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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 54

Depois de comprarem os ingressos do cinema, Valentina e Amanda almoçaram e depois foram assistir ao filme. Por volta de sete horas da noite, elas saíam do shopping em direção às suas casas com a tranquilidade de quem não imaginava que tinham sido flagradas por Suzana.

***

Na segunda-feira, por volta de uma hora da tarde, Amanda e Dr. Agnelo chegavam ao escritório de advocacia. Depois de passarem pela recepção, o padrasto subiu ao primeiro andar, onde ficavam as salas dos sócios, e ela se dirigiu a sua baia de trabalho, que ficava em amplo salão, onde o restante dos advogados associados e estagiários trabalhava.

No meio daquela tarde ensolarada e quente, Amanda se levantou para ir ao encontro de um advogado com o objetivo de tirar uma dúvida sobre um processo e pegou-se cara a cara com João Pedro, vindo da recepção. Viu que, logo atrás dele, vinha a recepcionista. O rosto de Amanda se turvou de desespero. Ela simplesmente parou, com o processo entre as mãos e seu olhar cheio de inquietação , enquanto ele caminhava e lhe lançava um sorriso inescrupuloso.

***

Sentada ao sofá da sala de estar da sua casa, enquanto conversava alegremente assuntos frívolos com Inês e Paula e tomava um chá da tarde, Júlia foi avisada por Rosa da entrada de Suzana.

– Valha! O que ela tá fazendo aqui? Ela nem foi convidada! – Júlia falou para as outras amigas, que soltaram sorrisinhos de desdém.

– Desculpa, Dona Júlia. Eu não sabia que…

– Tudo bem, Rosa. Não tem problema. – Júlia interrompeu a governanta, que pediu licença e se retirou da sala.

Minutos depois, Suzana adentrou a sala e, com um sorriso falso estampado no rosto, falou com uma alegria fingida:

– Minhas queridas amigas! Quanto tempo! – caminhou até Inês, abaixou e soltou dois beijos no ar, de um lado e de outro, sem encostar sua bochecha na dela. – Sei que não fui convidada, mas… – fez o mesmo com Paula. – … precisava urgentemente falar com Juju. – por fim, foi até Júlia, deu os beijos fingidos e se sentou no sofá de frente para a esposa de Agnelo.

Ao ouvir o apelido pelo qual Suzana a tinha chamado, Júlia não conseguiu disfarçar o desprezo em seu semblante. Odiava ser chamada de Juju. Mesmo assim, não repreendeu Suzana.

***

Assim que João e a recepcionista desapareceram pela escada, Amanda voltou quase correndo para sua baia, pegou seu celular e, trêmula, ligou para Valentina. O telefone chamou uma, duas, três vezes.

– Atende! – a sua voz baixa soou aflita.

Na quarta chamada, Valentina falou com uma voz carinhosa:

– Oi, meu amor!

– Amor, pelo amor de Deus! O João acabou de chegar aqui no escritório pra falar com seu pai. Acabou de subir! Só pode ser pra falar da gente… – ela baixou ainda mais o tom da voz. – Tô toda me tremendo…

– Calma, amor!

– Você sabe que não adianta pedir calma pra uma pessoa nervosa, né?

– Eu sei. Mas não vamos sofrer antes do tempo. Você vai ter que ficar aí e ver a reação do meu pai e a desse idiota metido. Se ele falar alguma coisa, pode ter certeza que meu pai vai vir direto falar comigo.

– Ai meu Deus! – Amanda passou a mão gélida e trêmula na testa. – Tô aqui desesperada!

– Respira, mô! Do jeito que você me ensinou.

– Tá. Vou tentar. Vou desligar e qualquer coisa, te ligo.

***

– Achava que você tinha viajado, Suzana. Por isso não convidei você. – Júlia mentiu e ‘amiga’ sabia disso. – Mas o que você quer falar comigo com tanta urgência? – Júlia falou e pôs a xícara nos lábios, sorvendo o chá quente.

– Preferia falar a sós com você. Pode ser?

Inês e Paula ensaiaram se levantar, mas Júlia falou prontamente:

– Não precisam sair, meninas! – virou para Suzana com o olhar pedante. – O que você tiver pra dizer pode falar na frente delas!

As duas amigas sorriram tomadas por uma altivez soberba. Desde a descoberta da bissexualidade e da traição de Suzana, as três inseparáveis amigas acabaram repelindo a amizade da mulher adúltera, que deixou de frequentar os chás, os passeios e os jantares do distinto grupo que antes ela pertencia.

– Tudo bem! Se você quer assim… – Suzana sorriu com um descaramento sórdido. Sabia que Júlia iria se arrepender de ter dito aquilo. Por isso, dizer o que ela tinha a dizer se tornou ainda mais prazeroso. Beirava a um prazer perverso.

