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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 58

Meses se passaram depois do noivado e Valentina e Amanda seguiam suas vidas. Ambas empolgadas com as respectivas faculdades e se esforçando em busca de seus objetivos profissionais. Além da graduação, Amanda continuava estudando para concursos e Valentina havia vendido muitas telas. Ela estava conseguindo criar uma boa clientela tanto na cidade quando fora dela, tendo em vista que já havia exportado três telas, para cidades diferentes, encomendadas por pessoas que tiveram indicações de seus clientes.

O relacionamento delas estava cada vez melhor. A única coisa que ainda não deixava Amanda ser completamente feliz era a ausência da mãe em sua vida. Apesar de Valentina se fazer de forte e transparecer que não se sentia triste por não conviver com o pai, Amanda sabia que isso a deixava infeliz também. Desde a briga, elas não falaram e nem viram mais os pais. Deixaram, inclusive, de frequentar os lugares onde Júlia e Agnelo costumavam ir.

Numa noite estrelada do início do mês de dezembro, Valentina dirigia se seu carro em direção à casa de Letícia, que faria uma festa em comemoração ao seu aniversário, com Amanda sentada ao seu lado, descansando a mão sobre sua coxa. O som que se propagava dentro do carro era o da música Singular de Ana Vitória, escolhida por Amanda. Naquele dia, era a vez dela escolher o repertório. Como tinham gostos musicais bem diferentes, Valentina e Amanda, desde o início, tinham pactuado, com direito a juramento e aperto de mão, de nunca discutirem por causa de música e, além disso, deixaram acordado que cada uma, alternadamente, escolheria o repertório nas ocasiões em que estariam juntas. Acontece que, depois dessa decisão acertadamente democrática, elas começaram a apreciar o gosto musical uma da outra.

Quando Valentina parou em um dos sinais vermelhos, pegou a mão de Amanda, levou até sua boca e a beijou carinhosamente, olhando para ela, que permaneceu mirando algo fora da janela. Valentina então percebeu o corpo da namorada tensionar e seu rosto expressar certa melancolia. Assim, desviou seu olhar à procura do alvo de Amanda e viu Júlia e Agnelo entrando em um restaurante. Eles seguravam um na mão do outro e riam alegremente de algo que Agnelo cochichou no ouvido de Júlia. Era a primeira vez, depois de meses, que elas viam os pais.

– Amor… – Valentina chamou a atenção de Amanda sem deixar de soltar a mão dela.

Com os olhos marejados e opacos, Amanda se virou em direção à noiva, que tocou em seu rosto e continuou a falar:

– Amor, eu sei que isso dói em você… Mas eles que escolheram assim! A gente não pode fazer mais nada… Não podemos obrigá-los a nos aceitar… Quem sabe um dia, eles não se tocam de que estão fazendo mal a nós e a eles também… – Valentina limpou uma lágrima que escorreu do olho de Amanda. –Vamos dar tempo ao tempo. É a única coisa que podemos fazer… E tentar não deixar isso estragar nossa noite. Vamos tentar? – Valentina sorriu e Amanda retribuiu um sorriso triste.

– Tá certo… Vou tentar mesmo, porque eu não mereço ficar assim!

– É assim que se fala, meu amor! – Valentina disse e depois beijou delicadamente os lábios da noiva.

Nesse momento, escutaram uma buzina chamando atenção delas para o sinal verde. Então, Valentina rapidamente saiu com o carro. Chegaram à festa de Letícia e encontraram os amigos. Como a festa não tinha a presença dos pais de Letícia, Amanda e Valentina ficaram mais à vontade para demostrar carinho na frente das pessoas e Amanda conseguiu não pensar na mãe nem na falta que ela fazia. Logo que chegaram, Valentina perguntou se Amanda poderia voltar dirigindo, porque ela queria beber.

– Só se você dançar comigo! – Amanda respondeu.

– Tá certo… – Valentina falou sorrindo e revirando os olhos.

A festa dos 21 anos de Letícia foi muito animada e elas dançaram a noite toda com os amigos. Quando foram embora da casa de Letícia o sol já tinha despontado no horizonte.

***

No dia 20 de dezembro, houve a exposição dos alunos do curso de Artes Plásticas, organizada pela Coordenadora do curso e que era realizada na própria Universidade de Valentina. Ela tinha enviado convites para todos os amigos e para Rosa, que se emocionara ao recebê-lo em seu nome. Na véspera, Rosa, propositalmente, deixou o convite em cima da mesa da cozinha para que o patrão visse, se comovesse e, com isso, se fizesse presente na exposição da filha. Ao entrar na cozinha para beber água, Agnelo viu o envelope com o logotipo da universidade de Valentina em cima da mesa e, curioso, pegou-o e o abriu, esquecendo completamente a invasão de privacidade que aquele ato representava. Ler o convite da exposição endereçado apenas a Rosa fez Agnelo colocá-lo de volta no envelope e, depois, soltá-lo em cima da mesa de novo. Saiu da cozinha e preferiu não comentar nada com a esposa.

