Search for content, post, videos

Gostava tanto de você – Cap 5

– Agora você me olha com essa carinha de cachorro sem dono, né, Maneco?!

Tentei levar na esportiva minha conversa com Maneco depois do escarcel que ele arrumou na redação e que resultou em nós dois desempregados. Assim que liguei para o delivery da boa e velha comida japonesa que adoramos, ele tocou a campainha. Abri a porta e me deparei com meu amigo e aquele seu olhar distante, torto como os passos que troca quando está bêbado. Fiz sinal para ele entrar e a primeira coisa que fizemos foi nos abraçarmos. Apertei o Maneco bem forte, tanto que uma lágrima vazou.

Já sentados no sofazinho que fica na sacada do meu AP, vendo a movimentação da cidade lá embaixo, tivemos uma conversa que nos acelerou como os carros que corriam na avenida.

– Você me perdoa, Tereza?

– E precisa perguntar? Não tenho essa opção, Maneco. Se quiser mesmo amá-lo, para sempre, terei que perdoá-lo diariamente, a cada tarde que eu esperar uma ligação e você estiver muito ocupado, a cada noite que eu ligar e você não atender porque está jogando videogame… Todos os dias, de alguma forma, meu amigo, a gente perdoa alguém que ama.

– Sabe, Tetê, às vezes penso que o álcool para mim é um abrigo. Quero beber para encontrar o edredon que minha mãe levou quando morreu, me entupo de cerveja para ver se a embriaguez traz de volta o café forte que meu pai fazia… E o meu irmão? Talvez um copo com vodka me faça experimentar de novo a sensação de brincarmos de bonequinho na varanda, ou pular o muro do vizinho para catar amoras…

– Calma, Maneco. Você sabe que não teve culpa…

– É claro que tive. Meus pais e o Hugo só morreram naquele maldito acidente porque fui infantil, agindo como se fosse um moleque de dez aninhos. Se bem que eu acho que nem uma criança seria tão egoísta quanto eu.

– Você me pediu perdão, mas já pensou em pedir isso a você mesmo?

– Não me perdoo, Tereza. Não me perdoarei nunca e vou beber todos os dias para me lembrar disso. Cada gota, cada vexame, servirá para garantir que eu jamais seja feliz novamente.

– Não seja idiota! O que você está dizendo é de uma imbecilidade sem tamanho…

Essas palavras foram como se eu tivesse batido com força em um dedo do Maneco ao fechar a porta. Por causa da dor, ele reagiu, gritando.

– Imbecil? Como é que você pode chamar a minha culpa de imbecil? Para o seu governo, ela foi a única coisa que me restou. A culpa é a minha saudade virada do avesso, é o resquício mais vivo de tudo aquilo que morreu.

– E vale à pena ficar vivendo de culpa?

– E ficar vivendo sem ela, vale à pena?

Não tive outra alternativa senão a de recuar diante desse gato e rato jogado com as palavras. Me levantei e, debruçada sobre a grade da sacada, contemplei o ir e vir em uma das avenidas mais movimentadas da capital.

– São como a gente, Maneco.
– O que?
– As pessoas.
– Hein?
– As pessoas, aquelas lá embaixo, dentro dos carros. Elas são como a gente.
– Não estou entendendo…
– Elas estão correndo, têm pressa de chegar, e por isso buzinam, como se o barulho as ajudasse a enfentar o frenesi do trânsito. E essas pessoas não se sentem culpadas por matar o silêncio, Maneco, por assassinar friamente o canto do pássaro que agorinha mesmo estava pousado aqui perto de nós, mas nem escutamos. A culpa é a sua buzina, o barulho que está sufocando um pássaro que canta dentro de você.

Sem palavras, meu amigo se levantou e ficou ao meu lado, debrunçando-se também na grade da sacada. Senti uma gota cair em minha mão esquerda e olhei para o céu, pensando: “Acho que vai chover”. Mas não. Era apenas uma tempestade de lágrimas que se formava no horizonte de um olhar culpado.

***

Calma, calma. Respira. Res-pi-ra! Cuidado para o coração não sair pela boca, coloca a cabeça no lugar, cuidado para a boca não sair pela cabeça, coloca o coração no lugar. Repetir para mim mesma essas frasesinhas chatas não está surtindo merda de efeito nenhum. Já registrei o caso na delegacia, será que tem como investigarem também o meu desaparecimento? Sim, porque eu também sumi na noite em que fui capaz de perder o meu próprio filho.

Voltei a fumar, acabei de puxar um cigarro do bolso, já faz algumas horas que estou sentada, sozinha, nesta praça. Na verdade, é o enésimo cigarro, já foi um maço inteiro num intervalo de tempo que não faço ideia de como calcular. Acho que já passou das dez da noite, saí da DP quando o dia ainda estava claro, mas to sentindo que minha vida vai ficar ainda mais escura por um bom tempo. Caralho, puta que o pariu, ESQUECI meu filho, ou dei para alguém, deixei em algum lugar, sei lá, estou avariada com essa merda de vida que só insiste em me foder.

Me lembro pouco do que, de fato, aconteceu. Me recordo que vi ngela quando estava a caminho do supermercado, estavámos na mesma calçada até que ela atravessou a rua, simplesmente para não bater de frente comigo. Como quem evita um trecho perigoso, ou um trevo onde deixaram alguma podre – eu. Fiz as compras e corri para o colo da vó Arlete. Estava bastante angustiada, chorei descontroladamente, até que as mãos enrrugadas da vovó me acalmaram. O perdão que ngela me nega abunda em forma de amor no coração de vó Arlete. Ela me pediu que dormisse uns dias em sua casa, falou, brincando, que a companhia de uma senhorinha quase octogenária me faria bem. Declinei do convite, tive medo de invadir sua privacidade, afinal, ela já me contara de seu romance com o senhor das aulas de tango.

