Menu fechado

QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 57

Na semana que se seguiu depois da oficialização do noivado, Valentina e Amanda combinaram de se encontrar com os amigos, no sábado à noite, em um barzinho badalado da cidade. O sábado amanheceu ensolarado, com algumas nuvens brancas e o céu bem azul. Amanda tinha se inscrito em um curso preparatório para concursos, no qual as aulas começariam naquele dia. Então, levantou cedo sem acordar Valentina, arrumou-se e, antes de sair, beijou a cabeça dela levemente. Ela descerrou os olhos e Amanda sussurrou:

– Tô indo pra aula, amor! Volto no fim da tarde… Ah, vou pegar seu carro.

– Nosso carro, amor! – Valentina retificou a noiva com sua voz rouca.

Amanda sorriu e repetiu:

– Tá certo. Nosso carro…

Depois deu um beijo leve nos lábios da noiva, saiu e Valentina voltou a dormir.

No dia anterior, Valentina recebeu a ligação de uma mulher interessada em ver seus quadros e tinha marcado para ela ir ao apartamento no período da tarde. A noiva de Amanda havia feito uma página na internet para divulgar suas obras e já tinha vendido algumas através desse meio virtual. Como as aulas de Amanda durariam todo o dia, Valentina almoçou sozinha e depois de uns minutos de descanso lendo, ela foi para seu ateliê e continuou a trabalhar na tela que tinha começado naquela semana.

Por volta das quatro horas da tarde, o interfone tocou e o porteiro avisou que havia uma mulher chamada Marisa querendo falar com ela. Valentina liberou a entrada de Marisa e a esperou subir. A mulher tocou a campainha, Valentina abriu a porta e se deparou com uma mulher belíssima: alta, cabelos castanhos, enrolados e longos e olhos cor de mel vestida com uma calça jeans bem colada, sapatos altos e uma blusa caída em um dos ombros. Valentina achou que ela tivesse uns trinta anos de idade.

– Valentina Ferrato? – Marisa perguntou ao ver a garota.

– Sim. Você é a Marisa, né? Pode entrar.

Marisa olhou ao redor e comentou:

– Que apartamento aconchegante esse seu…

– Obrigada… – Valentina sorriu sem graça. – Você quer…

– Quem é essa da foto? – Marisa interrompeu Valentina com um porta-retratos na mão apontando para a foto na qual Amanda estava abraçada a Valentina.

A jovem pintora ficou surpresa com a pergunta curiosa da mulher e respondeu:

– É minha noiva… – sorriu.

– Ah! Você já é noiva? Tão nova assim? Vi no seu site que você só tem 20 anos…

– É isso… Mas não vejo problema em casar nova não… – Valentina resumiu a dizer. – Você quer beber alguma coisa?

– Uma água, por favor.

Então, Valentina buscou um copo d’água, enquanto Marisa explorava a casa de Valentina, principalmente as fotografias. Ao voltar da cozinha, Valentina entregou o copo à Marisa, que deu um gole na água e perguntou:

– Você também fotografa?

– Sim. Gosto muito de fotografia também.

– Você quem fez todas essas?

– Nem todas… Essa foi meu pai quem tirou. – Valentina apontou para a foto na qual estava com sua mãe.

– É você e sua mãe? – Marisa perguntou e depois bebeu mais um gole da água.

– É sim.

– Como você era linda… Era não, é! Ela deve se orgulhar de você…

Envergonhada, Valentina ignorou o elogio da mulher e comentou:

– Talvez… De onde quer que ela esteja…

Marisa se virou para Valentina e disse:

– Não entendi.

– Ela morreu quando eu tinha 7 anos.

Marisa acariciou o ombro de Valentina e falou:

– Oh, desculpa. Eu não sabia…

– Tudo bem. – Valentina sorriu.

Marisa bebeu o restante da água e entregou o copo a Valentina, que foi deixá-lo na pia da cozinha.

– Onde fica suas telas? Tô louca pra vê-las! – Marisa disse.

– Por aqui. – Valentina se dirigiu até o ateliê, sendo seguida por Marisa.

Em frente à porta, Valentina fez um gesto com a mão e disse:

– Pode entrar.

Marisa entrou olhando ao redor. Não havia lugar que não tivesse telas espalhadas. Então, Valentina disse:

– Todas estão à venda, menos essa aqui. – apontou para a única tela emoldurada que estava pendurada na parede.

– Por quê? Ela é tão… linda… delicada.

– Porque esse foi um presente que fiz pra minha namorada. Ela dança balé.

Marisa se virou admirada para Valentina e perguntou:

– Então, é ela?

– Sim…

– Uau! Você é muito talentosa… Como ela se chama?

– Amanda.

