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O livro de Maiara – Conto de Dia das Namoradas

Era o dia da coragem. Não haveria meio termos, meio desmazelo, meias palavras. Seria minha última chance e nada poderia mudar isso. Às vezes a gente adia tanto as coisas, que perde tempo, oportunidade e momentos. E assim como o tempo, as atitudes geram ações que não voltam mais. Uma vez feito, pronto. Está feito. O tempo não volta e as consequências do que se faz ou do que se deixa de fazer também não. A vida é assim. Intensa e insana. E só se vive uma vez. Até porque, ainda que você acredite em reencarnação, sua próxima vida será diferente desta. Pessoas diferentes, tempos diferentes, carmas diferentes.

Meu lápis tamborilava na mesa do escritório enquanto eu adiava pela milionésima vez o fechamento do meu relatório para observá-la. Todos os seus passos já eram conhecidos para mim, afinal, fazia um ano que eu admirava minha paixão secreta. A bela morena executiva, dona de intensos olhos castanhos e lábios rosados. De voz meiga e singular inteligência. Meu coração batia forte apenas por vê-la mordendo a ponta do lápis enquanto franzia o cenho pensativa. Trezentos e sessenta e cindo dias, gravando cada detalhe e mania dela em segredo. Eu poderia observá-la a vida inteira, mas como a vida é feita de urgência, o dia de número 365 estava acabando e com ele minhas esperanças de uma relação amorosa ou de uma mínima chance que fosse com ela.

Alicia levantou, como de costume faltando uma hora para o final do seu dia de trabalho. Ela sempre fazia isso. Levantava rotineiramente na mesma hora, mesmo sem olhar o relógio em seu pulso. Na verdade, o relógio que a movia era biológico. Um sincronismo perfeito que não deixava furos. E na minha quase patética paixão por ela, me pegava admirando o fato de que até mesmo seu organismo era perfeito. Eu, ao contrário, não tinha hora. Um completo caos. Meu estômago roncava nos mais diferentes horários. E os desejos de tomar café quase sempre não batiam com os de Alicia. Ainda assim, forçava-me a ir ao refeitório no mesmo horário que ela, pois enquanto a morena degustava seu café, nós conversávamos bons minutos. E aqueles poucos momentos, em que ela sorria entre uma frase e outra enquanto jogava açúcar em seu café, falando de coisas triviais ou de algo do trabalho exaustivo que tinha, faziam tudo valer a pena para mim.

E agora, no meu dia 365, poderia apenas segui-la e puxar assunto como sempre, no entanto, haviam dois fatores contra mim. O primeiro era o fato de que Alicia passaria dois meses fora do país. Ela fora escolhida, merecidamente, para representar a empresa na filial francesa. Seriam dois meses sem vê-la subir os óculos pelo nariz quando estava concentrada demais, ou apreciar seus lábios ficarem mais rosados conforme engolia seu café quente. Dois meses em que ela teria a magia de Paris aos seus pés e que eu, me tornaria apenas a menina que toma café com ela todas as tardes enquanto esteve no Rio. Totalmente irrelevante.

O segundo fator, e não menos preocupante, estava grifado no calendário. Hoje era doze de junho, dia dos namorados. O dia em que as ruas ficam lotadas de flores. Os outdoors com corações e beijos. E ironicamente, meu único dia para conquistar a intocável gerente do setor de planejamento, de beleza inigualável e que para minha infelicidade era totalmente discreta sobre sua vida pessoal. Quer dizer? Porque ela seria lésbica? E porque diabos eu teria qualquer chance com ela?

Quando Alicia passou por mim, desviei meu olhar acompanhando-a andar pelo corredor de carpete cinza. Seus saltos agudos do scarpin preto, tornavam suas pernas mais longas. Vestia uma saia social cinza até a altura dos joelhos e uma blusa branca de seda. Em meus devaneios pude jurar que ela deu um sorriso singelo enquanto passava. Respirei fundo algumas vezes e levantei em direção ao refeitório. Era agora ou nunca.

“Vamos Anabela. Vamos”. Murmurei para mim mesma, apertando as mãos em nervosismo.

Não foi difícil avistá-la. No lugar de sempre, mexendo o café como sempre. O refeitório estava vazio para minha alegria. Não que isso me desse coragem, mas certamente qualquer chance de encontrá-la no fundo do meu ser se perderia se houvessem colegas de trabalho fofoqueiros por ali. Me aproximei em silêncio e Alicia continuou olhando seu café, mexendo-o quase em câmera lenta como se me esperasse. Todavia, quem esperava por ela era eu.

