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Filme Americano – Cap 118

Beca
As coisas não estavam bem para as guerreiras. Depois do problema da Carla com seus pais, ela e Juca vinham enfrentando um mar em fúrias para conseguirem manter o namoro. Volta e meia brigavam por estarem distantes uma da outra, pouco se viam e eu imagino que sexo havia se tornado uma coisa rara na vida dessas duas. Eu havia emprestado a minha senha do sistema da escola para Juca e assim ela conseguia falar com Carla nos momentos em que não estavam juntas. Mesmo assim, o assunto deveria ser sempre bem leve, já que a direção da escola poderia ler aquele bate papo e então tudo daria errado. Mas, no final das contas, elas se amavam e os sorrisos que trocavam todos os dias de manhã quando se viam na escola, fazia a gente acreditar que tudo ficaria bem.
Neste momento estou sentada na mesa de jantar de casa, esperando meu pai chegar para ter uma conversar definitiva com ele sobre o meu futuro. Eu já havia introduzido o assunto, mas eu não quis dar muitos detalhes até que tivesse tudo certo e hoje de manhã, uma ligação divina, confirmou o que eu mais queria. Desde que Nina me falou sobre seu intercâmbio forçado no próximo ano, eu sabia que não conseguiria ficar seis meses longe dela. Então, resolvi juntar o útil ao agradável e me inscrevi em um programa especial de esportes em um colégio americano. Lá, eu teria aulas que serviriam como o meu terceiro ano aqui e além do mais estaria no time da escola, podendo até garantir uma vaga em uma faculdade americana através do futebol. Mandei vídeos meus, minhas notas e até uma carta de recomendação do Negão, que me ajudou a manter o segredo. Hoje, eles me confirmaram que eu estava na seleção final para as poucas vagas que tinham. Talvez eu até conseguisse uma bolsa de estudos, mas caso isso não acontecesse, eu tinha um outro plano, mas precisava da aprovação de seu Diogo. Por isso mesmo, meu corpo estremeceu quando ouvi a chave na porta. Era chegada a hora da nossa conversa!
– Oi, filha! Está sozinha? – ele perguntou assim que me encontrou sentada na mesa da cozinha
– Estou sim, pai! Queria conversar com você, pode ser? – eu sei que é horrível falar isso pra um pai, mas não tinha outra opção
– Devo me preocupar? – Ele deixou a bolsa no canto do sofá, pegou um copo d’agua e veio sentar de frente pra mim
– Acho que não, pai! É uma boa notícia
– Então fale logo, filha!
– É sobre o ano que vem e antes que você me interrompa, deixe eu terminar – respirei fundo enquanto montava as melhores opções de frases na minha cabeça – eu me inscrevi para um intercâmbio onde eu vou poder cursar meu terceiro ano em uma escola americana e ao mesmo tempo jogar meu futebol. Antes que você me pergunte, eu admito que a ideia surgiu para que eu não fique longe da Nina, mas se pararmos pra pensar, é a minha chance de estudar em uma escola muito boa e além do mais poder ter uma chance real de usar o meu futebol como profissão, até porque você sabe que aqui seria muito difícil, mas lá, é muito mais valorizado. Além disso, eu já pesquisei tudo sobre a escola e garanto que o ensino é exemplar e eu não estaria perdendo em nada em estudar lá! – despejei tudo como se a velocidade das minhas palavras fossem fazer o assunto ser mais fácil
– Uau. Você…você já se inscreveu? – ele perguntou com um misto de decepção na voz e eu sabia que era porque eu tinha feito tudo sozinha, sem consultar a ele
– Desculpe ter feito tudo sozinha, pai. Eu sabia que o senhor não seria tão adepto a idéia e fiquei com medo de não deixar – admiti abaixando um pouco a cabeça
– Filha, eu nunca serei contra algo que pode melhorar o seu futuro, só me preocupa a real motivação para essa sua decisão – ele tinha medo que eu fizesse as coisas influenciada pelo meu relacionamento com Nina e me arrependesse depois
– Pai, é lógico que a ideia surgiu depois que a Nina me contou do intercâmbio, mas se o senhor vir as fotos da escola, vai ficar babando! Igual eu fiquei! E eles tem um programa super completo para esporte, a gente tem até acompanhamento de nutricionista lá! – falei tão animada que ele sorriu de forma larga, mas pude ver seus olhos se encherem de lágrimas e toda minha animação foi embora
