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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 55

– O que é que você tá fazendo aqui? – a voz de Valentina soou rude. – Como você conseguiu entrar?

– Do jeito que vou entrar aqui… – Júlia falou empurrando a porta e passando por Valentina com os passos firmes.

A filha de Agnelo fechou a porta revirando os olhos e, em pé no meio da sala de estar observando as fotos da parede, Júlia foi direto ao ponto sem sequer olhar para a enteada:

– O que você quer ou quanto você quer pra se afastar da minha filha?

– Quê?! – Valentina se assustou com a pergunta. No primeiro momento, ela não tinha entendido o motivo pelo qual Júlia estava ali, mas com aquela proposta teve a certeza de que ela havia descoberto. “Será que foi o idiota do João Pedro que falou também? Ou foi meu pai? Se foi ele, porque ele não tá aqui também?!”. Valentina estava confusa.

– Não se faça de desentendida, garota! Você sabe do que eu estou falando! – Júlia falou se virando para ela. – Quanto você quer para deixar minha filha em paz?! Diga seu preço! Todos nós temos um preço!

Ao ouvir aquilo de Júlia, a raiva de Valentina fez com que ela se tremesse toda. Sua vontade era de expulsar a madrasta do seu apartamento a pontapés com aquela proposta indecente. Contudo, para não perder a razão, respirou profundamente, caminhou até ela e falou com ironia:

– Júlia, querida… Você pode ter um preço. Disso eu não duvido de jeito nenhum. Mas nada do que você ou meu pai fizerem vai me afastar da Amanda. Sabe por quê? Por causa de uma coisa chamada amor! Deve ser difícil entender, já que é um sentimento que eu acho que você nem deve saber!

Júlia soltou uma gargalhada e disse:

– Amor?! Se eu não sei o que é o amor, você muito menos, menina insolente! Você acha que vou acreditar que você ama minha filha?! Me poupe, né, Valentina! Eu tenho certeza que você tá iludindo Amanda pra se vingar de mim e do seu pai! Você nunca me quis na sua família!

– Ah, isso é verdade! – Valentina disse com prazer.

– Eu nunca fui com a sua cara também, garota! – Júlia continuou. – Uma adolescente revoltada que ficava fazendo de tudo pra chamar atenção do pai! Pelo jeito ainda fica! Mas como eu amava muito Agnelo e não podia tirar você da vida dele, aceitei casar e viver na mesma casa que você. Mas se você queria fazer mal a mim e a seu pai, não precisava usar minha filha e levá-la para o mal caminho. Isso foi um golpe muito baixo! Até mesmo pra você!

– Você pode pensar o que quiser, Júlia. Eu e Amanda temos certeza do nosso sentimento. Não me importa o que você e meu pai acham ou deixam de achar. Vocês não vão conseguir nos separar!

***

– Rosa, a Júlia tá lá em cima? – Agnelo perguntou à governanta assim que chegou à sala de estar de sua casa.

– Ela saiu, Dr. Agnelo. Não sei pra onde. Só sei que ela tava bem transtornada. Saiu daqui quase correndo. Ela ficou assim depois que Dona Suzana apareceu aqui. Acabou até o chá com as amigas mais cedo…

– Suzana?! – Agnelo estranhou. – Rosa, se ela chegar, diga pra ela me esperar, porque preciso muito falar com ela, tá?

– Pode deixar, Dr. Agnelo.

***

Sentada em um banco da universidade e balançando as pernas numa demonstração de ansiedade, Amanda zapeava pelo celular sem se concentrar em nada. Seu estômago estava tão embrulhado, que se sentia enjoada. Estava esperando Valentina ligar e dizer alguma coisa. E seus pensamentos estavam rápidos e variados.

Pensava em muitas coisas quando, de repente, ela se levantou, segurou os livros no braço direito junto ao peito, respirou fundo e disse para si mesma:

– Eu tenho que deixar de ser covarde!

