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Filme Americano – Cap 121 – Final

Mais uma etapa que chega ao fim. Foram 121 capítulos acompanhando os altos e baixos dessas meninas que fizeram parte das nossas quartas. Espero que vocês gostem deste final e talvez, na semana que vem, tenhamos um capítulo de bônus! Fiquem com a ultima parte e obrigada pela maravilhosa companhia de sempre! 
Beca
A final do campeonato finalmente havia chegado. Agora, aqui, parada na porta do ginásio, consigo ouvir as torcidas gritando lá dentro. Também consigo ouvir meu coração se chocando contra a caixa de ossos que o protege. Eu ainda não sei se estou mais nervosa pelo jogo em si ou se por termos combinado de que iriamos contar para as meninas sobre o intercâmbio depois dele. Eu não queria entrar sozinha, por isso estou aqui, pacientemente, esperando minha linda namorada atrasada chegar. Nós sempre dormimos juntas em véspera de jogo, mas seu Diogo anda mais carente do que o normal e eu achei justo ficar com ele. Em falar nele, deve estar lá dentro ao lado do Negão. Ele não perderia esse jogo por nada.
– Esperando a Nina? – Não preciso me virar para saber que tenho Juca e Ju paradas ao meu lado, o nervosismo é palpável entre nós
– Ela já está chegando – respondo lembrando da mensagem que recebi há dez minutos atrás
– Carla também, vamos esperar aqui e entrar todas juntas – Ju me responde e eu acredito que Juca esteja mais nervosa do que eu imagino
– O motorista da Cami estava estacionando o carro quando saímos do taxi, já já chega aí – Juca comentou
Nós não falamos mais nada. Cami chegou logo em seguida e se juntou a nós. Trocamos apenas os cumprimentos básicos. Estávamos concentradas e nervosas ao mesmo tempo. Nina chegou logo depois, trocamos um selinho rápido e continuamos esperando Carla, que pelo que ficamos sabendo, estava bem perto. Já tínhamos formado uma pequena roda onde discutíamos sobre as jogadas e comentávamos sobre os pontos fortes e fracos do time adversário. Eu e Nina estávamos lado a lado encostadas em uma mureta baixa enquanto as outras três ficavam na nossa frente. Eu fui a primeira a ver Carla se aproximando e logo atrás dela, as duas pessoas que eu mais queria distância naquele dia: seus pais.
Ela vinha comentando sobre o fato de eles não estarem mais tão chatos quanto antes, mas ainda assim nós duvidávamos dessa evolução toda. Será que eles estavam ali para proibir ela de jogar? Meu coração acelerou demais e minha expressão denunciou o medo, a ponto de todas elas virarem na direção que eu estava olhando. Mesmo estando de costas para mim, eu tive certeza que Juca estava branca como a trave do gol. Ela parecia estar prestes a desmaiar para ser bem sincera. Eu vi quando a Juliana começou a se posicionar na frente da irmã como uma forma de proteção.
– Mãe, pai, melhor vocês irem procurando lugar, eu vou entrar com as meninas – Carla falou quando se aproximou de nós e ninguém ousou respirar mais fundo naquele momento
– Tem certeza, filha? Não quer entrar conosco? – a mãe de Carla tentou amenizar a voz, mas seu olhar em direção a Juca era frio demais para condizer com a fala mansa
– Mãe, eu vou entrar com o time, não faz sentido eu entrar antes delas! – Carla respondeu e eu tive vontade de bater palmas, mas eu ainda estava tentando controlar a respiração para não fazer muito barulho
– Nos vemos lá dentro então… – os dois saíram caminhando em direção ao ginásio e não olharam para trás.
Carla se aproximou de Juca, segurou o rosto da namorada com as duas mãos e deu um beijo demorado em seus lábios. Pelo sorriso na cara da minha amiga, a namorada dela devia estar mais assustada do que a Nina em cobrança de pênalti.
