada sandália dourada não muito alta. Nas mãos, ela segurava um pequeno buquê de rosas alaranjadas.

Ela seria a primeira a entrar e esperaria Amanda, que ainda estava no quarto, pois quiseram manter a tradição e não se veriam antes do casamento. Então, a jovem pintora começou a descer. Estava com as pernas trêmulas e as mãos geladas. Dois degraus abaixo, sua mãe lhe veio aos seus pensamentos e ela se emocionou, ao ponto de precisar arregalar os olhos marejados para evitar borrar a maquiagem. Logo após, pensou em seu pai e os olhos teimaram em lacrimar ainda mais. “Para de pensar neles, Valentina!”. Dizer isso mentalmente para si mesmo não adiantou. Ela não imaginou que o pai faria tanta falta naquele momento. Não imaginou que desejaria tanto que ele estivesse ali e entrasse com ela em seu casamento. Ingenuamente, pensou que já tinha superado sua falta.

Quando chegou à metade da escada, ela avistou a silhueta de um jovem homem que caminhava em sua direção, com um sorriso constrangido e com um olhar emocionado, e não acreditou no que via. “Será que eu tô sonhando?”

– Pai?! – Valentina exclamou com o coração aos saltos dentro do peito.

Ela chegou ao pé da escada no mesmo momento que Agnelo, que a olhou e, com uma voz suave, falou:

– Minha filha, me perdoa por tudo que eu fiz! Como eu fui um idiota! Estava tomado pela raiva e pelo orgulho! Como eu pude ser tão vil ao ponto de abandonar minha única filha só por ela ser quem é! Meu amor, sei que você é uma pessoa melhor do que eu! Me perdoa! – os olhos dele marejaram. – Eu tô muito arrependido! Me perdoa, Valentina! Eu te amo tanto, filha!

Durante todos esses anos, Valentina se trabalhou para não deixar o rancor em relação ao pai consumi-la. Tentou com muito custo não sentir ódio dele. E há algum tempo não sentia mais raiva, mas nunca teve coragem de procurá-lo. Então, emocionada, ela se jogou nos braços do pai e disse chorosa:

– Ah, pai, claro que eu te perdoo!

Abraçados, Agnelo perguntou:

– Então, você me dá a honra de levar você ao altar?

– É tudo que eu mais quero!

Nesse momento, Júlia se aproximou sem ser vista e falou seriamente:

– Eu também posso pedir desculpas?

A surpresa de Valentina foi ainda maior quando ouviu a madrasta fazer aquela pergunta. Ela se afastou do pai e olhou com seriedade para Júlia:

– Júlia, nós tivemos nossas diferenças, mas eu tenho certeza que vamos conseguir nos acertar… Se vocês hoje conseguem enxergar que eu e Amanda nos amamos de verdade, tenho certeza que já é meio caminho andado pra gente se dar bem… Não sei como vocês mudaram de ideia, mas o importante é que vocês estão aqui… Como diz o ditado: antes tarde do que nunca, né? Então, eu aceito suas desculpas e quero me desculpar também por qualquer coisa que tenha feito naquela época…

– Então, posso ganhar um abraço da minha enteada… nora? Não sei como… Ah, vocês tem que ter paciência pra gente se acostumar com tudo isso…

Valentina e Agnelo sorriram e a garota falou:

– Claro… – abraçou a madrasta, que daqui a alguns minutos viraria oficialmente sua sogra. – Vocês acostumam, não se preocupem. Eu me acostumei… Quem imaginou que eu ia me apaixonar pela Amanda a ponto de casar com ela? – ela riu.

– Realmente! – Júlia e Agnelo falaram juntos.

– E Amanda, onde está? – Júlia perguntou.

– Ainda não foi lá? Meu Deus, ela vai morrer ao ver você! Ela tá se arrumando lá em cima no segundo quarto.

– Vou lá… Espero que ela me perdoe…

– Tenho certeza que ela vai… – Agnelo falou.

Nesse momento, a moça do cerimonial se aproximou e pediu para Valentina se posicionar logo na entrada. Assim, Agnelo lhe ofereceu o braço com um sorriso estampado no rosto.

– Vamos, filha?

Valentina retribuiu o sorriso, descansando o braço no do pai e juntos caminharam até a entrada.

 

***

 

Andando de um lado para o outro, com seu vestido branco rendado longo de alcinha, Amanda, que estava com uma maquiagem leve e com os cabelos ondulados e um lindo arranjo de flores no cabelo, perguntou para as amigas:

– Por que tá demorando tanto? Valentina ainda não desceu? O que será que aconteceu? Ai, meu Deus, será que ela desistiu?

– Calma, Amandinha! – Maria Clara pegou nos braços da amiga, fazendo-a parar.

Nesse momento, elas escutaram uma batida na porta.

– Ai, Jesus, é alguém dizendo que ela fugiu!  – Amanda falou agoniada.

– Pode entrar… – Samara falou.

– Eu poderia falar com minha filha?

