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QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 1

– Três meses depois –

Antes da cerimônia, Valentina, como era do seu costume, ligou o som em um volume ensurdecedor e se deitou em sua cama. Era o seu jeito de pensar na vida. Começou a refletir sobre tudo que estava acontecendo e o que poderia vir a acontecer com a realização do casamento de seu pai e Júlia e a vinda dela e da filha para morarem em sua casa. “Como eu queria que isso fosse somente um pesadelo! E quando acordasse, tudo tivesse voltado ao normal!”

A garota não conhecia muito bem nem a madrasta nem a filha dela, apesar de estudar na mesma escola de Amanda há anos. Para ela, Júlia era apenas uma perua dondoca e Amanda, uma garota metida a santa.

Valentina nunca havia se permitido se aproximar muito de alguém. Então, ela não fazia muita questão de conhecer as pessoas de verdade, nem se deixava ser conhecida por ninguém. Era uma adolescente de dezessete anos que vivia no seu mundo particular, desde que a mãe morreu quando ela tinha apenas sete anos. Cresceu circunspecta, não tendo amigos na escola até o início da adolescência.

Depois que saiu da infância, fez amizade com uma turma de colegas de sala, com a qual passava o tempo no colégio e os via apenas algumas vezes fora da escola. Contudo, ela não considerava nenhum deles amigo de verdade.

Decorrido alguns instantes, a vibração de seu celular, que estava próximo ao seu corpo, interrompeu seus pensamentos.

– Oi, Bia.

– Oi. Tudo bem contigo?

– Tudo sim.

– O que você vai fazer hoje à noite?

– Vou ser obrigada a ir ao evento mais ridículo do ano! – bufou Valentina.

– Não me diga que o casamento do seu pai é hoje? – perguntou Beatriz.

– É. Infelizmente.

– Puxa, quando comentou que ele ia casar, pensei que você fosse me chamar, afinal nós estamos ficando.

– Pois é, Bia. Nós estamos ficando, só isso. Como eu já disse, não é nada sério. E esse casamento não vai ser nada divertido. Então, pensei que você não fizesse questão de ir…

– Ah, tudo bem. Então, depois a gente se fala, ? – Bia desligou chateada.

. – Valentina deu de ombros.

Beatriz era uma garota da sala de Valentina, com a qual ela ficava uma vez ou outra. Bia, como todos a chamavam, era uma menina linda de olhos verdes, corpo benfeito, cabelos castanhos claros, longos e encaracolados.

Valentina havia descoberto que gostava de meninas aos quatorze anos, quando se percebeu interessada por Bárbara, uma colega de sala. Quando elas resolveram começar a namorar, Bárbara teve que ir embora para outra cidade. E Valentina se sentiu abandonada outra vez. Na época, seu pai descobriu e, para sua surpresa, não a repreendeu nem a castigou.

Três anos atrás

 Agnelo abriu a porta do quarto de Valentina e surpreendeu a filha e a amiga Babi aos beijos em cima da cama.

– Poxa, pai! Não sabe bater na porta, não? – Valentina levantou e fechou a porta antes mesmo de deixar o pai entrar ou falar alguma coisa.

Desesperada e assustada, Bárbara falou:

– Ai, meu Deus, Valentina, ele vai dizer aos meus pais! O que eu vou fazer? É capaz de eles me expulsarem de casa!

– Calma, Babi. Ele não vai dizer nada. Eu falo com ele. – a garota falou resoluta.

O pai saiu em choque ao ver aquela cena e se dirigiu à sala de estar. Instantes depois, Valentina chegou à sala e viu o pai sentado no sofá, bebendo o seu costumeiro uísque. Ela se aproximou por trás dele e disse:

– Queria pedir a você que, na próxima vez, bata na porta antes de entrar.

– Eu nunca imaginei que ia ver aquilo! – Agnelo proferiu sem olhar para a filha.

– É, às vezes vemos o que não queremos. Mas isso que você viu é a realidade. Quer você goste ou não. – Valentina falou destemida, apesar de por dentro estar com muito receio do que o pai diria ou faria.