– Filha, não me leve a mal, mas seu pai não tem condições de bancar uma escola dessas para você! – ele estava chorando e isso me cortava o coração
– Pai, eu estou concorrendo a uma bolsa de estudos, mas caso isso não aconteça eu pensei na poupança que mamãe deixou pra mim – falei com o tom de voz mais calmo que consegui. Aquele assunto era super complexo pra ele
– Beca, não. Esse não é o combinado! – ele cortou a ideia na hora
– Pai, a poupança não é para o meu futuro? Então! – tentei argumentar mesmo sabendo que era um tiro no escuro
– E aí você vai pra lá, fica um tempo, não dá certo e você volta…e aí? Como fica a sua vida? – ele falou como se fosse óbvio seu pensamento
– Pai, mas essa chance não vai bater duas vezes na minha porta! Por favor, eu estou te pedindo e sei que isso é difícil pra você, mas sei que é o melhor pra mim! – estávamos chorando a esta altura, sempre ficávamos emotivos quando falávamos do futuro ou de mamãe
– Quando você vai ter essa resposta? – ele perguntou após respirar fundo. Eu sabia que o assunto da poupança havia sugado suas últimas energias
– Acredito que no meio da próxima semana eu vou ficar sabendo se ganhei a bolsa ou não – respondi admitindo que não continuaria a discussão naquele momento
– Então me dê mais alguns dias para pensar sobre a situação da sua poupança, ok? Agora me deixe tomar um banho e prepare a mesa, enquanto jantamos você me mostra algumas fotos e mais coisas da escola, pode ser? – Ele sorriu de uma forma tão genuína que fez meu coração aquecer. Ele estava feliz com a ideia, mas ainda relutava quanto ao uso da poupança, além do mais, ele já devia estar pensando no fato de que ficaria um tempo longe de mim. Era muito para a cabecinha e para o coraçãozinho dele processar naquele momento. Apenas sorri e assenti com a cabeça enquanto ele saía da cozinha.
Os dias passaram e já era sexta novamente. Nosso treino seria ainda mais especial. No dia seguinte, teríamos a semifinal do campeonato. Seriam apenas dois jogos, rápidos e certeiros, definitivos para todas nós. O time estava ainda mais entrosado e eu tinha certeza que em sintonia, não haveria ninguém que pudesse nos vencer. Nós estávamos o que eu gostava de chamar de imbatíveis. Depois de tudo que aconteceu com Cami na escola, volta e meia ela passava os intervalos junto com a gente. Não tínhamos a mesma intimidade com ela do que entre nós, mas era bom ter uma cabeça nova para introduzir novos assuntos e novos pontos de vista. Aos poucos eu comecei a entender que o problema dela era com ela mesma e não comigo ou com a Nina. Aliás, ela e a Regina pareciam cada vez mais apaixonadas. Não era raro ver a Regi na porta da escola esperando a Cami sair. Infelizmente, também não era raro ver as meninas que se diziam amigas dela, olharem com cara feia para a situação. Apesar de achar que a situação era chata e injusta, eu só via a Cami mais feliz e mais liberta e isso não era ruim.
– Amor, almoça comigo hoje? – a voz da minha namorada me despertou de um transe que eu havia entrado na hora do recreio
– Ué, amor, não vamos almoçar todas juntas na cantina como todas as sextas? – perguntei retornando a terra depois de viajar por vários lugares
– Vamos sim, mas é que você tem andado tão distante, que eu achei que se te chamasse para ficar só comigo, você me daria mais atenção… – a voz dela foi se transformando em um resmungo de criança enquanto seu bico foi se formando e de repente estávamos em um dengo enorme
– Desculpa, minha criança! É que tem muita coisa na minha cabeça…a semifinal amanhã, notas finais, toda essa situação das meninas…não tenho nem conseguido descansar direito. – respondi enquanto abraçava minha namorada e deixava as meninas andarem um pouco mais na frente
– Dorme comigo hoje? Estou com saudades! – ela falou enquanto deixava sua cabeça repousar no meu pescoço
– É claro! Só preciso ir em casa depois do treino pegar as coisas para amanhã, tá bom? – estava chegando o momento de contar para Nina a novidade sobre o meu intercâmbio.
