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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 51

– Nossa, amor! Pensei que o ap fosse menor. Três quartos… O que você vai fazer com três quartos? – Amanda falou no meio do corredor onde ficavam os quartos.

Valentina então entrou em cada quarto e foi dizendo o que iria fazer:

– Bom, essa aqui, que é a suíte maior vai ser o nosso quarto, claro! – sorriu para a namorada, depois saiu e entrou em outro. – Nesse, que é o que não tem banheiro, vou fazer um ateliêzinho pra mim. – depois ela entrou no último quarto, seguida por Amanda. – E essa suíte menor vai ser meio que um quarto de hóspedes, mas é aqui que quero fazer uma estante grande pra colocar meus livros.

O apartamento recém-comprado por Valentina tinha três quartos, sendo duas suítes, além de uma cozinha americana não muito grande, que emendava com a área de serviços, uma sala grande, que era para ser dividida entre sala de jantar e de estar, e uma varanda gourmet de tamanho médio. Valentina já havia recebido a geladeira, o fogão e a máquina de lavar, que estavam guardados no quarto que seria seu ateliê até a empresa que ela tinha contratado realizar a montagem dos seus móveis. Como já tinha feito outras visitas antes, Valentina sabia exatamente os tipos de móveis que queria que a empresa fizesse. Alguns outros ela mesma compraria com a ajuda de Amanda.

Ao chegarem à sala, Valentina falou com empolgação algumas de suas ideias para o apartamento. Achando o máximo todas as ideias da namorada, Amanda exclamou:

– Nossa, vai ficar bem legal, amor!

– E eu já comprei as tintas pra pintar o ap todo.

– Ãh?! – Amanda olhou rapidamente para Valentina franzindo o cenho. – Você que vai pintar o apartamento?!

– É. Por quê? Acha que eu não consigo, é? – sorrindo, Valentina a abraçou pela cintura no meio da sala vazia.

– Claro que você consegue, meu amor! – Amanda pôs os braços nos ombros da namorada. – Mas é porque pensei que você fosse chamar um pintor profissional… Mas, sendo assim, eu também quero pintar!

– Você?! Quer me ajudar a pintar o apartamento?! – dessa vez quem demonstrou surpresa foi Valentina.

Acariciando o rosto da namorada com os dedos, Amanda repetiu a mesma pergunta de Valentina:

– Por quê? Acha que eu não consigo, é?

Valentina sorriu, deu um beijo rápido nos lábios dela e respondeu:

– Conseguir, você consegue… É porque sou eu que não consigo te imaginar toda suja de tinta…

– Pois não vai precisar imaginar, meu amor! Você vai ver! – ela riu. – Quando você tá pensando em pintar? Dou um jeito de vir!

– Amanhã quero começar. Pretendo terminar nesse final de semana… Mas com a ajuda de uma pintora linda dessas, vou terminar rapidinho… – Valentina beijou o pescoço de Amanda. – Ou, então, vou demorar muito, porque ela vai tirar minha concentração.

– Hum, engraçadinha… Como você vai fazer? No fim do dia, vai voltar pra casa…

– Não! Vou trazer um colchão inflável que eu tenho em casa, umas roupas e vou dormir por aqui mesmo, pra não perder tempo.

– Então, tá? Vou ver se venho pelo menos amanhã de manhã…

***

No dia seguinte, no café da manhã, Amanda comentou com Júlia:

– Mãe, hoje depois da aula de balé das crianças, vou pra casa da Letícia pra gente estudar e fazer um trabalho. Aí, ela me chamou pra dormir lá pra gente finalizar tudo. Pode ser?

– Pode. Mas você vai ficar só por lá mesmo, né? Não vá inventar de sair depois dos estudos, tá ouvindo, Amanda?

– Ai, mãe! Até parece que sou saideira! – a garota revirou os olhos.

– Você nunca foi. Mas pode começar a ser, se andar com gente de má influência.

– Me poupe, mãe!

– Mas até que gostei dessa Letícia! É ela que tem namorado, né?

– O que isso tem a ver com a conversa, hein, Dona Júlia? – Amanda falou impaciente.

– Perguntei por perguntar, minha filha! – Júlia fingiu suas intenções.

– Sei. – Amanda se levantou da mesa. – A senhora pode ficar tranquila, tá, que eu não tenho nada com a Letícia e nem pretendo ter! Agora toda amiga que eu tiver a senhora vai desconfiar, é? Não posso mais ter amigas? A senhora quer que eu fique sozinha? Que saco!

– Não é isso, Amanda! Espera! Filha!

