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O ano que voltei para casa

Nossa. Essa cidade não mudou nada. Era impossível não pensar assim no momento em que qualquer pessoa, que já estivesse aqui antes, retornasse, mesmo depois de tantos anos como eu. Saí alguns dias antes de fazer dezoito anos rumo ao grande sonho da faculdade. E hoje, com quase trinta anos resolvi voltar para passar as festas de final de ano com meus pais. Eu sempre os obrigo a irem ficar comigo na capital, mas meu pai não tem mais condições de fazer uma viagem dessas, achei que seria injusto demais não vir até aqui. Até porque, qual o problema que teria não é mesmo? Espero eu que nenhum!
Algumas coisas mudaram. A padaria do seu Carlos agora está bem maior. Pelo visto ele comprou a pequena loja de ferramentas que tinha do lado e expandiu os negócios. Fico feliz por ele e pelos cinco filhos que ele tem. A casa da minha professora de matemática mudou de cor. Lembro que ela era a única da rua que tinha uma casa amarela, agora ela está quase branca igual todas as outras. Ainda bem que ela não fez isso antigamente, senão nunca iria achar a casa certa, sempre fui muito ruim de localização.
– Pai, mãe, cheguei!
– Minha filha, já estava preocupada com a sua demora…
– Tinha um pouco de transito na estrada, mãe, mas está tudo bem! Como ele tá?
– Está deitado lá atrás, já perguntou de você várias vezes
Meu pai era meu herói e ao mesmo tempo meu anti-herói. Passou parte de sua vida bebendo e fumando e apostando o pouco dinheiro que ganhava na sinuca do botequim do seu Jonas. Por alguma obra divina, ele nunca ficou devendo nada a ninguém, mas isso o impediu de dar uma vida um pouco melhor para minha mãe. Mesmo assim, ele era uma cara sensacional e que eu tenho certeza, não existe igual.
– Velho, cheguei!
– Velho é o cacete! – ele adorava me responder assim e eu já falava desta forma para o ouvir xingando
– Como você tá?
– Melhor do que sua mãe acha…ela tá doida pra me ver morrer
– Não fala assim, pai! Mamãe tá cuidando muito bem de você…pare de ser rabugento
– Estava com saudades, minha filha
– Eu também, pai…mas agora estou aqui
Minha mãe falava que ele não saía daquela cadeira de balanço que ficava no nosso quintal. De lá, ele via o céu, as árvores que ele plantou e a pequena horta da onde minha mãe tirava algumas especiarias de tempero simples. O muro da nossa casa costumava ser baixo. Dava para pular para a casa vizinha, mas depois que fui embora, meu pai cresceu a parede e agora não dava para ver o quintal dela. Eu também não queria ver nada. Tirei do meu pensamento o mais rápido possível.
Eu não aguentei sair de casa no primeiro dia. Depois de dirigir quase quatro horas entre trânsito e estrada ruim, tudo que eu queria era tomar uma café da minha mãe e passar o dia sentada no quintal jogando conversa fora com meu pai e matando as saudades. Eles sabiam muito pouco da minha vida na cidade grande, eu não contava e eles não perguntavam e eu sempre acreditei que eles não entenderiam também.
– Acordou cedo, filha. Vai sair, é?
– Vou dar uma volta, mãe!
– Sua bicicleta tá lá na garagem…seu pai sempre a deixou em bom estado dizendo que você ainda ia usar
O velho era sensacional mesmo. Quando criança, só andava com aquela bicicleta pra cima e pra baixo e quando fui embora, tinha certeza que eles jogariam fora na primeira oportunidade. Meu pai passou a usá-la e agora ela estava velhinha, mas em perfeito estado. Me senti com dezesseis anos de novo correndo ladeira abaixo e vendo o mercadinho no fim da rua.
– Eu devo estar sonhando! Mulher, olha só quem tá aqui!
– Seu Janio, como o senhor está?
– Larissa, eu quase não te reconheci, você virou uma mulher e tanto hein…
Seu Janio morava na casa atrás da nossa. Junto com sua mulher, a Cassandra e a filha Luana. Na única escola da cidade, nós estávamos sempre perto já que tudo era por ordem alfabética e éramos as duas com a letra L na turma. Não demorou para nos tornamos inseparáveis. Ela vivia na minha casa e eu na casa dela.
– Larissa, minha filha, como você está linda.
– ô, dona Cassandra, deixa de bobeira, só estou um pouco mais velha
– Vem cá me dá um abraço menina
Sabe, o povo da cidade grande deveria aprender a ser carinhoso como o povo da cidade pequena. Eu sinto falta de abraços por lá, eles normalmente só aparecem quando você tem um enorme tempo de conhecimento da pessoa e normalmente eles são frios e sem graça. Diferente desse abraço quente e cheio de saudades que sempre recebia por aqui.
