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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 46

Imediatamente, Júlia sentiu uma leve vertigem e um enjoo lhe embrulhou o estômago. Era como ela estivesse no pior pesadelo da sua vida ao flagrar Amanda aninhada no ombro da filha de Agnelo, dormindo tranquilamente com o braço delicadamente descansando na barriga dela. Os lençois lhes cobriam apenas a parte de baixo, deixando, assim, à amostra, seus dorsos nus.

Encolerizada e arfante, Júlia vociferou em alto e bom som:

– QUE POUCA VERGONHA É ESSA QUE TÁ ACONTECENDO AQUI?!

Ambas as garotas acordaram sobressaltadas com o grito de Júlia e quase não acreditaram quando a viram ali ao pé da cama com um semblante que beirava o ódio.

Rapidamente, elas se sentaram na cama cobrindo os seios com os lençois. Com os olhos arregalados e já marejados, Amanda exclamou:

– Mãe?!

– Amanda, diga que o que eu tô vendo é uma ilusão, um pesadelo dos piores possíveis!

– Mãe… – Amanda só conseguiu dizer isso e começou a chorar.

Foi Valentina quem, ousadamente, respondeu à madrasta:

– Não, Júlia! Não é pesadelo. É o que você tá vendo mesmo!

Por causa de seu atrevimento, Júlia então se aproximou da enteada, pegou em seu pulso com força e, puxando-a para sair da cama, cuspiu-lhe o desprezo:

– Sua sapatona de merda! Você desvirtuou minha filha! Levou minha filha pra esse mundo de promiscuidade! Levou minha filha pra esse mundo nojento!

Valentina se desvencilhou com rispidez da madrasta e bradejou:

– Eu não desvirtuei ninguém, Júlia! A gente…

Sem deixar a garota completar a frase, Júlia caminhou até a porta e gritou pelo marido.

Amanda chorava desesperadamente. Ela sim se sentia como se estivesse em um pesadelo, do qual queria acordar o mais rápido possível!

Valentina a olhou e disse sem emitir som:

– Calma… Respira!

Instantes depois, Agnelo chegou ofegante e preocupado com os gritos da esposa.

– Que gritos são esses, Júlia?! O que aconteceu?!

Na porta, ela apontou para dentro do quarto de Amanda e disse raivosa:

– Entra no quarto e ver o que sua filha fez com a minha!

Ao entrar, Agnelo viu Valentina em pé, enrolada em um lençol, e Amanda encolhida em um canto da cama com os olhos inchados de tanto chorar, também enrolada a um lençol.

– O que significa isso?!

– O que você tá vendo, pai! – Valentina falou corajosamente.

– Ela desvirtuou minha filha, Agnelo! Sua filha levou a minha para a perdição, para o pecado! Eu sempre tive medo disso, mas você nunca se importou. Disse que era uma fase que ia passar!

– Eu pensava isso mesmo, Júlia! Não tenho culpa de nada! – Agnelo falou.

– É, mas não passou e agora o mal tá feito!!! Ela levou minha filha pra esse mundo nojento!

– Porra! Eu já disse que não desvirtuei ninguém! A gente se apaixonou! – Valentina olhou para Agnelo – A gente se ama, pai!

– Que negócio de a gente se ama o quê? Você lá sabe o que é amar, Valentina!

– Sei sim! Eu amo a Amanda! E ela também me ama!

Júlia riu sarcasticamente e falou:

– Até parece que Amanda ia escolher ser sapatona! Ela foi influenciada por você!!! – depois olhou para o marido – Eu bem que avisei que essa doença da sua filha não era uma fase, Agnelo! Por isso que eu queria que elas não tivessem nem amizade! Era para evitar justamente isso! Que sua filha fizesse mal a minha!

– EU NÃO SOU DOENTE!!! – Valentina gritou.

– Cala a boca, Valentina! – Agnelo vociferou com a filha. – Como é que você faz isso comigo?! Eu até permiti que você tivesse suas “amigas”, porque pensei que você fazia isso pra me enfrentar e que essa fase fosse passar! Aí você me apronta isso logo com a Amanda. Com tanta mulher por aí!

– Pai, eu já disse que a gente se ama! Aconteceu. Ninguém tem culpa disso!

– Tem sim! Você é a culpada disso tudo! Escolheu essa vida porque quis! Quer desgraçar o nome da família com essa história de ser sapatona!

