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Filme Americano – Cap 116

Carla 

 
Eu estava com aquela sensação que eu havia aprendido a me acostumar. Uma verdadeira revolução de asas deixavam meu estômago estranho. Eu lembro de nunca entender quando as pessoas falavam sobre “borboletas no estômago” quando estavam apaixonadas ou amando. Achava aquilo muito sem sentido. Fui ensinada desde criança a ser racional demais, ser apenas cérebro e não coração. Afinal de contas, coração não te leva a lugar nenhum, já o cérebro, quando bem ensinado e treinado, pode te levar ao topo do mundo. E é só isso que importa: conquistar o mundo, certo? Não! Errado! Como é possível alguém passar uma vida inteira sem sentir essa coisa boa que faz seu coração acelerar sem motivo e ao mesmo tempo aquecer como um abraço quentinho? Quando eu a vejo é como se eu tivesse conquistado o mundo e nada mais importa. Droga, eu precisava contar aos meus pais que estava namorando.
– Amor? Ei, criança…terra chamando! – a voz dela é uma música para os meus ouvidos, até quando ela me chama de criança, que eu não gosto
– Não sou criança, terráquea! – eu tentava fazer cara de brava, mas era impossível resistir àquele sorriso que começava no canto do lábio e crescia até tomar toda a extensão daquela boca tão beijável
– Então onde a senhora adulta estava com a cabeça? Estou falando sozinha faz um tempo – droga, eu estava de novo pensando em tudo e deixei meus pensamentos viajarem
– Para ser bem sincera, estava pensando em nós…ou melhor, em como vou falar para os meus pais sobre nós – e aquele sorriso que eu tanto amava, se foi
– Ah, é isso! Vamos conversar sobre isso lá em casa? Acho melhor… – nós estávamos dentro do Uber que nos levava para a casa dela depois do jantar que tivemos com as meninas
Eu apenas balancei a cabeça para que pudéssemos continuar o assunto depois. Ela não iria querer discutir sobre isso na frente do motorista. Ao invés de falar, ela apenas passou o braço pela minha cintura e me puxou para mais perto. Apesar de não saber como lidar direito com demonstrações de afeto em público, não resisti e acabei por encostar minha cabeça em seu peito e deixei que meus olhos fechassem apenas para descansar a mente. Não estava com sono, havia dormido durante a tarde, e tudo que eu mais queria era ficar ali para sempre, sentindo seu cheiro e ouvindo seu coração bater. Senti quando a respiração dela mudou e ela começou a cantarolar a música que tocava na rádio “I don’t need nothing when I’m by your side” eu não era muito boa em inglês, mas sorri nessa parte porque consegui entender. Comecei a prestar mais atenção no que a letra dizia para ver se conseguia entender mais alguma coisa “only God would know the reasons, but I bet he must have had a plan, cause you were born to be my baby” não consegui evitar de sorrir de novo. Ela cantava tão animada que nem se ligou que eu prestava atenção na música.
– Então quer dizer que eu nasci para ser sua “baby”? – fiz as aspas com os dedos, como eu sempre fazia quando não encontrava a palavra ideal para alguma frase
Ela sorriu parando de cantar a música e passou a fazer um carinho na minha nuca, por baixo dos meus cabelos soltos. Não havia maldade naquele momento, mas meu corpo não conseguiu se controlar e todos os pêlos se eriçaram com aquele toque tão leve e ao mesmo tempo tão quente e profundo. Respirei fundo sem fazer muito barulho e deixei que ela continuasse o carinho.