– Oi Ali. Cumprimentei timidamente. Alicia elevou os olhos castanhos reluzentes para mim e sorriu docemente.
– Oi Bela. Estava esperando você vir. Arregalei meus olhos, sentindo a palma da mão soar frio. Então ela estava mesmo me esperando?
– Estava?! Perguntei sem acreditar e devo ter sido um pouco desesperada demais porque tão logo perguntei, ouvi Alicia gargalhar baixinho.
– É tão difícil assim acreditar? A gente toma café juntas no mesmo horário há sei lá, seis meses por aí? Respondeu simpática, e meu subconsciente logo gritou “Na verdade faz um ano hoje”.
– É por aí…. Sorri, sem mostrar os dentes, tentando mascarar o surto de felicidade que consumiu por já ser a garota do café, mas triste por não ter sido marcante o suficiente para ela contar o tempo tão precisamente. Paranóica, eu? Talvez. A paixão tende a deixar a gente idiota.
– Então, animada para Paris? Alicia tomou um longo gole de café quente e quando sorriu seus lábios já estavam mais vermelhos. A fumacinha saia do copo e ela assoprava sem fazer barulho para tomar outro gole. Gostaria que meu coração fosse assim, silencioso e discreto, mas ele apenas batia em meu peito feito uma locomotiva. Internamente eu só rezava para que ela não ouvisse.
– Em partes sim. Sabe, Paris é um sonho para qualquer pessoa, mas eu gostaria de ficar por aqui mais um tempo. Sei lá.

Assenti, sem saber o que dizer. Meu coração, aos berros, gritava para que eu dissesse “Eu também amaria que você ficasse”, mas minha voz parecia ter sumido em algum lugar dentro de mim. Fiquei olhando Alicia e um silêncio não corriqueiro se instalou entre nós. Ela bebia seu café sem me olhar e eu apertava minha mão em punhos enquanto a observava.

“Diga alguma coisa, idiota”. Minha mente gritava. Abri a boca algumas vezes e não houve som. Nem um gemido, nem uma sílaba. Nada. Minha coragem e habilidade de falar estavam presas na minha mente apaixonada e amedrontada. Alicia me olhou uma última vez e me perdi naqueles castanhos. Ela sorriu com doçura, me encarou uns instantes e depois jogou o copo de café no lixo.

– Bem, preciso ir Bela. Ainda tenho algumas coisas para fechar antes de ir. A gente se vê, daqui a dois meses, quem sabe.

Quem eu queria enganar? Estava acabado eu pateticamente nada fiz para evitar. Que chances eu teria afinal? Ela era uma deusa toda poderosa e eu apenas uma funcionária do administrativo. Não que eu fosse feia. Sempre fui contente com minha aparência. Gostava dos meus cabelos negros lisos, dos meus olhos pretos e do meu corpo esbelto. No entanto, enquanto ela chamava atenção por apenas respirar, haviam muitas pessoas no meu setor que nem sequer sabiam meu nome. Era como estrelar ‘A Dama e o Vagabundo’. E eu sequer consegui a chamar para comer uma macarronada comigo.

Alicia se aproximou de mim e me puxou em um abraço meio sem jeito. No primeiro instante minhas mãos não se moviam, mas depois, meu corpo acordou e abracei-a pelas costas. Senti seu cheiro amadeirado e fechei os olhos. Demorei um ano para abraça-la pela primeira vez e agora talvez nunca mais o fizesse. Acabariam os cafés, as incontáveis horas de admiração silenciosa, as conversas agradáveis, os devaneios amorosos. Seriam apenas eu, um pote de sorvete, filmes melosos com minha melhor amiga e um diploma de “PhD em fracasso no amor”. Seria o fim do casal Belícia. O abraço durou algum tempo, até que fomos nos soltando devagar. Quando dei por mim, os castanhos estavam tão perto que eu podia ver inúmeros pontinhos em tom de marrom reluzindo neles. Era lindo, hipnotizante. Como as constelações. Alicia era linda. Minhas bochechas coraram e pigarreei tentando achar minha voz. Eu tinha que dizer alguma coisa, qualquer coisa. Estava cansada de ser covarde.