– Por favor, pai, não me chame desse jeito! – Valentina respirou – E eu não escolhi ser assim! Eu nasci assim! Por que é tão difícil de entender isso?!

– Não entendo mesmo não! E nunca vou entender! Não criei filha pra fazer parte dessa corja! Agora vá para o seu quarto! Não quero mais escutar você. Nada do que disser vai mudar o que eu penso!

– É uma pena! Mas eu não vou sair daqui!

Irado por causa da audácia da filha, Agnelo rangeu os dentes e falou cuspindo:

– Vai já para o seu quarto e só saia de lá quando eu mandar! Não me faça perder a paciência!

– Não vou! – Valentina gritou e, instantaneamente, sentiu a palma da mão de Agnelo em sua face.

Ela tocou no rosto e de seus olhos verteram lágrimas de tristeza e raiva. Mesmo sem acreditar que o pai havia batido nela, pela primeira vez na vida, Valentina permaneceu imóvel encarando-o com os dentes trincados e ofegando muito. Tentava conter as lágrimas, mas elas insistiam em escorrer de seus olhos.

Com receio de a namorada ser agredida novamente, Amanda se levantou e parou na sua frente e pediu:

– Valentina, por favor, faz o que ele tá mandando, pelo amor de Deus!

Nesse momento, Valentina desviou o olhar do pai para Amanda e viu o desespero em seus olhos. Então, ela falou:

– Tá, meu amor, eu vou… Só por sua causa.

Assim, ela pegou sua roupa que estava na cadeira da escrivaninha e se dirigiu ao seu quarto, puxando o lençol para não arrastar no chão.

Agnelo fechou os olhos, respirou profundamente e falou com seriedade:

– Meus sócios devem tá chegando pra reunião. Não posso lidar com isso agora. Então, converse com sua filha, que depois nós conversaremos e tomaremos alguma providência em relação a isso.

A seguir, ele saiu deixando a esposa e a enteada a sós. Júlia fechou a porta, caminhou até a cama e se sentou na beirada do colchão.

Amanda, que havia sentado novamente na cama depois que Valentina saiu, ainda chorava, agora abraçada às pernas, com o queixo apoiado aos joelhos e o olhar – que expressava um profundo desalento – fitava uma pequena mancha de chocolate, que, apesar de tudo que estava acontecendo, a fez se lembrar de como ela tinha ido parar ali. Tinha sido há dois dias, quando Valentina comia sozinha uma barra de chocolate, enquanto estudava e acabou deixando cair farelos no colchão. A namorada até quis limpar, no entanto, ela disse que aquela marca permaneceria ali para lembrá-las daqueles dias maravilhosos. A recordação feliz contrastou com a angústia que, naquele momento, consumia-lhe a alma. “Meu Deus, naquele dia, a gente jamais imaginou que nossa felicidade acabaria dessa maneira!”.

– Pois bem, Amanda. – Júlia começou a falar com austeridade. – Eu não vou perguntar como tudo aconteceu. Vou me poupar de tamanha vergonha! Amanhã, vou marcar um psicólogo pra você, que precisa de um tratamento urgente pra acabar com essa doença passada por aquela… aquela… prefiro nem dizer o que ela é!

– Mãe, eu não preciso de… – Amanda tentou retrucar.

– Shiii! Não me contrarie nem desobedeça! Você vai fazer o que eu mandar, tá ouvindo? – Júlia silenciou por alguns segundos. – Meu Deus, como seu pai morreria de vergonha se tivesse vivo! Ter uma filha sapatão seria a morte pra ele!

– Mãe!

– O que foi? É a mais pura verdade! E agradeça que ele não está mais aqui, por senão poderia ser pior. Talvez ele até expulsasse você de casa! Imaginou? Eu tô sendo muito boa, mandando você fazer terapia. E, claro, se afastar dessa garota nojenta!

– Não fala assim dela, mãe! – Amanda corajosamente falou alto.

– Olha aqui, garota! – Júlia se levantou com o dedo em riste. – Não fale assim comigo! Eu sou sua mãe, tá ouvindo?! E você me deve respeito! Quer que eu mude de ideia e mande você para um colégio interno na Europa?

Amanda então se calou. Precisava manter a calma, para a situação não piorar. Além de tudo, estava ansiosamente aflita por não saber como Agnelo resolveria a situação com a filha.

– Até segunda ordem você está de castigo. Vai de casa pra escola e da escola pra casa. Nada de saída com as amigas.