– Você é para mim o que você quiser ser… – ela olhava para a janela ainda, mas o brilho no seu olhar refletia todas as estrelas do céu naquele momento
– Como assim? – chamei sua atenção levantando a cabeça e talvez querendo ouvir um pouco mais daquela explicação
– Você tem o poder, criança. Se você quiser ser minha namorada, será. Se quiser ser minha amiga, será. Se quiser ser minha mulher, será. Minha criança? Não importa…o que você quiser ser para mim eu estarei pronta para receber – a voz dela saía quase que sussurrada mas para mim parecia estar em um megafone disputando o espaço do som no carro apenas com as batidas do meu coração
– Eu quero ser sua, pode? – minha resposta saiu do coração porque eu não lembro de ter processado aquelas palavras em minha mente
– Não só pode como deve – ela se aproximou e por um momento eu fiquei tensa em receber um beijo seu no carro de um estranho, mas como se fosse capaz de ler minha mente, ela simplesmente sorriu e beijou a ponta do meu nariz. Era impossível não se apaixonar cada vez mais por ela. Deitei minha cabeça em seu peito novamente a tempo de ouvir seu coração sambar dentro do peito dela. Ela estava igual a mim. Sorri bobamente e deixei que o silêncio se fizesse presente até que chegarmos na casa dela.
Os braços dela enlaçam minha cintura enquanto nossos lábios se procuravam e se devoravam sem parar. Com roupas mais confortáveis e prontas para dormir, amassávamos os cobertores que teimavam em ficar entre nossos corpos enquanto deixávamos o calor subir desde o dedo mindinho do nosso pé. Meu corpo já fervia e eu sentia as mãos de Juca apertarem minha cintura com um pouco mais de pressão. Ela estava a ponto de explodir assim como eu, mas eu também sabia que ela esperaria eu tomar uma atitude um pouco mais clara. Seu medo era que eu me assustasse com as atitudes rápidas que ela gostaria de ter. Ela não me falou nada disso, mas eu sabia ler aquela menina como nunca soube ler ninguém. Sem pensar, coloquei uma das mãos por baixo da camiseta larga que ela usava para dormir e deslizei meus dedos trêmulos até chegar na base do seu seio. Ela suspirou enquanto tentava não interromper o beijo para mostrar que eu estava no caminho certo então eu subi os poucos centímetros que faltavam e deixei que minha mão inteira apertasse seu seio. Ela gemeu e não conseguiu manter o beijo. Com o meu claro sinal de que devíamos continuar a nos entregar, ela invadiu minha cintura por baixo da blusa e sem se esforçar em nada, virou nossas posições, ficando por cima de mim e me encaixando entre sua pernas. Ela levantou o corpo, deixando que eu apreciasse seus cabelos repicados ainda mais bagunçados, sorriu, não daquela forma que começava no cantos dos lábios e crescia, mas daquela forma que não deixava muitos dentes aparecerem e terminavam com uma mordiscada de leve no lábio inferior. Com uma sequencia de movimentos que eu jurava estar em camera lenta, ela tirou a própria blusa e deixou que eu apreciasse por alguns segundos seus seios pequenos e brancos. Os bicos estavam enrijecidos e o da esquerda estava levemente avermelhado do meu apertão de antes. Eu sorri, da mesma forma que eu havia me declarado no carro, sem processar a atitude, apenas fiz. Eu estava derrubando tudo que me fizeram acreditar. Estava deixando meu cérebro descansar e deixei meu coração assumir o controle.
– Você é linda – eu sussurrei sem perceber e sem desgrudar os meus olhos dos dela
Ela não respondeu, mas eu puder ver as estrelas em seu olhar tamanho era o brilho deles. Suas mãos correram pela minha cintura puxando a barra da minha blusa, mas bem devagar, como se me desse tempo para interromper o que ela estava fazendo. Eu apenas estiquei meus braços e levantei meu corpo o suficiente para que a roupa deslizasse para fora. Ela começou a apreciar com malícia meu corpo desnudo. Senti uma pontada quente entre minhas pernas e agradeci internamente por não colocar uma calcinha, estar apenas de short.
– Você disse que quer ser minha, então você vai ser minha essa noite – eu poderia ter gozado só em ouvir aquela frase ser dita de forma tão firme, tão possessiva e ao mesmo tempo tão romântica como só ela seria capaz de pronunciar.
