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Filme Americano – Cap 120

Narrador

O resto das semanas passaram como um jato. Carla e Juca se viravam como podiam para conseguir manter o relacionamento. Os pais da mais nova insistiam em não permitir o relacionamento, mas também reduziram as implicâncias e as infinitas perguntas que sempre faziam durante o jantar e durante qualquer oportunidade de interrogatório. O mais importante para eles, as notas, permaneciam no topo e justamente por isso, eles não tinham argumentos válidos para usar. Para Carla, essa leve mudança de comportamento poderia ser encarada como uma evolução e talvez ela estivesse criando esperanças de que tudo ficaria bem no final das contas. Talvez ela estivesse certa em não desistir.

Em compensação, Juca parecia cada vez mais insegura e com medo dessa relação. Ela já tinha tido experiências com pais que não aceitavam e em todas elas, ela saia machucada porque a outra menina não estava disposta a enfrentar tudo e todos para ficar com ela, até o momento que ela decidiu que não queria mais enfrentar nada nem ninguém por alguém. Mas aquela menina morena, com gestos tímidos e olhar sonhador havia realmente fisgado seu coração de uma forma nova e diferente. Juca estava deitada em sua cama pensando no futuro que ela gostaria de ter com Carla. Conseguia pensar em morar com a menina, talvez casar e construir uma vida inteira com ela. Seus pensamentos estavam tão longe que ela se assustou quando sentiu o celular que estava ao sue lado vibrar com a chegada de uma nova mensagem. Ei, o que a minha namorada está fazendo? Juca ria novamente olhando para o aparelho. Ela não sabia se era porque estava justamente pensando em Carla ou se era porque não conseguia segurar a alegria quando a outra a chamava de namorada. E aí todas as inseguranças e dúvidas sumiam e davam lugar aos pensamentos mais lindos que Juca poderia ter.

As duas passavam as tardes conversando por mensagens até os pais de Carla chegarem em casa. A partir deste momento, a menina evitava ficar com o aparelho em mãos porque sabia que sempre sorria bobamente para ele e sabia tambem que isso irritava demais seus pais e ela não queria atrair mais problemas. Finalmente estavam entrando em uma zona de paz depois de tanta briga nos últimos meses. O jantar daquela terça feira estava tão calmo, que Carla achou que poderia ir além e convidou seus pais para a final do campeonato que aconteceria no fim de semana seguinte. O último antes das provas finais.

– O colégio permitiu uma final de campeonato logo antes das provas finais? – a mãe de Carla andava amarga demais
– Na verdade, as datas são escolhidas em uma comissão com todas as escolas participantes, a nossa tem apenas um voto, então deve ter perdido na hora da escolha – Carla comentou despretensiosa já que andava bem tranquila com os estudos
– E como estão as suas previsões de estudos para a próxima semana? – O pai perguntou se referindo ao esquema que Carla sempre faz antes de grandes provas
– Na segunda mesmo eu termino de estudar toda a matéria e a partir de terça serão as revisões necessárias. No meu planejamento estarei com tudo terminado na sexta, tendo o sábado e o domingo para mais uma revisão nos assuntos mais importantes – Carla respondeu firme sabendo que isso quebraria os dois que mal a olhavam durante a refeição
– Que bom – sua mãe se contentou com essas duas únicas palavras
– Eu gostaria muito que vocês fossem assistir ao jogo. Nosso time tem chances reais de ser campeão e eu gostaria que vocês estivessem lá para assistir isso.

O silêncio dos dois só não foi pior do que a troca de olhares deles. Carla sabia que eles não aprovavam muito essa participação dela no time, mas que resolveram deixar sob argumentos de que isso ajudaria perante as faculdades. No fundo, a menina gostaria que eles vissem ela jogando, porque ela sabia o quanto era boa no futebol e o quanto ela gostaria que eles sentissem orgulho dela em algum momento, já que ser a melhor da turma por toda a vida não parecia o suficiente para eles. Ela terminou sua refeição e não esperou por respostas e nem por confirmações dos dois. Desconfiava que eles não iriam aparecer por lá.

A sexta de treino havia chegado. O time de guerreiras, agora com Cami junto estava pronto para que Negão começasse a tortura. O técnico chegou com uma bola e coletes e isso significava um treino bem prático. Nina no gol e as outras cinco divididas em dois times. Negão ia revezando para que todo mundo tivesse a chance de jogar no “time” com três pessoas. A primeira formação foi Beca e Cami contra as gêmeas e Carla. A dupla de atacantes estava ficando cada vez mais entrosada e elas fizeram dois gols em Nina antes que as outras três conseguissem marcar um ponto. Negão elogiava sem parar a química delas duas e repetia que esse seria o diferencial na grande final. Beca explodia de orgulho e não cansava de sorrir. Sabia que estava em sua melhor forma e que isso vinha acontecendo por causa de sua alegria e de seu esforço em ser a melhor. Ela precisava ser ainda melhor para que conseguisse se colocar no time da escola no próximo ano. Este era seu maior foco.

