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O Amor, Simplesmente – Capítulo final

O ano começou exatamente como elas tinham sonhado. Aliás, um pouco melhor. Depois de passarem a virada com as famílias na praça da cidade, seguiram para a praia com a promessa de um bom banho de mar e sete ondas puladas para que deixassem toda e qualquer negatividade no ano que se encerrara. Era hora de novos sonhos, novos objetivos e novas experiências. Era hora de desapegar e caminhar.

– Dani, você contou para a sua mãe que a Estella, além de ser sua belíssima namorada, será sua futura companheira de quarto? – Beta perguntou enquanto as quatro respiravam, já dentro do mar
– É uma ótima pergunta, Beta! E aí, amor? Você contou tudo tudinho? – Estella repetiu a pergunta enquanto puxava a namorada para mais perto
– Não. Não contei tudo tudinho, não. Achei que era muito para uma noite só! – Dani respondeu enquanto deixava seu corpo ser abraçado por Estella por trás
– E pretende contar antes da gente ir? – Tati falou enquanto abraçava o pescoço de Beta
– Com certeza. Aliás, acho que você conquistou a sogrinha hoje! – Dani olhava para Estella com o olhar mais apaixonado que ela tinha
– Deixa só ela saber o que eu faço com você na minha cama, quando eu pego você de costas e te jogo contra a parede… – Estella não estava acostumada a beber pro secco e as poucas taças que compartilhou na praça estavam a deixando um pouco mais quente que o normal, para sua sorte, o barulho que estava na praia não deixou que Beta e Tati escutassem. Mas não impediu delas perceberem o teor do comentário pela cara de Dani.
– Ei, vocês duas! Sem falar sacanagem na nossa presença, hein! – Tati jogou um pouco de água nas duas ainda abraçadas
– Aliás, precisaremos criar regras para o novo apartamento! – Beta complementou
– Sem barulhos! Por favor! Não aguento mais! – Dani foi a primeira a falar
– Já ouviu muita coisa delas, amor? – Estella perguntou, não muito satisfeita
– No nosso início, minha mãe só deixava eu sair com a Beta se a Dani estivesse junto – Tati rapidamente explicou
– Coitada da sua mãe, achava que a Dani que ia salvar você, e agora, tá aí ó…namorando ex professora – foi a vez de Beta implicar com o casal

Estella e Dani se desgrudaram um pouco para jogar água no casal que estava abraçado em sua frente. Em certo momento, as quatro estavam fazendo guerra de água enquanto a lua iluminava aquele mar enorme e escuro. Ainda ficaram mais algum tempo curtindo o vai e vem das ondas. Elas sentiriam falta daquela praia que era só delas, que já tinha presenciado e sentido tanta coisa. Foi ali que elas beberam e fumaram tantas vezes, foi ali que admitiram coisas, que se perdoaram e que se deram novas chances. Foi ali que elas prometeram nunca se abandonar e nunca se magoar. Foi ali que choraram, sorriram e esqueceram da vida. Aquela praia contava a historia delas, mas esse capítulo terminava agora.

A primeira semana do ano parecia ser eterna. Elas viajariam no dia 10 de janeiro, era uma sexta. Estella tinha que se apresentar no novo trabalho na segunda seguinte, dia 13 de janeiro e indo na sexta, elas teriam o fim de semana para organizar a maior parte das coisas. Então, já no dia 2, cada uma estava em seu quarto empacotando livros, vendo antigas fotos e sonhando com novas resoluções.

– Essa casa vai ficar tão vazia… – D. Ana entrou no quarto da filha enquanto ela arrumava as roupas
– Você ainda tem o pai, mãe! Vocês vão ficar bem? – Tati estava preocupada com a idade avançada dos seus pais
– Vai viver, minha filha. Assim como seu irmão fez, eu sei que você precisa ir
– Mas sabe que posso voltar a hora que a senhora quiser, não é?
– Minha criança, eu nunca vou querer que você volte
– Poxa, mãe. A senhora não vai sentir minha falta?
– Lógico que vou, mas também vou ter um orgulho enorme de ver você vivendo lá fora, nesse mundão imenso… – D. Ana já estava com lágrimas nos olhos
– Falando em orgulho, desculpe por tudo no ano passado. Não foi fácil ser minha mãe… – Tati já estava querendo pedir isso há um tempo, mas não tinha coragem
– Não fale assim. Ser sua mãe é uma benção de Deus. E Ele nunca disse que era um trabalho fácil. Além do mais, eu já aceitei que você é mais especial do que as outras pessoas, seu amor é especial, seu amor é só seu e só você pode entender ele. Eu só quero você feliz.
– Eu estou muito feliz, mãe. E vou ser muito feliz, eu prometo!
– Promete também que vem almoçar com essa sua velha aqui uma vez ou outra?
– Eu venho sim, minha velha preferida

E com um abraço apertado, Tati e D. Ana choraram um pouco mais e seguiram separando roupas, revivendo lembranças e planejando o futuro da menina, que já não seria mais tão menina assim. Era hora dela se tornar uma mulher e ir conquistar o seu lugar no mundo.