Agnelo sabia que sua filha estava tendo uma adolescência difícil e não tornaria a vida dela mais tormentosa, pois para ele, aquilo era apenas uma fase que passaria com o tempo. Então, ele enunciou:

– Certo, Valentina. – finalmente olhou para a filha – Eu sei que você é adolescente. E essa é a fase de descobertas. Não vou brigar com você por causa disso. Só espero que você seja discreta com sua amiga. Você sabe como as pessoas gostam de falar.

Aliviada, a garota pediu:

– Outra coisa, pai. Por favor, não conte nada aos pais da Babi. Eles não seriam compreensivos como você.

O elogio fez com que Agnelo desse um leve sorriso antes de emitir:

– Tudo bem.

***

Depois de desligar com Bia, Valentina olhou para o relógio e viu que já era hora de se arrumar para o casamento. “Que saco!”. A garota se recusou a usar um vestido longo, então havia escolhido um na altura do joelho, na cor preta, cujo intuito era parecer que estava indo a um velório e não a um casamento. Vestiu-se, olhou-se no espelho e gostou do que viu. “Bem fúnebre, como eu queria!”.

A indócil garota era alta e magra. Tinha corpo de modelo, como todos costumavam dizer. Tinha lindos e intensos olhos cor de mel, os quais estavam sempre rodeados de lápis preto. Para o casamento, não foi diferente. Ela apenas complementou com uma escura camada de sombra nas pálpebras. Os belos lábios foram cobertos com um batom nude. O nariz afilado e a dentição perfeita terminavam de compor seu primoroso rosto. Seus cabelos eram naturalmente castanhos, mas ela os pintava de loiro claro, deixando sempre a raiz escurecida e nunca deixando os fios crescerem para além dos ombros. Seu visual, no dia a dia, dava-lhe um aspecto de cantora de rock.

Antes de sair do quarto, amassou os cabelos com as mãos para deixá-los mais desgrenhados, como ela gostava. Borrifou seu perfume favorito no pescoço e calçou uma sandália preta não muito alta.

Encontrou seu pai na sala, bebendo uma dose de uísque, enquanto esperava por ela. Agnelo olhou para a filha e comentou:

– Tinha que ser um vestido preto, Valentina?

– Você sabe que preto é a minha cor favorita. A maioria das minhas roupas é preta. Ou você queria que eu usasse um vestido rosa?

Agnelo não queria brigar no dia do seu casamento, então se resumiu a dizer:

– Não, filha. Você linda assim.

– E você até que não feio, pai. – Valentina retribuiu o elogio do seu jeito.

Agnelo era um homem charmoso e atlético de quarenta de sete anos, além de ser um dos mais famosos advogados da cidade. Até aquele momento era o solteiro mais cobiçado pelas mulheres. Depois da morte de sua esposa, demorou dois anos para se envolver com outra mulher. Contudo, os namoros eram sempre passageiros até ele conhecer e se encantar pela linda viúva Júlia D’Ávila de Alcântara.

– Vou tomar isso como um elogio – sorriu o pai – Então, vamos?

– É o jeito, ? – Valentina alfinetou revirando os olhos.

Ele apenas balançou negativamente a cabeça e deu um leve beijo na cabeça da filha, carinho que eles não costumavam ter um com o outro.

Ao chegarem à igreja, Valentina cumprimentou rapidamente alguns familiares e amigos de seu pai, depois foi tomar assento em um dos bancos da igreja. Ela não havia contribuído em nada nos preparativos do casamento, apesar de seu pai ter insistido. Só assisti-lo já era muito para ela.

Valentina já estava impaciente, pois fazia alguns minutos que estava sentada no desconfortável banco da igreja, olhando para o chão, para evitar que alguém puxasse assunto com ela.

Naquele momento, absorta em seus pensamentos, ela sentiu um cheiro inebriante entrando em suas narinas, o que a fez levantar a cabeça à procura do perfume embriagante e seu olhar encontrou uma garota que passou apressada por ela na direção do altar conversando com o cerimonialista.

Queridxs leitorxs, nossa estória está apenas começando. Espero que gostem e continuem acompanhando. Beijos da N. Lorak

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