– O que foi gente? Está tudo bem por aqui? – Carla perguntou como se ela não houvesse sido o motivo das nossas caras de choque
– Amor, está tudo bem entre você e seus pais? – Juca quebrou o silêncio por nós
– Eles nunca foram extremamente carinhosos, então não tem muito do que sentir falta, pelo menos eles vieram ver a filha deles ser campeã, então acho que estamos encaminhando para o “tudo bem entre a gente”
A felicidade no rosto de Carla pela situação me fez respirar aliviada e acreditar que tudo ficaria bem no final das contas. Ultimamente eu vinha pensando muito em como as coisas ficariam no ano seguinte, mas eu me obrigava a lembrar que eu não era a mãe de ninguém e muito menos salvadora, então só me restava permanecer presente na vida de quem eu amava, mesmo que adistância, e isso eu faria com toda certeza com aquelas meninas ali que haviam se tornado a melhor parte da minha vida.
– Preparadas para serem campeãs? – Cami falou esticando a mão no meio de nós
Uma a uma, fomos empilhando nossas mãos para juntas, gritarmos o nome do nosso time e nos preparamos para a batalha. As Guerreiras chegaram e estavam prontas para acabar com quem viesse pela frente. Não importava se o time adversário era o atual campeão, nós podíamos vencer eles.
Entramos no estádio e assim que pisamos entre as linhas limites da quadra, a torcida enlouqueceu. A escolha de um ginásio neutro foi crucial pra gente, dessa forma, a torcida estava bem dividida. De um lado, os alunos do Colégio Santa Maria gritavam e balançavam bandeiras com as cores do time. Do outro lado, todas as torcidas se uniram em prol do Santo Amaro. O nosso uniforme tinha as cores do colégio, um vinho com amarelo. Todo mundo na torcida estava segurando pequenas bandeirinhas com essas cores, formando um enorme mosaico. Como assim elas sabiam as nossas cores? Nós não esperávamos por isso e eu falo por todas quando digo que foi uma enorme surpresa. Não demorou muito para olharmos para o banco de reservas, e lá estavam Diogo, Negão e mais dois professores sorrindo. Eles haviam equipado a torcida para que nós nos sentíssemos mais empolgadas. Com um gesto, Negão chamou a gente ao seu encontro e fomos obrigadas a nos juntar bastante porque o barulho das torcidas era quase que ensurdecedor. Os seis corações estavam saindo pelas seis bocas e nem precisávamos de palavras para saber que todas estavam uma pilha de nervos. Acho que até o técnico percebeu isso.
– Meninas, não esqueçam que independe do que acontecer aqui, vocês já são vencedoras. É o primeiro campeonato deste time e já estão na final… – o discurso de hoje era motivacional, mas a gente precisava de mais, então eu interrompi o nosso professor
– Mas a gente pode ser campeã, Negão! E é isso que nós vamos ser! Vamos entrar com tudo naquela quadra e arrasar! Esse título é nosso ou não é, time? – aumentei meu tom de voz juntamente com a minha crescente animação
Negão não ousou discordar de mim, principalmente quando viu todas as meninas pulando e gritando palavras de incentivo para nós mesmas. Nós havíamos nos preparado o ano inteiro para uma guerra nessa final e ela estava aqui, não seria agora que iriamos nos contentar com um prêmio de consolação por participação. Íamos com tudo atrás da vitória.
Na arquibancada, os pais de Carla pareciam estar se animando ao perceberem o carinho que tinham com nosso time. Antes mesmo do apito inicial, eles já seguravam bandeirinhas igual a todo mundo e esboçavam alguns gritos de incentivo junto com a nossa mais recente torcida. Não muito distante deles, também no primeiro banco, Regina torcia animadamente por sua namorada. Cami estava feliz, animada e esbanjava simpatia quando estava com a gente. Nem parecia que tudo aquilo havia acontecido no início deste mesmo ano. Logo pela manhã, recebi uma mensagem de Joguí me desejando boa sorte, dizendo que não poderia ir ao jogo porque estava de recuperação e sua mãe nunca deixaria ele sair de casa sábado de manhã. As coisas pareciam estar entrando nos eixos, finalmente.
O juiz está no meio da quadra. Chegou a hora.