– Então você me encontra lá em casa? Preciso adiantar um pouco meus estudos
– Estou gostando de ver hein…estudando direitinho pra fechar o ano com notas altas! Seus pais devem estar tranquilos
– Eles estão, eu é que estou cada vez mais nervosa! O final do ano se aproxima e o ano que vem também…e bom…você sabe né – eu morria de vontade de tirar aquela carinha de triste do rosto dela simplesmente falando tudo, mas eu queria ter a confirmação final para não criar esperanças nela
– Ei, não fica assim, talvez seja menos pior do que você imagina – falei sorrindo e segurando seu rosto bem próximo do meu, a vontade é que ela conseguisse ler tudo que eu tinha pra dizer no meu olhar, mas teria que deixar pra mais tarde
Após as aulas, almoçamos em uma enorme mesa na cantina. Cami e Regina se juntaram a nós e por mais que fosse estranho ter elas como um casal junto com a gente, foi bom para que conseguíssemos conversar sobre coisas leves, já que não tínhamos muita intimidade e nem queríamos falar de assuntos delicados na frente delas, apenas comentamos sobre futebol, sobre coisas bobas e relacionamentos, ou melhor, ouvimos Juliana reclamar sobre como nós éramos chatas com os momentos melosos e como ela não aguenta romantismo. Sempre ríamos dizendo que ela ainda ia ficar tão boba quanto nós quando encontrasse alguém que ela realmente gostasse.
– Nina, você já sabe o que vai fazer no próximo ano? – a pergunta veio de Cami e pegou todo mundo desprevenida, principalmente minha namorada
– Ahn…ano que vem?…Fazer?…Ainda não sei… – os olhos dela não deixavam enganar que algo de errado estava acontecendo, não demorou para que ela buscasse os meus e tudo que fiz foi sorrir para a acalmar
– Aliás, alguém sabe? – Interrompi os devaneios de Nina para mudar o foco da discussão
– Bom, eu e Beca continuaremos aqui, vocês é que vão nos abandonar né? – Carla falou rindo e eu sabia que minha linda namorada estava surtindo dentro de si
– Amor, nós vamos continuar vindo aqui sempre, não é meninas? – Juca falou enquanto abraçava Carla e a puxava para mais perto
Olhei no relógio e percebi que faltava pouco tempo para o treino. Ainda estaríamos adiantadas, mas eu sabia que se continuássemos naquele assunto, Nina iria enfartar ali mesmo. Por isso, falei para irmos andando e declarei a discussão sobre futuro encerrada. Como eu esperava, Nina se tornou a pessoa mais avoada do mundo depois daquilo. Por pouco não tomou esporro do técnico durante o treino. Eu sabia que ela estava pensando ano seguinte, afinal de contas, nenhuma das meninas sabiam que ela ia embora, havíamos decidido contar depois da final do campeonato. Não queríamos correr o risco de tirar a concentração do time com uma notícia dessas. E agora, eu esperava ter uma posição mais firme sobre o meu futuro para contar para elas de uma vez só sobre nós duas.
Assim que o treino terminou, me despedi das meninas e fui pra casa. Eu queria pegar minhas coisas e correr para me aninhar nos braços de Nina. Estava com saudades das nossas tardes abraçadas na cama, fazendo nada e esperando o tempo passar. Era óbvio que isso não seria capaz com a quantidade de coisa que estava passando pela minha cabeça, mas eu prometi a mim mesma que faria de tudo para ter um dia agradável com a minha namorada. Era só isso que a gente estava precisando, eu e ela e era só isso que eu faria de tudo para ter. Por mim, por ela e pala nossa sanidade mental. E seguindo o meu plano, desliguei as notificações do meu celular e já deixei seu Diogo avisado de que não voltaria hoje. Ele me encontraria no jogo na manhã seguinte.