– Meninas! O jogo contra os meninos está marcado para a próxima quarta. Na sexta que vem teremos treino normal e sábado é o grande jogo e como na semana seguinte serão as provas finais, peço que adiantem a matéria durante essa semana para não termos problemas de notas, ok?

Todas as meninas concordaram, agradeceram pelo treino e iam se encaminhando para o vestiário quando o técnico chamou Beca e Nina para uma conversa a sós com elas duas. Mesmo ninguém entendo o motivo do segredo, deixaram o casal com o técnico.

– Meninas, tenho uma boa notícia para vocês. Recebi uma mensagem de que o olheiro da escola americana onde a Beca vai jogar vai vir ver a final, então se dediquem muito. Talvez ela tenha uma vaga para você, Nina.

A felicidade ficou estampada no rosto das duas e Negão não conseguia se conter de tanto orgulho daquelas duas, afinal de contas, eram crias do seu treinamento e do seu time.

– Outra coisa. O resto do time já sabe da novidade? – Negão perguntou e na mesma hora o sorriso delas sumiram
– Ainda não, Negão, não queríamos tirar o foco delas – Beca respondeu um pouco cabisbaixa
– Fizeram bem. Peço que não contem agora, para não termos problemas no jogo. Digam que essa conversa foi sobre alguma outra coisa

O técnico se despediu das duas e as deixou sozinhas para encontrar com o resto do time no vestiário.

Beca

Eu estava doida para que esse dia chegasse. Depois da disputa de embaixadinhas com os meninos, nós nunca mais tivemos a chance de enfrentar eles perante todo o pátio lotado. Apesar de ter certeza que éramos muito melhores, principalmente em entrosamento, eu estava me deliciando com o pensamento de que poderia acabar com o Joguí na frente de todo mundo. Não me entendam mal, eu não guardo rancor dele, só não me canso de acabar com ele. Sou humana, fazer o que?

Acordei cedo para não correr o risco de perder a hora, se bem que eu nunca perdi a hora então acho difícil que isso acontecesse logo hoje. Coloquei minha chuteira da sorte no pé e uma camisa extra na mochila para trocar caso a outra ficasse muito suada. Eu estava me preparando para uma guerra com duração de 30 minutos. O tempo exato do nosso intervalo. O colégio inteiro estava esperando esse jogo, afinal de contas fizemos questão de anunciar o desafio todos os dias pelos corredores. Acho que todo mundo estava esperando um grande evento para agitar a semana, ainda mais que era a última semana antes das provas finais, as mais temidas por todos. Um pouco de entretenimento não matava ninguém não é mesmo?

– Como vai a minha atacante preferida? – a voz da minha linda namorada me tirou do devaneio que eu havia mergulhado. Estava sentada na mesa de sempre no final do pátio, desde que os pais de Carla descobriram sobre Juca, nos encontrávamos aqui, assim eles não veriam nada caso ficassem espionando na porta da escola.
– Meu amor! Chegou cedo – eu estava sozinha até então, acompanhada apenas dos meus pensamentos
– Meu pai me deu uma carona e eu sabia que você estaria aqui se preparando para o grande jogo
– Você já conversou com seus pais sobre ficar um ano lá? – perguntei já que estávamos sozinhas
– Na verdade introduzi o assunto hoje com meu pai. Talvez seja mais fácil do que imaginamos. Eu até já pesquisei umas outras opções de cursos e escolas por lá. Descobri também que posso tentar um estágio em alguns lugares – Nós estávamos tão animadas com a viagem que volta e meia esquecíamos de que ninguém mais sabia sobre ela
– Estágio pra quem? Aonde? Mal entrou na faculdade e já está pensando nisso, goleira? – a voz de Juliana seguida da risada de Juca nos pegou de surpresa e enquanto uma olhava para a cara da outra sem saber o que fazer, Carla chegou e o assunto rapidamente mudou. Mais uma vez, escapamos por pouco. Essa pequena omissão ainda vai acabar com a nossa saúde cardíaca.

As primeiras aulas poderiam ser comparadas a um enorme nada na minha cabeça. Eu apenas vigiava o relógio a cada volta do ponteiro. Queria ter certeza de seria uma das primeiras a chegar na quadra. Pelo que fiquei sabendo, até os professores já sabiam do jogo e estavam prometendo descer para assistir ao embate. Negão seria o juiz e mediador daquela pequena guerra. Desde que sentei na minha cadeira logo cedo, não tive a audácia de olhar para Joguí. Eu sabia que ele me olhava de vez em quando, eu podia sentir os lasers que pareciam sair de seu olhar na minha direção. Será que ele tinha raiva de mim por algum motivo?

