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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 23

Quando o Natal chegou, Valentina já estava bem melhor. Apesar de ainda usar o colete e fazer fisioterapia, as dores tinham diminuído consideravelmente.

Embora Agnelo tenha se oposto no início, Júlia o tinha convencido de fazer uma ceia natalina em casa para alguns amigos e familiares.

– Temos que agradecer e comemorar a vida de Valentina, meu amor! E isso merece um lindo jantar!

E foi assim que ela o convenceu e acabou organizando uma grande ceia de natal.

Amanda havia convidado todas as amigas e o namorado. Apenas Isabela e os pais confirmaram. Como João Pedro viajou com a família nesse período, não pode comparecer. Assim como Amanda, Valentina havia convidado todos os amigos, mas todos passaram as festas de fim de ano ou com as respectivas famílias ou também viajaram.

Portanto, seria mais um natal sem graça nenhuma para a filha de Agnelo. Teve uma época que Valentina amava as festas de Natal. Mas isso foi antes de sua mãe morrer. Depois disso, ela não viu mais sentido em festejar aquela data que tanto a fazia se lembrar de sua mãe.

Na noite de Natal, enquanto os convidados chegavam e eram recebidos por Agnelo, Júlia e Amanda, Valentina ainda se arrumava em seu quarto. Ela estava tão desmotivada com aquele jantar, que não conseguia escolher uma roupa para usar. Por fim, resolveu usar um vestido preto, como sempre. Não calçou sapato de salto e nem colocou o colete naquela noite. Experimentaria ficar sem ele para ver como sua coluna se portaria.

Quando ela saiu do quarto, conversou com algumas pessoas que vinham falar com ela com muita curiosidade sobre o acidente. Ela não aguentava mais falar sobre isso. Então, resolveu sentar-se numa mesa mais afastada. Não pretendia ficar ali por muito tempo.

Sentada a uma mesa não muito distante, Amanda conversava com Isabela, quando viu Valentina sozinha. Ela estava com os olhos fixos no celular. Amanda a observou por alguns instantes e viu quando Valentina desviou o olhar do celular e passeou pelo local. Ela percebeu que a garota estava com um olhar taciturno. E aquele olhar melancólico de Valentina deixou Amanda com uma tristeza e um desconforto inesperado. “Como ela parece triste! Nunca a vi assim! Ninguém merece ficar desse jeito na noite de natal!”

Então, subitamente, Amanda olhou para Isa, que falava algo que ela não prestara a mínima atenção e falou:

– Volto já!

Caminhou em direção a Valentina, que já havia voltado seus olhos para o celular e não percebeu que Amanda se aproximava.

– Oi, Valentina…

A garota levantou os olhos e encontrou os de Amanda. Desceu o olhar até a boca da garota que lhe sorria lindamente.

– Oi…

– Você não quer se sentar comigo e com a Isa?

– Obrigada, eu bem aqui…

– A gente pode vir sentar aqui… Pra você não precisar se deslocar…

– Não se preocupem comigo… – Valentina deu um meio sorriso.

Tarde demais. Amanda definitivamente se preocupava com ela. Então, sem permissão, ela se sentou na cadeira ao lado de Valentina, que a olhou surpresa. Amanda respirou fundo, olhou-a e perguntou:

– Posso te fazer uma pergunta?

Receosa com a pergunta de Amanda, a vontade de Valentina era dizer não, mas, balançando a cabeça afirmativamente, ela respondeu:

– Pode.

– Você sempre fica triste assim no Natal?

Valentina encontrou o olhar de Amanda e respondeu em forma de pergunta:

– Quem disse que eu triste?

– Seus olhos! – Amanda respondeu prontamente.

– Meus olhos? – Valentina questionou curiosa.

– Bastou eu olhar pros seus olhos e perceber que você tá triste…

Valentina ficou completamente surpreendida com a leitura certeira de Amanda sobre seu estado de espírito, feita apenas através do seu olhar. Ela baixou a cabeça, rodou o celular entre as mãos e falou:

– Minha mãe adorava o Natal… – Valentina falou olhando para o celular – Ela fazia a ceia com tanta alegria… A casa ficava assim… Cheia de gente… – Valentina olhou e sorriu para Amanda. – Eu costumava gostar muito dessa época também… – Valentina voltou a baixar a cabeça. – Mas isso mudou depois que ela morreu… – ela falou com a voz um pouco embargada.