– Amanda é uma garota de sorte…

Novamente, Valentina sorriu sem jeito e disse:

– Eu que sou uma garota de sorte por namorar uma pessoa como ela…

Marisa se aproximou de Valentina, colocou uma mecha de cabelo por trás da orelha dela e falou com uma voz dengosa:

– Nossa! Você parece bem apaixonada por ela…

Nesse momento, depois de ter escutado a conversa desde o momento em que Valentina disse que fez o quadro para ela, Amanda apareceu na porta e disse extrapolando a simpatia:

– Boa tarde!

Valentina e Marisa se assustaram e, para evitar brigas com a noiva, Valentina se afastou da mulher que se insinuava para ela.

– Boa tarde… – Marisa e Valentina falaram. A voz de Marisa soou decepcionada com a aparição de Amanda e a de Valentina soou receosa.

– Oi, sou Amanda, tudo bem? – Amanda estendeu a mão em direção à Marisa.

– Tudo sim… – Marisa se admirou do jeito de encantador de Amanda.

Em seguida, Amanda se dirigiu à namorada e, segurando seu rosto entre as mãos, encostou seus lábios no dela por alguns segundos, depois se afastou, mas permaneceu abraçada a Valentina, e perguntou sorridente para Marisa:

– Gostou de algum?

– Gostei de muitos! Mas o que mais gostei não tá à venda! – a mulher expressou um semblente triste.

– Ah, você deve tá falando do meu, né? – Amanda olhou para sua imagem pintada na tela exposta na parede. – É lindo mesmo! Mas esse aí não vendo por dinheiro nenhum, né, amor? – Amanda encostou a cabeça no ombro de Valentina.

– Com certeza!

Alguns minutos depois, Marisa foi embora levando dois quadros de Valentina pagos à vista, para a surpresa de ambas as garotas. Assim que a pintora fechou a porta, Amanda falou, colocando os braços nos ombros dela:

– Ela gostou mesmo de você, hein?

– Ela gostou das telas, amor… – Valentina retificou.

– Hum rum. Sei… Eu ouvi parte da conversa!

Valentina sorriu, balançando a cabeça negativamente, e lhe beijou o pescoço.

– Amor? – Amanda perguntou fazendo Valentina se afastar e olhar para ela.

– Oi…

– Você teria cortado a paquera dela, mesmo se eu não tivesse chegado?

– Claro, meu amor! E eu cortei. Só não queria ser ríspida pra não correr o risco dela não levar nenhuma tela. – Valentina pegou o rosto de Amanda entre as mãos. – Meu amor, você ainda não entendeu que eu só quero você?

Amanda deu um largo sorriso e depois recebeu um beijo apaixonado da noiva.

***

Por volta das sete horas da noite, elas saíram de casa para encontrar os amigos no barzinho. Amanda usava um vestido estampado soltinho com um cintinho amarrado na cintura e uma sapatilha, e Valentina usava uma calça jeans rasgada dobrada nas pernas, um sapatinho de cadarço e uma blusa frouxinha caída no ombro, que tinha uma imagem da Frida Kahlo.

Ao chegarem ao bar, elas viram que ninguém tinha chegado. Então, pegaram uma mesa grande e pediram o cardápio. Instantes depois, elas fizeram seus pedidos ao garçom, enquanto esperavam o restante dos amigos. Como Amanda não iria beber nada alcoólico, ela pediu apenas uma limonada suíça e Valentina pediu um cerveja.

Meia-hora se passou e elas ainda estavam sozinhas. Amanda ria de alguma coisa engraçada que Valentina tinha falado, quando o garçom veio com dois coquetéis, colocou um dos copos na mesa e disse:

– Aqueles dois rapazes ali… – apontou-os com a cabeça e eles levantaram suas bebidas. – …mandaram pra vocês!

Antes que o garçom pusesse o segundo copo na mesa, Valentina disse:

– Espera! Diz a eles que a gente agradece, mas não vamos aceitar… Pode levar!

O garçom ficou meio sem graça, mas fez o que Valentina pediu e voltou com as bebidas para onde os dois rapazes estavam sentados. Minutos depois, um deles, um bonito rapaz de barba, se aproximou da mesa em que elas estavam e falou:

– Oi, desculpa incomodar. Meu nome é Fernando – ele estendeu a mão para Valentina e depois para Amanda. – Meu amigo ali se chama Tiago – apontou para o amigo – nós ficamos curiosos para saber por que vocês não aceitaram nossas bebidas. Vocês, por acaso, têm namorados?

– Não. – respondeu Valentina.

– Então, por que foi? Nós só queríamos conhecer vocês e, quem sabe, nos divertirmos juntos… – Fernando foi direto ao ponto, se sentando sem pedir licença.