Júlia então saiu do quarto da filha batendo a porta com força.

***

Ao entrar em seu quarto, Valentina se jogou na cama, abraçou o travesseiro e teve uma crise de choro. Inevitavelmente, lembrou-se da mãe. Pegou o porta-retratos com a foto delas duas, que ficava no criado-mudo ao lado da cama e sussurrou chorosa:

– Mãe, como eu queria que a senhora estivesse aqui! Tenho certeza de que você me entenderia e me amaria do jeito que eu sou! Por favor, me ajuda, mãe! E ajuda meu pai e a Júlia a perceberem e entenderem que eu amo a Amanda!

Seu corpo e sua alma ficaram tão exaustos por causa dos prantos, que depois ela acabou adormecendo abraçada ao porta-retratos.

Instantes depois, ela acordou em sobressaltos por causa de um sonho que teve, no qual Amanda era levada à força para dentro de um carro e Júlia a levava para longe dela.

Então, pegou o celular e enviou uma mensagem para a namorada:

‘Como vc tá, amor? Acabei de ter um sonho ruim com a gente!’

‘Péssima! E vc? Como foi esse sonho?’

‘Depois te conto! Tô péssima tb! Mas vamos dar um jeito!’

‘Será?!’

‘Vamos sim, amor! Tô pensando em dormir na ksa do Leo hj!’

‘Tudo bem. Seu pai já foi falar c vc?’

‘Ainda ñ. Quero sair antes dele vir. E o q sua mãe disse?’

‘Quer q eu faça terapia!’

‘Ridículo isso!’

‘Mas ñ vou contrariá-la! É melhor.’

‘Talvez seja mesmo!’

‘Vou indo aqui’

‘Tá. Bjo. Te amo!’

‘Bjo’

Valentina estranhou a falta de reciprocidade de Amanda ao não dizer que a amava também. “Ela deve ter ficado muito confusa com tudo isso! Preciso falar com ela pessoalmente e com urgência!”

Em seguida, levantou-se e começou a arrumar uma mochila com algumas roupas e enviou uma mensagem para Leonardo perguntando se poderia dormir em sua casa naquele dia. O amigo perguntou se havia acontecido alguma coisa e ela disse que explicaria pessoalmente.

A sua intenção era sair antes que Agnelo terminasse a reunião, contudo, quando estava fechando o zíper da mochila, ouviu fortes batidas na porta de seu quarto e a voz de Agnelo a chamando. Com o rosto inchado do tanto que chorou, Valentina a abriu e ouviu o pai falar:

– Agora é a nossa vez. – ele entrou no quarto sem pedir permissão. – Primeiro, quero me desculpar pela tapa que lhe dei. Não queria ter feito isso, mas a culpa foi sua por me fazer perder a paciência. – Agnelo passou a no queixo. – Bom, eu e a Júlia conversamos um pouco e ela me disse que vai levar Amanda pra fazer terapia.

Valentina revirou os olhos, mas permaneceu calada. Imaginou que o pai ordenaria que ela fizesse o mesmo.

– E você, depois que terminar o semestre da faculdade, vai fazer um intercâmbio no exterior de, pelo menos, um ano.

– O quê?! – ela falou com perplexidade, pois não tinha cogitado essa ideia. – Eu não vou! – Valentina falou resoluta, não conseguindo continuar silente depois de ouvir a ideia do pai.

– Você não tem escolha, Valentina! Você vai sim, porque eu estou mandando! Ou você prefere sair de casa?

– Prefiro! Quer me expulsar, me expulse! Eu não vou embora daqui!!!

– Ah, é? E você vai se sustentar com o quê? – a ira de Agnelo ressurgiu por causa da petulância da filha.

– Moro na rua, se for preciso, mas não vou embora do Brasil!

– Valentina, você não me desafie! Quer que eu perca a paciência de novo?!

– Gostou de me bater foi, Dr. Agnelo?! Saiba que você pode até me dar uma surra, mas isso não vai me fazer deixar de amar a Amanda não!

Valentina então pegou a mochila e saiu do quarto quase correndo, o que fez Agnelo vociferar:

– Valentina! Volte aqui! Ainda não terminei de conversar com você!

Entretanto, ela não deu ouvidos ao pai e saiu de casa com destino à casa do amigo.