Nina
Eu estava morrendo de tédio. A casa estava um silêncio total, meu celular estava quieto e minha namorada estava demorando mais do que um burro atolado. Eu já havia terminado todos os exercícios daquela semana e já até tinha começado a adiantar os da semana seguinte quando finalmente ouvi a campainha tocar. Saí correndo para mergulhar em seus braços assim que afastei a porta. Era estranho sentir tantas saudades assim, mesmo que nós estivéssemos juntas até algumas poucas horas atrás. Eu não sabia o que acontecia comigo quando o assunto era a Beca. Aquela menina dominou meu coração como ninguém nunca havia dominado. E cá estou eu, de quatro, rolando e lambendo o chão por ela. Como eu vou conseguir viver seis meses longe? Era a pergunta que eu me fazia todos o minutos.
– Demorou, meu amor! – envolvi meus braços em seu pescoço e me coloquei estrategicamente posicionada com o nariz em seu pescoço
– Desculpa, minha criança, eu estava arrumando tudo lá em casa e não podia deixar de pegar nada para amanhã! Me perdoa? – era impossível resistir aquele sorrisinho de canto que só ela sabia dar
– Só se você me encher de beijos neste exato momento
Não deixei que ela respondesse e ela não fez questão também. Nossas bocas se encontraram e se engoliram até matarem todas as saudades. E quando as bocas pareciam não quererem mais estarem grudadas, elas se colocaram nos pescoços, na pele, no corpo, em todos os lugares, até termos certezas que não havia mais nenhum pequeno pedacinho de pele que não havia sido coberto por beijos, lambidas, toques e gemidos. Nossos corpos estavam exaustos. De saudades, de cansaço, dos treinos, das provas e ainda assim buscavam forças de algum lugar desconhecido para se saciarem nos sabores um do outro. Era isso que nos preenchia no final do dia, ou no final da tarde, como foi o caso.
– Amor, aquelas malas ali no canto já estão cheias? – droga, ela tinha visto as malas que minha mãe deixou no canto do meu quarto
– Eu não queria deixar a mostra pra você ver, mas esqueci de tirar mais cedo – falei meio que pedindo desculpas, eu não queria entrar nesse assunto hoje
– Ei, para de bobeira! Não quero você escondendo coisas de mim… – ela sorria em minha direção, parecia até que não estávamos falando do fato de que vou passa seis meses longe
– Não é questão de esconder, é questão de que isso tudo me deixa triste e imagino que te deixe triste também – eu estava realmente sofrendo demais com a aproximação da viagem
– Não me deixa triste, eu estou feliz por você e por nós! Vai ser uma super oportunidade e você vai ter uma enorme experiência de vida! Alem do mais, vai conhecer gente nova, descobrir novas culturas, ter novas experiências. Isso é bom, amor! – ela sorria como se estivesse falando de uma viagem a dois e eu só conseguia pensar em como ela estava tão tranquila com a nossa distância
– Por acaso você está terminando comigo? Me mandando conhecer gente nova, ter novas experiências… – era isso, afinal?
– Você quer conhecer novas pessoas e ter novas experiências sem mim? – Não responda minha pergunta com uma outra pergunta que eu me irrito
– Eu nunca disse isso, você é que veio com esses assuntos estranhos e está toda feliz com a minha viagem…o que foi? Conheceu alguém que eu não sei? – comecei a buscar as roupas pelo meu quarto e vesti-las, ter esse tipo de discussão nua era um pouco constrangedor
– Lógico que não, amor! Por acaso eu tenho tempo de conhecer alguém? – ela estava rindo. ELA ESTAVA RINDO ENQUANTO DISCUTIA COMIGO! Perdi o controle
– Olha só, eu quero saber realmente o que está acontecendo aqui. No outro dia você estava em uma ligação super estranha aqui em casa, vejo você recebendo emails e ligações estranhas e além do mais tem ficado em casa sozinha para conversar com seu pai um monte de coisa que eu nem sei o que é! Fica toda feliz falando da minha viagem e agora está aí falando de novas experiências. Que merda está rolando aqui, Beca? – meu controle havia pedido demissão neste momento
– Amor, você está um pouco descontrolada. Senta aqui do meu lado, por favor – eu não queria sentar, eu estava disposta a caminhar quilômetros indo e voltando no espaço do meu quarto
– Não quero sentar, quero entender! Me explica logo!