Amanda não deu ouvidos à mãe e saiu da sala irritada. Irritada pelas desconfianças de Júlia. Irritada por ter que mentir toda vez que queria ver Valentina. E irritada por todo o preconceito que algumas pessoas tinham em relação à sexualidade alheia.

Precisava sair dali o mais rápido possível! Então, ela se dirigiu ao seu quarto e, rapidamente, colocou, de maneira desarrumada, algumas peças de roupas dentro da sua mochila. Descontou nas roupas a raiva que estava sentindo. Era mais prudente que descontasse nas roupas do que nas pessoas. Precisava ver Valentina urgentemente. Só ela conseguiria fazer aquele mau-humor sair de dentro dela.

Naquele dia, Amanda não daria aula de balé para as crianças. Então, ela pegou um táxi para o apartamento de Valentina. Queria fazer uma surpresa para a namorada, que, até então, pensava que ela iria passar apenas o sábado ajudando na pintura.

Por volta das nove horas da manhã, Amanda apertou a campainha do apartamento 1300, com a mochila nas costas, vestida numa calça jeans velha e numa camiseta rosa – roupas que ela poderia sujar de tinta –, e nos pés, ela pôs um tênis antigo, que estava bem surrado. Seu longo cabelo preto estava amarrado em um coque desarrumado no topo da cabeça. Valentina abriu a porta cumprimentando a namorada com um belo sorriso no rosto:

– Bom dia, meu amor!

Amanda franziu a testa, deu um sorriso amarelo e abraçou Valentina.

– Bom dia, mô… – sua voz saiu desanimada.

– O que foi que aconteceu? – Valentina perguntou ainda abraçada à namorada.

Amanda se afastou do abraço e entrou no apartamento, seguida pela namorada, que fechou a porta em seguida.

– Minha mãe, que parece que adora me tirar do sério. Só pode! Não aguento mais as desconfianças dela! É todo tempo achando que vou aparecer com uma nova “amiga” – ela fez aspas com os dedos. – como ela costuma dizer. Ainda bem que ela deu uma parada nas ridículas tentativas de me jogar pra cima dos filhos das amigas dela. Que saco! Toda vez que acontece esse tipo de coisa me dá uma revolta, sabe! Dessa sociedade homofóbica que a gente tem… – ela silenciou por segundos. – Poxa! Eu tenho que mentir e me esconder pra poder namorar quem eu amo?! Isso é ridículo! É um absurdo! – a voz de Amanda saiu indignada.

– Vem cá, meu amor! – Valentina a abraçou e lhe beijou a cabeça. – Eu também fico assim… Mas a gente tem que lutar contra esse preconceito. – ela se afastou um pouco de Amanda. – Por isso, temos que ficar independentes do Dr. Agnelo e da Júlia, que são os que mais nos prejudicam, e viver nossa vida como nós somos! Doa a quem doer! Não estamos fazendo mal nenhum pra ninguém! Estamos só amando! O que isso tem de ruim?! Incrível como isso afeta as pessoas mal resolvidas, né? Fico besta com isso!

– Chega a ser nojento! E saber que fui um pouco desse jeito! E nem faz tanto tempo assim! Fico com vergonha de mim só de lembrar! Acho que, no fundo, eu não queria enxergar a verdade, não queria me enxergar e, por isso, fugia de mim mesma e dizia que era errado! Errados são o preconceito e a discriminação, isso sim!

– Com certeza! Mas vamos esquecer isso por enquanto, tá? – Valentina deu um leve encostar de lábios na boca de Amanda. – A gente vai ou não vai começar a pintar esse ap, hein?

– Vamos sim! – Amanda finalmente deu um sorriso alegre.

– É assim que eu gosto de te ver! Com esse sorriso lindo, que me fez ficar apaixonada… – Valentina falou pegando o rosto de Amanda nas mãos e lhe beijando a boca outra vez.

Logo após alguns beijos trocados, Valentina começou a colocar a tinta nas duas bandejas própria para pinturas de paredes, que ela havia comprado dias atrás. Como Amanda era muito alérgica, no dia anterior, as paredes foram lixadas pelo zelador do prédio, que nas horas vagas fazia alguns serviços para os condôminos. Além disso, ele pôs as fitas crepes para proteger os rodapés e fixou as lonas no chão para proteger o piso.

Em seguida, Valentina pegou os rolos de pintura e seus extensores. Antes de Amanda chegar, ela buscou junto com o zelador duas escadas, que tinha reservado com o condomínio, para elas poderem alcançar as partes altas das paredes no momento dos acabamentos.

Com tudo pronto, ela entregou o rolo para Amanda e, seguidamente, começaram a pintar. Por volta do meio-dia, quando finalizaram o quarto menor, Valentina olhou para a namorada e começou a rir.

– O que foi, amor? Tá rindo de quê, hein?

