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Filme americano – Cap 5

Terminei a sexta super puta da vida. Além de estar super frustrada com o fato de que não teria um time de futebol feminino na escola, ainda por cima, briguei com a única pessoa que poderia me ajudar a mudar isso. Mas, eu não conseguia entender. Porque exatamente ela queria tanto ser minha amiga? Nós só nos conhecíamos a algumas horas. Coisa de louca.

Eu precisava esquecer a merda de dia que tinha tido e mandei mensagem para o João Guiherme. Ele era da minha turma, mas quase não nos falávamos no colégio. Ele era um tipo estranho de queridinho por todas as meninas. Pra mim, ele era só o Jogui – se fala Joguí, como ele me explicou tantas vezes – um vizinho que adorava me levar para a quadra onde os meninos mais velhos jogavam quando éramos crianças. Depois de um tempo começamos a jogar junto com eles e ele sempre me defendia dos grandalhões que não queriam deixar eu jogar.

Preciso de uma bola, vamos?
*celular vibrando*
Fico pronto em 15 minutos, me encontra na calçada

Me arrumei, saí do quarto e avisei ao meu pai que ia jogar bola com o Joguí e a minha cara devia estar realmente péssima porque ele só disse para eu ir e descontar toda a minha tristeza na bola. Que depois eu iria me sentir melhor e pensar melhor nas coisas.

– O que aconteceu? – eu e Joguí já tinhamos essas intimidades de pular as formalidades
– Minha cara está tão péssima assim?
– Não, mas hoje é sexta e normalmente você não joga essa hora
– Não tive um bom dia, precisava chutar alguém, ou alguma coisa…
– Espero ficar longe de você o resto da noite!

O resto do caminho permanecemos em silencio. Na quadra, alguns outros meninos da rua já estavam brincando de altinha. Quando nos viram, já começaram a separar os times. Eu e Joguí sempre ficávamos como adversários, já que éramos amigos demais. Diziam que se ficássemos juntos íamos ser imbatíveis. Mas naquela noite, ele fez uma pressão e acabamos jogamos juntos. Todos tinham razão, éramos imbatíveis.

Ele sempre sabia onde eu estava e eu sempre sabia quando ele ia tocar ou quando ele ia carregar a bola um pouco mais. Eu armava as jogadas e sabia a hora exata de tocar adiantado para que ele já chegasse chutando pro gol. Nosso time estava injusto. Ganhamos de uns 8×2. Foi o melhor placar do mês para mim. Saí de lá cheia de mim e com a certeza de que nasci para fazer aquilo da vida.

Paramos em um boteco no caminho para comprar um refrigerante e redescrever todas as jogadas sensacionais que fizemos. Estava definido, nunca mais deixariam nós dois no mesmo time. Como estava sem celular, não fazia ideia de que horas eram, até que alguém me avisou que meu pai estava vindo atrás de mim. Fiquei preocupada e andei um pouco em direção a minha casa com medo de ter acontecido algo.

– Pai, está tudo bem com o senhor?
– Está sim, filha. Tudo bem, João?
– Pode me chamar de Joguí, seu Diogo.
– Não consigo, prefiro ficar com João mesmo!
– O que o senhor veio fazer aqui, pai? – tentei perguntar sem parecer aquelas meninas babacas lá do colégio
– Hoje está uma noite bonita e eu resolvi respirar alguma coisa que não sejam provas e trabalhos, aí vim andando pela calçada
– Ufa, ainda bem! Achei que tinha acontecido algo
– João, acompanha nós dois em um sorvete?
– Se a Beca não se importar…
– Claro que não, hoje nós dois fomos a melhor dupla de ataque que essa cidade já viu! Nós merecemos esse sorvete!

E assim, os tres seguiram para a sorveteria que ficava do outro lado da quadra. Era simples, mas o sorvete que eles inventaram de chocolate preto e branco era maravilhoso. Já tinha até saído em uma revista na categoria “experimente”. Era espetacular mesmo.

Beca e Joguí refizeram todas as jogadas com os dedos na mesa do restaurante para mostrara para Diogo que por mais que não entendesse de futebol, acompanhava com tamanha empolgação todas as descrições e praticamente vibrava quando falavam dos gols. Ele adorava ver a paixão que sua filha tinha por aquele esporte. Era uma coisa diferente, que ele nunca presenciou antes. E então teve a ideia de colocar João Guilherme na historia do time feminino.

– João, a Beca já te contou do time feminino da escola?
– Ainda não, como assim, sua maluca? Me conta isso aí!
– Nem sei se vai existir, né…estamos com problemas!

Diogo e Beca resumiram a historia para Joguí, mas ele não tinha nenhuma ideia para recrutar meninas, só disse que iria pedir ao técnico Negão para ajudar nos treinos. Na verdade, eles nem sabiam, mas essa era uma forma de recrutar meninas, que por um acaso iriam aparecer por lá só para ficar por perto do mais queridinho da escola.

Após deixarem Diogo em casa, Diogo e Beca voltaram andando e conversando para casa. O pai pediu que a menina tivesse mais esperanças no time e perguntou como estava a relação dela com a Nina e se já tinham pensando em algo. Beca contou a historia da discussão via chat e como estava chateada por ter brigado com a única pessoa que poderia ajudar a ela. Ele falou para esperar até o dia seguinte e quem sabe, tentar novamente. Beca achou uma boa ideia e deixou que a sexta terminasse com aquele sentimento bom que ela estava.filme_5

– Preciso falar com você, está aí? – Beca deixou uma mensagem no chat de Nina
– Pra você? Não sei se estou – a resposta veio mais rápido que Beca esperava
– Desculpe por ontem!
– Por ter gritado comigo e me chamado de idiota mesmo eu tentando ajudar nós duas? Vou pensar…
– Você sabe que eu não gritei com você né? Estávamos em um chat online
– Você entendeu, não se faça de engraçadinha

E então, Nina saiu do chat. É, acho que Beca teria que esperar até segunda para falar com ela pessoalmente. Pelo visto, a enorme habilidade de Beca com a bola não refletia nem um pouco em sua habilidade social-digital.