– Não nos leve a mal, Fernando, mas não estamos interessadas em conhecer você e nós já estamos nos divertindo… – Valentina disse dando um sorriso impaciente.

– Ah, mas nós podemos nos divertir mais ainda juntos… – o rapaz falou insinuante.

– Não estamos a fim… – Valentina comentou.

– Por que, gatas? Eu garanto que somos caras legais. Além do mais, duas mulheres solteiras e lindas como vocês não merecem ficar sozinhas…

– Mas não estamos sozinhas. Estamos uma com a outra. – Amanda falou.

– Claro. Mas digo sozinhas em outro sentido, já que vocês são solteiras.

– Mas quem disse que somos solteiras? – Valentina perguntou.

– Vocês disseram que não tinham namorados…

– E não temos mesmo. – disse Amanda, olhando e sorrindo para Valentina.

– Então? Por que vocês não nos dão uma chance?

– Porque não somos solteiras… – Valentina revirou os olhos.

– Como assim? Não têm namorados, mas não são solteiras?

Valentina olhou para Amanda, sorriu, pegou sua mão, mostrou as alianças, e falou para Fernando:

– Por que nós duas somos namoradas, quer dizer, noivas! Entendeu agora?

O rapaz se espantou e falou incrédulo:

– Sério? Caramba! Mas vocês são tão bonitas e femininas… Nem parecem…

– Nem ouse terminar essa frase! – Valentina interrompeu o rapaz com seriedade – É um absurdo como algumas pessoas acham que existe um estereótipo para ser gay ou lésbica. O gay tem que ser afeminado e a lésbica tem que ser masculina? Não tem padrão, não! Não é assim que funciona, meu querido.

– Desculpa, não queria ofender. Mas é porque…

– Acho melhor você parar, senão vai piorar sua situação… – Amanda falou.

– Ok. Já entendi, vou embora. Desculpa incomodar! – Fernando falou, levantando-se e voltando para sua mesa.

– Que cara idiota! – Valentina sussurrou.

– Deixa ele pra lá, amor! Muitas pessoas são sem noção mesmo! – Amanda falou acariciando o braço de Valentina.

Nesse momento, Leo e Sabrina chegaram, cumprimentaram as amigas e se sentaram à mesa. Instantes depois, Caio e Roberta chegaram e, depois, Letícia, Maria Clara e Samara chegaram e se juntaram aos amigos. Quando viu que todos os amigos já estavam presentes, Valentina falou:

– Galera! Galera! Atenção aqui pra mim. Rapidinho!

Todos desviaram os olhares para ela.

– Eu e Amanda queremos dizer uma novidade pra vocês! – ela continuou.

– Ai, adoro novidades! – Leo falou.

Valentina pegou a mão de Amanda e disse, levantando sua mão e a dela:

– Nós estamos noivas!

Todos os amigos bateram palmas e deram gritinhos de alegria. Em seguida, parabenizaram-nas pela novidade e Letícia perguntou:

– E quando vai ser o casório?

– Ah, mais pra frente… Amanda quer se formar primeiro, né, amor? Então, enquanto isso, a gente vai juntando grana.

– Quem te viu quem te ver, hein, Valentina? Quem não queria nem namorar… Nunca imaginei que você casaria antes que eu! – Leo brincou com a amiga.

– Pois num é, Leo! E, ainda por cima, com a Amanda! – Valentina pegou a mão da namorada, beijou e sorriu para ela.

– Realmente! Você me odiava! – Amanda tirou sarro.

– Não é bem assim… Eu não te odiava, amor! Eu só achava você meio… Sei lá! Chatinha… – Valentina riu, beijando-lhe o pescoço.

– Hum… – Amanda fingiu uma cara de triste.

– Mas quando consegui te enxergar de verdade, me lasquei todinha, porque me apaixonei perdidamente…

– Eita, que essas duas tão que tão, hein? – Leo falou.

Elas se entreolhavam e sorriam apaixonadas. Amanda pôs a boca no ouvido de Valentina e sussurrou:

– Te amo, meu amor…

– Eu amo mais…

E a noite transcorreu tranquilamente com conversas agradáveis e com as risadas dos amigos. Apesar de estarem sem se falar e sem conviver com os pais, Amanda e Valentina estavam felizes, na medida do possível. A torcida dos amigos pela felicidade delas e o amor que sentiam uma pela outra as deixavam com coragem de enfrentar os possíveis preconceitos que poderiam passar. Amanda era quem mais sentia a falta da mãe. Nesses meses, houve momentos em que ela ficava melancólica ao se lembrar de Júlia. Contudo, Valentina sempre conseguia levantar o seu astral e, assim, elas estavam levando a vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

× Dúvidas? É só chamar aqui!