Sinal. Finalmente. Saiam da frente que o time de guerreiras vai passar. Nos encontramos no corredor e fomos juntas em direção a quadra principal. As arquibancadas encheram rapidamente e Negão já estava no centro com Diogo ao seu lado – meu pai adorava fazer o papel de fã número um – com a bola nas mãos e alguns coletes. Não demorou muito e os meninos também chegaram. Fizemos nossa reunião de sempre, entoamos nosso grito de guerra, sorrimos uma para a outra prometendo nos divertir acima de tudo, abracei e dei um beijo rápido em Nina antes dela ir para sua posição no gol. Estalei os músculos do pescoço antes de me encaminhar para o centro. Como capitã, eu era a responsável pelo par ou ímpar com o time deles.

– Joguí e Beca, atenção vocês dois – Negão começou, nós concordamos com a cabeça, mas nossos olhares não se desgrudavam. Era como uma guerra a parte entre nós dois – esse jogo é mais divertimento do que qualquer outra coisa então qualquer atitude violenta, eu vou mandar direto pra coordenação ouviram?

Balançamos a cabeça mais uma vez e colocamos as mãos para trás para o par ou ímpar. Eu quero par. 1, 2, 3 e já. Eu coloco 2 ele coloca mais 2. Sorrio debochada, pego a bola de Negão, dou uma piscadela para o menino, que fica nitidamente com raiva, chamo Cami. Batemos as mãos, olho nos olhos de cada guerreira do meu time para entrarmos a mesma sintonia e assim que termino nosso ritual de sempre, escuto o apito de Negão e encosto na bola, rolando para Cami. Começou nosso jogo.

Como nós imaginávamos, os meninos vieram com tudo pra cima da gente. Talvez por não conseguirem imaginar a possibilidade de perder pra gente, ou talvez por estarem com medo, tentaram usar um pouco de violência e truculência nas jogadas. Como nós já até esperávamos isso, apenas mantivemos a calma e desviamos das investidas mais pesadas. Tocávamos uma para a outra sem preocupação e nos primeiros cinco minutos de jogo, a bola estava passeando pelo meio da quadra. Nós não queríamos arriscar sem ter certeza e eles ainda estavam tentando armar uma jogada que funcionasse.

Após um lateral cobrado por Carla, Juca driblou um dos laterais deles e avançou em direção ao gol. Eu e Cami avançamos junto com ela pelo meio. Estávamos dentro da área quando a gêmea tocou a bola e a poucos centímetros do meu pé, o goleiro se adiantou e isolou a bola. Por pouco não tínhamos uma chance real de gol. A galera na arquibancada fez o famoso “uhhhh” e nós apenas incentivamos a reação do resto da escola. Agora a bola estava com Nina. Joguí, estava perto dela e tentou avançar para tirar a bola dela e sem muito esforço, Nina driblou ele para logo em seguida receber um empurrão do menino.

Eu estava na minha posição de ataque, mas assim que vi o que aconteceu, coloquei todo meu ar para dentro de como um tiro, alcancei o outro lado da quadra. Estava pronta para bater de frente com o babaca do meu ex namorado e ex amigo, mas Juliana chegou antes e o enfrentou. Felizmente Negão chegou na hora e separou os dois. Deu um belo esporro em Joguí e disse que na próxima igual a essa ele estaria fora do time e de suspensão. Eu chequei se estava tudo bem com Nina, me reuni com o time novamente e então decretamos, vamos pra cima e vamos com tudo.

Nina estava com a bola novamente. Nosso time estava quase todo na defesa depois do acontecido. Ela rolou a bola para Juliana que apenas prendeu enquanto nós voltávamos para nossas posições. Disse pra Cami avançar mais que eu ficaria para ajudar a armar a jogada. Carla e Juca já estavam em suas laterais. Juliana rolou para a cunhada e eu ajudei a distrair a marcação em Carla para que a minha companheira de turma pudesse avançar sem problemas em direção ao gol contrário. Já perto da área deles, Carla reduziu a velocidade e levantou a cabeça para analisar o esquema. Cami estava dentro da área deles, mas extremamente marcada, eu estava um pouco mais atrás e igualmente marcada. Foi quando Juca saiu de sua lateral, veio pelo meio e entrou na área confundindo a marcação. Carla foi mais rápida, rolou a bola para a namorada que só teve o trabalho de receber, girar e chutar. A rede balançou e eles não tinham nem visto da onde o gol tinha vindo. Comemoramos como se fosse final do campeonato.