– É…. – Pigarreei – Boa viagem e espero que, bem, nós possamos tomar um café qualquer dia desses. Não agora, claro, mas daqui a dois meses por que você vai estar em Paris e bem, seria meio que impossível ser agora – Comecei a ficar nervosa. E Anabela nervosa divagava e suava nas palmas das mãos. Porque diabos os olhos dela tinham que estar assim tão próximos?
– Mais quem sabe quando você voltar, e eu espero que volte, a gente possa, talvez, tomar um café.

Respirei fundo, quase sem fôlego e totalmente envergonhada. Eu era mesmo um fracasso. Abaixei os olhos ciente de que se havia alguma chance de Alicia me olhar, tudo tinha terminado ali. A morena começou a rir baixinho. “Ótimo. Agora está rindo de mim, não podia ficar pior”

– Porque está divagando? Ela perguntou ainda rindo e eu senti minhas bochechas corarem com força. Me afastei dela e sorri sem jeito.
– Desculpe. Esquece. Isso foi esquisito né? Eu sou esquisita então, não liga. Boa viagem Ali.

Comecei a andar para fora daquele refeitório. Precisava de ar puro para tentar encontrar minha dignidade, se é que ainda tinha alguma.

– Espera! – Ouvi a voz dela ecoar e quase achei que estava sonhando, até que ela continuou – Espera Bela!

Alicia correu em seus saltos e me alcançou perto da porta. Tocou meu pulso com delicadeza e girei meu tronco para olhá-la. Me arrependi no mesmo instante porque, quanto mais a via de perto, mas caia de amores por ela. E quando ela fosse, maior seria minha queda para o abismo.

– Não foi esquisito. Foi fofo. Você é fofa! Sorriu docemente e neguei com a cabeça. De repente a doçura de Alicia me irritou. Eu ia perde-la e estava brava com isso. Quer dizer, não era culpa dela e sim minha. Ainda assim, estava irritada. Com raiva do mundo. E ela não facilitava sendo doce assim. – Você está bem? Perguntou se aproximando. Parecia preocupada e parte de mim ficou contente com isso.
– Não é nada. Deixa para lá…
– Fala. Eu quero saber. Insistiu e respirei fundo. Era difícil negar algo para ela. Na verdade, impossível.
– O que você quer que eu diga? Nada vai mudar, então, é melhor assim.
– Bem isso depende.
– De que? Perguntei já impaciente. Queria sair dali antes que chorasse na frente dela e piorasse tudo.
– Bom, geralmente a divagação é decorrente de ansiedade ou nervosismo. Sua divagação foi uma tentativa de me chamar para sair ou não?

Arregalei os olhos, totalmente surpresa. Alicia, no entanto, não se abalou. Aguardou em silêncio, me encarando e cobrando uma resposta sincera através de seus tons de castanho. Parecia calma enquanto eu estava quase caindo ali mesmo.

– Pode falar, Bela. Pediu docemente e apertei meus olhos. Era agora ou nunca. E, já que estava na chuva…
– Foi. Falei de uma vez e depois de uns segundos de silêncio absoluto Alicia abriu um enorme sorriso. Lindo, cativante, doce. Perfeito. Acabei sorrindo mesmo sem querer.
– Sabe, achei que nunca fosse criar coragem.

E dizendo isso, Alicia me puxou pela gola da blusa e beijou meus lábios. No início, fiquei em pleno choque. Depois meu corpo recebeu uma descarga elétrica, borboletas se libertaram no meu estômago voando para todos os lados, meu coração bateu como nunca e tudo em mim ganhou vida. Todos os trezentos e sessenta e cindo dias haviam valido a pena. Segurei a cintura de Alicia e esqueci onde estava. Esqueci do trabalho, do refeitório. Esqueci até mesmo meu nome. Só não esqueci de aprofundar o beijo e deslizar minha língua sobre a dela. Foi quente, delicioso, como veludo em dia de inverno. Foi um encaixe perfeito, daqueles que só se sente uma vez na vida.

Quando acabamos, nos separamos ofegantes. Os lábios de Alicia agora estavam rosados de me beijar e os pontinhos castanhos de seus olhos ficaram mais escuros. Ela sorriu largamente e sorri de volta. Tão abobalhada quanto possível. O abismo? Bem, já tinha me jogado de vez nele.

– Que horas é seu voo? Perguntei em um sussurro ainda olhando seus lábios.
– Amanhã, as dez da manhã.
– Então você gostaria de…
– Sim! Ela respondeu sem me deixar terminar.