Ela abaixou o corpo e seus lábios tomaram os meus por direito, em seguida, sua língua invadiu minha boca e puxou a minha para ela. Suas mãos já acariciavam meus seios e exigiam que eu fosse capaz de me concentrar em todas as sensações que eu estava sentindo ao mesmo tempo e quando eu percebi que não seria capaz de fazer isso, apenas deixei que um gemido saísse da minha garganta, a fazendo gemer em resposta, permiti que meu corpo assumisse seu próprio controle e meu coração bombeasse sangue para que ele não parasse de funcionar. Meu cérebro foi desligado e tudo se resumia ao seu cheiro me invadindo, seus toques me descobrindo e meu prazer me fazendo explodir.
— / —
O toque do celular estridente me fez abrir os olhos assustada. Eu ainda estava nua da noite passada e ainda sentia minhas pernas bambas devido ao cansaço que Juca me dera. Olhei para o lado e percebi que ela estava agarrada ao travesseiro, com as costas nuas e levemente arranhadas a mostra e com uma cara de cansada. Pelo menos eu havia a deixado bem satisfeita também. Sorri e quando ia voltar para o meu sono, meu celular berrou novamente. Corri pelo quarto até alcançar minha bolsa, que estava apoiada na cadeira da mesa de estudos de Juca e na mesma hora meus pés foram arrancados do chão e meu corpo parecia estar dando piruetas no ar. Tinham dez ligações da minha mãe perdidas e várias mensagens. A última fez meu coração despencar do peito e rolar quarto a fora. Onde você está? Estou indo te buscar! 
 
– Amor? O que foi? Está cedo! Volte pra cama! – a voz de Juca veio lenta e invadiu meus ouvidos
– Amor, estou ferrada! – foi a única coisa que eu consegui responder
– O que houve? – Não demorou e eu senti o calor de seu corpo grudar no meu, eu sabia que ela tava lendo a mensagem – o que você quer fazer? – ela perguntou enquanto beijava meus cabelos
– Acho que não temos muita opção…eu preciso fazer isso uma hora ou outra – havia chegado o momento de encarar meu maior medo, até porque depois dessa noite eu sabia que não haveria outra opção, eles não me deixariam em paz se recebessem uma desculpa qualquer como explicação.
– Eu estou com você, não importa o que aconteça! – a voz calma no meu ouvido fez com algumas lágrimas teimosas escorressem pelo meu rosto e me fizesse tremer.
Senti os braços de Juca me apertando contra seu corpo nu. Ela me levou até o banheiro sem falar nada, ligou o chuveiro e me deu um banho rápido. Eu não fazia ideia daquele lado, quase maternal, dela. Não houveram cobranças, combinações e nem escapatórias. Ela estava ali comigo e ficaria ali até o final. Eu podia ver que o brilho das estrelas que iluminavam seu olhar na noite passada havia sumido. Ela estava nervosa e seus dedos estavam com pouca certeza quando fecharam o registro do chuveiro, mas eu via em seu sorriso aquela enorme necessidade de me provar e me mostrar que ela não era aquela menina de antigamente que fugia de tudo e de todos, ela era minha assim como eu era dela e estaria comigo. Sorri enquanto ela me enrolava em uma toalha, puxei seu rosto com as duas mãos em suas bochechas e a beijei. Sem língua, sem malícia, mas com todo o sentimento que cabia naquele beijo.
Não demorou para que estivéssemos na sala, ela tomando café preto e eu um pouco de café com leite. Para minha sorte, o pai de Juca havia saído cedo com a moto para encontrar uns amigos e Juliana estava dormindo. Trocávamos apenas as palavras necessárias naquele momento enquanto esperávamos meus pais chegarem. Eu tentei argumentar que voltaria de Uber ou que pegaria uma carona com o pai da minha “amiga”, mas eles foram irredutíveis. Na noite anterior, após chegarmos em casa, minha cabeça estava totalmente voltada para o fato de estar na casa de Juca mais uma vez e mais uma vez entregue aos beijos e carinhos com ela e acabei esquecendo de avisar aos meus pais que já tinha chegado. Para eles, eu estava na casa de Beca e como eu não avisei nada, assim que acordaram começaram a ligar para nossos celulares e como nenhuma das duas atendeu, já estavam quase chamando a polícia. Sim. Esse é o nível deles.