Ao ouvir a voz da mãe, Amanda, que estava de costas para a porta, sentiu, instantaneamente, seu coração martelar dentro do peito e sua boca se entreabrir de surpresa. Ela se virou e exclamou:

– Mãe?! – seus olhos verterem lágrimas de emoção.

Júlia sorriu para ela e pediu para que as amigas lhe deixassem a sós com a filha. Ela então se aproximou e, com os olhos cheios de lágrimas, disse:

– Você tá tão linda, filha!

Amanda não conseguia falar de tanta emoção! Júlia então continuou, pois não queria atrasar ainda mais o casamento da filha.

– Eu vim aqui te pedir perdão por tudo, minha filha! E dizer que eu não poderia perder esse momento lindo da sua vida, mesmo não sendo do jeito que eu sonhava… – ela pegou o rosto de Amanda entre as mãos. – Sei que demorei demais pra perceber que o que importa é você ser feliz! Claro que eu sempre quis sua felicidade! Mas achava que você só podia ser feliz do meu jeito, que era o que eu achava certo! – ela soluçou. – Oh, meu amor, quero que você saiba que você nunca deixou de ser minha filha! Não importa o que eu tenha dito naquela época! Jamais foi verdade! Me perdoa por não ter te procurado esses anos todos… Eu sofri muito e sei que você também sofreu! Todos nós sofremos, né, por causa de um preconceito que não trouxe nada de bom! Hoje eu sei que você não escolheu ser assim, minha filha! Mas quanto tempo eu perdi por não compreender isso! Meu Deus, como eu pude dizer que você não era mais minha filha! Como eu pude fazer isso?! Me perdoa, meu amor! Me perdoa por tudo! – Júlia começou a chorar copiosamente.

Chorando muito, Amanda abraçou a mãe e disse:

– Eu perdoo, mãe. Tudo que eu mais quis nesses anos todos foi que isso acontecesse… Como eu tô feliz por ter a senhora aqui em um dos dias mais felizes da minha vida!

– Como eu tô feliz em ouvir isso, minha filha! Como é maravilhoso ter o seu perdão! Agora tô com a alma leve… – elas se soltaram do abraço. – Bom, a gente precisa se recompor, porque você precisa descer… Valentina já vai entrar com Agnelo.

– Sério, mãe?! Ele tá aqui também? Que coisa boa! Hoje é o dia mais feliz da minha vida! E, com certeza, é o da Valentina também!!

– Ela realmente ficou muito feliz! E como ela tá mudada! Virou uma mulher linda…  – Júlia sorriu.

– Hoje, ela é se mostra quem ela é de verdade… Ela é uma mulher maravilhosa, mãe! A senhora vai ver… – Amanda sorriu.

– Bom, agora temos que ir!

Então, Amanda chamou a maquiadora, que retocou sua maquiagem e a da mãe. Em seguida, elas desceram.

 

***

 

Todos ficaram surpresos quando viram Agnelo entrar com Valentina pelo caminho feito de madeira, que foi posto entre as cadeiras até o ‘altar’. Um violonista tocava uma versão de I don’t want to miss a thing do Aerosmith, que era uma das músicas preferidas dela e que, uma vez, ela cantou no ouvido de Amanda quando elas estavam em um barzinho com os amigos. Essa música acabou sendo uma das músicas marcantes da relação.

A cada passo que Valentina dava, ela olhava de um lado para o outro e distribuía sorrisos aos amigos devido a sua intensa felicidade. Ela não estava cabendo em si de tanta alegria por estar vivendo aquele momento e, ainda por cima, com a presença de Agnelo. Era como se ela estivesse sonhando…

Alguns instantes depois, Amanda começou a fazer sua entrada, ao som de Te amo de Vanessa da Mata, uma de suas cantoras preferidas. A admiração voltou a tomar conta dos convidados, porque Amanda não estava sozinha. Ela caminhava de mãos dadas com a mãe. Fitou Valentina e sorriu para ela. O seu sorriso contagiava a todos, principalmente, a Valentina, cujos olhos cintilavam vendo a noiva caminhar em sua direção.

No início de sua entrada, Amanda ainda olhou para alguns convidados, mas, do meio do caminho em diante, seu olhar se deteve em Valentina e ela não viu mais ninguém. Assim, a emoção tomou conta das noivas e elas não conseguiram dominar as lágrimas, que caíam de seus olhos.

Ao receber a noiva, Valentina lhe segurou a mão e lhe beijou o rosto. Sorrindo, Júlia disse antes de se sentar junto a Agnelo:

– Sei que vocês cuidam muito bem uma da outra… Que continue assim.

Então, Júlia beijou a filha e depois, sorrindo, acariciou o rosto de Valentina, que retribuiu o sorriso. Assim que elas se puseram diante da juíza de paz, Valentina cochichou para Amanda:

– Você tá acreditando que isso tá acontecendo?

– Ainda não, parece que tô sonhando…

 

FIM

Comente! ;)