Nina
Eu sempre acreditei que a posição de goleira era a melhor de todas. Enquanto todo mundo falava o quão injusta ela pode ser – e realmente pode – eu sempre pensei que era muito mais difícil estar na linha e ter que estar pronta para todos os tipos de situação. Pelo menos aqui, eu sabia que o único objetivo alheio era fazer a bola passar por mim, mas hoje não. Hoje, nada passar por mim. E no meu caso, ainda tinha um bônus de estar no gol, eu podia apreciar minha linda namorada correr de um lado para o outro enquanto ela arrasava. Era a melhor em quadra e eu nem precisava do apito inicial para saber disso. Hoje é o dia que nós iremos mostrar para todo mundo aqui o que é um futebol de verdade. De quebra, ainda vamos mostrar para os olheiros americanos que eles vão levar duas craques juntas e que serão uns idiotas se não nos usarem. Juiz apitou. Chegou a hora.
O time do Santa Maria era muito bem preparado e sua posição estratégica era extremamente ensaiada. O ponto negativo é que ficava difícil infiltrar no esquema, já que elas era rápidas nos toques e ágeis no posicionamento, mas elas não esperavam que nosso time tivesse estudado cada jogo delas e que já havíamos decorado todos os pontos fracos, entao não demorou muito para que Carla interceptasse um passe no meio de campo, rolou para Cami que avançou com velocidade e bem perto da grande área, desviou da zagueira delas – que era um pouco fraca quando levavam para a esquerda – e chutou em direção ao gol. A mão da goleira tocou na bola por pouco e conseguiu evitar o que seria um belo gol. A torcida foi a loucura e eu comecei a duvidar que aquele estádio pudesse aguentar tanta gente pulando e gritando ao mesmo tempo. As adversárias gritaram umas com as outras. Parece que elas estavam nervosas mesmo.
Eu vi quando Beca chamou as meninas do time antes de bater o escanteio. Se bem a conheço, ela estava falando para mantermos a calma e aproveitar do nervosismo do time adversário para criar nossas jogadas. Ela era mais do que uma puta jogadora, ela era uma estrategista, capaz de ver os espaços onde ninguém mais percebia. Eu amava essa capacidade que ela tinha de ser várias em uma só. Como não ama, Beca? Eu me perguntava isso todos os dias e sempre chegava à conclusão de que era impossível não amar aquela menina.
Carla foi até o canto da quadra, pronta para bater o escanteio. De canto de olho, eu vi os pais dela na arquibancada sorrindo de orgulho ao verem a filha com a bola nos pés. Talvez o futebol fosse mais transformador do que as pessoas imaginam. É só um jogo, eles dizem. É uma religião, eu vos digo. Bola em jogo novamente. O time do Santa Maria tentava se organizar para avançar as jogadas, mas nosso meio de campo estava parecendo uma verdadeira muralha. Juca de um lado, Carla do outro e Cami no meio. Quando alguma bola passava por elas, ainda tinha Juliana mais atrás pronta para não deixar que nada passasse. O jogo estava truncado, parado e travado. Isso estava deixando os dois lados ansiosos e nervosos, mas nós já esperávamos por isso. Intervalo.
Estávamos reunidas perto do Negão ouvindo algumas instruções. Os pais de Carla haviam saído da arquibancada e agora conversavam com Diogo um pouco mais próximos do banco de reservas. Nós estávamos muito concentradas para tentar entender o motivo daquela mudança então apenas continuamos fazendo as coisas de sempre. Assim que o professor terminou de nos passar as instruções, Beca veio para o meu lado, me deu um beijo rápido e Carla fez o mesmo com Juca. Reg, que também tinha levantado da arquibancada, fez o mesmo com Cami. Parecia alguma provocação, mas a verdade é que isso já era tão natural que não percebíamos nada. Regina, como não era familiar de ninguém e nem do colégio, teve que voltar para o seu lugar logo. Nós ainda ficamos reunidas na lateral um pouco mais. O clima estava tão bom entre nós que ríamos de algumas piadas. Nem parecíamos que estávamos no meio de uma final de campeonato. Juiz no centro de novo. Etapa final.
Bola rolando e o time do Santa Maria mostrou que veio com tudo para tentar resolver o jogo rapidamente. Nosso time foi pego de surpresa e rapidamente a bola estava bem próxima da minha área. A troca de passes era rápida, mas fui mais rápida do que elas e assim que elas chutaram para o gol, meu olhar já estava preparado e eu lancei meu corpo para o lado, agarrando a bola com as duas mãos. Não dando chances para o rebote e nem cedendo o escanteio. A nossa torcida pulou e gritou e eu sorri abertamente assim que vi o olhar de orgulho de Beca na minha direção. Rolei a bola para Carla, que estava na minha lateral. Gritei com o time e chamei todas para voltarem a realidade.
