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Gostava tanto de você – Cap 4

Obviamente, o escândalo que Maneco armou na redação do jornal foi um furo e tanto para nossas carreiras. No dia seguinte ao ocorrido, assim que cheguei no trabalho, Sônia me chamou na sua sala. Como já era de se esperar, nossa conversa quase descambou para uma notícia da página de fofocas.

– Olha, Tereza, você sabe que…
– Me desculpe interrompê-la, Soninha, mas, antes de mais nada, quero dizer que lamento profundamente o que aconteceu.

Áspera como uma parede recém-embolsada, a editora retrucou:
– É, minha querida, tenho certeza que sim. Mas lamentar não apaga o vexame do Manoel Carlos na recepção do prédio.
– Eu sei…
– Cortei um dobrado para evitar que veículos da concorrência e até adversários políticos usassem o escândalo como arma para nos prejudicar no mercado publicitário, junto à opinião pública etc.
– Imagino, Soninha.
– Olha, Tereza, você é uma ótima jornalista, e sabe do meu carinho e admiração pelo seu trabalho. No entanto, estamos no limite. Não podemos mais manter o Maneco como nosso funcionário.
– Peraí, Soninha, também não é para tanto.

Nesse momento, ela elevou ainda mais o tom da conversa.

– Quem sabe o que é ou não para tanto sou eu, Tereza. Não foi a primeira vez que ele veio trabalhar bêbado, fedendo a cachaça…
– Mas eu posso me responsabilizar por ele, garanto que isso não vai acontecer novamente.
– Tereza, aqui não é um hospital, nem uma clínica de reabilitação, muito menos uma instituição filantrópica. É num desses lugares que o Manoel Carlos deveria estar, e não aqui dentro. Lugar de bêbado é internado, dentro de casa, ou se ele preferir, caído em uma calçada quaquer. Até lamento, é triste ver um profissional como ele assim, mas não tenho nada a ver com o seu vício. Portanto, é claro que o escândalo não irá se repetir, porque ele será demitido assim que pisar novamente nesta redação.

Tentei dissuadí-la dessa ideia, argumentei, fiz de tudo, mas Sônia não arredou o pé e manteve a tônica um tanto quanto cruel de seu discurso. Foi quando, sem pensar muito, tomei uma decisão.

– Então, Soninha, se o Maneco vai embora eu também vou.

Minha chefe deixou transparecer levemente a sua surpresa, contudo, não se abateu. A maquiagem irretocável continuou brilhando em sua face, cujos músculos sequer se mexeram com o que eu acabara dizer.

– Bom, Tereza, não pense que vai mudar a minha opinião com essa chantagem.
– Não se trata de chantagem, Sônia. É apenas solidariedade. Mais do que um colega de trabalho, o Maneco é meu amigo há anos. Não vou deixá-lo sair sozinho. Já que é para colocar o pé na estrada, então, que façamos isso juntos.

Sônia esboçou uma risadinha, irônica. E, depois, foi fundo na acidez do comentário.

– Se vai mesmo colocar os pés na estrada ao lado do seu amigo, sugiro que se prepare, porque é provável que a caminhada do Maneco se dê em passos trocados, bem cambaleante… E o bêbado quando cai sempre derruba mais alguém com ele. Se prepare para a queda, Tereza.

Segurei a respiração, contei até mil e me levantei da cadeira, me segurando para não mandá-la à merda. Retribuí o sorrisinho, agradeci pelo tempo de serviço prestado e lhe dei um aperto de mão. Quando estava próxima à porta de saída, já com a mão quase na maçaneta, me escapoliram algumas palavras.

– Ah, Soninha, agradeço pelo seu conselho. E já que me deu uma dica, fica a minha para você: é melhor cair abraçado a alguém do que sozinha, como você, que cai e nunca tem ninguém por perto para sequer ajudá-la a se levantar.

Virei as costas, desci as escadas, peguei rapidamente algumas coisas pessoais que estavam sobre a minha mesa e saí da redação. Acenei um adeus para a Néia e rapei fora de uma só vez. Já na calçada do prédio, quando ia atravessar a rua para pegar meu carro no estacionamento, levei um susto ao ver quem estava do outro lado. Era o Renan, o professor em quem dei uns beijinhos há trocentas noites e que me ligou ontem mais de vinte vezes. Depois que cheguei em casa e me acalmei, retornei as chamadas e era ele, me chamando para sair. Como não tinha o menor clima, dispensei o convite. Enquanto atravessava a avenida, pensei: “Como esse cara descobriu o endereço do meu trabalho?”.

Quando cheguei do outro lado da rua, me fiz de surpresa, como se tivesse acabado de vê-lo.

