Search for content, post, videos

O café dela

Eu sempre fui uma mulher de rotinas, planejamentos e organizações. Trabalhava longe de casa então sempre saía bem cedo porque não tolerava atraso, principalmente se eu era a atrasada. Tomava banho, vestia a roupa, que eu já havia separado na noite anterior e seguia para o ponto de ônibus. Pegava duas linhas até chegar ao ponto final, há duas quadras do enorme prédio onde eu trabalhava.

Como todos os outros dias, eu chegava adiantada. Nos primeiros dias, entrava mais cedo, achava que era uma boa forma de mostrar trabalho, mas com o tempo percebi que era só uma forma de ficar mais tempo dentro daquele escritório, já que eu nunca conseguia sair mais cedo:

– A Camila é solteira e mora sozinha, não tem ninguém esperando por ela, então ela pode ficar um pouco mais – minha chefe adorava dizer isso.

No início achava que era realmente isso. Não me importava de adiantar o trabalho e era até bom, já que eu fugia do transito da hora do rush. Mas no dia seguinte, lá estava eu, a primeira a chegar no escritório de novo. Então tomei uma decisão. Eu parava em um pequeno botequim para tomar café com leite e bater papo com os atendentes até a hora de subir o elevador.

O seu João era descendente de Espanhol e tinha herdado aquele ponto do pai. Modernizou algumas coisas, colocou mais algumas comidas e tirava dali o sustento da família: eram dois filhos, o João Filho que ficava no turno da noite e a doce Maria, que ajudava o pai no turno da manhã. A esposa de João tinha um grave problema na coluna e não podia ficar no bar, mas eu já havia visto ela por lá umas duas vezes, quando ela ia tomar café e logo depois já voltava para casa. Mas a minha preferida era Maria.

– Bom dia, dona Camila. O de sempre? – era assim que me recebia junto com um sorriso daqueles de tirar o fôlego.

A minha sexualidade sempre foi muito minha. Como era solteira e nunca tinha tido um relacionamento duradouro nunca precisei lidar com ela perante as outras pessoas. Minha família sabia e algumas amigas mais próximas, que poderia contar em uma única mão. No trabalho, ninguém nem sonhava e sinceramente? Não fazia diferença para mim. Eu não era do tipo que confundia trabalho com a vida pessoal. Mas pela Maria, por ela eu até estaria disposta a mudar essa característica.

Em uma segunda feira comum eu refiz o caminho de todos os dias, ansiosa para encontrar aquele sorriso e ao invés disso fui recebida por um sorriso igualmente simpático, mas estranhamente distante de João Filho.

– Cadê a Maria, seu João? – perguntei sem hesitar
– Ela me ajudou a arrumar o estoque ontem a noite, então pediu para trocar de turno com o irmão. Hoje ela chega mais tarde

Por um momento respirei aliviada. Estava com medo de que algo pudesse ter acontecido. O dia não seria igual. Folhas e relatórios passaram pelas minhas mãos e seguiram passando até a hora do almoço. Com uma dieta regrada, eu sempre levava meu almoço de casa e aproveitava para vasculhar a internet com besteiras da minha vida. Era o momento que todos saíam e o escritório parecia ser só meu. Mas não naquele dia. Aquele dia que estava se construindo como uma péssima segunda.

– Camila, estou lotada de relatórios. Você pode ir ali no botequim do seu João buscar um sanduíche para mim, por favor? – tive vontade de responder a minha chefe que não era empregada dela, mas eu era.

Além do mais, ir até o botequim do seu João me rendeu uma gota de esperança de finalmente encontrar Maria naquele péssimo dia. Acertei em cheio.

– Senti sua falta hoje, menina! – sorri e pedi um café preto para ajudar a digerir o almoço enquanto esperava o sanduíche.

Maria olhou em volta, sorriu para mim e nada respondeu. Virou de costas para pegar o café e eu me afundei na cadeira achando que tinha ido longe demais. Joguei todas as cartas que poderia ter deixado na manga e agora teria que lidar com uma distância que ela iria impor todas as manhãs. Por um momento, vi meu mundo desabando. Me recompus e acompanhei ela caminhar por dentro do balcão. Trazer o sanduíche embalado e retirar a minha xícara, agora, vazia. Paguei ao seu João e me encaminhei para a calçada:

– Dona Camila, a senhora esqueceu esse papel aqui – era Maria abanando um pedaço de guardanapo.
– Não é meu não, Maria
– Tenho certeza que é, senhora

Ela insistiu tanto que peguei o pedaço de guardanapo e so então reparei que havia um rabiscado qualquer. Também senti sua falta hoje de manhã, mas acabei sonhando com o seu sorriso. 973230690. Meu coração disparou e quando terminei de ler e a olhei, ela já havia entrado de volta para o balcão.

Durante toda a semana seguinte cheguei em cima da hora e saí no minuto exato que deveria. Descobri que o gosto do café dela era o mesmo lá no botequim ou lá em casa.