***

Alguns minutos se passaram, enquanto Amanda esperava alguma coisa acontecer. Na verdade, ela esperava que nada acontecesse. Após desligar a ligação com Valentina, ela se sentou à frente do computador, ficou olhando para a tela, mas sem prestar atenção a nada do que tinha ali. Balançava as pernas e estalava os dedos das mãos ininterruptamente. Tudo isso fruto de sua ansiedade angustiante. De vez em quando, ela olhava para a escada. Nada de João Pedro. Nada de Agnelo. Clarice, um das estagiárias, que sentava ao seu lado, percebendo a perturbação da colega, perguntou se ela estava com algum problema. Apesar de Amanda ter negado, a garota tinha certeza de que algo acontecera. Era nítido, pois estava estampado no rosto e nos trejeitos de Amanda.

Após mais alguns instantes de agonia, Amanda viu João Pedro despontar no topo da escada. Ela empalideceu instantaneamente, suas mãos suavam e tremiam incontrolavelmente. Ela fixou os olhos em João Pedro, que lhe lançou outra vez um sorriso cinicamente maléfico. Embora ela ainda tivesse uma esperança franzina de que ele permanecesse calado em relação ao seu namoro com Valentina, sentiu, com aquele sorriso, que ele havia falado com Agnelo. Logo atrás, o padrasto desceu. A esperança de Amanda se esvaneceu quando pôs o olhar no rosto dele. Agnelo expressava uma forte sisudez.

***

– Júlia, você foi uma das pessoas que mais me condenou quando descobriu meu caso com uma mulher. Pensei até que todo aquele seu julgamento tinha sido por causa de eu ter traído meu marido. Mas depois eu percebi que não foi a traição o que mais pesou pra você… Foi o fato de ter traído ele com uma mulher! Mas pra você vê como é a vida, né? – ela riu e Júlia não entendeu onde ela queria chegar com aquilo. – Uma pessoa tão homofóbica como você tem uma filha lésbica!

***

Agnelo olhou em direção à enteada, que fixou o olhar no dele por ínfimos segundos para tentar decifrá-lo. O padrasto tinha um olhar austero, que fez Amanda estremecer ainda mais. Depois, ela desviou os olhos de volta para a tela do computador. Nessa hora, pensou que fosse desmaiar. “Ele sabe!”. Então, para se acalmar, ela bebeu um grande gole de água do copo que sempre deixava sobre sua mesa. Enquanto isso, ela viu João Pedro estender a mão a Agnelo, cumprimentá-lo e sair. Em seguida, o padrasto se aproximou de uma das advogadas e falou algo que Amanda não conseguiu detectar o que era. Seguidamente, ele também saiu.

Assim que viu Agnelo sair do salão, Amanda ligou para namorada, que, dessa vez, atendeu na primeira chamada:

– E aí, amor?

– Ele sabe! Tenho certeza que o João disse pra ele.

– Como você teve certeza? Ele falou alguma coisa com você? – Valentina questionou preocupada.

– Não! Mas tive certeza pelo olhar dele. E, ainda por cima, ele saiu. Ele nunca sai esse horário!

– Vai vir falar comigo…

***

– O quê?! Você tá louca, Suzana? Você gosta de mulher e fica acusando minha filha de pertencer também a esse antro de pecado? Era só o que me faltava! Minha filha foi muito bem criada! – Júlia falou com arrogância.

– Ahhhh, Juju, voc…

– Não me chame assim! – Júlia interrompeu Suzana com a voz raivosamente alterada.

Atônitas e caladas, Inês e Paula observavam o diálogo.

– Júlia… – Suzana falou pausadamente. – Você sabe que isso não tem nada a ver com criação. Se não sabe disso, ou é porque você é idiota ou é ingênua!

A raiva tomou conta do semblante da esposa de Agnelo, que repreendeu a ex-amiga:

– Alto lá! Você vem na minha casa sem ser convidada, diz coisas horríveis sobre minha filha e ainda me desrespeita? Não vou tolerar isso, Suzana!

– Mas eu não desrespeitei você, querida! Jamais! Eu só tô dizendo que ser lésbica ou gay não é questão de má criação! Só isso! – olhou para as outras ouvintes. – Vocês não acham ironia do destino Júlia ter uma filha lésbica?

– Amanda não é… – Júlia vociferou e depois baixou o tom de voz. – … isso que você tá falando.

– Então, uma sósia dela estava andando no shopping ontem de mãos dadas e aos beijos… – Suzana exagerou. – … com uma garota.