– Seu Janio, o mercadinho cresceu hein!
Na minha época ele era composto por dois corredores e apenas um caixa onde a dona Cassandra controlava todo o dinheiro que entrava e saía.
– Pois é, minha filha. A gente trabalhou muito para deixar um negócio bom para a Luana e os netos né
Só de ouvir esse nome sinto arrepios até onde não imaginava poder sentir arrepios. Como é possível depois de tanto tempo a simples menção ao nome dela fazer isso com o meu coração?
– Em falar em Luana, ela vai ficar maluca quando te ver
– Ela está na cidade? Não sabia…
– Ela voltou de vez, Larissa! Estudou na cidade grande, mas voltou para ajudar com os negócios da família…vai casar e tudo
Eu sabia que ela tinha ido pra cidade grande, mas como ela não quis me procurar, não corri atrás também. Então quer dizer que ela voltou e ainda por cima vai casar? Lá vem esse meu estômago doer só de pensar nela.
– A gente vai se cruzar por aí, dona Cassandra. E eu vou andar mais um pouco
– Ó, aparece pra tomar um café, estamos morando na segunda casa da Rua 5, antiga casa do seu Toninho
Em cidade pequena as ruas não tem nome, porque são pouquíssimas e você reconhece as casas pelos moradores que ali tiveram. Por exemplo, seu Toninho foi prefeito da cidade e a casa dele era uma das maiores da rua, inclusive com piscina e segundo andar. Realmente o mercadinho devia estar indo muito bem já que eles compraram a casa. Mas eu precisava sair dali.
Já de volta na bicicleta, as lembranças me atropelaram como uma avalanche de memórias.
Luana e Larissa, vocês não podem sair daqui, entendido? dona Cassandra estava no caixa enquanto seu Janio descarregava algumas frutas que tinham acabado de chegar. Nossa aula tinha terminado mais cedo e nós estávamos brincando no fim do segundo corredor, atrás das enormes pilhas de caixa de leite. Tínhamos um pouco mais de quatorze anos, ainda não sabíamos nada da vida. Luana disse que um menino da escola tinha pedido para beija-la. Não lembro o nome dele, mas lembro que estávamos naquela fase de descobrir os sentimentos por outras pessoas e ela queria beija-lo, mas não sabia como. Decidimos que tínhamos que treinar entre nós duas para ficar igual as pessoas da televisão. Lembro do beijo dela como se fosse ontem, aqueles lábios molhados e macios, o gosto de melancia, que estávamos comendo na hora e como a mão dela tocou meu joelho e como eu nunca mais quis beijar outra boca a não ser a dela.
 
A avalanche de memórias me arrastou para o lugar que eu mais queria manter distância. A beira do riacho era um dos lugares mais lindos que eu já vi na vida. O rio que passava ali era o Cabelo de Anjo, nome da cidade. Ele tinha esse nome porque mais pra frente dava em uma cachoeira onde as pedras tinham um formato engraçado e pareciam cabelos cacheados quando a água escorria por elas. Depois daquele beijo no mercadinho, eu e Luana vínhamos aqui para continuar ensaiando beijos, ou pelo menos era o que dizíamos. Não demorou para descobrirmos que havia algo a mais ali.
– Raio, pega!
Não era possível. Aquela voz estava na minha mente como se fosse um pesadelo que te persegue por onde você for. Fechei os olhos para tentar esquecer, até sentir um pingo no meu pé. Era uma enorme vira lata, com um graveto na boca me olhando como se me reconhecesse e matasse as saudades no olhar. Raio tinha acabado de chegar na família de Luana quando eu fui embora. Gente, como ele estava enorme.
– Desculpa, senhora, o Raio é meio desatento mesmo
Era ela e eu simplesmente estava em estado de choque
– Olha, eu sei que sou alguns meses mais velha que você, mas não precisa me chamar de senhora
– Larissa? Só pode ser brincadeira…
– Oi, Luana…
Eu sorri e ela sorriu de volta e toda minha vida parou naquele momento. Como eu havia ficado tanto tempo longe daquele sorriso? Como eu tinha me permitido viver longe dela? Aí eu lembrei de como ela foi ao baile do colégio acompanhada de um garoto qualquer e o beijou na minha frente e depois me disse que nunca sentiu nada por mim. Chorei por três noites seguidas e meus pais nunca entenderam o motivo. Até que resolvi ir embora.
– Nossa…você está…uau!