– Oi, Renan! O que está fazendo perdido por aqui?

O danado nem sequer inventou uma desculpa.

– Oi, Tereza! Já que você não aceitou o meu convite para jantar ontem, resolvi vir encontrá-la aqui, no horário de almoço. Não ficou feliz em me ver?

Meio embaraçada, fiquei sem graça e respondi entre os dentes:

– Claro, claro que sim… Só não imaginei que você soubesse onde eu trabalho. Ou melhor, trabalhava…
– Não foi muito difícil descobrir, lembra que no nosso primeiro encontro você me disse o nome do jornal?

“Encontro? De que mané encontro esse sujeito está falando?”, perguntei a mim mesma, apenas assentindo para ele com a cabeça, que continuou falando de maneira esbaforida, acelerada, como se as palavras tivessem pressa e temessem perder o ônibus que passa no ponto da esquina.

– Que bom que você gostou desta visitinha surpresa! Já reservei uma mesa em um ótimo restaurante para almoçarmos…

Fiquei ainda mais encabulada.

– Hein, como assim almoçarmos?
– Ué, você não acabou de dizer que ficou feliz em me ver? Então, isso significa que você já aceitou o meu convite para almoçarmos juntos.
– Não, não, Renan. É melhor deixarmos para outro dia. Acabei de deixar esse emprego, estou com problemas pessoais… Sugiro que marquemos para um outro momento.

O homem não se deu por vencido.

– Pode parar, Tereza! Não aceito mais um não como resposta. A reserva já está feita, é um restaurante de comida italiana, tenho certeza que você vai adorar. Além do mais, se perdeu o emprego, é bom que a gente conversa, esparece um pouco e quem sabe até eu não te ajudo a conseguir um trabalho melhor?

Renan não percebia o quanto estava sendo insistente, chato… Era tipo um chiclete grudado na sola do meu sapato. Sem ver outra alternativa, acabei aceitando o convite, torcendo para que o tempo passasse rápido – às vezes a companhia indesejada pesa mais do que a solidão que nunca desejamos. Logo que chegamos ao restaurante, corri os olhos no cardário, escolhi qualquer coisa e engoli a comida. A conversa não fluiu, o papo estava mais para uma salada de alface murcha, ou para um um bife completamente sem tempero. A carne desse encontro, dura de digerir, parecia cheia de nervos e por mais que eu mastigasse não acabava nunca.

Quando, enfim, terminamos de almoçar, ele insistiu para que fôssemos ao cinema, o que acabou me tirando um pouquinho do sério.

– Renan, já disse que estou cansada. Por favor, me leve de volta para o estacionamento onde deixei meu carro. O filme fica para outra ocasião.
– Mas não é melhor aproveitarmos que já tenho duas entradas e irmos de uma vez?
– Por favor, Renan…

Vencido pelo cansaço, ele acabou engolindo essa farofa a seco. Entramos no carro e, no trajeto até o estacionamento, meu acompanhante me surpreendeu ainda mais, dando início a uma conversa que não acabaria nada bem. Em tom de indignação, ele iniciou:

– Sinceramente, não dá para entender as pessoas! Elas reclamam que estão sozinhas, que hoje em dia ninguém quer nada sério, que arranjar um bom namorado está mais difícil do que ganhar na loteria e por aí vai. Mas, quando conseguem, ficam desdenhando do outro… Vai entender, né?

Senti que ele estava me mandando uma indireta.

– Pois é, mas nem todo mundo está afim de namorar, ou de ficar com o primeiro que aparece apenas por conveniência, para escapar da solteirice como se ela fosse um trem em alta velocidade pronta para nos atropelar. Não é bem assim…

Como o restaurante ficava a menos de três quilômetros do estacionamento, não demorou muito a chegarmos. Foi quando já estavámos quase em frente ao park que o feijão queimou de vez.

– Mas e você, Tereza, gosta de namorar?
– Gostar eu gosto, claro, quem dispensa um bom romance, não é verdade? Mas acho que não estou em uma boa fase para isso…

Abruptamente, num rompante, Renan freou o carro e foi por um triz que não causou um grande acidente. Com a brecada brusta, quase rachei a cabeça no pará-brisas.

– Que é isso, Renan, você ficou maluco?

Como se a sua sanidade fosse um prato que tivesse acabado de esfriar, o professor começou a gritar dentro do carro.

– Que é isso digo eu, Tereza! Então, quer dizer que você só está afim de se divertir comigo, né? Eu não significo nada para você?

Assustada e surpresa, reagi.

