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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 40

Por volta das vinte e uma horas do sábado, Amanda e Valentina desciam do táxi em frente à casa de Henrique.

No fim da tarde, Amanda havia saído de casa dizendo a Júlia que ia ao cinema com as amigas e depois iria para a casa de Isa dormir lá para estudarem no dia seguinte.

Um pouco mais cedo do que ela, Valentina tinha saído dizendo que ia para a casa de Leo e depois para a festa de Henrique.

Contudo, instantes depois, ao invés de encontrar Léo, Valentina se encontrava com Amanda no shopping para irem juntas ao cinema.

Toda a turma, com exceção de Leonardo, ficou sem palavras ao ver Valentina entrando com Amanda na festa.

Primeiramente, Caio e Roberta as cumprimentaram tentando demonstrarem naturalidade; depois foi a vez de Sabrina e Léo, que permaneceram ao lado delas; e, por fim, Edu, que já estava com um copo de bebida na mão e alguns na cabeça, falou:

– Olhaí, rapaz! Quem diria, hein?! As duas viraram amiguinhas…

– Qual o problema, Edu? – Valentina respondeu impaciente.

– Nenhum, gata! Dou maior apoio você integrar a Amanda na nossa turma! – ele disse sorrindo para Amanda e pegando no cabelo dela.

Amanda o encarou séria e empurrou sua mão. Valentina se aproximou dele e disse tentando não se irritar:

– Cara, deixa ela em paz…

– Sai, Edu… Deixa de ser inconveniente, cara. – Leo falou.

– Pô, cara! Eu não fiz nada demais…

Ele mal terminou de falar e Leo o levou para longe.

– Pô, cara, o Edu tá cada vez mais chato! – Valentina falou para Amanda e Sabrina. – Tá tudo bem? – Valentina perguntou para Amanda e ela respondeu afirmativamente com a cabeça.

– Vamos deixar ele pra lá! Vocês bebem alguma coisa? Amanda? – Sabrina perguntou.

– Se tiver suco, eu aceito. Se não, só água mesmo.

– E você, Valentina? Quer uma cerveja?

– Quero! Mas eu pego, pode deixar!

– Não. Tudo bem. Deixa que eu vou lá buscar.

Sabrina saiu deixando Valentina e Amanda a sós. Pouco tempo depois, Leo retornou e falou próximo às garotas devido ao som alto:

– Pronto! Deixei o Edu longe de vocês… – ele riu.

– Ótimo! – Valentina falou.

Nesse momento, Sabrina voltou com uma garrafa de água e uma lata de cerveja. Entregou-as a Amanda e a Valentina, respectivamente, e falou:

– Não tinha suco…

– Tudo bem! – Amanda sorriu pegando a garrafa da mão de Sabrina. – Obrigada! – deu um grande gole.

Amanda olhava em volta e tentava se acostumar com aquele ambiente de jovens dançando, bebendo e fumando muito e se agarrando em todos os locais. Percebendo o olhar meio assustado de Amanda, Valentina sussurrou-lhe ao ouvido:

– Tá assustada?

Ela deu um meio sorriso e confessou:

– Um pouco…

– Não vai acontecer nada… E qualquer coisa eu te protejo! – Valentina falou lançando um lindo sorriso para a garota.

Amanda sorriu de volta aliviada. Era incrível como ela se sentia protegida quando estava com Valentina.

– Gente, o Guilherme chegou! Vou receber ele ali, tá? – Sabrina falou empolgada por causa do filho do primo de Agnelo.

– Acho que isso vai dar namoro, viu? – brincou Valentina.

– Espero! Ele me fez esquecer o idiota do Edu! – Sabrina saiu sorridente.

– Aff, será que todo mundo vai namorar e eu vou ficar solteiro?! – Leo falou bufando.

Amanda e Valentina riram do jeito lamentador de Leonardo.

– Calma, Leo! Você vai encontrar um cara legal… Só não dá pra ficar com qualquer um, né? – Valentina aconselhou.

– Claro! E eu não quero qualquer um, minha filha! Quero aquele ali ó! – ele apontou com o olhar um rapaz que estava numa roda de amigos. – Nossa! Que lindo!

– O Rafa? Ele estuda comigo… – Valentina comentou.

– Mentira?! Hoje você não sai daqui sem me apresentar, viu, Valentina! – Leo ordenou.

– Pode deixar! – Valentina assentiu rindo.

– Eu vou aproveitar que o Caio e a Roberta estão perto dele e vou lá como quem não quer nada… – Leo falou animado e saiu deixando as garotas novamente a sós.