***

À noite, a hora do jantar pareceu um velório. Amanda comia de cabeça baixa e Júlia e Agnelo trocaram apenas algumas palavras e o assunto versou sobre a reunião.

Amanda estava se corroendo para saber o que Agnelo teria decidido fazer em relação à Valentina. Tinha ouvido o padrasto gritar por ela mais cedo.

Ao terminarem de jantar, Júlia se levantou, pegou seu prato e o do marido e os levou à cozinha. Assim, Amanda aproveitou para falar com o padrasto:

– Dr. Agnelo, me desculpe se decepcionei o senhor. Essa não foi minha intenção.

– Tudo bem, Amanda. Sei que você foi influenciada pela minha filha.

A enteada pensou em se contrapor ao que o padrasto disse, mas não teria tempo, pois queria saber sobre Valentina antes que a mãe voltasse.

– O que o senhor decidiu fazer em relação a ela? Terapia também?

– Não. Dei uma boa opção pra ela, mas parece que ela prefere a pior.

O coração de Amanda parecia que ia explodir. “Que opção foi essa, meu Deus?!”

– E o senhor poderia me dizer qual foi? – Amanda pediu de um jeito doce.

– Minha filha só pode tá com um problema muito grande, Amanda. Eu disse que ela vai fazer um intercâmbio de um ano na Europa e sabe o que ela me disse? Que preferia morar na rua a ir embora do Brasil!

Aquela lastimável notícia fez o estômago de Amanda embrulhar instantaneamente.

– Com licença, Dr. Agnelo, acho que a comida não me desceu bem! – ela falou saindo da mesa e correndo até seu quarto. Ajoelhou-se em frente ao vaso sanitário e toda a comida verteu de dentro dela.

***

– Cadê a Amanda?! – Júlia perguntou quando retornou à sala de jantar.

– Passou mal quando soube que vou mandar Valentina fazer um intercâmbio…

– Será que precisamos de medidas mais drásticas? – Júlia questionou ao marido.

– Por enquanto, vamos deixar como está. Valentina vai esfriar a cabeça e perceber que o melhor que ela tem a fazer é ir nesse intercâmbio mesmo.

***

Depois de ter seu estômago esvaziado por causa da horrenda informação que a deixou pasma, Amanda pegou seu celular e enviou uma mensagem para Valentina:

‘Tá na ksa do Leo?’

‘Tô’

‘Acabei de saber do intercâmbio, o q me fez vomitar todo o jantar!’

‘Meu amor, cuidado! Mas nem se preocupe. Eu ñ vou!’

‘É melhor pensar direito…’

‘Vc quer q eu vá, é isso?!’

‘Claro que ñ! Mas é melhor do q vc sair d ksa! Vai morar onde?’

‘Depois a gente conversa! Preciso pensar!’

‘Tudo bem. Eu tb preciso. Se cuida.’

‘Se cuida tb, amor’

Então, Amanda resolveu deitar para dormir. Não se importou com o fato de que ainda era cedo da noite.

***

Ao terminar de falar com Amanda pelo celular, Valentina desabafou com o amigo:

– Leo, a Amanda tá estranha… Acho que isso tudo mexeu muito com ela. Será que ela vai querer terminar comigo?

– Calma, Valentina! Você precisa dar um tempo pra garota! Essa situação é muito complicada!

– Preciso beber! Bora sair!

– Acho melhor não! – o amigo falou.

– Se você não for comigo, vou sozinha!

– Tá. Vou com você! Nunca que deixaria você ir sozinha!

Então, eles foram ao barzinho próximo ao apartamento de Leo e Valentina começou a beber desenfreadamente. Já era madrugada quando Leo a levou para casa totalmente embriagada. Ela havia passado a noite chorando e falando sobre Amanda.

No dia seguinte, apesar da intensa ressaca que recaiu sobre si, Valentina faltou à aula da faculdade para ir à escola de Amanda na hora do intervalo.

Como era ex-aluna, conseguiu entrar com facilidade e encontrou Amanda com Samara e Maria Clara, que, a essa altura, já sabiam de toda a situação.

Foi Samara quem viu Valentina se aproximando e falou:

– Olha quem tá ali, amiga?

Amanda se virou e encontrou o cansado olhar da namorada.

– Bom dia, meninas? – Valentina cumprimentou.

– Bom dia… – todas disseram.

– Posso falar com a Amanda a sós?

– Claro! – Sam e Maria Clara falaram juntas se levantando e se afastando.