***

– Deixe de ser desaforada, menina! Você pensa que é quem? Amanda é minha – enfatizou bem o pronome possessivo – filha! Você não vai mais iludi-la! Você…

– Disse bem! Ela é sua filha! – Valentina enfatizou o substantivo. – E não um brinquedo, que você pode controlar! Amanda tem sentimentos, se você não sabe! E a gente se ama de verdade e não é porque vocês querem, que vão fazer a gente parar de sentir isso! Acho que você sabe que não é assim que funciona!

– Você pensa que sabe tudo, né, garota malcriada! Eu vou fazer de tudo pra minha filha não ser uma sapatão como você! Além disso ser pecado, é nojento! – Júlia fez uma cara de asco.

– Quem sabe se Deus não quer só que as pessoas se amem? Independente de qualquer coisa? Já pensou?! Acho até que, na visão Dele, quem peca mais nessa situação é você e meu pai, que ficam destilando ódio e preconceito! – Valentina filosofou ironicamente com a mão no queixo e com o olhar no teto.

– É claro que Deus não aprova essa pouca vergonha, menina!

– O seu Deus pode não aprovar! Mas enfim… Foi o idiota do ex-namorado da Amanda que falou da gen…

– Ah, João Pedro… – interrompeu Júlia. – Aquele sim era um bom partido pra minha filha! Bonito, inteligente, charmoso e…

– Abusador! Vou te atualizar, madrasta querida, se eu – enfatizou o pronome pessoal – não tivesse intervindo… Não gosto nem de pensar… Mas se eu não tivesse batido nele, ele teria estuprado sua filha, sabia?! É esse o bom partido que você quer pra Amanda?! Que ótima mãe você é, viu!

– Eu não acredito nisso! Você tá mentindo! Isso é despeito porque quero que ele namore Amanda e não você!

Valentina gargalhou sarcasticamente:

– Bom, você pode perguntar pra Amanda o motivo do fim repentino do namoro deles. Aí você vai ter certeza de que eu tô dizendo a verdade! Mas foi ele mesmo que disse pra você?

– Não interessa quem disse! O que in…

– Interessa sim! – Valentina interrompeu. – Quero saber quem mais, além de vocês e do playboyzinho, tá se metendo na nossa vida… Fala! – Valentina alterou a voz.

– É até bom eu dizer mesmo pra você e Amanda terem a noção de como eu fiquei humilhada! Foi a Suzana que me falou essa trágica notícia!

– A Suzana?! E como ela sabe disso?! – Valentina perguntou mais para si mesma do que para a madrasta.

– Não sei! Ela não disse! Mas falou com o sorriso mais cínico do mundo que viu vocês ontem se agarrando no shopping! Que vergonha eu senti quando ela jogou isso na minha cara com o maior prazer do mundo! Nunca me senti tão humilhada na vida! Quis esganar vocês três!

Valentina revirou os olhos e falou:

– Primeiro, apesar de não lhe dizer respeito, a gente não tava se agarrando! Segundo, essa mulher é uma louca, que deve tá com raiva porque eu nunca quis ficar com ela! – Valentina se arrependeu de soltar aquela informação para a madrasta assim que terminou de falar, mas não teve mais como voltar atrás.

– O quê?! A Suzana deu em cima de você? Meu Deus! É muita coisa pra minha cabeça! – Júlia falou se sentando no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto entre as mãos.

Nesse momento, o interfone tocou. Valentina foi até a cozinha e o porteiro anunciou Agnelo. “Pronto! Agora o circo tá armado!”. Minutos depois, Valentina abriu a porta para o pai, que ao ver a esposa sentada no sofá, perguntou:

– O que você tá fazendo aqui, Júlia?

Surpresa com a presença do marido e com os olhos marejados, Júlia andou até ele e o abraçou dizendo com a voz chorosa:

– Ah, meu amor, tô tão decepcionada com Amanda por causa da humilhação que ela tá me fazendo passar! – enquanto ela se afastava do abraço, Valentina revirou os olhos outra vez. – Pra tá aqui, é porque você também já tá sabendo da terrível notícia, né?