– De você, toda pintada de tinta! Tem que pintar é a parede, mô!

Amanda se olhou e já estava realmente toda respingada de tinta.

– Hum! – Amanda fez uma careta. – Não ria, viu? Pintora que se preze, fica assim, viu? – ela sorriu.

Valentina colocou o rolo na bandeja e se aproximou de Amanda, enlaçou sua cintura com um braço e lhe sussurrou ao ouvido:

– Você fica mais linda ainda toda pintadinha…

Amanda a olhou de soslaio, apertou o olhar e, sorrindo, falou:

– Depois diz que eu vou te desconcentrar… Você que tá me desconcentrando!

– Não! – Valentina se afastou balançando o dedo com negação. – Você que me desconcentrou primeiro! Fica aí sensualizando pra mim… – ela riu.

– Eu?! – Amanda apontou para ela mesma com o dedo indicador da mão livre e com a outra colocou o rolo na sua bandeja – Não tô fazendo nada!

– Ah, mô, mas você não precisa fazer nada pra ficar sensual… – Valentina se aproximou de novo e, dessa vez, a beijou no canto da boca.

Depois Amanda disse levantando uma das sobrancelhas:

– Eu, sensual?!

– Sim, você! Você tem uma sensualidade não óbvia que eu amo!

Amanda gargalhou com o comentário da namorada e saiu em direção à sala.

– Que foi? – Valentina perguntou rindo e a seguindo.

– Sensualidade não óbvia… Essa eu nunca ouvi!

– É isso mesmo! É aquele tipo de sensualidade que não tá estampado na sua cara, sabe? Você precisa observar a pessoa, o jeito dela, os trejeitos, o sorriso, o olhar… Bom, pelo menos no meu conceito de sensualidade, você se encaixa direitinho… – Valentina sorriu com malícia.

– E você me observa tanto assim, é? – Amanda perguntou e depois impulsionou o corpo se sentando na bancada da cozinha americana.

– Claro! Eu acho que comecei a te observar quando te vi dançando balé… Puxa vida, amor, aquilo me matou, sabia? – Valentina se sentou ao lado de Amanda. – Porque, primeiro, te vi dançando ao vivo e, depois, sonhei contigo… Já contei o sonho, né? – sorrindo, Amanda balançou a cabeça afirmativamente. – Pois é! Fiquei perturbada demais, porque você não saía da minha cabeça… E fiquei com raiva de mim mesma! – Valentina riu. – Me lembro, também, de te observar também quando eu tava no hospital e você e a Júlia ficaram comigo. Enquanto você lia um livro, eu fiquei olhando você dos pés à cabeça! O jeito de subir os óculos, de balançar a perna, a posição que você lia… E ainda tinha que ver se a Júlia não tava percebendo minhas olhadas pra você.

– Eu me lembro dos nossos olhares terem se cruzado, mas não pensei que você tivesse me observado tanto assim.

– Observei e muito! – Valentina riu. – Acho que ali eu já tava gostava de ti! E cada vez mais fui me apaixonando e ficando com raiva, porque não queria, de jeito nenhum, sentir aquilo…

– E eu? Você deve imaginar como eu fiquei quando percebi que gostava de você! Primeiro, você era uma garota! Segundo, filha do meu padrasto! Terceiro, uma rebeldezinha enjoada! – Amanda riu.

– Ô, amor! – Valentina fez cara de triste.

Amanda encostou a cabeça em seu ombro e falou com voz infantil:

– Eu amo, minha rebeldezinha! – e deu um leve beijo em sua boca.

– Humpf! É pra amar mesmo! Porque eu amo minha santinha do pau oco também! – Valentina riu.

– Hum! – Amanda soltou um som de insatisfação, franzindo a testa como se estivesse com raiva.

– Ah, lembrei de uma vez que te observei. Acho que você nem sabe dessa. Foi na igreja lá em Florença. Fingia que tirava fotos do altar, das imagens, mas tava era te observando… Inclusive, tirei umas fotos tuas!

– Sério, amor? Essa você não me contou, não, viu? E onde estão essas fotos?

– Passei pro meu notebook. Depois te mostro. Ficaram lindas! Ah, mas é impossível ficarem feias, né? Com uma fotógrafa como eu e uma modelo como você…

Elas se olharam e sorriram uma para a outra. Em seguida, Valentina perguntou o que elas almoçariam e resolveram pedir em um restaurante que, junto com a comida, enviava pratos e talheres descartáveis.

Quase uma hora depois, seus pedidos chegaram. Valentina os colocou na bancada e elas tiveram que comer de pé, visto que ainda não havia móveis no apartamento. Enquanto almoçavam, Valentina perguntou para a namorada:

– Sim, mô! Que horas você precisa ir, hein? Só à noite, né?