Por volta das sete e meia da noite do dia da exposição, Valentina e Amanda chegaram à Universidade. A jovem artista vestia uma calça preta de tecido bem larga e com a cintura alta, uma blusa vermelha colada sem mangas e com a gola alta, sapatos scarpin altos pretos. Arrumou o cabelo bem liso e repartido no meio, bem diferente do que costumava usar e uma maquiagem intensa nos olhos e um batom claro. Já Amanda usou um vestido curto azul, que enfatizava ainda mais o azul de seus olhos, cujo decote ficava nas costas. Seus cabelos estavam soltos e ondulados e ela calçava sandálias altas na cor preta. A maquiagem de seus olhos era mais leve do que a de Valentina, mas seu batom era mais escuro.

De mãos dadas, elas chegaram à ampla galeria, que durante o ano recebia exposições de diversos artistas brasileiros e estrangeiros, contudo, no final do ano, era reservado para a exposição dos alunos. A beleza delas misturado ao fato de entrarem de mãos dadas, demostrando a todos que eram namoradas, chamou a atenção de vários olhares. A maioria das pessoas que já estava na galeria era alunos e professores, pois a exposição estava marcada apenas para as oito horas da noite.

Valentina avistou um colega de quem gostava e admirava muito e foi ao seu encontro:

– Daniel… – ela tocou no ombro do rapaz barbudo de cabelo grande com roupas coloridas e chinelo de couro, que estava parado na frente de uma das telas expostas com um semblante pensativo. – Tudo bom? – deu um beijo de um lado e do outro no rosto do colega e sentiu o cheiro de cigarro.

– Oi, Valente! – era como ela chamava Valentina e ela adorava. – Tudo massa, cara, e tu? – Daniel falava manso.

– Tudo ótimo! Muito feliz! Ficou tudo lindo, né? – ela falou olhando ao redor.

– Cara, ficou uma vibe incrível mermo ó…

– Deixa eu te apresentar minha noiva. Amanda, Daniel. Daniel, Amanda.

– Prazer, Daniel! – Amanda falou encostando sua bochecha de um lado e do outro do rosto do rapaz.

– Prazer… – ele falou lento. – Caramba, cara, nem sabia que tu era da galera homo ó… Que massa, mermão! – ele disse balançando a cabeça afirmativamente. – E que mina gata tua noiva é, véi! – Daniel olhou fixamente para Amanda, que sorria por causa do jeito engraçado do amigo da namorada. – Tu é gata também. – virou-se para Valentina. – E aí, deu certo, né, cara… O Universo juntou vocês no amor e não teve como não formar um casal da porra, véi.

Elas riram do comentário e do jeito que o rapaz falava.

– Você não existe, Dani! – Valentina falou. – Amor, você tá conhecendo o melhor artista da faculdade!

– Pô, Valente! Só se for depois de tu, véi! Tu é psicodélica demais, cara! Muito foda tua arte!

– Ah, Dani, deixa de modéstia! Tu é que é foda, cara! – virou-se para Amanda. – Você vai ver, amor, como é incrível a arte desse cara!

– Quero ver mesmo, se for tão incrível como a sua, meu amor, certeza que vou amar! – Amanda comentou com os olhos cintilando e sorriu para a noiva.

– Aê, Valente! A mina tá na tua mermo, hein? Mas só o amor que vai vencer essa guerra de ódio que a gente vive, né não, cara?

Elas riram e Valentina falou:

– Você tem razão. Com certeza, só muito amor pra acabar com a onda de ódio que esse mundo ainda tá vivendo…

– Pô, cara, tô dando mó valor o papo, mas vou dar um rolê lá fora… Ficar de bobeira pra fazer um pouco a cabeça e conseguir ficar ligado pra esse bagulho aí a noite toda… – ele riu. – Tão afim de rachar unzinho aí?

– Não, obrigada! Vá lá… Depois a gente se encontra… – Valentina falou.

– Falou, Valente! – Daniel falou beijando a mão de Valentina. – Falou, Amanda! – beijou a mão de Amanda também. – Parabéns aí, véi! Vocês tão agraciando o mundo com tanta beleza e o amor…

Ele saiu e as deixou rindo muito. Então, Amanda falou:

– Que figuraça, amor! Pô, gata, adorei a vibe dele ó! – Amanda falou imitando o jeito de falar de Daniel. – E eu entendi errado ou ele tava chamando a gente pra fumar maconha?