– Nossa! Você tá com uma cara péssima! – Amanda falou assustada.

Valentina sorriu melancolicamente e falou:

– Tô de ressaca… Só Deus sabe como eu tô aqui…

– Você foi beber, Valentina?! Isso não vai resolver a situação! – Amanda falou com seriedade.

– Eu sei, amor. Eu sei.

– E por que você veio aqui? Faltou a sua aula!

– Eu precisava falar com você pessoalmente! Amanda… – pegou na mão da namorada – Amor, achei você tão estranha nas mensagens… O que tá acontecendo?

– Não sei, Valentina… Tô confusa demais!

– Amor, olha… Eu sei que o que aconteceu foi muito ruim… Eles descobriram da pior forma possível… Mas eu não queria… Tô disposta a tudo pra ficar com você!

– Valentina…

– Você quer terminar, é isso?

Amanda ficou calada e Valentina continuou:

– Na primeira dificuldade, você vai desistir? Pensei que você me amasse! Conseguiu enfrentar seu próprio preconceito, o da sua melhor amiga… Estava toda confiante! E agora…

– É diferente! A Isabela não é minha mãe! – Amanda interrompeu a namorada.

– Então, quer dizer, que você deixaria sua felicidade de lado pra ceder aos caprichos da sua mãe?! Tudo por causa de um preconceito ridículo? Que você já sabe que não faz sentido nenhum?!

Amanda ficou silente, baixou a cabeça e lágrimas deslizaram de seus olhos.

– Amor, olha pra mim… – Valentina pegou em seu queixo. – Eu te amo muito! E sei que você me ama também… Ou todos esses meses foram mentira?

– Não! Claro que não!

– Então! Nós podemos enfrentar isso juntas! – Valentina enxugou as lágrimas dela.

– Como, Valentina? Nós ainda dependemos deles… Eu ainda tô na escola e você na faculdade! Não dá pra viver só de amor não!

– Eu sei! Não sei como vamos fazer, mas a gente pensa em uma solução! Juntas! – silenciou por alguns instantes – Nem que eu vá pra merda desse intercâmbio pra tentar fazer as coisas acalmarem… Aí você faz a terapia do jeito que sua mãe quer… E, assim, eles pensam que a gente terminou… E quando eu voltar…

Amanda interrompeu a namorada:

– Não sei se é uma boa ideia! Não sei se consigo… Isso tudo é tão desgastante…

Fitando-a com os olhos marejados, Valentina disse com uma voz triste:

– Desgastante mesmo, Amanda, é quando se é impedida de ficar com quem a gente ama… Mas parece que pra você é fácil terminar comigo, né? Você quem sabe…

Ela se levantou e saiu.

– Valentina! – Amanda a chamou, mas ela continuou andando sem olhar para trás até desaparecer da sua vista.

As amigas viram quando Valentina foi embora e se aproximaram de Amanda, que chorava copiosamente. Sentaram-se uma de cada lado e Maria Clara perguntou acariciando as costas da amiga:

– O que aconteceu, Amandinha?

– Ah, meninas, acho que acabei de deixar ela terminar comigo…

***

Valentina saiu da escola chorando e pegou o ônibus de volta para casa. Permaneceu em seu quarto até à noite, nem ao menos almoçou. Estava enjoada devido à ressaca e à conversa com Amanda. Contudo, a conversa tinha sido pior. Muito pior! Porque doeu em sua alma!

***

Durante as últimas aulas, Amanda tinha enviado algumas mensagens para Valentina, que as visualizou, mas se manteve silente. Depois da escola, Amanda retornou para casa com um vazio dentro dela, que chegava a doer fisicamente.

Enquanto ela tomava banho, Júlia entrou em seu quarto, pegou seu celular e digitou a mesma senha que tinha descoberto quando Amanda começou a namorar João Pedro com o intuito de ler as mensagens trocadas entre eles. Para sua sorte e azar da filha, a senha continuava a mesma.

Júlia foi direto à conversa de Amanda com Valentina e leu apenas as últimas mensagens, pois Amanda logo saiu do banheiro.

– Que susto, mãe? Agora vai começar a me vigiar?

– Não! Vim aqui só pegar isso! – balançou o celular da filha na mão.

– O celular não, mãe! Por favor!

– Pois desbloqueie aqui pra eu ver se você conversou com a Valentina?

– Mãe, por favor!