Barulho de carro lá fora, meu celular vibrou no bolso. Eles estavam aqui. Olhei para Juca, ela aproveitou que ainda estávamos na cozinha, se aproximou, me abraçou pela cintura e deixou que seus lábios com gosto de café encontrassem os meus e fez um carinho na minha alma com aquele beijo. Eu te amo independente de qualquer coisa. O sussurro contra meus lábios fez com que o ar invadisse meus pulmões novamente e eu a apertei ainda mais contra meu corpo. Se pudesse, fundiria nós duas em uma pessoa só e assim estaria pronta para enfrentar o mundo. Ela era o topo do mundo que eu queria conquistar.
– Meu Deus, Carla, o que você tem na cabeça? – minha mãe foi logo falando assim que saí pela porta da sala de Juca
– Calma, mãe! Está tudo bem! Eu só esqueci de avisar ontem – até quando eles iam ser assim comigo?
– Calma? Você está me pedindo calma? Não sabe o nervoso que eu e seu pai passamos essa noite! – a voz da minha mãe era acusatória, como se eu estivesse estragando todos os momentos da vida dela
– Mãe, pai, essa é a Juca – eu apresentei a menina que estava atrás de mim e para minha surpresa ela abriu aquele sorriso mais lindo do mundo e cumprimentou meus pais de longe, mas com uma simpatia que fez eu me derreter ainda mais
– Não conheço essa sua amiga, o que aconteceu com a Beca? – minha mãe não era simpática quando ela não queria ser
– A Beca foi dormir na casa da Nina ontem, mãe – primeira parte da confissão iniciada com sucesso
– Nina? Também não conhecemos essa… – foi a vez de meu pai refletir sobre o nome – quem são essas pessoas, Carla? – meu pai falou um pouco menos rude, mas com a mesma desconfiança
– A Nina é a namorada da Beca, pai. Nós saímos para jantar ontem e ela foi pra lá depois – eu achei que o chão fosse se abrir naquele momento, mas tudo que aconteceu foi que eu assisti a feição de meus pais se transformarem em algo não identificado por mim. Droga. Era pior do que eu pensava
Senti Juca se aproximar de mim, mas não muito. Eu sabia que se continuássemos aquele assunto ali, ia sobrar pra ela e eu não podia deixar que ela sofresse por tudo. Desisti da ideia de que ela precisava estar ao meu lado fisicamente. Só de saber que eu a tinha, já era o suficiente. Eu a amava muito para deixar que ela ouvisse coisas desnecessárias e presenciasse cenas dolorosas. E em algum lugar dentro de mim eu sabia que era isso que ia acontecer. Antes mesmo que meus pais falassem mais alguma coisa, eu me virei de costas para eles e fui até Juca, fazendo com que ela ainda desse mais um passo para trás. Estávamos pouca coisa longe dos meus pais, mas eu conseguiria falar sem ser ouvida.
– Eu vou terminar essa conversa com eles em casa, tá? – pedi suplicando para que ela entendesse
– Você tem certeza? Eu não me importo de estar junto com você – eu sabia que ela não se importava, mas eu me importava e não eu não permitiria
– Você tá sempre junto comigo, eu sou seu “baby”, esqueceu? – tentei sorrir, mas eu sabia que não havia conseguido. Assim mesmo, ela me abraçou apertado, sussurrou que me amava e deixou que eu fosse. De longe ela acenou e sorriu para meus pais, mesmo que tenha recebido apenas um aceno de cabeça do meu pai em retorno. Entrei no carro e já comecei a controlar minhas lágrimas que escorriam sem parar, eu não queria adiantar a discussão enquanto meu pai dirigia e pelo visto eles também não porque permaneceram em silêncio até entrarmos no apartamento.
– Agora senta. Vamos conversar – meu pai nunca queria conversar, era sempre ideia da minha mãe e ele se metia depois então quando ele falou isso, meu cérebro parou por alguns segundos e todas as borboletas do meu estômago resolveram repousar ao mesmo tempo. Ao invés delas, meu coração pareceu ser invadido por uma manada de elefantes e uma colmeia de abelhas passou a habitar minha cabeça.