Valentina chamou Amanda para se sentarem em um sofá recém-vago. Ao se acomodarem, Amanda perguntou para Valentina:

– Você não dança?

– Quase nunca.

– Por quê? – Amanda perguntou intrigada.

– Acho que eu não sei dançar muito bem… Aí prefiro só observar o povo dançando… E você? Gosta de dançar?

– Gosto! Não sei se danço bem, mas adoro dançar!

– Ah é mesmo! Eu me lembro de você dançando no casamento dos nossos pais e no aniversário do meu pai.

– Sério que você lembra? – Amanda perguntou admirada.

– Sério! – Valentina riu. – Lembro que você tava linda no casamento com aquele vestido verde…

– Nossa! Tô surpresa por você lembrar até a cor do meu vestido!

– Lembro até do seu perfume! – Valentina completou.

– Mentira! – Amanda falou sem acreditar.

– Verdade! Lembro que eu tava de cabeça baixa quando você passou por mim. Seu cheiro me chamou a atenção. Aí vi que vinha de você e fiquei te olhando. Eu não gostava nem um pouco de você, mas não era cega… Foi naquele dia que percebi o quanto você é linda…

O elogio fez Amanda corar e sorrir.

– E como você tem um sorriso maravilhoso! – Valentina complementou olhando-a fixamente nos olhos.

Uma vontade irresistível de beijá-la tomou conta de si. E, percebendo a aproximação de Valentina, Amanda ficou séria e disse, olhando ao redor:

– Aqui não, Valentina…

– Desculpa! Eu sei que não devemos deixar ninguém saber… Mas, poxa, vai ser difícil ficar aqui e não poder te dar nem um beijo… – Valentina falou espontaneamente com um ar tristonho.

Amanda riu do jeito da garota e, depois, falou envergonhada:

– É, eu sei… Também sinto isso…

De repente, Valentina pegou na mão de Amanda, levantou-se e a puxou, dizendo:

– Vem comigo!

– Pra onde você tá me levando?!

Sem responder e sem soltar a mão de Amanda, Valentina caminhou pela casa à procura de um lugar reservado. E o único local que encontrou foi o quarto de Henrique, que, apesar de haver uma placa dizendo “trancado”, estava com a porta destrancada.

Assim que fechou a porta, Valentina tomou Amanda em seus braços e a beijou com urgência. A garota enlaçou seu pescoço e a recebeu com deleite. Tinham passado a tarde juntas sem poderem se tocar, o que aumentou ainda mais a vontade de se sentirem. E, agora, estavam ali escondidas em um quarto desconhecido saciando seus desejos…

Momentos depois, Amanda se desvencilhou dos braços de Valentina e, sem fôlego, falou:

– Valentina, a gente precisa voltar pra festa… Alguém pode desconfiar…

– Desconfia não… – Valentina disse abraçando Amanda outra vez.

– Valentina…

– Pois me dá só mais um beijo! – Valentina falou manhosa e Amanda não resistiu aquele pedido tão encantador.

Logo após, elas retornaram à festa e se juntaram a Leo, Sabrina e Guilherme.

Amanda comentou que estava preocupada com o fato do filho do primo de Agnelo está lá. Ele poderia falar para o pai, que falaria para Agnelo, que falaria para Júlia e, assim, tudo estava perdido!

Então, Valentina o chamou para pegar mais bebida e aproveitou para pedir que ele não comentasse com ninguém que Amanda estava na festa. Ela motivou o pedido dizendo que Júlia não gostava que Amanda frequentasse esse tipo de festa. E, claro que não comentou que elas não podiam ser vistas juntas. Ele disse que ela não se preocupasse que não iria comentar nada.

E quando eles voltaram para o grupo, Valentina conseguiu acalmar Amanda. Instantes depois, Guilherme chamou Sabrina para dançar e eles saíram. Nessa ocasião, Valentina apresentou Leonardo para Rafael, que passava por eles. Ficaram os quatro conversando por algum momento.

Depois que Rafael saiu, Leonardo se virou para Amanda e Valentina e disse:

– Ai, meu Deus, tô apaixonado!

Elas riram dele e Valentina falou:

– Deixa de ser iludido, Leo. Ó, não sei se ele é gay, não, viu?

– Ah, mas isso eu vou sondar… – Leo falou rindo. – Vou ali buscar mais uma cervejinha, quer?

– Quero não, obrigada! – Valentina respondeu.

– E você quer alguma coisa, Amanda?