– Foi o que eu pensei! – Júlia falou soberbamente. – Então, o celular vai ficar comigo até essa garota ir embora! Que se Deus quiser vai acontecer logo!

Assim, Júlia saiu do quarto da filha batendo a porta. Seguidamente, Amanda se jogou na cama e pôs-se a chorar.

– Por que, meu Deus?! Por que precisa ser assim?!

***

Em seu quarto, Valentina lia e relia as mensagens de Amanda várias e várias vezes.

‘Vamos conversar! Eu tô confusa! Queria que você entendesse o quanto é difícil pra mim. Uma coisa é brigar com a Isa, outra com minha mãe!’

‘Valentina, por favor, responde! Não quero que a gente termine assim!’

‘Valentina, por favor, fala comigo! Depois de tudo que a gente viveu, não pode acabar assim’

‘O que foi que você decidiu? Responde, pelo amor de Deus!!!’

Ela pensou em enviar uma resposta. Escreveu, mas apagou diversas frases. No fim, acabou não enviando nada. Resolveu dar um tempo, até porque foi Amanda quem quis ceder aos caprichos dos pais e não tentar lutar por elas.

***

De madrugada, Amanda saiu de seu quarto e, sorrateiramente, colocou um bilhete por baixo da porta do quarto de Valentina.

Pela manhã, Valentina leu a pequena mensagem escrita em um papel, que dizia: “Tô escrevendo esse bilhete, porque minha mãe tirou meu celular! Valentina, fala comigo, por favor! Vamos conversar direito”.

– Pra quê? Pra você dizer, com todas as letras, que quer terminar?! – Valentina falou consigo mesma e amassou a pequena folha de papel.

Nesse mesmo dia, ela conversou com o pai para informar que faria o intercâmbio. Posteriormente, Agnelo noticiou a decisão da filha para Júlia, que não conseguiu disfarçar a alegria que a informação a fez sentir. Logo depois, ela fez questão de comentar com a filha, que ficou ainda mais abatida, apesar de ela achar que seria o melhor a ser feito naquele momento.

***

Por causa da difícil conjuntura que estava vivendo, Valentina passou o restante do semestre permanecendo na faculdade o dia todo, ficando o menor tempo possível em casa, e, dessa forma, não oportunizou que Amanda conversasse com ela.

Nesse período, Amanda fez a prova do Enem sem muita empolgação, pois mal tinha conseguido estudar desde o fatídico dia. Estava, inclusive, mais magra, pois, muitas vezes, não conseguia sustentar a comida dentro do corpo.

Durante esses dias, Agnelo resolveu tudo sobre o intercâmbio, escolhendo ele mesmo o país e o curso que a filha faria. Valentina iria para a Inglaterra fazer um curso na área da arquitetura. A viagem estava marcada para o dia doze de dezembro.

***

Faltando apenas três dias para a viagem, Leo ligou para Valentina pedindo para ela ir à casa dele, passar um tempo com ele antes de ela ir embora.

Ao entrar no quarto do amigo, Valentina pegou-se cara a cara com Amanda. Seu coração palpitou forte e ela olhou de soslaio para Leo, que sorriu sem graça e disse:

– Vocês precisam conversar… – e fechou a porta.

Valentina desviou seu olhar para Amanda e perguntou:

– Como foi que você conseguiu sair de casa?

– Eu vou dar aulas de balé pra crianças carentes… Pelo menos isso minha mãe me deixou fazer! Então, disse a ela que ia visitar o local. Realmente, eu vou, mas antes pedi pro Leo me ajudar a falar com você.

– E o que você ainda tem pra falar comigo, hein?

Amanda se aproximou e, fitando Valentina no fundo dos olhos, proferiu:

– Quero dizer que eu te amo muito, Valentina! E que não quero terminar nosso namoro! Nunca quis! Só tava com muito medo! Sei que pareceu que eu não dava importância ao nosso amor… Mas ele é muito importante pra mim. Você é muito importante pra mim! – seus olhos marejaram e ela falou chorando – Apesar de tudo que aconteceu, meu amor por você só aumentou! E, nesse tempo, eu pensei muito e acabei percebendo que ficar sem você é muito pior, mas muito pior do que qualquer preconceito que eu venha a sofrer, mesmo que ele parta da minha mãe! Por isso, desejo muito que você me perdoe pelo que eu fiz você sentir… E espero que não seja tarde demais pra isso…

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