Como não queria chorar na frente de Amanda, Valentina parou de falar e respirou fundo para engolir o choro. Amanda arriscou por a mão no ombro da saudosa garota. Acariciou-o devagar, o que fez o coração de Valentina tremular mais forte dentro do peito. Ela evitou olhar para Amanda, que enunciou cortando o contato com a garota:

– Eu entendo perfeitamente o que você tá sentindo… Eu também fiquei assim alguns anos depois que meu pai morreu. Mas depois eu fiquei pensando numa coisa que o padre falou pra mim anos atrás. Ele disse assim: “Amanda você já pensou que seu pai deve ficar triste por ver você triste logo na época do natal?”. Depois disso, eu sempre me lembro dele, mas não fico mais triste, porque não quero deixá-lo triste. Você já pensou que sua mãe também pode triste por te ver assim?

Valentina olhou outra vez para Amanda e respondeu:

– Não…

Amanda sorriu e continuou:

– Pois é! Eu acho que ela ficaria bem feliz em saber que você se lembra dela nessa época não com tristeza, mas com alegria! – silenciou alguns segundos. – Promete que vai pensar nisso?

Valentina ficou deveras tocada pelo que Amanda falou. Ela sorriu para a garota e respondeu:

– Prometo…

Antes de sair, Amanda ousou perguntar novamente:

– Valentina… Eu posso te dar um abraço?

A garota ficou desnorteada com aquele pedido inesperado, mas como era Natal não poderia ser rude com a única pessoa que conseguiu diminuir sua tristeza. Então, ela respondeu:

– Claro. Pode não parecer, mas eu não mordo, não! – ela falou rindo.

“Só se você quiser!”, ela pensou. E esse pensamento súbito a fez ficar envergonhada consigo mesma.

Então, Amanda se aproximou de Valentina e a enlaçou em seus braços. Valentina fez o mesmo. De repente, o coração dela tremeu mais forte novamente e ela desejou que Amanda não sentisse aquele palpitar inoportuno. Ao abraçar Valentina, Amanda sentiu uma forte energia vinda dela e achou bem inusitada aquela sensação inédita. Sentiu-se estranhamente bem dentro daquele abraço…

Antes de sair do abraço, Amanda desejou:

– Feliz Natal, Valentina! E vê se não fica triste, ?

Aquela voz sussurrada de Amanda, bem próxima ao seu ouvido, fez com que Valentina se arrepiasse.

Elas se afastaram e Valentina falou sorrindo:

– Vou tentar…

Outra vez, Amanda perguntou:

– Tem certeza de que não quer se juntar a mim e a Isa? Ela é gente boa, pode confiar! – ela riu.

Valentina sorriu e respondeu:

– Eu até acredito… Mas acho que já vou subir… Já há muito tempo sentada sem o colete. Apesar de não estar sentindo dor, não quero abusar.

– Tá certo, então! Boa noite!

– Boa noite!

E, assim, Amanda saiu retornando à mesa onde estava com Isa. Enquanto Valentina a seguia com o olhar, repassou na mente a recente conversa com a filha de Júlia, o que a deixou mais espantada, e, até mesmo, admirada, pelo fato de Amanda ter sido a única, dentre inúmeras pessoas que estavam ali, que conseguiu deixá-la menos triste, e quem sabe, até um pouco feliz!

De longe, Agnelo e Júlia observaram a cena da conversa entre Amanda e Valentina, o que fez o advogado comentar contente:

– Espero que elas se deem bem daqui pra frente…

Apesar de desejar que não houvesse mais desentendimentos entre elas, Júlia ficou um pouco incomodada com aquele abraço e aquele olhar de Valentina, pois sabia da sexualidade da garota. Apesar de o marido insistir em dizer que era apenas uma fase, Júlia sabia que não era. Contudo, não comentou com o marido sobre seu incômodo e apenas concordou:

– Eu também!

Quando Valentina se dirigia para dentro da casa, Agnelo a alcançou e perguntou:

– Vai pra onde, Valentina?

– Vou subir… Já fiquei sentada sem o colete por muito tempo…

com dores?

