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#MeuPrimeiroAssédio e infelizmente não será o último Não sabia se iria contar esta história, mas decidi compartilhar

Eu não ia participar desta campanha, pelo menos não com o meu próprio depoimento. Não que eu ache ser melhor do que alguém, apenas por um pouco de constrangimento e talvez vergonha por tudo que aconteceu. Mas, depois eu pensei: constrangimento? vergonha? de que? só se for de crescer em uma sociedade que valoriza o machismo e reduz a mulher a nada, não é mesmo? Por isso, decidi contar este caso.

Eu devia ter por volta de 9 anos. Morava em um condomínio de classe alta em um bairro quase nobre do Rio de Janeiro. Meus pais, médicos, podiam bancar uma vida que poucos tinham condições, mas mesmo assim, me ensinavam todos os dias o valor do trabalho. Minha escola ficava há poucas quadras de casa e minha avó acompanhava eu e minha irmã na entrada e na saída.

Até que comecei a praticar outros esportes em um clube perto, além do curso de inglês que fazíamos. Como minha avó não dirigia, meus pais se juntaram com outras mães das redondezas e contrataram uma espécie de motorista particular de todos. Um senhor que dirigia um corcel verde. Nunca vou me esquecer daquele carro e do cheiro que ele tinha.

Ainda estava descobrindo um pouco sobre a vida e achava que iria parecer mais adulta se andasse no banco do carona da frente, ao lado da motorista. Achava que quem andasse ali era sempre mais importante. Tanto fiz que convenci o motorista a me deixar andar ali quando o trajeto era pequeno. Depois de algumas semanas ele passou a me dar “carona” além dos trajetos acordados com meus pais para onde eu quisesse. Eu me achava um máximo.

Na primeira vez, ele só colocou a mão na minha perna e apertou de leve minha coxa. Lembro de como gelei no banco. Sabia que aquilo era errado, mas não conseguia entender melhor o motivo. Tinha decidido, comigo mesma, que não andaria mais na frente, afinal de contas, o erro inicial foi meu já que sempre me deram ordens para andar no banco de trás. Alguns dias depois, ele me ofereceu mais uma carona e eu, com nove anos, não soube dizer não. Quando segui para o banco de trás ele me falou algo como “pode ir na frente, não conto pra ninguém” e eu fui. Novamente ele colocou a mão na minha coxa, mas desta vez ele aproximou da minha virilha e a deixou lá por mais tempo. Me senti péssima e ainda não entendia o motivo real.

Eu sempre fugia dele, mas muitas vezes “dava o azar” de encontrar com ele e ter a carona oferecida. Eu tinha medo de contar para os meus pais porque pensava que a culpa inicial era minha, já que eu tinha pedido para andar no banco da frente. Além do mais, ele vivia na minha casa, tinha se tornado amigo da minha avó, que morava comigo, e sempre aparecia para um cafezinho a tarde. Parecia um fantasma atrás de mim.

A última vez que isso aconteceu, ele me ofereceu a carona de sempre. No meio do caminho, que não durava nem cinco minutos, mudou o trajeto. Na mesma hora que lembro de sentir meu estômago embrulhar. Era meio da tarde e não estava escuro, mas ele me levou para uma rua bem menos movimentada e parou o carro. Ele não colocou a mão na minha coxa e nem a apertou, apenas deitou o corpo e começou a beijar abaixo da minha cintura. Como eu estava sentada, ele não conseguia beijar exatamente entre as minhas pernas, mas tentou chegar o mais próximo possível. Pela primeira vez, tive coragem de pedir para que ele parasse e disse que estava atrasada para a minha aula.

Nunca mais aceitei carona e quando andava com ele não sentava na frente em hipótese alguma. Ele nunca mais insistiu, acho que ele tinha se dado conta do quão sujo e nojento tinha sido. E eu continuava sem contar para ninguém com medo de que brigassem comigo, já que andei na frente sem poder.

Alguns meses depois, me disseram que minha irmã iria começar a andar sozinha com ele para um novo curso que faria. Quase entrei em desespero ao saber que minha irmã poderia passar por aquilo e foi então que contei para ela, que contou para os meus pais e tudo veio a tona. Felizmente, alguns poucos meses depois, nos mudamos do condomínio e nunca mais o vemos.

Nunca tinha contado isso pra ninguém.