A respiração de Júlia ficou ainda mais alterada. “Não acredito que Amanda tá me fazendo passar essa vergonha! Consegui afastar ela daquela lá e agora ela me vem com outra menina?!”

– Você só quer me irritar, Suzana, eu sei disso. Não se conforma que saiu do ciclo da nossa amizade e quer se vingar de mim com essas histórias mentirosas…

– O mais engraçado… – Suzana não deu atenção ao que Júlia havia dito. – …é que você quis tanto que ela não fosse assim, que fez até Amanda acabar o namoro com a sua enteada Valentina, não foi?

Perplexa, Júlia arregalou ainda mais os olhos e seu corpo chegou a adormecer. A decepção pelo fato de Amanda ainda estar namorando garotas se misturou ao ódio por saber que Suzana tinha conhecimento daquela situação. “Como ela sabe disso?!”. Inês e Paula estavam boquiabertas com todas aquelas fofocas.

– Que coisa feia, Júlia! – Suzana continuou sorrindo com o sofrimento nítido da ‘amiga’. – Fazendo as garotas se separarem só por causa do seu preconceito ridículo!

Depois de ver Amanda e Valentina juntas no shopping, Suzana fez toda uma pesquisa extensa com os conhecidos e acabou descobrindo tudo, inclusive, que a viagem de Valentina a Londres foi motivada pelo fato de Júlia e Agnelo terem descoberto o namoro delas.

– Saia da minha casa agora, sua…! – Júlia falou mordendo o maxilar de tanta raiva.

– Não se preocupe, querida, eu já vou embora. Já falei o que eu queria… – Suzana se levantou, caminhou em direção à saída e se virou. – Ah! Esqueci de dizer: você não conseguiu o que queria, viu? A garota que estava cheia de amores com sua filhinha no shopping era a Valentina!

***

– Será que ele vai logo procurar você? Ele pode ter ido direto pra casa contar pra minha mãe! Ai meu Deus! – Amanda passou outra vez a mão ainda trêmula na testa. – O que eu faço? Não vou conseguir trabalhar mais desse jeito… Acho que vou pra faculdade…

– Vai logo então, mô. Não vou te chamar pra vir pra cá, porque ele tá vindo aqui me matar! Deve tá com ódio de mim! – Valentina deu uma risadinha nervosa.

– Não fala assim, amor! – Amanda admoestou a namorada. – Como você pode tá calma com tudo isso?

– Mas eu não tô calma! – Valentina falou dando mais uma risadinha. – A minha preocupação é mais com você, amor! Eu já tô morando sozinha, sou maior de idade e meu pai não pode mais querer mandar em mim!

– Pois é! Mas eu ainda dependo dela… – Amanda ficou em silêncio por alguns segundos. – Quer dizer… Dependo, porque guardo a pensão do meu pai…

– E você não perdeu quando fez 18 anos? – perguntou Valentina.

– Não, porque ele era militar. E quando ele entrou no exército tinha pensão vitalícia pras filhas… Se eu não casar, recebo até o final da vida!

– Amor, então pronto! Na pior das hipóteses, você sai de casa também!

***

Quando Suzana saiu, a raiva de Júlia deu lugar à perplexidade. Já estava odiando o fato de Amanda se envolver outra vez com Valentina, mas estava atônita por que percebeu que tinha sido enganada por todo esse tempo. “Será que elas nunca terminaram?! Como ela conseguiu me enganar esse tempo todo?!”. Constrangidas, Paula e Inês permaneceram caladas, mas com os olhos fixos em Júlia. Nenhuma das duas teve coragem de dizer coisa alguma. Depois de alguns instantes de um silêncio desagradável, Júlia se levantou e, sem olhar para as amigas, disse procedendo tal qual um robô:

– O chá acaba aqui.

Então, ela se dirigiu à escada e Inês e Paula se entreolharam embasbacadas com tudo o que tinha acontecido ali.

***

Depois de desligar com Amanda, Valentina deitou no sofá e pegou o livro que descansava na mesinha de centro. Praticamente, ela estava esperando Agnelo aparecer. Abriu o livro na página marcada, mas não conseguiu criar atenção para a leitura, porque, além de seu corpo impulsionar no ritmo acelerado do coração, seus pensamentos estavam irrequietos.

De repente, a campainha tocou. “Valha! Meu pai conseguiu subir sem ser anunciado? Ou não é ele? Quem será, então? Pro porteiro não ter ligado, pode ser Amanda! Mas por que ela não foi pra faculdade?!”. Não sabia o motivo, mas adorou a possibilidade de ser a namorada tocando a campainha. Sorriu e, rapidamente, pôs o livro de volta na mesa de centro. Depois, caminhou até porta e, ao abri-la, seu sorriso fugiu do rosto.

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