– Não, obrigada!

Valentina se virou para Amanda e falou:

– Na hora que você quiser ir embora é só dizer, tá?

Na mesma hora, Amanda falou atônita:

– Ai, meu Deus, como eu sou burra! – ela pôs a mão na cabeça.

– O que foi?

– Eu disse pra minha mãe que ia dormir na casa da Isa. Como vou voltar pra casa? E se não posso voltar pra casa, onde vou dormir?

– Calma… A gente acha uma solução!

Depois de alguns minutos caladas, Valentina exclamou:

– Já sei! Você dorme no meu quarto… Com certeza, amanhã eles irão pro clube. Vão ver seu quarto vazio e vão pensar que você tá na Isa!

– Ai, não sei se isso é uma boa ideia… – Amanda falou aflita.

– Vai dar certo. A gente entra de mansinho em casa… Não vejo uma solução melhor…

Amanda pensou por alguns minutos e concordou com a ideia de Valentina.

Permaneceram na festa por mais alguns instantes e depois foram embora. Pegaram um táxi e, quando entraram em casa, viram que o carro de Agnelo estava lá.

– Eles devem tá dormindo… Vamos subir com cuidado, porque meu pai tem um sono levíssimo! Eu vou na frente…

– Tá… – Amanda assentiu com o coração aos pulos.

Ao entrarem na casa, Amanda tirou os sapatos. Subiram sorrateiramente as escadas. Então, Valentina verificou se o corredor dos quartos estava vazio. Caminhou até seu quarto e abriu a porta. Olhou para Amanda, que estava esperando na escada, e fez um sinal para ela vir. A garota então correu nas pontas dos pés e adentrou o quarto de Valentina.

Nesse momento, Valentina escutou a voz do pai:

– Valentina!

Ela se virou assustada, fechando um pouco a porta. Dentro do quarto, Amanda se escondeu no banheiro. Seu corpo foi tomado por um intenso nervosismo.

– Que susto, pai!

– Desculpa, filha. Como foi a festa?

– Foi boa…

– Tá sozinha? – Agnelo perguntou curioso.

– Tô, não se preocupe! – Valentina tentou falar com naturalidade.

– Valentina… Não minta pra mim!

– Não tô mentindo, pai. Se tivesse acompanhada, o senhor acha que não diria?

– Ok. Vou acreditar em você… Boa noite.

– Boa noite. – Valentina disse entrando em seu quarto.

Em seguida, Amanda saiu do banheiro pálida e perguntou:

– E aí, ele desconfiou de alguma coisa?

– Só me perguntou se eu tava sozinha… Mas eu disse que sim e ele acreditou, eu acho. Mas, mesmo que ele não acredite, jamais vai imaginar que você tá aqui! – ela riu se aproximando de Amanda e lhe pegando as mãos. – Nossa, como você tá gelada!

– Você queria o quê? Fiquei super nervosa! Aliás, ainda tô!

– Relaxa… Já deu certo! Vou pegar uma toalha pra você tomar banho…

Então, Amanda se banhou e vestiu uma blusa de Valentina. Depois, sentou-se na cama e esperou Valentina tomar banho.

Quando saiu do banheiro, Valentina apontou para o chão ao lado da cama e disse:

– Se você achar melhor, eu durmo aqui…

– No chão?! – Amanda exclamou.

– Tenho aquelas sacos de acampar. Posso colocar aqui do lado. Fica até confortável…

– Claro que não, Valentina! Pode dormir do meu lado. A cama é grande…

– Tem certeza?

– Tenho… Além disso, acho que você não vai me atacar não, né? – Amanda falou rindo.

– Claro que não, sua boba! – Valentina lhe abraçou a cintura e lhe deu um beijo breve. – Só se você quiser! – ela riu.

– Gaiatinha você, hein? – rindo, Amanda a empurrou.

Então, elas se deitaram para dormir. Ao desligar a luz do abajur ao lado da cama, a voz de Valentina ecoou na escuridão do quarto:

– Não vou ganhar nenhum beijo de boa noite?

Sem responder, Amanda a puxou para si e colou sua boca na dela. Valentina a abraçou e a recebeu com paixão. Suas mãos atrevidas passearam pelo corpo de Amanda sem sofrer resistência.

Ofegante, Amanda se soltou do beijo, alguns minutos depois, e sussurrou com a boca bem próxima da de Valentina:

– Acho melhor a gente ir dormir…

– Tem certeza que você acha isso melhor? – Valentina falou arfante.