– Tô sim! – ele olhou com seriedade para Valentina. – Você quer me desafiar mesmo, hein, Valentina! Mesmo depois de um ano afastada de Amanda, vocês voltaram a…

– Nós nunca terminamos! – Valentina revelou com bravura.

– O quê?! – Júlia e Agnelo disseram em uníssono.

– É isso mesmo! Vocês tentaram, mas não conseguiram! Eu e Amanda nunca terminamos!

– Quer dizer que vocês nos enganaram esse tempo todo? Que vocês nunca terminaram esse… esse…

– Namoro! O nome disso é namoro! – Valentina falou com firmeza.

Agnelo olhou com seriedade para Valentina, que apesar do nervosismo conseguiu manter a serenidade no semblante, e perguntou:

– Eu não acredito que vocês fizeram isso! – Agnelo falou em um tom mais alto e mordeu o maxilar. – Soube agora a pouco de João Pedro… Mas pensei que fosse algo que tivesse acontecido depois que você voltou de Londres. – o pai estava com o olhar furioso. – Valentina, diga que isso é mentira!

– É verdade, Dr. Agnelo!

Todos voltaram os olhares para a pessoa que abriu a porta e falava segurando o trinco.

– Amanda! – Valentina e Júlia falaram ao mesmo tempo.

Então, a filha de Júlia fechou a porta devagar, olhou para o rosto da mãe e depois para o do padrasto e percebeu que era chegado o momento de enfrentar a realidade. Não queria e nem iria mais se esconder dos pais e de ninguém. Ela se achava adulta o suficiente para lidar com as consequências de seus atos. Então, continuou:

– Realmente, a gente nunca terminou… Nem mesmo a distância conseguiu nos afastar… – Amanda se aproximou de Valentina, pôs a mão em sua cintura e olhou para a mãe. – Sabia que até ajudou a nos aproximar, não foi, amor?

Valentina sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Ela estava êxtase com a aquela coragem súbita da namorada. E se sentiu muito satisfeita ao ver Amanda lutando pelo amor das duas, enfrentando, inclusive a própria mãe.

– Meu Deus, Amanda! Essa garota fez uma lavagem cerebral em você, minha filha! – Júlia colocou as mãos no rosto em sinal de desespero.

– Não, mãe. Pelo contrário! Ela me mostrou o que é amar e como é ser amada de verdade!

– Ai meu Deus! Isso não pode tá acontecendo… – o corpo de Júlia amoleceu como se fosse desmaiar.

Apesar de ter ficado um pouco assustada, Amanda desconfiou que aquele desmaio fosse parte de mais uma cena de chantagem emocional, que a mãe tanto costumava fazer desde que ela era criança, com ela e com seu pai.

Agnelo a segurou e esbravejou:

– Olha o que vocês estão fazendo! Querida! Você tá bem? – olhou para a enteada – Amanda pegue água pra sua mãe!

– Deixa que eu vou… – Valentina falou baixinho, tocando o braço da namorada, e depois se dirigiu até à cozinha.

Agnelo então levou a esposa até o sofá e se sentou ao seu lado. Ela se deitou em seu ombro e Amanda ficou em pé na frente deles esperando sua mãe melhorar.

Instantes depois, Valentina surgiu e entregou o copo d’água para Amanda, que o entregou à mãe. Depois que ela bebeu, falou olhando para a filha:

– Amanda, porque você tá fazendo isso com sua mãe? – Júlia falou com uma voz mais baixa, tentando demonstrar que estava passando mal.

– Eu não tô fazendo nada com a senhora, mãe! Tô apenas vivendo minha vida… Sendo eu mesma! Por que a senhora não entende isso?

– Não entendo mesmo! – alterou a voz, mostrando que o desmaio era realmente uma farsa. – Você não era assim, Amanda! Até se envolver com ela! – apontou Valentina com o olhar e depois fitou Agnelo. – Desculpa, meu amor, eu sei que ela é sua filha, mas você sabe que ela tá errada em envolver Amanda nisso, nesse absurdo que elas chamam de namoro, né?