– Do que você está falando, Renan? Nós saímos apenas uma vez, não temos nenhum compromisso…
– Ah, não? Você me beija, almoça comigo, e agora vem me dizer que não temos nenhum compromisso? Faça-me um favor, Tereza!!!
– Imaturo! É isso que você está sendo. Retornei a sua ligação ontem por cordialidade e hoje você já brota em frente ao meu local de trabalho, praticamente me obrigando a almoçar com você…
– Agora eu te obriguei, não é? Mas na hora que me viu veio logo abanando o rabinho, querendo um trouxa para pagar o seu almoço.

Ele estava completamente fora de si, bufafa como o pitbul bravo que a mãe de Fernanda tinha quando éramos crianças. Eu, que não tenho sangue de barata, tentei sair do carro, logo depois de ele dizer essa última frase. Os carros ao redor já buzinavam sem parar, o que aumentava a tensão e o caos onde eu estava. Quando apertei o botão para destravar a porta do carona, Renan latiu.

– Você não vai sair daqui assim, tá me ouvindo? Não vai!!!

E tentou trancar novamente as portas do carro, ao que eu fui mais rápida e consegui escapar, quase sendo atropelada pelo ônibus que desviava do automóvel parado no meio da rua. Alcancei meu carro na velocidade da luz, meti a mão na bolsa e, com sorte, logo achei a chave. Quando virei a ignição, percebi que Renan se aproximava, já dando socos na traseira do meu automóvel. Arranquei sem pestanejar e dei o fora de lá. Em instantes, meu celular começou a tocar e um frio percorreu toda a minha espinha. “É ele”, arrisquei, para em seguida respirar aliviada. Era o Maneco querendo marcar de ir a minha casa para se desculpar pessoalmente. Naquela hora, sofri por me lembrar da lucidez do Maneco, que evapora quando exposta ao sol da embriaguez; e sofri ainda mais pela lucidez do Renan, que se esvaiu por conta própria, sem precisar de nada para embriagá-la.

***

Não preciso dizer que me arrependo amargamente do que fiz com minha mãe. O gosto da culpa, à base de chá de boldo, está até hoje em minha boca. Os dias que se seguiram à minha festa de aniversário falida foram extremamente difíceis. Exagerando, posso dizer que vivi os meus próprios “meses de chumbo”, um projeto de recessão e de ditadura que se instalou no regime da minha casa, só que, em vez de um golpe militar, o que sofri foi um golpe do destino. A dor e a culpa foram os ditadores dessa época sombria.

Quando os enjoos começaram, pensei: “Não pode ser”. Mas foi. Eu, lésbica, sem qualquer sonho de engravidar ou de ser mãe, estava gerando uma criança em meu ventre. Fiquei grávida tendo jogado apenas uma única partida, levei um gol contra da sorte. Sim, a transa com o Diogo não durou apenas uma noite, o mal que Tereza me fez ejaculou, fecundou e deu frutos. Depois de descobrir a gravidez, meu ódio dela triplicou. E ao longo da gestação, mês a mês, o rancor foi crescendo, como se fosse o bebê que estava em minha barriga.

Maneco e vó Arlete foram os primeiros a saber. Não vou mentir: cogitei várias vezes, em silêncio, a ideia de abortar, mas faltou-me coragem para isso. Quando contei para o Diogo, ele se revoltou, disse que não queria saber, me jogou na cara que essa gravidez seria um modo de eu tentar prendê-lo (hein?!), já que, segundo Tereza lhe disse, eu era apaixonadinha por ele. Idiota, mil vezes idiota.

– Prefiro milhões de vezes a xota da sua mãe do que este seu pau pequeno!
– Mulherzinha apaixonada é foda!
– Apaixonada?! Só se for pela sua irmã, né? Eu sou L-É-S-B-I-C-A, ouviu? Grava bem aí nessa sua cabecinha oca: LÉSBICA! Sapatão, gosto de colar velcro… Entendeu?
– Você tá falando isso só para me atingir, Fernanda.
– Ah, você acha mesmo?

No meio da discussão, Letícia, a irmã dele, passou na sala, e infelizmente acabou sobrando pra ela.

– Se você acha que estou falando para provocar, olha só o que eu faço com essa gostosa da sua irmã!

Agarrei a menina, que devia ter uns 16 anos (mas já era bem gostosinha mesmo), e tasquei um beijão nela! Onde eu estava com a cabeça para fazer uma merda dessa, meu Deus… É claro que ela não gostou e me virou um tapão na cara, com toda razão. Diogo ficou ainda mais puto, a confusão aumentou e o resultado de tudo isso foi que nunca mais ouvi falar dele. Dizem que até de cidade mudou, para não conhecer a criança nem ter qualquer responsabilidade. Não vou ser hipócrita, no lugar dele eu teria feito a mesma coisa… Uma pena que não dava para mudar a gravidez de endereço.