– Não! Entendeu certo! – Valentina falou rindo.

– Meu Deus!

Elas gargalharam e Valentina falou:

– Mas pra você ver, amor, as pessoas olham pra ele com esse jeito simples, todo hippie, ninguém dá nada por ele, né? Pois sabia que ele sempre foi muito rico? Os pais dele, né? Engraçado que o pai dele é um grande empresário e ficou de boa quando o Dani disse que queria ser artista. O pai é quem banca a faculdade, as viagens pra todo lugar do mundo pra ele conhecer a arte de várias culturas… Ele e a esposa são os maiores incentivadores do filho…

Amanda ficou pensativamente séria e desabafou:

– Deve ser maravilhoso ter uma família que apoia você…

– Ah, não, amorzinho! Não vamos pensar em coisa ruim hoje não… Tô muito feliz pra isso…

Amanda abriu o sorriso e disse:

– Claro que não, meu amor! Hoje é a sua noite! Tô morta de feliz e orgulhosa de você…  – Amanda se aproximou mais de Valentina. – Sabia que tô me achando por ser a noiva da artista mais impressionantemente talentosa e linda da exposição?

– Ah, é? – Valentina olhou para a boca de Amanda.

– Isso chega a me deixar… assim… com tesão!

– Amanda…

Nesse momento, elas são interrompidas por um professor de Valentina, que se aproximou e falou:

– Valentina…

Ela se virou e falou:

– Oi, Professor Gerson!

O homem grisalho e charmoso de quarenta e dois anos estendeu a mão para a aluna e disse:

– Quero parabenizá-la e dizer que você fez um belo trabalho…

– Obrigada, professor.

– Gerson, por favor. Deixa o professor pra sala de aula. – ele sorriu.

Valentina sorriu de volta e ele continuou, agora olhando para Amanda:

– E você? Nunca vi esse rosto na faculdade? É aluna?

– Não, sou a noiva da sua aluna. Prazer, Amanda. – ela falou estendendo a mão para o professor de Valentina.

Enquanto apertava a mão de Amanda, Gerson encarou os olhos azuis dela, que tratou logo de se soltar da mão dele e desviar o olhar. Percebendo o olhar insinuante do professor, Valentina perguntou:

– E aí, professor… Desculpa, Gerson… Tá gostando da exposição dos seus alunos?

Ele voltou seu olhar para a aluna e respondeu:

– Cada ano que passa tá melhor. A evolução de vocês é visível. Aqui, todos os alunos são muito bons. Claro que tem sempre aqueles que se destacam mais e quero dizer que você está entre esses destaques, viu, Valentina. Continue assim que você vai longe!

– Obrigada, Gerson. Fico muito feliz de ouvir isso. Pintar é a minha vida.

– Que lindo ouvir isso…

Nesse momento, o professor Gerson foi chamado por outro professor, pediu licença e saiu. Valentina então comentou:

– Percebeu que meu professor estava fascinado por você?

– Ele me deixou foi constrangida, isso sim!

Nessa hora, um garçom passou com vários copos de champanhe e elas pegaram duas taças e brindaram à Valentina.

Enquanto os amigos não chegavam, Valentina e Amanda circularam pela galeria e, toda vez que conversava com alguém, Valentina apresentava Amanda como sua noiva. E Amanda se sentiu muito orgulhosa. Primeiro, orgulhosa dela mesma por estar se sentindo feliz ao ser apresentada como noiva de Valentina, pois isso era sinal de que não havia mais nenhum tipo de receio ou vergonha de sua parte em saber que os outros sabiam que ela namorava uma mulher. Orgulhosa de ser a noiva de Valentina. E, também, orgulhosa pelo trabalho de Valentina.

Por volta das oito e meia da noite, os amigos de Valentina começaram a chegar e a galeria começou a ficar lotada de amigos e pais de alunos. Por volta das nove horas da noite, o diretor da galeria realizou a apresentação dos alunos que estavam com obras expostas. Todos receberam uma salva de palmas empolgadas dos admiradores da arte. Em seguida, cada aluno ficou em frente ao local onde suas obras estavam expostas e posaram para fotos, que seriam usadas no jornal da universidade, que era produzido por alunos do curso de Jornalismo. A exposição estava sendo um sucesso e Valentina não cabia em si de tanta felicidade.

A galeria da Universidade era um prédio todo feito de vidro, então, quem estava fora dela poderia ver o que acontecia lá dentro. E, de longe, Agnelo observava Valentina, enquanto ela, com a mão na cintura de Amanda, conversava alegremente com um grupo de pessoas.

 

Queridas leitoras, estamos chegando ao antepenúltimo capítulo da história deliciosa de Valentina e Amanda. Espero que gostem e divulguem! 

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