O segundo tempo foi mais agitado do que o primeiro, mas ainda estava truncado, preso e sem muitas chances de gol. Além do chute que eu defendi no início do segundo tempo, nós demos mais dois chutes na direção do gol, um deles até bateu na trave, mas foi para fora. Elas chegaram mais umas duas vezes no gol, mas não conseguiram ter muito espaço para um chute certeiro. Em um deles, chutaram direto para fora e no outro, Juliana desviou e a bola veio direto para as minhas mãos. O nervosismo em quadra parecia crescer ainda mais. Era lateral para o nosso time e Juca estava com a bola nas mãos. O juiz chamou a atenção e antes de autorizar a cobrança, avisou que faltavam cinco minutos. Como nesse ginásio não havia um painel grande contando o tempo, eles faziam isso. Juca cobrou e agora a bola estava nos pés de Cami bem no meio de campo. Ela não tinha marcação e aproveitou para parar o jogo e analisar a situação. Beca estava mais a frente, mas extremamente marcada. Juliana atrás ajudava a proteger a bola. Carla estava na lateral, um pouco distante de Cami e Juca do outro lado ficava mais perto. Cami fez um gesto para que Juca avançasse e foi isso que ela fez. Assim que correu, a marcadora que estava próximo a ela, correu junto. Do outro lado da quadra, a marcadora de Carla achou que ela também havia corrido e acabou a deixando livre. Agora a bola estava nos pés de Carla na lateral. Cami avançou pelo meio, tentando tirar a marcação de Beca. Carla continuava a caminhar com a bola pela lateral e já estávamos próximas da área de ataque.
Beca e Cami se movimentavam no meio da área procurando espaço para um possível cruzamento. Carla olhava para as jogadoras, mas a única que estava desmarcada era a Juliana na zaga. A marcadora que havia falhado no lance anterior veio com tudo para cima de Carla e com uma classe invejável, nossa lateral apenas rolou a bola por baixo das pernas dela, a deixando para trás e avançando ainda mais em direção ao gol adversário. A torcida acompanhava o lance com animação e gritava o nome do nosso time sem parar. Aquele som parecia entrar pelos meus ouvidos e ritmava as batidas do meu coração. Eu nunca havia sentido nada igual na vida. Minha audição parecia ainda mais apurada e eu podia ouvir a respiração de cada uma das componentes do meu time. Carla se posicionou e cruzou a bola para a área. A trajetória parecia estar em câmera lenta. Pude perceber as gotas de suor no ar que saltavam dos corpos molhados pelo calor e pelo exercício. Avistei o espaço que havia entre Cami e sua marcadora e sabia que era o suficiente para que ela cabeceasse direto para o gol. Como se nada pudesse interromper a bola, o choque com a cabeça de Cami foi inevitável e a trajetória mudou bruscamente, se encaminhado para o canto do gol. Meus olhos desviaram momentaneamente para a goleira e pela distancia que ela estava do canto do gol, eu acreditei que não seria possível ela chegar, mas o futebol tem dessas coisas estranhas. Com as pontas do dedo, ela conseguiu desviar a bola e nos cedeu mais um escanteio. A torcida foi a loucura.
Provavelmente aquele seria o último lance do jogo. Após isso, iriamos para os pênaltis. Seria o meu momento de brilhar, mas tambem poderia ser o meu momento de falhar. Se eu pudesse escolher, preferia que não fossemos para os penaltis, mas eu estava pronta para ser campeã, custe o que custar. Carla se posicionou para bater o escanteio, mas antes que ela pudesse correr, eu vi a Beca correndo e pedindo para trocar de lugar com ela. Minha namorada não é muito alta e provavelmente acreditou que ela não seria de muita utilidade na área. Instintivamente, eu andei até o meio da quadra. Juliana tambem estava na área disputando espaço com todo mundo, me deixando como a ultima pessoa a defender o nosso gol. Minha namorada olhou para mim, sorriu disfarçadamente como se apoiasse a minha atual posição. Ela tomou distancia e sem pestanejar, cobrou perfeitamente na cabeça de Cami, a mais alta do nosso time. Novamente, a trajetória estava em camera lenta e eu pude ver a poeira levantada quando a bola bateu no travessão e veio em minha direção. Meu corpo não mais me obedecia. Apenas parei a bola com meus pés, levantei os olhos e todas pareciam extremamente marcadas. Avistei o canto do gol livre e com uma confiança que eu não sabia que tinha, deixei que meu coração batesse na ponta da chuteira e acertei a bola com o peito do meu pé.