Passados dois ou três meses, se aproximava o Dia das Mães. Uma semana antes, almoçando com vó Arlete, ela sugeriu que a data era o momento ideal para eu procurar minha mãe e pedir perdão, para fazermos as pazes. Desde que eu a expulsei de casa, ngela nunca mais me atendeu, nem retornou uma ligação minha. Me acostumei rápido à ideia de ser adotada, afinal, que mal há nisso? Boa filha da puta a mulher que me abandonou no mundo; boa filha da puta eu que escorracei a mulher que me amou e acolheu sem nem ao menos ter me gerado.

Achei a ideia da vovó excelente. Me passou pela cabeça: nada melhor do que o Dia das Mães para amolecer o coração da ngela, essa era uma de suas datas preferidas, almoçavámos juntas todos os anos desde que o papai morreu, saíamos para fazer compras, ir à praia… Era um dia nosso. Era. Era. Era. Nunca vou me perdoar por ter nos conjugado para o passado.

Aproveitei o sábado para comprar um buquê de flores, uma caixa dos chocolates que mamãe mais gosta e um vestido lindo. No domingo, bem cedo, escolhi uma roupa maravilhosa, botei algumas fotos nossas na bolsa e fui para o apartamento da ngela. Inicialmente, foi um custo para convencer Seu Zé, o porteiro, a me deixar passar. “Dona ngela proibiu a sua entrada no prédio”, disse, só me liberando depois de muita insistência e, é claro, de um agradinho (em dinheiro, diga-se de passagem). Por sorte, seu AP, o 303, não tem olho mágico. Subi contando que, pelo menos, a porta ela teria que abrir.

Toquei a campainha três vezes e foi só quando já ia para a quarta que ela abriu a porta, não totalmente, apenas o vão que a correntinha permitiu. Não consegui sequer falar oi. Ao me ver, ngela fechou imediatamente a porta. Batendo e tocando a campainha ao mesmo tempo, insisti.

– Mãe! Mãe! Mãe! Abra a porta, por favor. Só quero conversar um pouquinho com a senhora.

Ela abriu, mas novamente manteve a correntinha e só dava para vê-la através de um pequeno vão. Parecia que a ngela tinha medo de mim, como se eu fosse uma ladra e fosse lhe roubar mais uma vez a alegria.

– Por favor, mãe, me dá a oportunidade de pedir perdão.
– Perdão? Qual perdão? Ah, sim, o mesmo que eu pedi rastejando aos seus pés e você tacando minhas roupas pela janela, me escorraçando da sua casa como um cão sarnento…

Logo que começou a falar, ngela chorou. Muito.

– Não, Fernanda. Perdão está em falta hoje. Passa outro dia. Quem sabe você não o jogou no corredor junto comigo?!?! Quem sabe o perdão ficou lá no seu apartamento, naquele quarto onde me humilhei… O perdão ficou lá, ficou lá!!!

Também caí em prantos.

– Não, mãe… O perdão não ficou lá… Ele está aqui e é tão singelo que pode passar pelo vão desta porta. É tão sublime que basta a gente querer e ele brota, igual a essas lágrimas que escorrem agora… Perdão é lágrima, mãe. De dor ou de alegria, de esperança ou de desespero… Mas é lágrima. Perdão é lágrima.

– Vai embora, Fernanda! Vai embora! A filha que tive eu perdi… Ela caiu pela janela naquele dia… Minha lágrima não é de perdão, não. É de saudade.

E Angela fechou a porta. E eu fechei os olhos e chorei mais ainda. E coloquei os presentes em frente à porta, como se ali fosse um altar, o relicário onde eu reverenciava a memória da mãe que joguei pela janela. Desci correndo, meio desnorteada, e acabei esquecendo de deixar lá também o buquê de flores. Pedi ao Seu Zé que subisse e tentasse entregar em mãos a minha mãe, e eu ficaria ali aguardando enquanto ele subia. Minutos depois, o porteiro surgiu das escadas com o buquê de flores todo picado, amassado.

– Desculpa, Dona Fernanda, mas a Dona ngela não quis o seu presente. Mas ela mandou este bilhete aqui, oh. Toma.

Juntamente com o buquê destruído, Seu Zé me entregou um bilhete mal escrito, com letras tremidas e gotas que pareciam de lágrimas. Estava escrito: “Guarde essas flores e coloque no túmulo da minha filha, porque para mim ela morreu”. Você tem razão, mãe. Lágrima não é perdão; é saudade.

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