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MINHA ORIENTAÇÃO É SÓ MINHA

*Hoje o textinho não é conto, escrevi um relato pessoal e quis compartilhar com vocês. Hoje é dia da visibilidade lésbica, então é isso, fiquem com esse textinho. Espero que gostem. Beijos* 

Cresci em uma família religiosa. Fui várias vezes a igreja, pela manhã ou pela noite, dependia do dia, minha mãe me acordava, me vestia com meus melhores vestidos e arrumava meu cabelo. Ficava horas sentada naqueles bancos duros, algumas vezes prestava atenção, outras me ajoelhava no chão e desenhava nos bloquinhos que me mãe me entregava, eu só tinha que ficar quieta.

Cresci assistindo desenhos e filmes da Disney, principalmente aqueles que a mocinha achava seu príncipe. Brinquei de Barbie e tinhas meus bonecos bebês, a maioria do sexo masculino. Construí casas de brinquedo, andei com minha bicicleta rosa, cai com meus patins, destruí bebedouros em escolas, li a bíblia, cantei músicas evangélicas, escutei histórias de garotos da minha irmã e minhas primas.

Acreditei que iria encontrar meu príncipe encantado, fiquei envergonhada quando vi minha mãe assistindo “Imagine eu e você” pela primeira vez. Afinal, existia casais que não fossem compostos apenas por homens e mulheres? Depois que vi que realmente existia e era possível duas mulheres juntas, me disseram que era pecado e eu estava destinada a encontrar um rapaz que viveria para sempre do meu lado, seria o pai dos meus filhos e o homem da minha vida.

Li romances, assisti comédias românticas, assisti séries e de novo me deparei com um personagem que não era hétero, Eric Van der Woodsen, que participava de Gossip Girl, minha série preferida na época. Torci pela felicidade dele, quis que tudo desse certo. Fui crescendo e desenvolvendo minhas ideias e pensamentos, cheguei na pré-adolescência, achei que talvez tivesse um pequeno crush pelo meu melhor amigo, minhas amigas acabaram me pressionando a começar a namorar. Namoramos por um mês e eu disse que não estava funcionando para mim, tinha 12 anos na época e até hoje não acredito que reagi assim. Chorei horrores, me senti a pior pessoa do mundo, porque eu tinha feito uma pessoa sofrer. (Hoje somos amigos e ele está ótimo com a namorada dele)

Parei de ir à igreja, mesmo minha mãe insistindo várias vezes, não estava me sentindo confortável mais. Ela acatou meu pedido. Minha pré-adolescência continuou com minhas amigas se apaixonando e beijando garotos, enquanto eu demonstrava zero interesse pelo amor, gostava das histórias, de estudar e ensinar, ajudar os outros com seus problemas amorosos e ignorava completamente a minha paixão por alguém. Mas não fui imune por muito tempo, chegou o dia que me apaixonei, mas não pelo príncipe e homem dos sonhos. Ela estava mais para uma princesa.

Segui me apaixonando cada dia mais, ao mesmo tempo, que todos ao meu redor achavam que erámos apenas amigas, tirando aqueles mais atentos, que estranhavam a quantidade de ciúmes entre nós duas. E talvez, o grude também fosse demais. Enquanto permanecia amando, tinha pequenas crises de identidade e choro ao som de músicas como “Beautiful” de Christina Aguilera. Até hoje consigo me lembrar da menina deitada na cama, com aqueles fones de ouvido enormes e lágrimas caindo no travesseiro. Era difícil não ter ninguém com quem conversar sobre o amor, era difícil não acreditar que as pessoas poderiam entender meu sentimento.

Quando meus pais descobriram sobre meu relacionamento, rios de lágrimas caíram e castigos surgiram. Passagens da bíblia surgiram ao monte na cabeceira da minha cama, acusações explodiram nos meus ouvidos, afinal aquilo tudo era apenas influência das minhas amizades, aquele sentimento que eu sentia era apenas uma fase. Eles nunca entenderam que tudo que eles falavam, eu já tinha pensado sozinha, já tinha chorado escondida no quarto, já tinha pesquisado para entender. E tudo que queria deles era um abraço apertado e falas de compreensão.

Foram meses de mágoa e desentendimentos. Eu sabia que aquilo não era uma fase para mim. Em cada momento de paz era difícil sair um sorriso de mim. Conseguia lembrar de pequenos encantamentos que já tinha tido na vida, aquela amiga de minha irmã, aquela colega de classe que me deixava nervosa, pequenas coisas que me deixavam feliz e eu não entendia. Um belo dia, contei a minha amiga que aquela menina que sempre estava do meu lado não era apenas uma amiga, era mais que isso. A inocência e compreensão se espalhou pelos seus olhos e enquanto eu contava, chorava e ela me acompanhava. Me abraçava e dizia que estava tudo bem. Naquele momento eu entendi que nem sempre as pessoas iriam fugir de mim e me acharem louca.

Continuei na minha rotina de assistir séries, filmes, ler livros e fingir que estava tudo bem. Até que um dia achei no meu celular a história “O amor, simplesmente” de Mari Veiga, comecei a ficar fissurada pela vida das garotas da história, sai do celular e comecei a acompanhar toda semana um capítulo e sentir um calorzinho no coração a cada sentimento compartilhado. Vi nessa história que eu também queria alcançar pessoas com minhas palavras, também queria que as pessoas se sentissem acolhidas. Entendi que não era a única que escondia dos meus pais a tela do notebook quando Emily beijava alguma garota na série Pretty Little Liars ou era a única louca apaixonada por Santana, personagem lésbica de Glee.

Meus pais foram amansando e eu continuava escondendo meus relacionamentos, meus afazeres, meus textos, meus amigos, minha vida. Selecionava o que iria contar ou deixaria de contar. Passei mais meses namorando escondido, mesmo que eu soubesse que no fundo, eles sabiam e fingiam que não. Um dia, quando já tinha desistido de chorar e começado o processo de aceitação de mim mesma, minha mãe me perguntou se aquela minha nova amiga não era apenas isso, eu concordei e a deixei com seus pensamentos. Depois de muitos anos, entendi que se o processo de aceitação demorou para chegar em mim, era óbvio que demoraria para eles também.

O processo de aceitação demora para chegar em algumas pessoas e quando chega, é sensacional poder olhar para as pessoas que você ama sem ter que esconder um pedaço de você. É maravilhoso poder apresentar sua namorada nos lugares, e com todo orgulho, a dizer que ama e que vocês podem ser felizes igual aos contos de fada. A minha orientação sexual é parte da minha identidade, me segue nos corredores da faculdade, me guia nas minhas escolhas, me faz menos crítica para algumas ações e talvez, muito crítica para outras. Me acompanha nas ruas e nos meus trabalhos, dizer que amo uma mulher, que beijo uma mulher é uma coisa que está impregnada em mim.

Hoje, busco séries, filmes, livros, tudo ao meu alcance que tenha temática LGBT. Eu enalteço mulheres lésbicas e homens gays, defendo a causa, apresento minha orientação sexual em todos os lugares, porque isso se tornou uma identificação minha. E nunca deveria ter sido uma vergonha. 

 

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