O ar parou, a torcida silenciou, meu coração errou e minha boca se abriu. Logo em seguida, a torcida explodiu, meu coração acelerou, meu ar voltou e meu sorriso surgiu. A rede balançava, nós pulávamos abraçadas. Eram seis corpos unidos formando uma única guerreira. Nós éramos a guerreira e havíamos vencido a batalha final. O barulho que tomou o ginásio era ensurdecedor e mal podíamos ouvir o apito final do juiz após o gol. Nós estávamos ficando especialistas em finais de jogo dramáticas. Nos abraçamos e choramos juntas. Era o momento de filme americano que nós estávamos aguardando.
Narrador
Não havia ninguém no mundo mais feliz do que aquelas seis meninas. Depois da cerimonia de premiação que a organização do campeonato fez, elas saíram juntas de dentro do ginásio carregando o troféu nas mãos e sendo seguidas por sua mais recente adquirida torcida. Era óbvio que elas marcariam história naquele campeonato. O time estreante, que chegou sem muita expectativa, desbancou o grande campeão na final e com gol de goleira. Elas nasceram para fazer história e começaram por ali. Os gritos de Gue-rrei-ras não parava e elas não paravam de sorrir.
Assim que a festa diminuiu, as seis campeãs foram ficando sozinhas em meio ao estacionamento. Beca e Nina sorriam abertamente, mas ao mesmo tempo não conseguiam esconder um nervosismo novo, de quem estava prestes a contar uma novidade não muito agradável para o resto do time. Carla estava agarrada em Juca e pouco se importava com a presença dos pais no ambiente. Regina se juntou ao grupo e agora estava beijando os lábios de Cami sem parar. Juliana estava agarrada ao pescoço da irmã e a dividia com Carla. Todas riam e continuavam relembrando os momentos do jogo.
– Gente, peraí, a gente precisa conversar com a organização…ouvi falar por aí que gol de goleira vale dois hein! – Juliana falou e mais uma vez todas gritaram e celebraram
– Mas se não fosse aquele lance lindo da Carla, o drible sensacional e o cruzamento ainda mais perfeito, não teríamos nem escanteio para fazer o gol – Juca falou enquanto babava de orgulho na namorada
– Amor, você é imparcial, não conta – Carla ainda ficava vermelha com os elogios de Juca e beijou os lábios da namorada sem receio algum, apenas esbanjando felicidade
– Meninas… – Beca chamou enquanto fazia barulhos com a garganta, tentando chamar a atenção das duas, mas nada as incomodava naquela bolha de paixão
– Carla… – a voz grossa de seu pai sobressaltou o casal que rapidamente trocou o sorriso pelo nervoso estampado
Não demorou muito para que todo o time se posicionasse ao lado de Carla e Juca. Elas não estavam sozinhas nessa briga e mesmo não sendo o melhor momento para isso, elas estariam prontas para enfrentá-los.
– Filha… – a mãe de Carla começou a falar e o tom de voz não foi nem um pouco agradável
– Mãe, pai, essa é a Juca, minha namorada, sei que vocês já a conhecem, mas eu ainda não havia apresentado corretamente – a voz de Carla havia tomado uma nova proporção e parecia que haviam forças escondidas que despertavam naquele momento
– Prazer, senhor e senhora Castro. A Carla vive falando de vocês – a confiança na voz de Juca e o sorriso que ela apresentou para eles só não foi melhor do que vê-la abraçando a namorada pelo pescoço
– Prazer Juca – a mãe de Carla respondeu sem muita animação, claramente estava apenas sendo educada – Carla, vamos?