– Eu não posso te explicar – eu parei e a olhei. Procurei qualquer indício de piada na voz dela, mas só encontrei um sorriso típico daqueles de quem estava armando algo, ela estava brincando com a minha cara, eu tinha certeza
– Tá de sacanagem, né? Não pode explicar ou não quer explicar?
– Olha só, vem aqui! – ela me puxou pela mão assim que eu voltei a andar pelo quarto até que eu ficasse de frente pra ela. Como ela conseguia discutir daquela forma ainda nua? – olha bem nos meus olhos e respira – não. Aqueles olhos não. Eu não conseguia resistir àqueles olhos – eu não posso te contar neste exato momento, mas acredito que amanhã eu já possa falar tudo. Confia em mim. É uma coisa boa.
Eu realmente não tinha como resistir àqueles olhos. Apenas respirei fundo, pisquei algumas vezes procurando algum vacilo no olhar que me prendia naquele momento, mas um sorriso sincero, aberto, profundo, rasgou o rosto da minha namorada e tudo que eu consegui fazer foi forçar um leve sorriso nos meus lábios. Havia algo acontecendo, eu tinha certeza disso, mas eu precisava simplesmente confiar nela e esperar o momento certo em que eu ficaria sabendo de tudo. A sorte dela é que eu confiaria a minha vida e ela nem sabia disso. Além do mais, ela estava nua, isso acabava com qualquer outro pensamento que eu pudesse ter.
Narrador 
O sábado invadiu a cidade com um sol de rachar. A semifinal do campeonato começaria logo cedo e o estádio já estava começando a ficar movimentado. A equipe de limpeza e organização preparou a quadra com um afinco especial. Era o primeiro ano que o colégio na periferia sediava uma etapa do famoso campeonato de futebol feminino. Ainda mais reconhecido e disputado que o masculino. O primeiro jogo começaria em breve, mas o mais esperado mesmo era a segunda partida. O Colégio Santo Amaro, estreante no campeonato havia chegado até ali com exibições de deixar grandes técnicos de boca aberta. Além do mais, era o time das guerreiras, conhecido por abrigar alguns casais que haviam ficado bem famosos pela cidade. A goleira Nina e a atacante Beca era o principal. Alguns diziam que elas levavam o time nas costas, mas elas sempre negariam este tipo de coisa. Time é união, time é família e ninguém ali ganha jogo sozinha.
O casal mais querido da cidade chegou junto e de mãos dadas no ginásio, atraindo olhares de todas as torcidas presentes. Não demorou para que, ainda na porta, encontrassem o resto da equipe. Se abraçaram como se não se vissem há anos. Carla e Juca deixavam as mãos entrelaçadas e não faziam questão alguma de esconder. Carla havia decidido que não havia mais motivo para fingir. Cami e Juliana avaliavam os outros times em quadra, afinal de contas, dali sairia o adversário delas, caso elas vencessem. O primeiro jogo era entre os dois times finalistas do ano passado. Pela primeira vez, eles não disputariam a taça. A equipe que jogaria contra as guerreiras era novata também e segundo as más línguas só havia chegado até ali porque um outro time desistiu da competição duas semanas antes desta partida. Para elas não importava nada disso, só importava vencer.
Assim que encontraram com Negão e Diogo, Beca foi puxada pelo pai até um local mais afastado das meninas. A expressão no rosto do professor era algo próximo de indecifrável. Ele tinha um sorriso orgulhoso e ao mesmo tempo um sorriso nervoso, era como se algo o estivesse fazendo muito feliz e ao mesmo tempo essa mesma coisa o estivesse deixando preocupado, tenso, nervoso e não fosse tão positivo assim. Nina assistia a cena de longe e pelos gestos que conseguia perceber, sua namorada estava recebendo uma notícia grande, importante, que poderia mudar tudo, mas porque ela não estava por perto então? A goleira apenas balançou a cabeça, ela não podia deixar o nervosismo tomar conta agora.