– Você também está super bem, Lu
– Vem cá, me dá um abraço!
Ela afastou Raio com o pé e enlaçou seus braços no meu pescoço. Ela devia ser proibida de fazer isso. Aquele cheiro do cabelo dela não tinha mudado. Era camomila com alguma outra coisa que eu nunca soube o que era, só sei que nenhum perfume no mundo poderia me fazer esquecer daquela combinação que eu sempre procurava no meu travesseiro quando ela dormia na minha casa. Meus braços passaram por sua cintura e ela pareceu relaxar o corpo dela como se estivesse esses dez anos tenso, esperando por este reencontro. Senti minhas pernas fraquejarem.
Foram horas de conversa na beira do rio. Raio ficava indo e voltando da água para refrescar do calor. Ela me contou dos estudos na cidade grande, eu contei da faculdade e do trabalho que tinha. Falei dos perrengues que tinha passado e de como eu estava feliz sendo independente. Ela me contou de como ajudou o mercadinho dos pais a crescer e eu fiquei impressionada com o pensamento empreendedor que ela tinha. Falávamos de nós como se nunca tivéssemos nos afastado.
– Eu vou casar…
Ela falou como se pedisse desculpas por ter comentado.
– Eu sei. Sua mãe me contou lá na loja. Fico feliz por você
– Eu também to feliz, meus pais o adoram e ele é um homem muito bom
– Não se casa por amor nesta cidade?
Ela apenas sorriu e não respondeu. Luana não seria feliz com outra pessoa porque seu amor pertencia a mim, mas ela nunca seria capaz de admitir isso e eu nunca seria capaz de exigir isso dela.
– Ei, mais tarde vamos sair para beber alguma coisa? Agora já podemos fazer isso de forma legal!
– No lugar de sempre?
– É o único lugar, minha Lari!
Minha Lari. Ela só podia estar brincando comigo me chamando desta forma. Ela devia saber que isso não se faz com alguém que tem um coração machucado e pouco remendado como o meu. Senti meu rosto corar e meu corpo todo arrepiar quando ouvi ela me chamar assim. Ela pareceu não perceber, apenas levantou, esticou a mão para me ajudar, chamou Raio e seguimos de volta para nossas casas.
– Pai, mãe, voltei!
– Demorou, filha
– Encontrei a Luana, mãe, ficamos conversando e me perdi na hora
– Vocês duas sempre se perdiam nas horas quando estavam juntas
– Você lembra disso, pai?
– Se lembro…esse quintal ficava cheio de vida com vocês duas brincando por aí
– Seu pai tá certo…vocês colocavam fogo nessa casa, depois iam lá para a casa da Cassandra fazer bagunça também
Eu não estava pronta para essa enxurrada de novas memórias assolando meus pensamentos. Precisei de um banho de mangueira no quintal para recuperar o que havia acabado de acontecer dentro de mim. Não sabia mais se eu tinha quase vinte ou quase trinta anos, porque parece que nada mais está no tempo certo desde que eu cheguei aqui.
Outra coisa que cidade grande deveria aprender com o povo daqui é que quando você sai com os amigos, é mais importante o sorriso no rosto do que o que vai vestir. Eu estava com a roupa mais simples que eu poderia e a mais confortável também. o botequim do seu Jonas era o único lugar aberto aquela hora da noite. Era lá que toda a cidade se encontrava para beber, jogar, conversar e terminar mais um dia de trabalho duro. Luana já estava encostada em um pequeno muro que ficava na parte detrás do bar. Era lá que nós nos escondíamos para beber enquanto pagávamos um peão que não conhecesse nossos pais para pegar cerveja pra gente.
– Agora a gente já pode pedir na mesa, sabia?
– E perder a oportunidade de relembrar os velhos tempos, minha Lari?
Lá vinha ela de novo com essa história de Minha Lari. 
 
– Está certo, mas dessa vez, a gente compra, né?
Fui até o balcão com o dinheiro na mão. Tudo continuava exatamente igual, só que agora a mesa de sinuca estava um pouco mais gasta do que antes e o chão do bar era de cimento e não mais de terra batida. Além disso, tinha um pequeno som ambiente, nada muito alto nem muito chique, apenas algum sertanejo tocando.
– seu Jonas, duas garrafas de cerveja, por favor
– Para quem retorna, a primeira rodada é por conta da casa
– achei que não ia lembrar de mim, seu Jonas
– Pequena Larissa, não dá para esquecer você!