Com o placar a nosso favor, os meninos começaram a jogar com mais vontade. Nina trabalhou mais do que o normal, mas ela parecia uma muralha defendendo aquele gol. Sempre que estávamos com a bola, tentávamos avançar de forma segura para que não causássemos um contra ataque desnecessário. Além do mais, podíamos trabalhar com o tempo também já que estávamos vencendo. Após um chute meu, a bola havia saído direto e agora estava com o goleiro deles. Ele chutou direto para o ataque. Nosso time estava quase todo no ataque e só Juliana estava na defesa. Não deu pra ela, após uma troca de passes rápida entre Joguí e o outro atacante, o babaca do meu ex conseguiu fazer o gol. De quebra, ainda sorriu debochado para Nina e piscou para mim quando voltava para seu campo. Eu não iria engolir aquilo de forma alguma.

Faltavam apenas cinco minutos para acabar o jogo. Eu estava mais ou menos no meio da quadra tentando armar a melhor jogada. Atrás de mim tinha Nina no gol e Ju na defesa. Juca e Carla estavam nas laterais, mas extremamente marcadas. Cami estava na minha direção, mas quase na área deles tentando se livrar do marcador para receber a bola. Consegui rolar a bola para Cami enquanto corria em direção ao gol deles. Ela ainda estava marcada, mas foi capaz de rolar de volta para mim assim que eu me aproximei da área. Na minha frente, por incrível coincidência do destino, estava Joguí. Eu não havia percebido, mas ele tinha ido para o gol. Sorri gostando ainda mais da sensação de fazer um gol nele e isso deve ter o deixado muito irritado porque ele veio de carrinho na minha direção e se não fosse eu desviar meu pé na hora, poderia ter dado em algo bem mais sério. Pênalti para nós.

Após um super discurso de Negão sobre jogo justo e sobre violência dentro da quadra, nos preparamos para bater o pênalti. Joguí continuaria na posição de goleiro e eu estava doida para bater aquele pênalti, mas eu sabia de uma pessoa que devia estar tão doida para fazer esse gol quanto eu. Olhei para trás e vi que Nina estava no meio da quadra assistindo a tudo. A chamei com a mão e sem precisar falar nada, ela apenas sorriu e correu na minha direção.

– Faz esse gol nele. Por tudo. Eu me vinguei naquele jogo lá na pracinha, agora é a sua chance – eu falei baixo, mas nosso time estava todo reunido e todas apoiaram a minha decisão
– Eu não sei se sou capaz – Nina falou ao sentir a responsabilidade do lance
– Ele está com muita raiva, é só você ter calma que ele não vai pegar – foi a vez de Cami falar e ela tinha toda razão
– Amiga, vamos acabar com eles! Você pode! – Juliana completou e Carla e Juca incentivaram também

Eu me afastei e deixei Nina arrumar a bola pra ela. Eu vi que Joguí olhava de uma para outra sem saber o que estava acontecendo. Ele pulava de uma perna para outra tentando cobrir toda a extensão do gol. Nina respirou fundo, ajeitou a bola, deu três passos grandes para trás e se preparou. Ela sabia que não podia perder aquele gol, mas tinha medo de não conseguir. Ela me olhou mais uma vez e eu sorri tentando transmitir toda a confiança que eu era capaz. Ela bateu a ponta da chuteira no chão de leve antes de correr em direção a bola.

Um passo antes de chegar na bola, ela mudou o ritmo da passada e isso foi o suficiente para que Joguí pulasse antes dela bater. Goleiro na esquerda, bola na direita. Rede balançando, braços para o alto e mais uma vitória para nós. A felicidade estampada no rosto da minha namorada havia sido o suficiente para que aquele embate valesse a pena, mas ao ver todo o nosso time ser ovacionado pela escola que muitas vezes nos julgava e muitas vezes nos ignorava, era uma sensação de dever cumprido. Era como um final feliz para uma vida escola cheia de altos e baixos.

Negão deu o apito final e nós nos abraçamos comemorando a vitória. A maioria dos meninos vieram nos parabenizar e nós acabamos por rir todos juntos. O jogo havia sido super equilibrado e ficava claro que poderíamos conquistar todos os campeonatos que quiséssemos naquela cidade. Joguí ainda estava irritada e com cara de poucos amigos quando passamos por ele. Foi quando eu tive a certeza de que não precisávamos continuar com aquilo, mesmo sem saber direito o que era aquilo entre nós. Segurei a mão de Nina e parei perto dele.

– Ei, Joguí – chamei e ele nos olhou com um misto de decepção e tristeza no olhar
– Veio humilhar um pouco mais? Já não está bom não? – sua voz estava lenta, triste e com uma pitada de raiva
– Não. Só vim dizer que você jogou bem. Nós ganhamos na sorte, você sabe disso.

A expressão no rosto do menino pareceu mudar da água para o vinho e ele não me respondeu. Eu sorri para ele, segurei a mão de Nina mais apertado e continuamos andando. Não havia mais motivo para manter aquela briga eterna. Era mais um capítulo encerrado.