– Pai, você tá falando sério? – a incredulidade de Beca era palpável, estava no ar
– E você acha que eu brincaria com isso? Eles tentaram ligar para o seu celular ontem, mas estava desligado, então ligaram lá para casa! Filha, você conseguiu a vaga! – Diogo estava tão emocionado que havia sido difícil dormir naquela noite. A vontade dele era ir até a casa de Nina e contar tudo para sua filha na mesma noite
– E a bolsa de estudos? O que eles falaram? – Beca sabia que se Diogo estava feliz daquele jeito, a poupança estava salva
– Bom, parece que você não conseguiu a bolsa integral, mas eles te deram um super desconto e depois de ouvir o responsável falar durante horas sobre a qualidade da escola e o quanto você tem futuro lá, eu decidi pagar o resto do valor com a poupança, assim, se algo de errado, o que não vai dar, ainda vai sobrar um pouco aqui para você usar
Beca estava aos prantos. Ela sabia que Diogo havia lutado contra todas suas forças internas para permitir que ela usasse uma parte daquela poupança. Ela abraçou o pai e agradeceu baixinho em seu ouvido, repetindo o quanto o amava e o quanto estava feliz por aquele momento. Ele apenas deixou que as palavras o aquecessem e teve certeza de que estava fazendo tudo certo quando ao fechar os olhos, sentiu o perfume de rosas invadir seu nariz. A mãe de Beca estava ali, e estava orgulhosa do que eles dois estavam conquistando juntos. Era o momento da sua menina crescer e ir atrás de seu futuro e ele sabia disso. Mas, precisavam secar as lágrimas, Beca tinha um jogo para vencer. Se separaram, ele fez um carinho em sua cabeça e ela voltou para o seu time.
Negão estava falando sobre estratégias e todas prestavam atenção nele, por isso não repararam quando ela voltou com o rosto brilhando, de felicidade de algumas lágrimas restantes. Ela olhou direto para Nina que recebeu seu olhar com uma expressão que era um misto de preocupação e uma leve irritação por não saber o que estava acontecendo. Beca se aproximou da namorada, entrelaçou seus dedos nos dela, apertou com força e com a cabeça apontou para Negão, como se elas precisassem prestar atenção nele. Nina sentiu seu corpo se preencher com aquela sensação de felicidade que ela só tinha com a sua menina. Talvez tenha sido isso que acalmou seu coração e lhe deu a certeza de que tudo ficaria bem.
Assim que o primeiro jogo acabou, a torcida vitoriosa invadiu a quadra e o time que havia acabado de conquistar a vaga na final, o campeão do ano passado, Negão e as meninas ocuparam seus lugares em um dos bancos de reserva. O técnico começou a repassar alguns detalhes de formação e estratégia. Regina estava na ponta da quadra observando a movimentação da sua namorada com as outras meninas. Ela estava orgulhosa do que havia conquistado com Cami. Além de ter feito seu coração se abrir, conseguiu que ela visse o mundo de outras formas. Não era raro perceber que a menina, antes tão temida na escola, agora escapava o olhar até sua torcedora mais animada para sorrir e mandar um beijo para ela. Talvez essa coisa de se apaixonar fosse algo que todas as guerreiras estivessem ficando boas. Exceto Juliana, que mania sua posição de fidelidade a solteirice. Ela não mudaria nunca.
Apito inicial. As guerreiras emanavam uma felicidade que toda a cidade poderia ver. Era palpável, era possível ver aquela nuvem branca, com raios solares atravessando por ela e iluminando o sorriso aberto de cada uma delas. Até mesmo com a bola nos pés e com a missão de vencer um time que ninguém conhecia direito, elas não paravam de sorrir um minuto que fosse. Dividiam as alegrias em quadra e deixavam as tristeza e os problemas no lado de fora das quatro linhas. Nina parecia ter crescido alguns metros porque nada passava por suas mãos rápidas e habilidosas naquele gol. Além disso, sua visão de jogo, deixou Cami na beira do gol por duas vezes com um toque direto para o ataque. Ainda não havia saído o gol, mas estava se desenhando e estava muito próximo. Juliana na zaga era uma verdadeira guerreira de armadura e tudo. Quando a disputa era uma contra uma, ela não perdia nada, apenas quando estava em desvantagem, a bola passava para morrer nas mãos de Nina. Carla e Juca levaram toda a sintonia de casal para a quadra e faziam jogadas de deixar qualquer uma perdida no meio de campo. A mais bonita, sem dúvidas, foi a que trocaram passes rápidos e certeiros até estarem na cara do gol, deixando praticamente o time adversário inteiro para trás. Naquela manhã, o coração do time de guerreiras batia em um só ritmo e isso ficava claro em quadra.