– Mãe, nós vamos para a casa da Nina fazer um churrasco para comemorar, eu vou mais tarde pra casa, ok?
Os pais não conheciam aquela menina que respondia a eles e se portava tão confiante. Eles não gostavam daquele namoro, mas não podiam negar que era lindo de ver aquela menina se tornando mulher bem debaixo de seus olhos. Talvez nenhum pai esteja pronto para ver sua filha se tornar mulher, mas em uma situação dessas, é melhor sair da frente e apenas olhar com orgulho porque quando uma menina decide virar mulher, não ha nada que a impeça.
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– Meninas, eu proponho um brinde – Beca levantou o copo e todas a acompanharam – esse ano foi o melhor da minha vida. Eu achei que seria só mais 365 dias que eu passaria sonhando com coisas que nunca aconteceriam e buscando algo que eu não sabia o que era. Mas aí, voces apareceram. Este time apareceu e mesmo com todos os problemas que tivemos no início, muitos altos e baixos, conseguimos enfrentar cada um deles, nos tornamos pessoas melhores e fomos melhores uma com as outras. Nos apoiamos quando necessário e também brigamos quando foi preciso. Mas de tudo isso, além de sermos campeãs no campeonato, só mostra que podemos ser campeãs na vida tambem, porque lá fora, a vida real não vai dar a bola no nosso pé na cara do gol. As vezes teremos que jogar machucadas, as vezes teremos que ser goleiras mesmo quando não somos e as vezes temos que encarar uma disputa de penaltis sem esperar. Não importa, nós estamos prontas para isso. Em qualquer lugar do mundo, nós seremos campeãs e estaremos sempre unidas. – todas bateram os copos e beberam um gole, mas Beca continuou de pé e olhou para Nina, que entendeu o recado e se juntou a ela – agora, após reiterar o quanto vocês foram especiais na minha vida este ano, eu e a Nina gostaríamos de falar uma coisa. Talvez algumas tenham percebido algo de diferente em nossas conversas, talvez tenham visto o Negão conversar com a gente separadamente e talvez tenham estranhado o fato de que quase nunca falamos sobre o futuro do time. Bom, assim que o ano escolar acabar, vamos arrumar nossas malas e viajaremos para os Estados Unidos. Os pais de Nina a obrigaram a fazer umintercâmbio, já que ela não havia escolhido a faculdade ainda e como eu não consigo ficar longe dessa minha menina, eu procurei maneiras de ir pra lá também. Acabei me inscrevendo em uma seleção para um time de futebol em uma renomada escola americana e acabei passando. Vou estudar lá e vou fazer parte do time deles.
O silêncio se tornou levementeincômodo quando Beca terminou de falar. Ninguém respondeu, ninguém bebeu nada dos copos e os olhares estavam fixos nelas. Cara parecia que ia chorar, já que estava prestes a perder sua única amiga que ainda restaria no próximo ano. Cami e Regina pareciam tristes e Juliana parecia que estava prestes a explodir. Juca estava neutra, não dava para saber muito bem o que ela estava pensando.
– Então o guerreiras acabou? – Juliana falou com um pouco de nervoso na voz
– Eu vou ficar sozinha ano que vem… – Carla constatou e deixou que uma lágrima caísse
– Mesmo depois de tudo, vamos sentir falta de vocês – Cami e Regina pareciam prestes a chorar também
– Gente, vamos lá…o Guerreiras não vai acabar nunca porque ele é muito mais do que um time, ele faz parte de nós e de quem nós somos, seremos pra sempre guerreiras. Amor, você nunca estará sozinha! Eu estou aqui, Ju, Cami e Reg também! Além do mais, você vai ser a estrela do terceiro ano, campeã de futebol e com as melhores notas ainda por cima. Nós vamos sentir muita falta de vocês meninas, mas temos certeza que não importa para onde forem, nós estaremos sempre juntas aqui dentro – Juca apontou para o peito e imediatamente todas riram.
As lágrimas não precisavam mais ser controladas e os copos voltaram a se chocar em um brinde que significava mais do que uma simples comemoração pela final do campeonato. Era um brinde pela vida. Um brinde a amizade.
Um brinde a todos os momentos de Filme Americano que elas ainda passariam juntas.