Amanda riu e disse:

– Não… Acho que é preciso que a gente vá dormir…

– Ah, tá! Tudo bem… Mas só mais outro beijo… – Valentina pediu sorrindo.

Não houve apenas um beijo. Elas passaram mais alguns minutos entre beijos tórridos que fizeram seus corpos ficarem em chamas. E, outra vez, Valentina respeitou Amanda quando ela interrompeu os beijos, deu boa noite e se virou para dormir.

No dia seguinte, quando Valentina acordou, viu Amanda em pé andando pelo quarto e ficou admirando-a por um momento. Amanda contemplou os quadros pintados por Valentina; depois, pegou alguns objetos e os analisou; ela olhou também seus livros na estante, pegando um e outro, folheando-os. Observou tudo como se quisesse conhecer Valentina ainda mais através de seus pertences.

– Bom dia, bisbilhoteira! – Valentina de repente falou com sua voz rouca.

– Que susto! – Amanda se virou com uma mão no peito. Na outra, segurava um livro.

– Desculpa! – Valentina riu.

– Bom dia, dorminhoca! Nossa, você tem uns livros bem legais! Devia me emprestar esse aqui. Adoro Fernando Pessoa! – balançou um livro de poesias do referido escritor.

– Claro! É só pegar!

– Valeu! Depois eu levo pro meu quarto!

– Mas cuidado! Morro de ciúmes dele… – Valentina riu.

– Sei como é! Também tenho ciúme dos meus! – Amanda repôs o livro na estante e se dirigiu até a cama, sentando-se.

– E você dormiu bem? – Valentina perguntou.

– Dormi sim!

– Eu também!

Elas sorriram uma para a outra. Nesse momento, escutaram as vozes de Agnelo e Júlia. Amanda fez um sinal de silêncio.

– Amanda não dormiu em casa? – Agnelo perguntou vendo o quarto da garota aberto.

– Foi pra casa da Isa ontem. Foi estudar…

Nessa hora, Valentina, silenciosamente, tirou o sarro de Amanda, deixando a garota agoniada.

– Como que eu queria que a Valentina fosse pra casa das amigas estudar…

Dessa vez, foi a vez de Amanda brincar com Valentina por causa da frase de Agnelo.

Depois disso, as vozes desapareçam. E, minutos depois, elas ouviram o barulho do carro saindo da garagem.

– Ai, graças a Deus que eles saíram… – Amanda desabafou. – Agora posso ir pro meu quarto!

– Nããão! Fica mais um pouco… – Valentina segurou na mão de Amanda.

– Vamos levantar pra tomar café! – Amanda sugeriu.

– Nãão! Hoje é domingo! E ainda é cedo.

– Nove horas já é o meio da manhã pra mim! – Amanda riu.

– Pois é madrugada pra mim! – Valentina sorriu.

– Vamos fazer o seguinte: a gente se levanta, toma café e vai fazer alguma coisa…

– Humpf! – Valentina fez uma cara mal humorada, o que fez Amanda rir e puxar sua mão para ela se levantar.

– Bora, preguiçosa! Levanta! – Amanda falou descobrindo o lençol do corpo de Valentina.

– Tá bom! – Valentina disse se levantando. – Você ganhou!

– Quem terminar primeiro de se arrumar vai no quarto da outra, tá?

– Já sei que vou no seu quarto primeiro! – Valentina riu.

Amanda fez uma careta dando a língua para Valentina e saiu.

Ao terminar de se arrumar, Amanda se dirigiu ao quarto de Valentina pensando que a demora da garota só poderia ter sido de propósito, porque ela sempre era mais rápida do que Amanda.

Bateu à porta do quarto e ouviu Valentina dizer de dentro do banheiro:

– Entra.

– Você ainda tá tomando banho?!

– É rapidinho… – Valentina falou somente com a cabeça para fora da porta. – Ah, aproveita e pega o livro do Pessoa que você quer emprestado…

– Ah, é mesmo! – Amanda falou se direcionando à estante.

Ao tirá-lo da prateleira, ela percebeu que na capa havia algo escrito em um post it que não estava ali minutos atrás.

‘Abra na página 59!’

Seu coração se acelerou. Ao abrir na solicitada página, ela leu o seguinte poema:

“O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p’ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente

Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pr’a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar…”

E, logo abaixou do poema, outro papel se encontrava fixado, mas este estava dobrado. Então, Amanda abriu e se deparou com a seguinte pergunta, que fez seu coração saltitar ainda mais:

‘Quer namorar comigo?’

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