– Obrigada, seu Jonas
– Essa cidade estava sentindo falta de você e Luana juntas…
A gente sempre ouvia esse tipo de coisa. Que nós éramos a alma daquele lugar, que nós trazíamos vida e esperança para todos. Na época adorava ser bajulada por todos, mas não queria ter este tipo de responsabilidade, ainda mais sabendo que iria embora de novo.
– Estupidamente gelada. Melhor impossível!
– Nunca bebi uma garrafa tão gelada assim lá em casa…
Era como se nada tivesse mudado. Luana continuava fazendo piada com coisas tristes e eu sempre ria depois de dizer ai que horror, Lu. Ela continuava me chamando de Minha Lari e todas as vezes eu continuava me arrepiando. Depois da primeira rodada passamos a comprar duas garrafas para cada uma, assim demorávamos mais para levantar. Apesar de não sermos mais crianças, nosso limite para o álcool ainda existia e não demorou para ficarmos tontas e rindo a toa.
– Você lembra aquela vez que quase botamos fogo no mercadinho?
– Culpa sua que quis brincar com o cachimbo do seu pai
– Eu sei eu sei, foi minha culpa
– E você lembra quando você caiu de bicicleta e eu te carreguei até em casa? E tudo isso só por um joelho arranhado?
– Você sempre me salvava, minha Lari
– E você adorava né?
– Eu te adorava…
Silêncio ensurdecedor para me fazer ficar ainda mais nervosa.
– Na verdade, ainda te adoro
Ela não podia continuar com isso. Fiz menção de levantar, mas a tonteira não deixou e acabei caindo sentada de novo, dessa vez um pouco mais perto dela depois de quase cair.
– Não foge, minha Lari…
– Não estou fugindo, Lu
– Você sabe que eu nunca te esqueci
– Mas também nunca quis me ver
– Não era simples, você sabe disso
– Quando você foi pra cidade grande estudar podia ter me procurado, seríamos só nós duas…
– Justamente. Só nós duas me dava muito medo. Não tive coragem e acho que por isso não consegui ficar por lá
– Não coloque a culpa em mim porque você quis voltar
– É lógico que eu quis voltar, aqui, toda esquina que eu olhava ainda via você…
As nossas pernas estavam encostadas e os nossos braços muito próximos. Cada uma com uma garrafa de cerveja na mão. Eu sempre soube que o meu coração era dela, mas não sabia que o coração dela era meu desse jeito. E ela vai casar. Mas que merda generalizada é essa? Eu não posso continuar aqui. Essa música baixinha vinda do botequim está me deixando com vontade de chorar.
– Vamos sair daqui
Eu levantei com um pouco mais de determinação dessa vez para não correr o risco de cair de novo. Ela veio logo atrás de mim e seguimos andando em silêncio pela calçada. Assim que nos afastamos alguns passos do botequim o breu da noite nos alcançou. Os poucos postes de luz que tinham, deixavam enormes espaços escuros nas ruas. Raramente víamos alguma casa com a luz acesa.
Eu não sabia para onde estava indo, mas ao mesmo tempo sabia. Depois de cruzarmos a padaria do seu Carlos, o escuro parecia que ia nos acompanhar por mais tempo e ela pegou na minha mão. Entrelaçou seus dedos no meu e não falou nada. Olhei de relance e vi que seu rosto continuava virado para frente, mas ela também poderia estar me olhando de relance e eu não saberia, o breu tinha nos abraçado.
Fomos de mãos dadas, corações acelerados e pernas trôpegas até a nossa pedra de estimação. Ela ficava na beira do rio e por ser alta, dava para ver a água correr e o outro lado, onde tinha uma floresta completamente escura. Quando deitávamos na pedra víamos um céu que parecia pintura, daquele tipo de céu que não se vê em cidade grande. São estrelas mil e uma lua que chega a doer os olhos de tão iluminada.
– Você não pode fazer isso
– Fazer o que, minha Lari?
– Para começar, me chamar assim…e depois…falar essas coisas todas…meu coração não estava preparado
– E ela está preparado para isso?
Só podia ser algum tipo de brincadeira de mal gosto do destino. Aquele beijo de novo não. O gosto de cerveja nos lábios macios e molhados. Não tinha mais nenhum rastro de medo ou insegurança como antigamente, pelo contrário, agora ela tinha certeza, agora ela tinha vontade e eu diria que ela tinha até mesmo desejo. Senti quando ela moveu o corpo passando por cima de mim e me fez deitar na pedra. Senti meus dedos enrolarem em seu cabelo e senti quando deitou seu corpo em cima do meu.