– Não, mas quero evitar sentir… – ela sorriu.

– Então… Feliz natal, minha filha. – Agnelo a abraçou e beijou seu rosto.

Depois do acidente, eles ficaram um pouco mais carinhosos um com o outro. Agnelo achou que a filha estava menos arredia.

– Feliz Natal, pai. Dá Feliz Natal pra Júlia também, ?

– Dou sim. Boa noite, minha filha. Durma bem.

Brigada, pai. Boa noite.

Agnelo evitou perguntar sobre a conversa com Amanda.

Quando Amanda se sentou à mesa de novo, Isabela perguntou atônita:

– O que foi aquilo?

– Aquilo o quê? – Amanda riu sabendo do que se tratava.

– Aquela conversa, de certa forma, até demorada… E aquele abraço! Tô passada!

– Nem eu sei explicar! Ela estava tão… Tão normal! – Amanda riu.

– Será que foi por causa do Natal? – Isa gracejou.

– Não sei… O tempo dirá, Isa! O tempo dirá!

Quando Valentina chegou ao seu quarto, aprontou-se para dormir e deitou na cama. E pensou no que Amanda havia falado há pouco. E chegou a conclusão de que tentaria ser mais alegre… Faria isso pela sua mãe, que sempre fora uma pessoa que esbanjava alegria por onde passava. Depois disso, ela se lembrou do jeito de Amanda decifrá-la pelo olhar… Do sorriso que ela lhe lançou… Da sensação incrível dos braços dela ao seu redor…

Aquelas reminiscências logo evoluíram e ela relembrou o dia em que a viu dançar… O sonho que teve… Lembrou inclusive da discussão que teve com ela meses atrás, por causa do som alto. E, por fim, lembrou-se do dia em que ela a ajudou a ir ao banheiro… Valentina sorriu ao lembrar o jeito envergonhado de Amanda ao tirar sua roupa de baixo. Mas logo o sorriso sumiu do seu rosto quando lembrou o tesão que sentiu com o toque dos dedos dela deslizando pelas suas coxas. Só de lembrar foi capaz de ter a mesma sensação daquele dia! E essa lembrança fez com que a excitação ressurgisse. E, para piorar, sua imaginação começou a criar outra situação que a deixou ainda mais excitada.

– Argh! Eu não posso pensar isso! – Valentina reprimiu a si mesma pondo o lençol na boca e o mordendo.

Todavia, os pensamentos foram mais forte do que a própria reprimenda. Fechou os olhos e não conseguiu parar de imaginar se tivesse realmente tocado o rosto de Amanda, como deu vontade na ocasião, e ela tivesse retribuído o carinho. Imaginou deslizando sua mão pelos braços dela, subindo até o pescoço. E depois a beijando lentamente, levando suas mãos até os seios dela…

– Valentina! – Rosa bateu na porta do quarto.

De repente, a garota abriu os olhos, tirou a mão que estava se encaminhando para dentro da sua calcinha e se enrolou. “Obrigada pela interrupção, Rosinha!”

– Pode abrir, Rosa!

A ex-babá abriu a porta e falou:

– Minha menina, você já veio se deitar e nem me desejou Feliz Natal!

– Oh, Rosinha! Desculpa! Eu não te vi e acabei vindo logo me deitar… Não aguentava mais essa festa.

Então, a governanta se aproximou, sentou-se na cama ao lado de Valentina, beijou a testa dela e falou:

desculpada, minha filha! Feliz Natal, viu? Que Deus a proteja sempre!

– Feliz Natal, Rosinha! – ela beijou o rosto da ex-babá.

Rosa saiu fechando a porta atrás de si e Valentina ligou a TV para evitar voltar aos pensamentos que estava tendo antes de Rosa bater à porta. Aumentou o volume da TV para poder escutar melhor, pois a música da festa lá fora estava alta.

De vez em quando, os pensamentos queriam tomar espaço na sua mente, mas, com um grande dispêndio de energia, Valentina conseguiu vencê-los. E, depois de muito tempo zapeando pelos canais de tv, ela conseguiu finalmente dormir.

E Valentina não quer aceitar de jeito nenhum que Amanda mexe com ela! Será que ela vai conseguir reprimir esse sentimento por muito tempo? 

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