Rimos juntas, parecendo duas adolescentes. Demorei um tempo para acreditar. Saímos dali e voltamos para o setor, mas o resto do dia trocamos olhares e não consegui fazer mais nada no trabalho. Aquele dia foi meu primeiro doze de junho que passei acompanhada e apaixonada. Para minha sorte, o primeiro de muitos. Nós jantamos, fomos ao cinema, nos beijamos incontáveis vezes. Rimos, dançamos sob a luz da lua. Eu deixei ela na porta de casa e ficamos quase meia hora para conseguir nos soltar. Alicia viajou na manhã seguinte. A levei no aeroporto e foi a coisa mais difícil que fiz. Quase não a deixei ir. Lembro de ela acenar antes de entrar no corredor de embarque e sussurrar um “Me espere”. Ela nem precisava pedir, afinal, esperaria ela a vida toda se preciso. Nos falávamos todos os dias por Skype. Quando ela voltou a esperei no aeroporto com uma plaquinha escrito “Bem-vinda moça do café”. Ela riu e se jogou nos meus braços. Nos beijamos em pleno aeroporto e de lá para cá, o casal Belícia se tornou o nosso “Para sempre”. E bem, apesar da iniciativa do primeiro beijo ter sido de Alicia eu também havia feito muito por nós.

Três anos depois, quando casamos, lembro de minha esposa no altar falando em seus votos, para nossos amigos mais íntimos e família, sobre quando percebeu que se apaixonou por mim. E nesse dia, descobri que ela também contava os dias. Que na verdade seu relógio biológico obedecia a sua vontade de estar perto de mim. Não era o café as quatro da tarde e sim a minha companhia. Ela sentia falta disso tanto quanto eu. Ela queria uma dose diária de mim tanto quanto eu queria dela. Ela me amava em segredo, mas achava que não era recíproco. Nós perdemos muito tempo. Um ano na verdade por medo de correr atrás do que queríamos. Ainda bem que consertamos em tempo de compensar o resto de nossas vidas. O dia de número 365. Neste dia, nós duas arriscamos. Nesse dia nós lutamos. E neste dia nós ganhamos um amor verdadeiro.

“E dois anos depois, uma linda princesinha nasceu e ela se tornou o maior fruto do amor de Anabela e Alicia. O nome dela era Maiara”

Fechei o livro que havia feito sobre nossa história de presente de seis anos para nossa filha, Maiara. A pequena de cabelos negros e olhos tão castanhos quanto os de minha esposa, esfregou os olhinhos com sono e sorriu. Ela já havia escutado aquela história incontáveis vezes, mas sempre pedia para que eu contasse. Ela dizia que adorava ouvir sobre o conto de fadas da sua família.

– Hora de dormir mocinha! Coloquei o livro no criado mudo e comecei a cobrir seu pequeno corpo com a colcha da cinderela que ela amava.
– Mommy! Ela chamou, olhando para a porta do quarto. Virei o rosto e vi minha esposa, com o corpo encostado no batente da porta, vestindo apenas uma camisola. Era engraçado mais toda vez que eu olhava para ela, me sentia na sala daquela empresa como há anos atrás. Ainda mais apaixonada. Alicia limpou uma lágrima dos olhos – Ela sempre se emocionava quando me via contando nossa história para Maiara – aproximou-se, beijou meus lábios e sentou do outro lado da cama, perto de nossa filha. Terminou de cobri-la e ambas beijamos a testa da pequena princesa.
– Boa noite meu amor! Amamos você! Alicia falou e nossa filha suspirou um “amo vocês também mamães”.
Estendi a mão para minha esposa e entrelaçamos os dedos, saindo de mãos dadas do quarto da nossa pequena. No entanto, antes de sairmos, Maiara resolveu nos fazer uma pergunta inédita.
– Mommy?
– Sim filha. Alicia respondeu com a mesma doçura de sempre.
– Quantos dias faz que você e a mamãe se conhecem? Vocês pararam de contar depois do dia 365?
Sorri. Não só apenas os olhos de Maiara eram de Alicia, mas também sua astúcia.
– Faz onze anos filha, mas não contamos mais os dias.
– Porquê mommy?
– Porque quando se tem o “Para sempre” dos contos de fadas, não se precisa mais contar.

Maiara assentiu, se entregando ao sono finalmente. Alicia apagou a luz do quarto e seguiu me puxando para o nosso.

E eu fiquei ali, intercalando meu olhar entre ela e nossa filha, abobalhada de paixão.

Certas coisas, nunca mudam.

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