Era como um conto de fadas que eu nunca tinha escutado o final e pela primeira vez estava descobrindo que o amor venceria no final. Ela parecia diferente, mas ao mesmo tempo igual. Ela estava certa do que fazia e me pareceu que ela já havia feito isso antes. Tive certeza que ela já tinha feito isso antes quando, com uma única mão, ela abriu o zíper do meu short e colocou a mão por dentro da minha calcinha. Eu nunca tinha pensado na Luana daquela forma, sempre foi uma coisa meio utópica e um pouco sonhadora, mas a realidade, cheia de tesão e com aquela vontade louca era muito mais deliciosa. Quando me dei conta, estava com meus lábios em seu seio e minha mão entre suas pernas. Éramos duas mulheres sabendo exatamente o que estávamos fazendo.
Passei quase dez anos da minha vida sonhando em como seria ter uma noite com Luana.
– Minha Lari, o sol já vai nascer…
Estávamos deitadas, abraçadas, ainda na pedra. Eu tinha cochilado e agora acordava com a voz dela. Só poderia ser algum tipo de sonho.
– Acho que você está me acordando de um sonho…
– O sonho não seria tão bom como foi, Lari
– Nesse ponto, você tem razão.
Levantamos, mas permanecemos sentadas olhando os primeiros raios de sol despontarem no horizonte. A floresta do outro lado do rio não parecia assustadora a essa hora.
– Vem comigo
– Para onde?
– Para a cidade grande ué, vem viver comigo, vem ser feliz comigo
– Minha Lari, eu sempre soube que você ia, sempre soube que isso aqui era muito pouco para você…mas aqui é onde eu quero ficar! E além do mais, eu vou casar
Parecia que eu tinha levado uma facada no peito. As lágrimas correram sem permissão, mas também sem alarde algum. Apenas respirei fundo e deixei que elas secassem no rosto. No fundo, eu sempre soube que eu e Luana nunca iríamos ficar juntas. Ela não teria coragem e eu nunca exigiria isso dela. Talvez, por isso eu a amo tanto, amo a ideia da Luana, amo os meus sonhos com ela e amo o talvez vivemos.
Depois daquela noite, ainda nos encontramos mais duas vezes antes deu ir embora. Uma delas, foi no mercadinho, que agora era dela e do marido, que foi quando conheci o Fernando. Ele tinha nascido na cidade grande, mas não gostava daquela agitação e como a Luana tinha dito, ele era um homem bom e a faria feliz, ou pelo menos, a faria bem. Feliz talvez seja um pouco demais.
A segunda vez que nos vemos, foi na madrugada do dia primeiro do ano seguinte. Eu havia passado a virada do ano com meus pais, mas elas foram dormir logo depois e eu ainda estava sem sono algum. Decidi ir andando até a nossa pedra e quando cheguei lá a encontrei junto com Raio.
– O que houve, Luana?
– Todo mundo dormiu cedo e eu estava sem sono e você?
– Os velhos não aguentam a noite, né…
Nessa noite não conversamos sobre nada, apenas ficamos olhando as estrelas e a lua. Também não esperamos o sol nascer para irmos embora. Eu estava sem relógio e tudo que posso dizer é que foi o tempo suficiente para meu coração acalmar dentro do peito e aquele nervosismo no estômago passar.
– Ei, vem cá
Ela desceu da pedra e veio me encontrar, mesmo depois de já termos nos despedido. Eu apenas virei e esperei ela chegar até mim. O sorriso que ela carregava nos lábios, eu nunca vou esquecer. Era travesso, daquela menina dezesseis anos, mas ao mesmo tempo era verdadeiro e real. Eu nunca havia visto um sorriso tão real como aquele.
– Meu amor é todo seu, minha Lari
Ela me beijou nos lábios. Sem mãos no meu short e sem pernas encaixadas, apenas os lábios grudados e as línguas dançando juntas. Os braços dela vieram para o meu pescoço e as minhas mãos ficaram em sua cintura. Não foi longo o beijo. Logo, Raio latiu e nós nos separamos. Ela sorriu mais uma vez, daquela forma real que só ela sabia fazer e seguiu acompanhada pelo seu cachorro.
No dia seguinte, depois do almoço eu voltei para casa e algum tempo depois recebi o convite do casamento dela e do Fernando. Não consegui ir à cerimônia, mas enviei uma pequena carta para ela.
Minha Luana, eu não poderia ir até o seu casamento. Estarei para sempre presa a imagem de nós duas nos beijando sob a luz do luar na nossa pedra. Meu amor é seu e seu amor é meu, mas as nossas vidas seguiram caminhos diferentes. Me perdoe pela falta, mas a sua Lari não poderia presenciar você ser de mais alguém que não minha.
Seja feliz, como eu sei que será, que eu também sou feliz.
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