Após me despedir de vovó, fui para casa, meio trôpega, como se vagasse sem destino, ou as ruas da cidade tivessem mudado de lugar. E, de alguma forma, eu tinha razão: a felicidade se mudara para sempre de endereço. Peguei um táxi para chegar mais rápido, mas, antes, pedi ao motorista para dar uma paradinha na farmácia e eu poder comprar umas cartelas de remédios, sei lá, um Lexotan para acalmar os ânimos, um comprimido para sarar a alma.

Logo que cheguei, dispensei Célia, a babá que cuida do Tiaguinho, meu filho de cinco anos. Não vou ser hipócrita de dizer que a maternidade é minha vida, que sonhei dia e noite com a hora do parto. É mentira. Minha gravidez foi um acaso, obra do destino, ou melhor, da Tereza. Com o abandono de Diego e o afastamento de ngela, confesso que o aborto me pareceu convidativo em um primeiro momento, mas faltou-me coragem para dar cabo da pequena vida que crescia dentro de mim.

Cheguei a marcar duas vezes, fui sozinha à clínica no subúrbio, no entanto, desisti… Seria solitária demais a minha existência sabendo que extirpei alguém que já era parte da minha vida. Mal sabia eu que, anos depois, isso aconteceria.

A Célia foi embora e o Tiaguinho, bom menino, ficou brincando no chão da sala. Amo meu filho, demais, só que não aprendi a demonstrar isso. Se fosse menina, ele devia se chamar Tereza, aquela desgraçada que eu nunca conseguirei odiar… Tiaguinho era um legado dela para mim, uma espécie de herança que ficou depois que nossa amizade morreu. Então, minha relação com a criança sempre foi confusa, de amor extremo e, ao mesmo tempo, de abandono, de mágoa… Era como se ele simbolizasse a traição de Tereza e o que ela foi capaz de fazer comigo, e o que eu fui capaz de fazer com a Ângela, e o que Ângela não me deu: perdão.

Olhando para o Tiaguinho, que empurrava o caminhão de brinquedo que vó Arlete lhe deu de presente, minha mente rateou e, por alguns instantes, vi Tereza e ngela sentadas no carpete da sala, como se ainda fossem crianças. Atordoada, corri para o banheiro e joguei água no rosto, não podia ser, era claro que eu estava enlouquecendo. Retornei e as duas permaneciam, sorridentes, como se brincassem com Tiaguinho. “Não, não, não, NÃO, NÃO! O que está acontecendo?”, me questionei, indo depressa até o balcão da cozinha, onde tinha deixado as cartelas de comprimidos. Peguei sei lá quantos e tomei, sem dó nem piedade. A água inudando minha garganta e organismo, juntamente com as drágueas, me dava a esperança de que essa enchente levasse embora os fantasmas de mim que estavam na sala.

Instantes depois, é óbvio que os remédios começaram a fazer efeito e eu quase não conseguia me manter de pé. A partir de então, as lembranças que me vêm são como fumaça: eu as persigo e elas se desfazem no ar, antes mesmo que eu possa tocá-las. Me recordo de ter colocado o Tiaguinho nos braços e descido correndo as escadas do prédio, enquanto repetia baixinho que eu não queria mais Tereza e ngela dentro da minha casa. Eu queria era espalhá-las na rua, queria dar essas recordações doídas a alguém, queria abortá-las… Que cena deprimente, olha onde eu vim parar, olha o que a culpa e a saudade podem fazer com uma pessoa.

Não sei o que fiz com Tiaguinho. Acordei no hospital com a vó Arlete ao meu lado, dizendo que tudo ficaria bem. Fiquei em choque quando ela me contou que, surtada, entreguei meu filho a alguém que passava pela rua, ou esqueci no banco de algum jardim, ou joguei em alguma lixeira, ou abortei depois de ter nascido. Se não fossem a serenidade e a força da vó Arlete, não sei o que teria sido de mim. Fiquei algumas horas em observação, tive alta e fui para a casa dela.

“Num disse que companhia desta velhinha aqui lhe faria bem? Agora, você não poderá escapar dos meus bolinhos de chuva”, brincou vovó quando entramos no táxi, tentando quebrar o gelo. Ela percebeu que meu olhar parecia um congelador.

– Nós vamos encontrá-lo, minha filha.
– Vó…?! Como iss…
– Não, Fernanda. Não pergunte nada. Respostas quase sempre doem mais do que perguntas. Vamos deixar o tempo nos perguntar e nos dar a resposta, deixar que a vida formule as indagações e também se encarregue de respondê-las. Já aconteceu, a solução agora é encontrarmos o seu filho.
– Mas onde vamos procurar o Tiaguinho?
– Veja bem, minha querida. Eu não disse que vamos procurá-lo; eu disse que vamos achá-lo.

Já se passaram três dias, os policiais disseram que ainda não têm pistas do Tiaguinho. Hoje, à tarde, procurei um psicólogo e comecei a fazer terapia, a Júlia é uma ótima profissional e me ajudou muito, mesmo em apenas uma sessão. Amanhã, o Maneco ficou de ir comigo a hospitais, IMLs, casas de acolhimento, instituições filantrópicas etc, a todos os lugares que possam me informar qualquer coisa sobre o paradeiro do menino. O menino que tentei abortar e não tive coragem; as lembranças de quem eu tentei perdoar mas não consegui; a culpa por ter jogado pela janela a mãe que tanto me amou. Nunca pensei que essa combinação seria tão explosiva.

sig_Carotta.png