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PORQUE EU TE AMO

Era um sábado à noite, nossa professora tinha marcado um encontro em um bar vintage para comemorar o sucesso da disciplina. O local era coberto de bancos e mesas feitos de madeira, com tons escuros nas paredes, era repleto de fotografias em preto e branco. Pouquíssimas pessoas da turma confirmaram presença na confraternização, apenas umas oito pessoas apareceram, dentre elas só as pessoas que realmente curtiam uma bebida gelada e bate papo furado. Mas o que realmente me importava ali era você. Fazia algum tempo que eu sentia uma coisa diferente sempre que te via, quando você me abraçava, todo meu corpo vibrava e toda vez que você se afastava, me percebia com um sorrisinho no rosto. Com toda certeza, eu estava me metendo em uma encrenca.

Eu, você e um amigo marcamos de nos encontrar no ponto de ônibus antes para chegarmos juntos ao bar. Quando você chegou, usava um vestido folgado, uma blusa xadrez por cima e um coturno, que claramente só combinava com você, em mim ficaria horrível. Com seus cabelos soltos e cacheados ruivos, minha ansiedade se espalhava só ao te olhar. Se as pessoas fossem cor, você seria vermelho. Cor do fogo e do poder. Eu não conseguia desviar meu olhar de você e do seu sorriso. Você e André, nosso amigo, contava sobre os problemas do relacionamento, enquanto tentávamos ajudar e ao mesmo tempo achávamos graça do modo desgarrado que ele contava as coisas, como se o término tivesse sido apenas um acaso da vida.

O vento frio de agosto batia nos meus braços, enquanto caminhávamos em direção ao bar. Fomos os primeiros a chegar, você sentou entre mim e André, toda encolhida afirmando que estava com frio. Pedimos uma cerveja enquanto os outros não chegavam. À medida que as pessoas iam chegando, iam sentando na nossa mesa, conversavam sobre o semestre e os desastres que aconteceram. Eu só conseguia olhar para o batom vermelho que estava na sua boca. A cada olhar seu, sentia um calor no coração, eu não deveria me apaixonar por uma amiga minha. Era a primeira vez que caia nessa armadilha e não sabia como reagir. Era uma sensação nova para mim. Você me abraçou e disse: “Me abraça, miga” sem saber o quanto aquilo poderia me afetar. Mas te abracei e te apertei. Você já estava alegre por causa da bebida e eu estava começando a ficar um pouco solta demais. Você filmava as besteiras que nossos amigos falavam e ria a cada piada idiota. Tiramos uma selfie e você postou no storie do instagram, com diversos corações e me marcou. Peguei meu celular e sorri.

A noite corria devagar, e em determinado momento você virou pra mim e disse: “Vamos ao banheiro comigo? Acho que tô um pouco tonta”. Levantei e abri passagem pra você. Seu vestido levantou e você nem reparou. Mostrou um pouco da lingerie preta, ao mesmo tempo que eu, apressadamente, abaixava o tecido. No espelho do banheiro, você me olhou de forma travessa e comentou que queria escrever nossas iniciais com o batom. Falei que você estava um pouco doidinha, e ainda assim, você fez. Pegou seu batom vermelho na bolsa e escreveu “M e L” com uns corações tortos ao redor. Aquilo me fez rir, talvez você fosse toda feita de fogo. Uma coragem que eu não entenderia. Voltamos ao nosso banco e André nos analisava com um olhar estranho. Perguntei: “O que foi?”. Ele apenas riu e continuou a conversar com as outras pessoas como se eu não tivesse feito pergunta nenhuma.

Estava chegando perto de meia noite, ao mesmo tempo em que queria ficar lá até todos decidirem ir embora, percebi que teria prazos a cumprir no dia seguinte. Falei que achava melhor pedir um uber, você me encarou com aqueles olhinhos claros e disse que estava cedo, eu deveria esquecer um pouco minhas obrigações e poderia voltar com ela. Você dormiria na casa de André e não parava de cutucar ele, para ajudar a me convencer a dormir lá também. André só assentia com a cabeça e dizia: “Vocês dormem juntas, porque na minha cama só tem espaço pra mim”. Você não estava nem ligando pra isso. Quando eu cedi, você ficou só sorrisos, alternando com seu copo de bebida. Só esse pouco de atenção, me fez ficar um pouco mais feliz. Acabei desligando meu celular e decidi esperar o que o futuro me reservava.

Lá perto das três horas da madrugada, quando todos já estavam um pouco alterados e outros literalmente bêbados, resolvemos ir embora. André levava um amigo nosso para sua casa também, no final das contas, a cama dele caberia mais um. Fomos os quatro, andando, a rua estava vazia e tínhamos uns vinte minutos de caminhada pela frente. Você segurou minha mão e às vezes me abraçava, sempre com um sorriso no rosto. Eu tentava acalmar minha respiração toda – maldita – vez que você fazia isso comigo. Chegamos na casa de André, ele jogou um colchão no chão, junto com duas almofadas e um edredom. A temperatura a cada minuto descia. Estava chegando aos 10° graus. Você dava pulinhos e dizia que não tinha disposição alguma para trocar de roupa. Eu falei que provavelmente não trocaria minha calça e minha blusa também, só tiraria os sapatos. Eu ainda não estava com frio, mas estava cansada e queria deitar. André falou para apagarmos a luz quando fossemos dormir e que se precisássemos de alguma coisa, ele estaria no quarto. Você tirou o coturno, deitou no colchão e se enrolou toda no edredom parecendo uma gatinha.

Claramente o modo que me olhava, indicava que você não estava sóbria. Apaguei a luz e me deitei ao seu lado. Você se virou na minha direção, e assim tão perto, conseguia ver que seu batom estava um pouco desbotado e você usava lápis de olho, que destacava o castanho dos seus olhos.  Em um ato de coragem insano, coloquei minha mão esquerda na sua cintura na tentativa de te puxar para mais perto de mim e você sorriu. Não sabia o que interpretar dos seus olhares e suas ações naquela noite. Os minutos foram passando, sem que nós duas proferisse alguma palavra. Eu estava vendo a hora que meu coração fosse explodir de nervoso. Acabei te beijando, lentamente. Você abriu os lábios e eu soltei o ar que nem sabia que estava segurando. Meu coração estava uma mistura de corrida e calmaria. Minhas mãos te apertavam e cada vez meu corpo se aproximava como se existisse um imã me puxando. O beijo foi tomando proporções que eu não estava esperando e em algum momento aquele frio que antes você sentia, parecia ter ido embora, você chutava e afastava afobada o edredom, enquanto eu ficava em cima de você, com minhas pernas ao redor da sua cintura.

Ficamos nos beijando com o que pareceram horas ou talvez segundos. Minhas emoções estavam à flor da pele. E em um momento acabei soltando um “eu te amo”, porque eu te amava há muito tempo, eu te amo hoje e amanhã. E depois que acordássemos, esperava que não estivesse alterada o suficiente para esquecer. Porque eu esperava ter aquela calmaria por muitos anos.

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