– Sei sim, querida! – ele lhe beijou a cabeça. – Eu também não aceito isso! – Agnelo olhou com seriedade para as garotas.

– Desculpa, mas vocês não precisam aceitar nada! – Valentina disse com ousadia. – Se vocês nos amassem de verdade, respeitariam quem somos. Não precisa nem achar certo ou bonito. Respeitem nossa condição, porque ninguém escolhe ser gay, lés…

– Não me venha com essa historinha, Valentina! – Agnelo interrompeu a filha. – Eu deixei, a muito contragosto, você ter suas ‘amiguinhas’ quando era adolescente, porque pensei que era uma fase e que você queria só me afrontar, já que era uma rebelde sem causa…

– Sem causa?! – Valentina interrompeu o pai. –  Será que foi sem causa mesmo, Dr. Agnelo?! Vamos ver se foi sem causa: uma criança de 7 anos perde a mãe – que era a pessoa que ela mais amava no mundo! – pra uma doença terrível que é o câncer; depois desse terrível trauma, o pai, que era pra ter dado toda atenção que uma criança que perde a mãe precisa, se afunda no trabalho, enchendo ela de brinquedos, como se isso fosse suprir sua falta, além de deixar a criação dela totalmente nas mãos da babá! Ai de mim se não fosse a Rosa, que cuidou e me amou como se eu fosse sua filha! Sou grata a ela pro resto da minha vida! Mas não, Dr. Agnelo, os seus presentes e o amor de Rosa não conseguiram suprir a sua ausência! – as lágrimas desciam dos olhos de Valentina e ela as limpava rapidamente.

– Eu fiz tudo o que podia!

– Mas foi pouco, muito pouco!

– Eu também estava sofrendo com a perda da sua mãe! – Agnelo argumentou.

– E você pensa que eu não sabia disso? Mas a gente podia ter se ajudado, mas, ao invés disso, você se isolou de mim e se jogou no trabalho… Mas não pense que eu sou lésbica por causa desse trauma, não! Não quero que você se culpe, porque não tem nada a ver com isso! Mesmo se minha mãe estivesse viva, eu seria assim! E tenho certeza que receberia o apoio dela!

– Ela não ia suportar ver você nessa vida, Valentina! – Agnelo falou.

– Será?! Minha mãe me amava incondicionalmente! Coisa que vocês dois não fazem! Só amam os filhos se eles estiverem dentro das convenções impostas por essa sociedade preconceituosa? Assim é muito fácil!

– Claro que não é assim! – Júlia interrompeu a conversa entre pai e filha. – Nós não queremos que vocês vivam numa vida de pecado! Numa vida promíscua!

Valentina gargalhou ao ouvir a última frase da madrasta e falou:

– Promíscua? – ela cruzou os braços. – Desde quando amar uma pessoa é promiscuidade, Júlia?

– Isso lá é amor, menina!

– Ah, tá! Então, você tem o poder de saber o que as pessoas sentem dentro delas, é? Que legal!

– Não, mas tenho certeza que isso não é amor!

– Chega! – Amanda gritou chamando a atenção de todos, pois nunca viram ela se exaltar assim. Ela olhou para Júlia e continuou: – Mãe, a senhora achar que isso é promiscuidade, pecado ou sei lá mais o quê, não vai mudar o fato de eu ser lésbica… Sim, lésbica! Eu sou lésbica! – ela repetiu – Meu Deus, como isso é libertador! Eu sou lésbica e tenho muito orgulho disso! Além disso, esse seu pensamento não vai mudar o meu amor por Valentina. – ela se agachou próximo à mãe e pegou-lhe nas mãos. – Eu sou a mesma Amanda de sempre, mãe! Eu não mudei porque gosto de uma garota…

Júlia afastou as mãos, levantou-se, olhou para Amanda, que ainda permanecia agachada e falou com o semblante sério:

– Mudou, Amanda! E se você quer continuar sendo assim, então, a partir de hoje, eu não tenho mais filha!

E saiu sendo seguida por Agnelo.

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