– Só amanhã! – Amanda falou com empolgação.

– Ãh?! – Valentina arregalou os olhos. – É sério isso? Então, quer dizer…

– Que eu vou dormir aqui com você! – Amanda completou sorrindo.

– Que coisa boa de ouvir! Por que você não me disse antes?

– Ora, porque queria fazer surpresa! Tava esperando você me perguntar!

– Vai ser nossa primeira noite no apartamento e vamos dormir num colchão inflável! Imaginar que comprei uma cama maravilhosa, mas que só vão entregar na próxima semana…

– Não tem problema, amor! Importante é dormir agarradinha com você! – Amanda sorriu apaixonada e Valentina retribuiu o sorriso.

Logo após o almoço, elas revezaram no enchimento do colchão inflável, estenderam-no na sala e se deitaram por alguns momentos, antes de recomeçarem o trabalho de coloração das paredes.

Passaram a tarde no cansativo e, ao mesmo tempo, prazeroso trabalho de revestir as paredes com tintas. No início da noite, já haviam pintado o quarto de hóspedes e começado a suíte principal, quando elas resolveram parar para jantar e descansar.

– Você quer sair, amor? – Amanda perguntou.

– E perder a oportunidade de ficar sozinha mais tempo com você? Tá louca? – Valentina riu e Amanda ficou toda lisonjeada com a declaração da namorada.

– Ótimo! Porque, além de querer ficar sozinha com você também, eu tô morta de cansada! Nunca pensei que pintar parede fosse tão cansativo!

– Pensou que fosse moleza?

– Pensei que fosse menos pesado! – Amanda bufou com um ar de cansada e Valentina riu do jeito da namorada.

– Que tal a gente pedir sushi pra jantar?

Amanda trocou o semblante cansado por um alegre e disse empolgada:

– Ótima ideia! Você tá com muita fome? Porque quero pedir daquele restaurante que a gente pediu da última vez. Como ele é um pouco longe, vai demorar pra entregarem.

– Tô não. Pode pedir! – Valentina concordou.

– O mesmo combinado de sempre? – Amanda perguntou procurando o número do restaurante na agenda de contatos de seu celular.

– Exatamente! Enquanto você pede, vou indo tomar banho, tá?

Valentina se virou para sair do quarto, quando Amanda falou enquanto o telefone chamava:

– Espera!

Valentina parou e olhou para ela, que falou baixinho para caso alguém atendesse ao telefone:

– Me espera que quero tomar banho com você… – do outro lado da linha alguém atendeu ao telefone. – Boa noite…

Enquanto Amanda fazia o pedido dos combinados de sushi, Valentina se aproximou e começou a lhe beijar o pescoço, passando a mão pela barriga dela. No momento em que Valentina subiu a mão até seu seio, Amanda se afastou censurando a namorada apenas movendo os lábios, enquanto o atendente confirmava o pedido.

– Para com isso, amor!

Valentina apenas sorriu maliciosamente com a agonia da namorada.

Assim que Amanda desligou a ligação, Valentina a abraçou pela cintura e, com o rosto bem próximo ao dela, sussurrou:

– Então você quer tomar banho comigo, é?

Amanda sorriu fingindo vergonha e disse baixinho:

– Quero…

Aquele jeito tímido de Amanda deixava Valentina cheia de desejo. Então, ela a beijou com vontade, encostando o corpo da namorada na parede que ainda não estava pintada. Os beijos foram urgentes e sôfregos, tanto que as deixou sem fôlego. Em seguida, Valentina retirou a camiseta de Amanda, que se encontrava toda manchada de tinta, e a soltou no chão. Depois foi a vez da calça jeans dela ser arremessada para um canto do quarto.

Logo a seguir, Amanda tirou a camiseta quase intacta de Valentina e a jogou no chão. Depois, com facilidade, ela despiu a calça de moletom que cobria a outra metade do corpo da namorada. Ambas ficaram apenas de calcinhas e continuaram, por alguns instantes, trocando beijos quentes e percorrendo seus corpos com as mãos.

De repente, Valentina se soltou do beijo e pegou na mão de Amanda, guiando-a até o banheiro. Chegando lá, tiraram as últimas peças de roupa que ainda vestiam, entraram na parte do chuveiro e recomeçaram os beijos e os toques libidinosos.

Valentina ligou o chuveiro e a água gelada escorreu suavemente em seus corpos, mas não conseguiu esfriá-los por completo, porque o desejo as deixou em ebulição por dentro. E foi assim, com a água deslizando e purificando suas peles, que elas fizeram amor pela primeira vez no novo lar de Valentina.

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