Quando Beta foi para a cidade pequena estava tão revoltada com a situação que não levou quase nada de roupas. Deixou muita coisa encaixotada em um quartinho de empregada que tinha no apartamento. Levou apenas o básico e depois comprou mais algumas coisas. Enquanto arrumava as malas, recolocou fotos e cartas bem antigas para voltarem para a cidade grande. Era um retorno, mas não era igual. Ela nunca mais seria a mesma. Aquele menina revoltada que só queria saber de fumar maconha, matar aula, beber e não fazer nada tinha morrido. Ela tinha Tati agora, tinha Beta e Estella também. Tinha uma vaga garantida na faculdade – tinha ido muito bem na prova – e tinha uma vida inteira para construir com a sua menina. Já estava até pensando em casamento. Seus pais, a acompanhariam até o apartamento para ver se estava tudo certo por lá, ela preferiu se despedir deles lá. Não queria chorar antes. Apenas lembrou de Di e Má e mandou uma mensagem avisando que estava voltando para casa.

Espero que Estella nunca veja essa minha camiseta. Dani estava escondendo uma antiga blusa do seu desenho preferido.

– Minha menina está mesmo virando mulher? – a mãe de Dani a pegou de surpresa da porta do quarto
– Ai, mãe. Que susto. A senhora não deveria estar no plantão?
– Deveria, mas pedi folga para te ajudar, posso?
– Tem certeza disso, mãe? – Dani sempre ficava preocupada com a vida financeira da mãe
– Tenho sim. Além disso, tomei uma outra decisão. Vou vender essa casa!
– Ah não, mãe! Porque isso? Essa casa não… – Dani estava extremamente emocionada ultimamente e já ia começar a chorar
– Essa casa é enorme para uma única pessoa. Eu vou vender e comprar uma apartamento de dois quartos um pouco mais perto do hospital! Você vai continuar tendo um quarto para você e eu vou poder sustentar com mais tranquilidade

A mãe de Dani tinha razão, era uma casa enorme para apenas uma pessoa. Além de ser super caro e super trabalhoso, poderia até ser um pouco perigoso. Dani pensou bem e achou que era uma boa ideia no final das contas. Além do mais, ela continuaria tendo seu quarto.

– Mãe, preciso te contar mais uma coisa – Dani falou enquanto colocava algumas roupas na mala
– Em outros tempos eu me preocuparia com gravidez, mas sei que não corre esse risco, então…

Dani riu um pouco nervosa, sentou ao lado da mãe e respirou fundo para criar coragem.

– Mãe, é sobre a Estella… – Dani começou sem muita certeza de como falaria todo o processo
– Ela vai morar com você, não é? – a mãe de Dani interrompeu e terminou a frase
– Ahn…mas…como a senhora sabe? – Dani estava chocada
– Primeiro de tudo: mãe sempre sabe. Segundo: você mesma disse que ela não dava mais aula na escola daqui e você fez questão de apresenta-la para mim e para todos. Terceiro: vocês estavam muito tranquilas no ano novo para quem ia se separa tão logo. Eu só juntei os fatos.
– Mãe, eu queria ser inteligente como você! – Dani falou fazendo as duas rirem
– Falar em inteligência, já tem notícias da faculdade? – a mãe de Dani não perdeu tempo
– Ainda não saiu o resultado final. Eu fui bem na prova, mas se não passar, já sei o que vou fazer!
– E sua mãe pode saber?
– Vou arrumar um trabalho meio período e estudar para passar no ano que vem. Nada de muito sensacional, mãe
– Minha última ordem como mãe é: não existe a possibilidade de você não fazer faculdade, ok?

A mãe de Dani vinha de uma família humilde e foi a única a conseguir ter uma situação financeira tranquila entre suas irmãs. Sabia da importância de uma boa faculdade para a conquista de um bom trabalho e de uma boa trajetória. Ela não abriria mão agora de que sua filha tivesse o mesmo destino.

Finalmente o dia 9 chegara. Quinta feira, a última quinta das três meninas em casa. A partir do dia seguinte era vida nova, sonhos novos e novos planos. Ninguém sabia muito bem como ia ser, só sabiam que seria assim.

Estella tinha passado de carro na casa de Dani para colocar uma parte de suas coisas na mala. Aproveitaram para conversar, mais uma vez, com a mãe de Dani e mostrar o quanto elas estavam apaixonadas e confiantes de que seria tudo maravilhoso daqui pra frente. À noite, os pais de Tati organizaram um mega jantar para as quatro meninas e suas famílias.

– Eu gostaria de propor um brinde – seu Paulo falou assim que todos estavam com sua taça de vinho
– Pai, sem discursos longos, tá? – Tati falou e fez todos rirem
– Deixa seu pai falar, Tati! Você vai sentir falta disso! – Estella interviu e foi aplaudida por D. Ana
– Eu só queria dizer duas coisas. Primeiro de tudo, obrigada aos pais da Beta por permitirem que as meninas ocupem o apartamento sem pagar aluguel. Nós prometemos ajudar sempre que for necessário na manutenção do imóvel.