Foram para o intervalo com o jogo empatado e contrariando os costumes, preferiram descansar sentadas em quadra e não no banco de reservas. Se juntaram perto do gol e começaram a conversar entre si, como se estivessem no intervalo das aulas no colégio. Falaram de possíveis jogadas e de pontos fracos do time adversário. Mas também riam e faziam piadas com elas mesmas. Negão apenas ficou de longe admirando aquela interação que ele tanto amava. Sabia que mesmo que elas não vencessem o jogo, ele havia feito a parte dele e transformado aquelas meninas em um verdadeiro time. Unidas, entrosadas e cheias de energia para vencer, mas acima de tudo, em sintonia e prontas para enfrentar muito mais do que aquele campeonato, juntas. Confiando uma na outra. E assim, juntas e cheias de energia, levantaram quando o segundo tempo estava prestes a começar. O time adversário estava vindo com sangue nos olhos e elas estavam com a vitória na cabeça para combater aquela pressão toda.
Apito soou e logo a bola chegou nos pés de Beca. Ela estava na metade da quadra e viu as jogadoras adversárias correrem em sua direção. Sabia que elas estavam indo com muita sede ao pote então, sem pressa, apenas rolou a bola para Juca, que havia permanecido ao seu lado. Com o desvio das meninas do outro time, Beca avançou lentamente e viu quando Cami se colocou no ataque, pronta para receber a bola. Juca rolou de volta para Beca, que agora já tinha o caminho mais livre pela frente. Ela caminhou com a bola nos pés, viu Juca se adiantar de um lado e Carla do outro. Cami se movimentava tentando sair da marcação, teve orgulho de como seu time havia evoluído e de como estavam prontas para vencer aquele campeonato. Acelerou o passo e driblou uma marcadora, a deixando para trás e correndo ainda mais em direção ao gol. Juca e Carla levaram consigo duas meninas do time adversário, deixando o caminho ainda mais livre para Beca. Ela avançou e só havia uma menina no seu caminho em direção ao gol. Ela sabia que poderia dribla-la e fazer um belo gol, mas também sabia que poderia rolar para Cami e garantir a vitória do seu time. Seu time, suas guerreiras, aquele sonho que ela sempre teve se tornando realidade, as pessoas que mudaram sua vida naquele ano, aquele esporte que fazia seu coração bater mais rápido e aquela menina, que estava lá atrás no gol, que fazia sua vida ter um novo sentido. Ela esperou que a zagueira se aproximasse ainda mais dela, deixando Cami livre e assim que sua companheira de time recebeu a bola, não fez feio, girou o corpo e com a lateral do pé empurrou a bola até que ela balançasse a rede. Gol da vitória. O time adversário não conseguiria se recuperar daquele gol levado nos primeiros minutos do segundo tempo e elas garantiram a vaga na final.
Assim que o juiz deu o jogo por encerrado, a torcida invadiu a quadra e antes que percebessem as guerreiras estavam sendo carregadas no alto. Elas eram as favoritas na partida e agora enfrentariam o time mais difícil, mas isso não importava. Não mesmo, porque elas tinham umas as outras.
– Ei, vem cá muralha! Você fechou aquele gol hoje! – Beca puxou Nina para abraçar a namorada após a vitória
– E você? Com aquele passe sensacional para a Cami fazer o gol? Minha bola de ouro! – Nina abraçou Beca pelo pescoço se aproximando dela pela primeira vez após o gol
– Ei, deixa eu te perguntar uma coisa… – Beca não conseguiria mais esconder o que a estava fazendo tão feliz – o que você acha de ter minha companhia nos Estados Unidos pelo próximo ano?
A expressão de Nina congelou naquele momento. Por alguns instantes ela não entendeu o que estava acontecendo, mas bastou um sorriso de Beca para que ela soubesse que aquilo era realidade. Agora ela precisaria convencer seus pais a passar um ano ao invés de seis meses. Se beijaram como se estivessem em um final de filme americano.