O pai de Beta ergueu um pouco mais sua taça em direção ao seu Paulo e respondeu calmamente:

– É uma honra e um enorme orgulho poder proporcionar isso.

Seu Paulo então continuou:
– E segundo, gostaria de dizer que eu sempre soube que vocês seriam pessoas muito maravilhosas. Tati minha filha, Dani, a nossa filha emprestada desde sempre e Beta, nossa mais recente aquisição. Ah sim, agora tem a Estella também, que vou chamar de ‘a responsável do grupo’. Vocês me orgulharam todos os dias do ano passado. A maneira como encararam dificuldades, a maneira como se mantiveram unidas e a maneira como mostraram ao mundo que o amor é a força mais poderosa que há. Por essa e por tantas outras situações eu tenho certeza de que o mundo é pouco para vocês e que vocês vão tirar de letra tudo que há lá fora. Eu amo vocês e espero poder refazer esse brinde no próximo ano novo quando vocês vierem nos visitar.

Tati não esperou o brinde terminar, abraçou a barriga grande de seu pai chorando e agradecendo por tudo. Disse que o amava e o lembro do quanto ele foi importante em tudo na vida dela. Beta aproveitou para abraçar os pais também, Dani se agarrou à mãe e para sua surpresa, em vez de abraça-la, sua mãe puxou Estella e as três ficaram ali, juntas e conectadas.

– Olha, sei que todos estão emocionados, mas acho que é hora de comermos.

D. Ana tinha feito sua especialidade, escondidinho de camarão com arroz maluco. Era um dos pratos preferidos de Tati e uma unanimidade. E como sempre, não sobrou nada no final. No final do jantar, D. Ana mostrou que tinha feito um tabuleiro extra para elas levarem no dia seguinte. Imaginou que não teriam o que comer no fim de semana da arrumação e fez para garantir.

O janta já estava terminado. Agora tomavam o final do vinho e conversavam sobre nostalgias e novos planos. Era exatamente assim o momento que estavam passando. Na manhã de sexta, Estella iria com seu carro junto com Dani e sua mãe, a professora insistiu que a sogra fosse para ver o apartamento, os pais de Beta levariam as outras duas. D. Ana e seu Paulo resolveram não ir pois sempre ficavam super cansados da viagem. Era muito longe, mas combinaram com Diego, irmão de Tati, para ir até lá ajudar na mudança.

Estella foi a primeira a sair da casa de Tati e aproveitou para dar carona para a mãe de Dani até em casa, elas já estavam super bem entrosadas. Dani, Tati e Beta tinham convencido os pais a sair nesta noite. Disseram que precisavam se despedir da cidade de uma forma só delas. Apesar de D. Ana não ter gostado muito da ideia foi convencida pela filha.

Já passava de uma da manhã e como nenhuma das três iria dirigir no dia seguinte, virariam a noite sem problema algum. Seguiram juntas até a praça central, cruzaram o parquinho das crianças, fizeram a curva em umas árvores e sentaram na mesma pedra de sempre. O lugar que mais frequentavam naquela cidade. Era o ponto das confidências e das noites mais divertidas que já tiveram.

– Um brinde? – Beta então puxou detrás da pedra uma garrafa de vodka e dois baseados
– Aonde você arrumou isso? – Dani perguntou já pegando um dos baseados
– Você acha que ninguém aqui na cidade vende? Ingenuidade sua…

Abriram a garrafa, deram um trago cada uma. Esperaram apenas o efeito começar. Dani falou primeiro.

– Se a Estella descobrir isso, ela me mata amanhã
– Mata nada! Ela te ama – Tati respondeu rapidamente
– Ama mesmo. E eu também amo ela. Muito.
– Todas amam – Beta complementou dando um segundo trago

A noite não seria tão longa quanto elas imaginavam. A garrafa chegou ao final, praticamente junto com o sol e os baseados ainda estavam girando em suas mentes quando precisaram levantar das pedras e irem para a casa se arrumar para sair. As três de pé, de mãos dadas, fixaram os olhares naquela pedra e naquela praça e cada uma, em uma oração própria se despediu, agradeceu e pediu a benção daquele sol que nascia. Justamente naquele lugar que elas tinham nascido e renascido tantas vezes. Estavam indo para mais um renascimento. Era hora de ver outra vida, de viver de novo, de reviver.

– Eu to com um medo do caralho, mas se voces prometerem não me abandonar, tá tudo ótimo. – como sempre, Dani estava no meio e abraçou as duas pelo pescoço enquanto falava com lágrimas nos olhos.

Beta e Tati abraçaram a amiga, choraram juntas e em silêncio.

Ainda abraçadas, viraram de costas para a pedra e seguiram seus caminhos. Para sempre.